O SANCTO EVANGELHO SEGUNDO S. LUCAS. (continued 2)
João Ferreira d' Almeida translation
21 E o filho lhe disse: Pae, pequei contra o céu [8] e perante ti, e já não sou digno de ser chamado teu filho.
22 Mas o pae disse aos seus servos: Trazei depressa o vestido melhor, e vesti-lh’o, e ponde-lhe um annel na mão, e alparcas nos pés;
23 E trazei o bezerro cevado, e matae-o; e comamos, e alegremo-nos;
24 Porque [9] este meu filho era morto, e reviveu, tinha-se perdido, e é achado. E começaram a alegrar-se.
25 E o seu filho mais velho estava no campo; e quando veiu, e chegou perto de casa, ouviu a musica e as danças.
26 E, chamando um dos servos, perguntou-lhe que era aquillo.
27 E elle lhe disse: Veiu teu irmão; e teu pae matou o bezerro cevado, porquanto o recuperou são e salvo.
28 Indignou-se, porém, elle, e não queria entrar. E, saindo o pae, o rogava.
29 Mas, respondendo elle, disse ao pae: Eis que te sirvo ha tantos annos, e nunca transgredi o teu mandamento, e nunca me déste um cabrito para alegrar-me com os meus amigos;
30 Vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou a tua fazenda com as meretrizes, mataste-lhe o bezerro cevado.
31 E elle lhe disse: Filho, tu sempre estás comigo, e todas as minhas coisas são tuas;
32 Portanto era justo alegrarmo-nos e folgarmos, [10] porque este teu irmão era morto, e reviveu; e tinha-se perdido, e achou-se.
Parabola do mordomo infiel.
16 E dizia tambem aos seus discipulos: Havia um certo homem rico, o qual tinha um mordomo; e este foi accusado perante elle de dissipar os seus bens.
2 E elle, chamando-o, disse-lhe: Que é isto que ouço de ti? Dá contas da tua mordomia, porque já não poderás mais ser mordomo.
3 E o mordomo disse comsigo: Que farei, pois que o meu senhor me tira a mordomia? Cavar, não posso; de mendigar, tenho vergonha.
4 Eu sei o que hei-de fazer, para que, quando fôr desapossado da mordomia, me recebam em suas casas.
5 E, chamando a si cada um dos devedores do seu senhor, disse ao primeiro: Quanto deves ao meu senhor?
6 E elle disse: Cem medidas de azeite. E disse-lhe: Toma a tua obrigação, e, assentando-te já, escreve cincoenta.
7 Disse depois a outro: E tu quanto deves? E elle disse: Cem alqueires de trigo. E disse-lhe: Toma a tua obrigação, e escreve oitenta.
8 E louvou aquelle senhor o injusto mordomo por haver procedido prudentemente, porque os filhos d’este mundo são mais prudentes na sua geração [1] do que os filhos da luz.
9 E eu vos digo: [2] Grangeae amigos com as riquezas da injustiça; para que, quando necessitardes, vos recebam nos tabernaculos eternos.
10 Quem [3] é fiel no minimo, tambem é fiel no muito; quem é injusto no minimo, tambem é injusto no muito.
11 Pois, se na riqueza injusta não fostes fieis, quem vos confiará a verdadeira?
12 E, se no alheio não fostes fieis, quem vos dará o que é vosso?
13 Nenhum [4] servo pode servir dois senhores; porque, ou ha de aborrecer um e amar o outro, ou se ha de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a [AHG] Mammon.
A auctoridade da lei.
14 E os phariseos, [5] que eram avarentos, ouviam todas estas coisas, e zombavam d’elle.
15 E disse-lhes: Vós sois os que vos [6] justificaes a vós mesmos diante dos homens, [7] mas Deus conhece os vossos corações, porque, [8] o que entre os homens é elevado, perante Deus é abominação.
16 A lei [9] e os prophetas duraram até João: desde então é annunciado o reino de Deus, e todo o homem forceja por entrar n’elle.
17 E [10] é mais facil passar o céu e a terra do que cair um til da lei.
18 Qualquer [11] que deixa sua mulher, e casa com outra, adultéra; e aquelle que casa com a repudiada pelo marido tambem adultéra.
A parabola do rico e Lazaro.
19 Ora, havia um homem rico, e vestia-se de purpura e de linho finissimo, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente.
20 Havia tambem um certo mendigo, chamado Lazaro, que jazia cheio de chagas á porta d’aquelle;
21 E desejava saciar-se com as migalhas que cahiam da mesa do rico; e até vinham os cães, e lambiam-lhe as chagas.
22 E aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o seio d’Abrahão; e morreu tambem o rico, e foi sepultado.
23 E no inferno, erguendo os olhos, estando em tormentos, viu ao longe Abrahão, e Lazaro no seu seio.
24 E elle, clamando, disse: Pae Abrahão, tem misericordia de mim, e manda a Lazaro que molhe na agua a ponta do seu dedo e me [12] refresque a lingua, porque estou [13] atormentado n’esta chamma.
25 Disse, porém, Abrahão: Filho, lembra-te [14] de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lazaro sómente males; e agora este é consolado e tu atormentado;
26 E, além d’isso, está posto um grande abysmo entre nós e vós, de sorte que os que quizessem passar d’aqui para vós não poderiam, nem tão pouco os de lá passar para cá.
27 E disse elle: Rogo-te pois, ó pae, que o mandes a casa de meu pae,
28 Porque tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, afim de que não venham tambem para este logar de tormento.
29 Disse-lhe Abrahão: [15] Teem Moysés e os prophetas; ouçam-n’os.
30 E disse elle: Não, pae Abrahão; mas, se alguem dos mortos fosse ter com elles, arrepender-se-hiam.
31 Porém Abrahão lhe disse: Se não ouvem a Moysés e aos prophetas, [16] tão pouco acreditarão, ainda que algum dos mortos resuscite.
Ácerca dos escandalos, do perdão, do poder da fé e dos servos inuteis.
17 E disse aos discipulos: [1] É impossivel que não venham escandalos, mas ai d’aquelle por quem vierem!
2 Melhor lhe fôra que lhe pozessem ao pescoço uma mó de atafona, e fosse lançado ao mar, do que escandalizar um d’estes pequenos.
3 Olhae por vós mesmos. [2] E, se teu irmão peccar contra ti, reprehende-o, [3] e, se elle se arrepender, perdoa-lhe.
4 E, se peccar contra ti sete vezes no dia, e sete vezes no dia tornar a ti, dizendo: Arrependo-me; perdoa-lhe.
5 Disseram então os apostolos ao Senhor: Accrescenta-nos a fé.
6 E disse o [4] Senhor: Se tivesseis fé como um grão de mostarda, dirieis a esta amoreira: Desarreiga-te d’aqui, e planta-te no mar; e vos obedeceria.
7 E qual de vós terá um servo lavrando ou apascentando, e, voltando elle do campo, lhe diga: Chega-te, e assenta-te á mesa?
8 E não lhe diga antes: Prepara-me a ceia, e cinge-te, [5] e serve-me, até que tenha comido e bebido, e depois comerás e beberás tu?
9 Porventura dá graças ao tal servo, porque fez o que lhe foi mandado? Creio que não.
10 Assim tambem vós, quando fizerdes tudo o que vos fôr mandado, dizei: Somos [6] servos inuteis, porque fizemos sómente o que deviamos fazer.
Cura de dez leprosos.
11 E aconteceu [7] que, indo elle a Jerusalem, passou pelo meio da Samaria e da Galilea;
12 E, entrando n’uma certa aldeia, sairam-lhe ao encontro dez homens leprosos, [8] os quaes pararam de longe;
13 E levantaram a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem misericordia de nós.
14 E elle, vendo-os, [9] disse-lhes: Ide, e mostrae-vos aos sacerdotes. E aconteceu que, indo elles, ficaram limpos.
15 E um d’elles, vendo que estava são, voltou glorificando a Deus em alta voz;
16 E caiu aos seus pés, com o rosto em terra, dando-lhe graças: e este era samaritano.
17 E, respondendo Jesus, disse: Não foram dez os limpos? E onde estão os nove?
18 Não houve quem voltasse a dar gloria a Deus senão este estrangeiro?
19 E disse-lhe: [10] Levanta-te, e vae; a tua fé te salvou.
A vinda subita do reino de Deus.
20 E, interrogado pelos phariseos sobre quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes, e disse: O reino de Deus não vem com [AHH] apparencia exterior.
22 E disse aos discipulos: [13] Dias virão em que desejareis vêr um dos dias do Filho do homem, e não o vereis.
23 E dir-vos-hão: [14] Eil-o aqui, ou, Eil-o ali está; não vades, nem os sigaes:
24 Porque, [15] como o relampago, fuzilando de uma parte debaixo do céu, resplandece até á outra debaixo do céu, assim será tambem o Filho do homem no seu dia.
25 Mas [16] primeiro convem que elle padeça muito, e seja reprovado por esta geração.
26 E, [17] como aconteceu nos dias de Noé, assim será tambem nos dias do Filho do homem:
27 Comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e veiu o diluvio, e os consumiu a todos.
28 Como [18] tambem da mesma maneira aconteceu nos dias de Lot: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam.
29 Mas [19] no dia em que Lot saiu de Sodoma, choveu do céu fogo e enxofre, e os consumiu a todos.
30 Assim será no dia em que o Filho do homem se ha [20] de manifestar.
31 N’aquelle dia, [21] quem estiver no telhado, e as suas alfaias em casa, não desça a tomal-as; e, da mesma sorte, o que estiver no campo não volte para traz.
32 Lembrae-vos [22] da mulher de Lot.
33 Qualquer [23] que procurar salvar a sua vida perdel-a-ha, e qualquer que a perder salval-a-ha.
34 Digo-vos [24] que n’aquella noite estarão dois n’uma cama; um será tomado, e outro será deixado.
35 Duas estarão juntas, moendo; uma será tomada, e outra será deixada.
36 Dois estarão no campo; um será tomado, o outro será deixado.
37 E, respondendo, [25] disseram-lhe: Onde, Senhor? E elle lhes disse: Onde estiver o corpo, ahi se ajuntarão as aguias.
A parabola do juiz iniquo.
18 E disse-lhes tambem uma parabola ácerca de que importa [1] orar sempre, e nunca desfallecer,
2 Dizendo: Havia n’uma cidade um certo juiz, que nem a Deus temia nem respeitava ao homem.
3 Havia tambem n’aquella mesma cidade uma certa viuva, e ia ter com elle, dizendo: Faze-me justiça contra o meu adversario.
4 E por algum tempo não quiz; mas depois disse entre si: Ainda que não temo a Deus, nem respeito ao homem,
5 Todavia, [2] como esta viuva me molesta, hei de fazer-lhe justiça, para que emfim não venha, e me importune muito.
6 E disse o Senhor: Ouvi o que diz o injusto juiz.
7 E Deus [3] não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a elle de dia e de noite, sendo [AHI] tardio para com elles?
8 Digo-vos [4] que depressa lhes fará justiça. Porém, quando vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?
A parabola do phariseo e do publicano.
9 E disse tambem esta parabola a uns [5] que confiavam em si mesmos, que eram justos, e desprezavam aos outros:
10 Dois homens subiram ao templo, a orar; um phariseo, e o outro publicano.
11 O phariseo, [6] estando em pé, orava comsigo d’esta maneira. [7] Ó Deus, graças te dou, porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adulteros; nem ainda como este publicano.
12 Jejuo duas vezes na semana, e dou os dizimos de tudo quanto possuo.
13 O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia em seu peito, dizendo: Ó Deus, tem misericordia de mim, peccador!
14 Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não [8] aquelle; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado.
Jesus abençoa os meninos.
Mat. 19.13-15 e refs.
15 E traziam-lhe [9] tambem meninos, para que elle os tocasse; e os discipulos, vendo isto, reprehendiam-n’os.
16 Mas Jesus, chamando para si os meninos, disse: Deixae vir a mim os meninos, e não os impeçaes, [10] porque de taes é o reino de Deus:
17 Em [11] verdade vos digo que, qualquer que não receber o reino de Deus como menino, não entrará n’elle.
O mancebo de qualidade.
Mat. 19.16-30.
18 E [12] perguntou-lhe um certo principe, dizendo: Bom Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna?
19 Jesus lhe disse: Porque me chamas bom? Ninguem ha bom, senão um, que é Deus.
20 Sabes os mandamentos: Não adulterarás, não matarás, [13] não furtarás, não darás falso testemunho, [14] honra a teu pae e tua mãe.
21 E disse elle: Todas essas coisas tenho observado desde a minha mocidade.
22 Porém Jesus, ouvindo isto, disse-lhe: Ainda te falta uma coisa: [15] vende tudo quanto tens, reparte-o entre os pobres, e terás um thesouro no céu; vem, e segue-me.
23 E elle, ouvindo isto, ficou muito triste, porque era muito rico.
24 E, vendo Jesus que elle ficára muito triste, disse: [16] Quão difficilmente entrarão no reino de Deus os que teem riquezas!
25 Porque é mais facil entrar um camelo pelo fundo d’uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.
26 E os que ouviram isto disseram: Logo quem pode salvar-se?
27 E elle disse: [17] As coisas que são impossiveis aos homens são possiveis a Deus.
28 E disse Pedro: [18] Eis que nós deixámos tudo e te seguimos.
29 E elle lhes disse: Na verdade vos digo [19] que ninguem ha, que tenha deixado casa, ou paes, ou irmãos, ou mulher, ou filhos, pelo reino de Deus,
30 [20] E não haja de receber muito mais n’este tempo, e no seculo vindouro a vida eterna.
Jesus annuncia a sua paixão.
Mat. 20.17-19 e refs.
31 [21] E, tomando comsigo os doze, disse-lhes: Eis que subimos a Jerusalem, e se cumprirá no Filho do homem tudo o [22] que pelos prophetas está escripto;
32 Porque [23] será entregue ás gentes, e escarnecido, injuriado e cuspido,
33 E, havendo-o açoitado, o matarão; e ao terceiro dia resuscitará.
34 E [24] elles nada d’estas coisas entendiam, e esta palavra lhes era encoberta; e não entendiam o que se lhes dizia.
O cego de Jericó.
Mat. 20.29-34 e refs.
35 E aconteceu [25] que, chegando elle perto de Jericó, estava um cego assentado junto do caminho, mendigando:
36 E, ouvindo passar a multidão, perguntou que era aquillo:
37 E disseram-lhe que Jesus Nazareno passava.
38 Então clamou, dizendo: Jesus, Filho de David, tem misericordia de mim.
39 E os que iam passando reprehendiam-n’o para que se calasse; porém elle clamava ainda mais: Filho de David, tem misericordia de mim.
40 Então Jesus, parando, mandou que lh’o trouxessem; e, chegando elle, perguntou-lhe,
41 Dizendo: Que queres que te faça? E elle disse: Senhor, que eu veja.
42 E Jesus lhe disse: [26] Vê: a tua fé te salvou.
43 E logo viu, e seguia-o, [27] glorificando a Deus. E todo o povo, vendo isto, dava louvores a Deus.
Zaqueo o publicano.
19 E, tendo Jesus entrado em Jericó, ia passando.
2 E eis que havia ali um varão chamado Zaqueo; e este era um dos principaes dos publicanos, e era rico.
3 E procurava vêr quem era Jesus, e não podia, por causa da multidão, porque era de pequena estatura.
4 E, correndo adiante, subiu [AHJ] a uma figueira brava para o ver; porque havia de passar por ali.
5 E, quando Jesus chegou áquelle logar, olhando para cima, viu-o e disse-lhe: Zaqueo, desce depressa, porque hoje me convem pousar em tua casa.
6 E, apressando-se, desceu, e recebeu-o gostoso.
7 E, vendo todos isto, murmuravam, dizendo [1] que entrara para ser hospede de um homem peccador.
8 E, levantando-se Zaqueo, disse ao Senhor: Senhor, eis que eu dou aos pobres metade dos meus bens; e, se n’alguma coisa [2] tenho defraudado alguem, [3] o restituo quadruplicado.
9 E disse-lhe Jesus: Hoje houve salvação n’esta casa, [4] porquanto tambem este [5] é filho de Abrahão:
10 Porque [6] o Filho do homem veiu buscar e salvar o que se havia perdido.
Parabola dos dez servos e das dez minas.
Mat. 25.14-30.
11 E, ouvindo elles estas coisas, elle proseguiu, e disse uma parabola; porquanto estava perto de Jerusalem, [7] e cuidavam que logo se havia de manifestar o reino de Deus.
12 Disse [8] pois: Um certo homem nobre partiu para uma terra remota, a tomar para si um reino e voltar depois.
13 E, chamando dez servos seus, deu-lhes dez minas, e disse-lhes: Negociae até que eu venha.
14 Mas [9] os seus cidadãos aborreciam-n’o, e mandaram após elle embaixadores, dizendo: Não queremos que este reine sobre nós.
15 E aconteceu que, voltando elle, havendo tomado o reino, disse que lhe chamassem aquelles servos, a quem tinha dado o dinheiro, para saber o que cada um tinha ganhado, negociando.
16 E veiu o primeiro, dizendo: Senhor, a tua mina rendeu dez minas.
17 E elle lhe disse: Bem está, servo bom, porque no minimo foste fiel, [10] sobre dez cidades terás auctoridade.
18 E veiu o segundo, dizendo: Senhor, a tua mina grangeou cinco minas.
19 E a este disse tambem: Sê tu tambem sobre cinco cidades.
20 E veiu outro, dizendo: Senhor, aqui está a tua mina, que guardei n’um lenço;
21 Porque tive [11] medo de ti, que és homem rigoroso, que tomas o que não pozeste, e segas o que não semeaste.
22 Porém elle lhe disse: [12] Servo maligno, pela tua bocca te julgarei; sabias [13] que eu sou homem rigoroso, que tomo o que não puz, e sego o que não semeei;
23 Porque não metteste pois o meu dinheiro no banco, e eu, vindo, o demandaria com os juros?
24 E disse aos que estavam com elle: Tirae-lhe a mina, e dae-a ao que tiver dez minas.
25 (E disseram-lhe elles: Senhor, tem dez minas).
26 Pois eu vos digo [14] que a qualquer que tiver ser-lhe-ha dado, mas ao que não tiver até o que tem lhe será tirado.
27 Porém trazei aqui aquelles meus inimigos que não quizeram que eu reinasse sobre elles, e matae-os diante de mim.
A entrada triumphal de Jesus em Jerusalem.
Mat. 21.1-11 e refs.
28 E, dito isto, [15] ia caminhando adiante, subindo para Jerusalem.
29 E aconteceu [16] que, chegando perto de Bethphage, e de Bethania, ao monte chamado das Oliveiras, mandou dois dos seus discipulos,
30 Dizendo: Ide á aldeia que está defronte, e ahi, ao entrar, achareis preso um jumentinho em que nenhum homem ainda se assentou; soltae-o e trazei-o;
31 E, se alguem vos perguntar: Porque o soltaes? assim lhe direis: Porque o Senhor o ha de mister.
32 E, indo os que haviam sido mandados, acharam como lhes dissera.
33 E, soltando o jumentinho, seus donos lhes disseram: Porque soltaes o jumentinho?
34 E elles disseram: O Senhor o ha de mister.
35 E trouxeram-n’o a Jesus: [17] e, lançando sobre o jumentinho os seus vestidos, pozeram a Jesus em cima.
36 E, indo elle, [18] estendiam no caminho os seus vestidos.
37 E, quando já chegava perto da descida do monte das Oliveiras, toda a multidão dos discipulos, regozijando-se, começou a dar louvores a Deus em alta voz, por todas as maravilhas que tinham visto,
39 E disseram-lhe d’entre a multidão alguns dos phariseos: Mestre, reprehende os teus discipulos.
40 E, respondendo elle, disse-lhes: Digo-vos que, se estes se calarem, [21] logo as pedras clamarão.
41 E, quando já ia chegando, vendo a cidade, [22] chorou sobre ella,
42 Dizendo: Ah! se tu conhecesses tambem, ao menos n’este teu dia, o que á tua paz pertence! mas agora isto está encoberto aos teus olhos.
43 Porque dias virão sobre ti, [23] em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras, e te sitiarão, e te estreitarão de todas as bandas;
44 E te [24] derribarão, a ti e aos teus filhos que dentro de ti estiverem; e não [25] deixarão em ti pedra sobre pedra, porquanto [26] não conheceste o tempo da tua visitação.
A purificação do templo.
Mat. 21.12-17 e refs.
45 E, entrando [27] no templo, começou a expulsar todos os que n’elle vendiam e compravam,
46 Dizendo-lhes: [28] Está escripto: A minha casa é casa de oração; mas vós [29] fizestes d’ella covil de salteadores.
47 E todos os dias ensinava no templo, [30] e os principaes dos sacerdotes, e os escribas, e os principaes do povo procuravam matal-o.
48 E não achavam meio de o fazer, porque todo o povo pendia para elle, escutando-o.
O baptismo de João.
Mat. 21.23-27 e refs.
20 E aconteceu n’um d’aquelles dias que, estando elle ensinando o povo no templo, e annunciando o evangelho, sobrevieram os principaes dos sacerdotes e os escribas com os anciãos,
2 E fallaram-lhe, dizendo: Dize-nos, [1] com que auctoridade fazes estas coisas? Ou, quem é que te deu esta auctoridade?
3 E, respondendo elle, disse-lhes: Tambem eu vos farei uma pergunta: dizei-me pois:
4 O baptismo de João era do céu ou dos homens?
5 E elles arrazoavam entre si, dizendo: Se dissermos: Do céu, elle nos dirá: Então porque o não crestes?
6 E se dissermos: Dos homens; todo o povo nos apedrejará, pois [2] teem por certo que João era propheta.
7 E responderam que não sabiam d’onde era.
8 E Jesus lhes disse: Nem tão pouco eu vos digo com que auctoridade faço estas coisas.
Parabola dos lavradores maus.
Mat. 21.33-46 e refs.
9 E começou a dizer ao povo esta parabola: Um [3] certo homem plantou uma vinha, e arrendou-a a uns lavradores, e partiu para fóra da terra por muito tempo;
10 E a seu tempo mandou um servo aos lavradores, para que lhe déssem dos fructos da vinha; mas os lavradores, espancando-o, mandaram-n’o vazio.
11 E tornou ainda a mandar outro servo; mas elles, espancando tambem a este, e affrontando-o, mandaram-n’o vazio.
12 E tornou ainda a mandar terceiro; mas elles, ferindo tambem a este, o expulsaram.
13 E disse o senhor da vinha: Que farei? Mandarei o meu filho amado; talvez que, vendo-o, o respeitem.
14 Mas, vendo-o os lavradores, arrazoaram entre si, dizendo: Este é o herdeiro; vinde, matemol-o, para que a herdade seja nossa.
15 E, lançando-o fóra da vinha, o mataram. Que lhes fará pois o senhor da vinha?
16 Irá, e destruirá estes lavradores, e dará a outros a vinha. E, ouvindo elles isto, disseram: Assim não seja!
17 Mas elle, olhando para elles, disse: Que é isto pois que está escripto? [4] A pedra, que os edificadores reprovaram, essa foi feita cabeça da esquina.
18 Qualquer que cair sobre aquella pedra será quebrantado, e aquelle [5] sobre quem ella cair será feito em pedaços.
A questão do tributo.
Mat. 22.15-22 e refs.
19 E os principaes dos sacerdotes e os escribas procuravam lançar mão d’elle n’aquella mesma hora; mas temeram o povo; porque entenderam que contra elles dissera esta parabola.
20 E, trazendo-o debaixo de olho, mandaram espias, que se fingissem justos, para o apanhar n’alguma palavra, e entregal-o á jurisdicção e poder do [AHK] presidente.
21 E perguntaram-lhe, dizendo: Mestre, [6] nós sabemos que fallas e ensinas bem e rectamente, e que não attentas para a apparencia da pessoa, mas ensinas com verdade o caminho de Deus:
22 É-nos licito dar tributo a Cesar ou não?
23 E, entendendo elle a sua astucia, disse-lhes: Porque me tentaes?
24 Mostrae-me uma moeda. De quem tem a imagem e a inscripção? E, respondendo elles, disseram: De Cesar.
25 Disse-lhes então: Dae pois a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus.
26 E não poderam apanhal-o em palavra alguma diante do povo; e, maravilhados da sua resposta, calaram-se.
Os sadduceos e a resurreição.
Mat. 22.23-33 e refs.
28 Dizendo: Mestre, [9] Moysés escreveu-nos que, se o irmão d’algum fallecer, tendo mulher, e não deixar filhos, o irmão d’elle tome a mulher, e suscite posteridade a seu irmão.
29 Houve pois sete irmãos, e o primeiro tomou mulher, e morreu sem filhos;
30 E o segundo tomou-a, e tambem este morreu sem filhos;
31 E o terceiro tomou-a, e egualmente tambem os sete: e morreram, e não deixaram filhos.
32 E por ultimo, depois de todos, morreu tambem a mulher.
33 Portanto, na resurreição, de qual d’elles será a mulher, pois que os sete a tiveram por mulher?
34 E, respondendo Jesus, disse-lhes: Os filhos d’este seculo casam-se, e dão-se em casamento;
35 Mas os que forem havidos por dignos de alcançar aquelle seculo, e a resurreição dos mortos, nem hão de casar, nem ser dados em casamento;
36 Porque não podem [10] mais morrer; pois são eguaes aos anjos, e são filhos de Deus, [11] visto que são filhos da resurreição.
37 E que os mortos hão de resuscitar [12] tambem o mostrou Moysés junto da sarça, quando chama ao Senhor Deus de Abrahão, e Deus de Isaac, e Deus de Jacob.
38 Ora Deus não é Deus de mortos, porém de vivos; porque para [13] elle vivem todos.
39 E, respondendo alguns dos escribas, disseram: Mestre, disseste bem.
40 E não ousavam perguntar-lhe mais coisa alguma.
O Christo Filho de David.
Mat. 22.41, etc. e refs.
41 E elle lhes disse: [14] Como dizem que o Christo é filho de David?
42 Dizendo o mesmo David no livro dos Psalmos: [15] Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te á minha direita,
43 Até que eu ponha os teus inimigos por escabello de teus pés.
44 De sorte que David lhe chama Senhor; e como é seu filho?
Jesus censura os escribas.
Mat. 23.1, etc. e refs.
45 E, [16] ouvindo-o todo o povo, disse Jesus aos seus discipulos:
46 Guardae-vos dos escribas, que querem andar com vestidos compridos; e amam as [17] saudações nas praças, e as principaes cadeiras nas synagogas, e os primeiros logares nos banquetes;
47 Que [18] devoram as casas das viuvas, fazendo, como pretexto, largas orações. Estes receberão maior condemnação.
A pequena offerta da viuva pobre.
Mar. 12.41, etc.
21 E, olhando elle, viu os ricos lançarem as suas offertas na arca do thesouro;
2 E viu tambem uma pobre viuva lançar ali duas pequenas moedas;
3 E disse: Em verdade vos [1] digo que lançou mais do que todos esta pobre viuva;
4 Porque todos aquelles deitaram para as offertas de Deus, do que lhes sobeja; mas esta, da sua pobreza, deitou todo o sustento que tinha.
O sermão prophetico: o principio das dôres.
Mat. 24.1-14 e refs.
5 E, dizendo alguns a respeito do templo, que estava ornado de formosas pedras e dadivas, disse:
6 Quanto a estas coisas que vêdes, dias virão em [2] que se não deixará pedra sobre pedra, que não seja derribada.
7 E perguntaram-lhe, dizendo: Mestre, quando serão pois estas coisas? E que signal haverá quando estas coisas estiverem para acontecer?
8 Disse então elle: [3] Vêde não vos enganem, porque virão muitos em meu nome, dizendo: Eu sou o Christo, e já o tempo está proximo; não vades portanto após elles.
9 E, quando ouvirdes de guerras e sedições, não vos assusteis. Porque é necessario que estas coisas aconteçam primeiro, mas o fim não será logo.
10 Então [4] lhes disse: Levantar-se-ha nação contra nação, e reino contra reino;
11 E haverá em varios logares grandes terremotos, e fomes e pestilencias; haverá tambem coisas espantosas, e grandes signaes do céu.
12 Mas [5] antes de todas estas coisas lançarão mão de vós, e vos perseguirão, entregando-vos ás synagogas e [6] ás prisões, [7] e conduzindo-vos á presença de reis e [AHL] presidentes, [8] por amor do meu nome.
13 E sobrevir-vos-ha [9] isto para testemunho.
14 Proponde [10] pois em vossos corações não premeditar como haveis de responder,
15 Porque eu vos darei bocca e sabedoria [11] a que não poderão contradizer nem resistir todos quantos se vos oppozerem.
16 E até pelos paes, e irmãos, e parentes, e amigos sereis [12] entregues; e matarão [13] alguns de vós.
17 E por todos sereis [14] aborrecidos por amor do meu nome.
18 Mas [15] não perecerá nem um cabello da vossa cabeça.
19 Na vossa paciencia possui as vossas almas.
O sermão prophetico continúa: a grande tribulação.
Mat. 24.15-18.
20 Porém, quando virdes Jerusalem cercada d’exercitos, sabei então que já é chegada a sua assolação.
21 Então, os que estiverem na Judea, fujam para os montes; e, os que estiverem no meio d’ella, saiam: e, os que nos campos, não entrem n’ella.
22 Porque dias de vingança são estes, para que [16] se cumpram todas as coisas que estão escriptas.
23 Mas ai [17] das gravidas, e das que criarem n’aquelles dias! porque haverá grande aperto na terra, e ira sobre este povo.
24 E cairão ao fio da espada, e para todas as nações serão levados captivos; e Jerusalem será pisada pelos gentios, até que os tempos dos [18] gentios se completem.
O sermão prophetico continúa: a volta do Filho do homem.
Mat. 24.29-35.
25 E haverá signaes no sol, e na lua e nas estrellas; e na terra aperto das nações em perplexidade, pelo bramido do mar e das ondas;
26 Homens desmaiando de terror, na expectação das coisas que sobrevirão ao mundo. [19] Porque as virtudes do céu serão abaladas.
27 E então verão vir o Filho do homem [20] n’uma nuvem, com poder e grande gloria.
28 Ora, quando estas coisas começarem a acontecer, olhae para cima, e levantae as vossas cabeças, [21] porque a vossa redempção está proxima.
29 E disse-lhes uma parabola: [22] Olhae para a figueira, e para todas as arvores;
30 Quando já teem brotado, vós sabeis por vós mesmos, vendo-as, que perto está já o verão.
31 Assim tambem vós, quando virdes acontecer estas coisas, sabei que o reino de Deus está perto.
32 Em verdade vos digo que não passará esta geração até que tudo aconteça.
33 Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não hão de passar.
O sermão prophetico continúa: a vigilancia.
Mat. 24.36-44.
34 E olhae [23] por vós, não aconteça que os vossos corações se carreguem de glotonaria, embriaguez, e dos cuidados d’esta vida, e venha sobre vós de improviso aquelle dia.
35 Porque [24] virá como um laço sobre todos os que habitam sobre a face de toda a terra.
36 Vigiae [25] pois [26] em todo o tempo, orando, para que sejaes havidos por dignos de evitar todas estas coisas que hão de acontecer, e de estar em [27] pé diante do Filho do homem.
O pacto da traição.
Mat. 26.1-5, 14-16.
38 E todo o povo ia ter com elle ao templo, de manhã cedo, para o ouvir.
22 Estava [1] pois perto a festa dos pães asmos, chamada a paschoa.
2 E os [2] principaes dos sacerdotes, e os escribas, procuravam como o matariam; porque temiam o povo.
3 Entrou, [3] porém, Satanaz em Judas, que tinha por sobrenome Iscariotes, o qual era do numero dos doze;
4 E foi, e fallou com os principaes dos sacerdotes, e com os capitães, de como lh’o entregaria,
5 Os quaes se alegraram, [4] e convieram em lhe dar dinheiro.
6 E elle prometteu; e buscava opportunidade para lh’o entregar sem alvoroço.
A ultima paschoa: a sancta ceia.
Mat. 26.17-30 e refs.
7 Chegou, porém, o dia dos pães asmos, em que importava sacrificar a paschoa.
8 E mandou a Pedro e a João, dizendo: Ide, preparae-nos a paschoa, para que a comamos.
9 E elles lhe disseram: Onde queres que a preparemos?
10 E elle lhes disse: Eis que, quando entrardes na cidade, vos encontrará um homem, levando um cantaro d’agua: segui-o até á casa em que elle entrar.
11 E direis ao pae de familia da casa: O Mestre te diz: Onde está o aposento em que hei de comer a paschoa com os meus discipulos?
12 Então elle vos mostrará um grande cenaculo mobilado; ahi fazei preparativos.
13 E, indo elles, acharam como lhes tinha dito; e prepararam a paschoa.
14 E, chegada [5] a hora, poz-se á mesa, e com elle os doze apostolos.
15 E disse-lhes: Desejei muito comer comvosco esta paschoa, antes que padeça;
16 Porque vos digo que não a comerei mais [6] até que ella se cumpra no reino de Deus.
17 E, tomando o calix, e havendo dado graças, disse: Tomae-o, e reparti-o entre vós;
18 Porque [7] vos digo que já não beberei do fructo da vide, até que venha o reino de Deus.
19 E, [8] tomando o pão, e havendo dado graças, partiu-o, e deu-lh’o, dizendo: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; [9] fazei isto em memoria de mim.
20 Similhantemente tomou o calix, depois da ceia, dizendo: [10] Este calix é o Novo [AHM] Testamento no meu sangue, que é derramado por vós.
21 Porém [11] eis que a mão do que me trahe está comigo á mesa.
22 E, na verdade, [12] o Filho do homem vae [13] segundo o que está determinado; porém ai d’aquelle homem por quem é trahido!
23 E começaram [14] a perguntar entre si qual d’elles seria o que havia de fazer isto.
O maior será como o menor.
Mat. 20.25-28 e refs.
24 E houve [15] tambem entre elles contenda, sobre qual d’elles parecia ser o maior.
25 E [16] elle lhes disse: Os reis dos gentios dominam sobre elles, e os que teem auctoridade sobre elles são chamados bemfeitores.
26 Mas não [17] sereis vós assim; antes o maior entre vós [18] seja como o menor; e quem governa como quem serve.
27 Pois [19] qual é maior: quem está á mesa, ou quem serve? Porventura não é quem está á mesa? Porém eu [20] entre vós sou como aquelle que serve.
28 E vós sois os que tendes permanecido comigo nas [21] minhas tentações.
29 [22] E eu vos ordeno o reino, como meu Pae m’o ordenou;
30 Para [23] que comaes e bebaes á minha mesa no meu reino, e vos assenteis sobre thronos, julgando as doze tribus d’Israel.
Pedro é avisado.
Mat. 26.33-35 e refs.
31 Disse tambem o Senhor: Simão, Simão, eis que Satanaz vos pediu [24] para vos [25] cirandar como trigo;
32 Mas [26] eu roguei por ti, para que a tua fé não desfalleça; e tu, quando te converteres, conforta a teus irmãos.
33 E elle lhe disse: Senhor, estou prompto a ir comtigo até á prisão e á morte.
34 Mas [27] elle disse: Digo-te, Pedro, que não cantará hoje o gallo antes que tres vezes negues que me conheces.
As duas espadas.
35 E disse-lhes: Quando [28] vos mandei sem bolsa, sem alforge, e sem alparcas, faltou-vos porventura alguma coisa? E disseram: Nada.
36 Disse-lhes pois: Mas agora, aquelle que tiver bolsa, tome-a, como tambem o alforge; e, o que não tem espada, venda o seu vestido e compre-a;
37 Porque vos digo que importa que em mim se cumpra ainda aquillo que está escripto: [29] E com os malfeitores foi contado. Porque o que está escripto de mim tem seu cumprimento.
38 E elles disseram: Senhor, eis aqui duas espadas. E elle lhes disse: Basta.
Jesus em Gethsemane.
Mat. 26.36-46.
39 E, saindo, [30] foi, como costumava, para o Monte das Oliveiras; e tambem os seus discipulos o seguiram.
40 E, quando chegou áquelle logar, disse-lhes: [31] Orae, para que não entreis em tentação.
41 E [32] apartou-se d’elles cerca de um tiro de pedra; e, pondo-se de joelhos, orava,
42 Dizendo: Pae, se queres, passa de mim este calix, [33] porém não se faça a minha vontade, senão a tua.
43 E appareceu-lhe um [34] anjo do céu, que o confortava.
44 E, posto em agonia, orava mais intensamente. E o seu suor fez-se como grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão.
45 E, levantando-se da oração, veiu para os seus discipulos, e achou-os dormindo de tristeza.
46 E disse-lhes: Que, estaes dormindo? Levantae-vos, e [35] orae, para que não entreis em tentação.
Jesus é preso.
Mat. 26.47-56 e refs.
47 E, estando elle ainda a fallar, [36] eis que a multidão, e um dos doze, que se chamava Judas, ia adiante d’elles, e chegou-se a Jesus para o beijar.
48 E Jesus lhe disse: Judas, com um beijo trahes o Filho do homem?
49 E os que estavam com elle, vendo o que ia succeder, disseram-lhe: Senhor, feriremos á espada?
50 E [37] um d’elles feriu o servo do summo sacerdote, e cortou-lhe a orelha direita.
51 E, respondendo Jesus, disse: Deixae-os; basta. E, tocando-lhe a orelha, o curou.
52 [38] E disse Jesus aos principaes dos sacerdotes, e capitães do templo, e anciãos, que tinham ido contra elle: Saistes, como a um salteador, com espadas e varapaus?
53 Tendo estado todos os dias comvosco no templo, não estendestes as mãos contra mim, [39] porém esta é a vossa hora e o poder das trevas.
Pedro nega a Jesus.
Mat. 26.69-75 e refs.
54 Então, prendendo-o, [40] o conduziram, e o metteram em casa do summo sacerdote. E Pedro seguia-o de longe.
55 E, [41] havendo-se accendido fogo no meio da sala, e assentando-se juntos, assentou-se Pedro entre elles.
56 E uma certa creada, vendo-o estar assentado ao fogo, e, postos os olhos n’elle, disse: Este tambem estava com elle.
57 Porém elle negou-o, dizendo: Mulher, não o conheço.
58 E, [42] um pouco depois, vendo-o outro, disse: Tu és tambem d’elles. Porém Pedro disse: Homem, não sou.
59 E, [43] passada quasi uma hora, um outro affirmava, dizendo: Tambem este verdadeiramente estava com elle, pois tambem é galileo.
60 E Pedro disse: Homem, não sei o que dizes. E logo, estando elle ainda a fallar, cantou o gallo.
61 E, virando-se o Senhor, olhou para Pedro, [44] e Pedro lembrou-se da palavra do Senhor, como lhe havia dito: Antes que o gallo cante hoje, me negarás tres vezes.
62 E, saindo Pedro para fóra, chorou amargamente.
Jesus perante o synhedrio.
Mat. 26.57-68 e refs.
63 E os homens que detinham Jesus zombavam d’elle, ferindo-o.
64 E, cobrindo-o, feriam-n’o no rosto, e perguntavam-lhe, dizendo: Prophetiza quem é o que te feriu?
65 E outras muitas coisas diziam contra elle, blasphemando.
66 E, [45] logo que foi dia, ajuntaram-se os anciãos do povo, e os principaes dos sacerdotes e os escribas, e o conduziram ao seu concilio,
67 Dizendo: [46] És tu o Christo? dize-nol-o. E disse-lhes: Se vol-o disser, não o crereis;
68 E tambem, se vos perguntar, não me respondereis, nem me soltareis.
69 Desde [47] agora o Filho do homem se assentará á direita do poder de Deus.
70 E disseram todos: Logo, és tu o Filho de Deus? E elle lhes disse: [48] Vós dizeis que eu sou.
71 E disseram elles: [49] De que mais testemunho necessitamos? pois nós mesmos o ouvimos da sua bocca.
Jesus perante Pilatos e perante Herodes.
Mat. 27.1, 2, 11-31 e refs.
23 E, levantando-se [1] toda a multidão d’elles, o levaram a Pilatos.
2 E começaram a accusal-o, dizendo: Havemos achado este, [2] que perverte a nação, e prohibe dar o tributo a Cesar, dizendo que elle mesmo é [AHN] Christo, o rei.
3 E [3] Pilatos perguntou-lhe, dizendo: Tu és o Rei dos Judeos? E elle, respondendo, disse-lhe: Tu o dizes.
4 E disse Pilatos aos principaes dos sacerdotes, e á multidão: [4] Não acho culpa alguma n’este homem.
5 Mas elles insistiam cada vez mais, dizendo: Alvoroça o povo, ensinando por toda a Judea, começando desde Galilea até aqui.
6 Então Pilatos, ouvindo fallar da Galilea, perguntou se aquelle homem era galileo.
7 E, entendendo que era [5] da jurisdicção de Herodes, remetteu-o a Herodes, que tambem n’aquelles dias estava em Jerusalem.
8 E Herodes, quando viu a Jesus, alegrou-se muito; porque [6] havia muito que desejava vêl-o, por ter ouvido d’elle muitas coisas; e esperava que lhe veria fazer algum signal;
9 E interrogava-o em muitas palavras, porém elle nada lhe respondia.
10 E estavam os principaes dos sacerdotes, e os escribas, accusando-o com grande vehemencia.
11 E Herodes, [7] com os seus soldados, desprezando-o, e escarnecendo d’elle, vestiu-o de uma roupa resplandecente e tornou a envial-o a Pilatos.
12 E no mesmo [8] dia Pilatos e Herodes entre si se fizeram amigos; porque d’antes andavam em inimizade um com o outro.
13 E, convocando [9] Pilatos os principaes dos sacerdotes, e os magistrados, e o povo, disse-lhes:
14 Haveis-me [10] apresentado este homem como pervertedor do povo; e eis que, examinando-o na vossa presença, nenhuma culpa, das de que o accusaes, acho n’este homem.
15 Nem mesmo Herodes, porque a elle vos remetti, e eis que não tem feito coisa alguma digna de morte.
16 Castigal-o-hei [11] pois, e soltal-o-hei.
17 E [12] era-lhe necessario soltar-lhes um pela festa.
18 Porém [13] toda a multidão clamou á uma, dizendo: Fóra d’aqui com este, e solta-nos Barrabas:
19 O qual fôra lançado na prisão por causa de uma sedição feita na cidade, e de um homicidio.
20 Fallou pois outra vez Pilatos, querendo soltar a Jesus.
21 Mas elles clamavam em contrario, dizendo: Crucifica-o, crucifica-o.
22 Então elle, pela terceira vez, lhes disse: Pois que mal fez este? Não acho n’elle culpa alguma de morte. Castigal-o-hei pois, e soltal-o-hei.
23 Mas elles instavam com grandes gritos, pedindo que fosse crucificado. E os seus gritos, e os dos principaes dos sacerdotes, redobravam.
24 Então [14] Pilatos julgou que devia fazer o que elles pediam.
25 E soltou-lhes o que fôra lançado na prisão por uma sedição e homicidio, que era o que pediam; porém entregou Jesus á vontade d’elles.
Jesus no caminho do Golgotha.
26 E, quando o iam [15] levando, tomaram um certo Simão, cyreneo, que vinha do campo, e pozeram-lhe a cruz ás costas, para que a levasse após Jesus.
27 E seguia-o grande multidão de povo e de mulheres, as quaes batiam nos peitos, e o lamentavam.
28 Porém Jesus, voltando-se para ellas, disse: Filhas de Jerusalem, não choreis por mim, chorae antes por vós mesmas, e por vossos filhos.
29 Porque [16] eis que hão de vir dias em que dirão: Bemaventuradas as estereis, e os ventres que não geraram, e os peitos que não crearam!
30 Então [17] começarão a dizer aos montes: Cahi sobre nós, e aos outeiros: Cobri-nos.
31 Porque, [18] se ao madeiro verde fazem isto, que se fará ao secco?
32 E [19] tambem conduziram outros dois, que eram malfeitores, para com elle serem mortos.
A crucifixão.
Mat. 27.33-56 e refs.
33 E, [20] quando chegaram ao logar chamado a Caveira, ali o crucificaram, e aos malfeitores, um á direita e outro á esquerda.
34 E dizia Jesus: Pae, [21] perdôa-lhes, porque não sabem o que fazem. E, repartindo os seus vestidos, lançaram sortes.
35 E [22] o povo estava olhando; e juntamente com elles tambem os [AHO] principes zombavam d’elle, dizendo: Aos outros salvou, salve-se a si mesmo, se este é o Christo, o escolhido de Deus.
36 E tambem os soldados o escarneciam, chegando-se a elle, e apresentando-lhe vinagre,
37 E dizendo: Se tu és o Rei dos Judeos, salva-te a ti mesmo.
38 E [23] tambem por cima d’elle estava um titulo, escripto em lettras gregas, romanas, e hebraicas: ESTE É O REI DOS JUDEOS.
39 E [24] um dos malfeitores que estavam pendurados blasphemava d’elle, dizendo: Se tu és o Christo, salva-te a ti mesmo, e a nós.
40 Respondendo, porém, o outro, reprehendia-o, dizendo: Tu nem ainda temes a Deus, estando na mesma condemnação?
41 E nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam; mas este nenhum mal fez.
42 E disse a Jesus: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino.
43 E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraiso.
44 E [25] era já quasi a hora sexta, e houve trevas em toda a terra até a hora nona.
45 E o sol escureceu, e rasgou-se [26] ao meio o véu do templo.
46 E, clamando Jesus com grande voz, disse: [27] Pae, nas tuas mãos entrego o meu espirito. E, havendo dito isto, expirou.
47 E o [28] centurião, vendo o que tinha acontecido, deu gloria a Deus, dizendo: Na verdade, este homem era justo.
48 E toda a multidão que se ajuntára a este espectaculo, vendo o que havia acontecido, voltava batendo nos peitos.
A sepultura de Jesus.
Mat. 27.55.
49 E todos [29] os seus conhecidos, e as mulheres que juntamente o haviam seguido desde a Galiléa, estavam de longe vendo estas coisas.
50 E [30] eis que um varão por nome José, senador, homem de bem e justo,
51 Que não tinha consentido no seu conselho, nem em seus feitos, de Arimathea, cidade dos judeos, [31] e que tambem esperava o reino de Deus:
52 Este, chegando a Pilatos, pediu o corpo de Jesus;
53 E, [32] havendo-o tirado, envolveu-o n’um lençol, e pôl-o n’um sepulchro lavrado n’uma [AHP] penha, onde ninguem ainda havia sido posto.
54 E era o dia [33] da preparação, e amanhecia o sabbado.
55 E tambem as mulheres, [34] que tinham saido com elle da Galiléa, o seguiram, e viram o sepulchro, e como foi posto o seu corpo.
56 E, voltando [35] ellas, prepararam especiarias e unguentos; [36] e no sabbado repousaram, conforme o mandamento.
A resurreição.
Mat. 28.1-10 e refs.
24 E [1] no primeiro dia da semana, muito de madrugada, foram estas, e algumas outras com ellas, ao sepulchro, [2] levando as especiarias que tinham preparado.
2 E [3] acharam já a pedra revolvida do sepulchro.
3 E, entrando, [4] não acharam o corpo do Senhor Jesus.
4 E aconteceu que, estando ellas perplexas [5] por isto, eis que pararam junto d’ellas dois varões, com vestidos resplandecentes.
5 E, estando ellas muito atemorisadas, e abaixando o rosto para o chão, elles lhes disseram: Porque buscaes o vivente entre os mortos?
6 Não está aqui, porém já resuscitou. Lembrae-vos [6] como vos fallou, estando ainda na Galilea,
7 Dizendo: Convem que o Filho do homem seja entregue nas mãos de homens peccadores, e seja crucificado, e ao terceiro dia resuscite.
8 E [7] lembraram-se das suas palavras.
9 E, [8] voltando do sepulchro, annunciaram todas estas coisas aos onze e a todos os demais.
10 E eram Maria Magdalena, [9] e Joanna, e Maria, mãe de Thiago, e as outras que com ellas estavam, que diziam estas coisas aos apostolos.
11 E [10] as suas palavras lhes pareciam como desvario, e não as creram.
12 Pedro, porém, [11] levantando-se, correu ao sepulchro, e, abaixando-se, viu só os lenços ali postos; e retirou-se, admirando comsigo aquelle caso.
Dois discipulos no caminho de Emmaus.
13 E [12] eis que no mesmo dia iam dois d’elles para uma aldeia, que distava de Jerusalem sessenta estadios, cujo nome era Emmaus;
14 E iam fallando entre si de todas aquellas coisas que haviam succedido.
15 E aconteceu que, indo elles fallando entre si, e perguntando-se um ao outro, o mesmo Jesus se [13] approximou, e ia com elles;
16 Mas [14] os olhos d’elles estavam retidos para que o não conhecessem.
17 E elle lhes disse: Que palavras são essas que, caminhando, trocaes entre vós, e porque estaes tristes?
18 E, [15] respondendo um, cujo nome era Cleophas, disse-lhe: És tu só peregrino em Jerusalem, e não sabes as coisas que n’ella teem succedido n’estes dias?
19 E elle lhe disse: Quaes? E elles lhe disseram: As que dizem respeito a Jesus Nazareno, que [16] foi varão propheta, poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo:
20 E [17] como os principaes dos sacerdotes, e os nossos principes o entregaram á condemnação de morte, e o crucificaram:
21 E nós esperavamos [18] que fosse elle o que remisse Israel; mas agora, sobre tudo isso, é já hoje o terceiro dia desde que essas coisas aconteceram:
22 Ainda que tambem [19] algumas mulheres d’entre nós nos maravilharam, as quaes da madrugada foram ao sepulchro;
23 E, não achando o seu corpo, voltaram, dizendo que tambem tinham visto uma visão de anjos, que dizem que elle vive:
24 E [20] alguns dos que estão comnosco foram ao sepulchro, e acharam ser assim como as mulheres haviam dito; porém a elle não o viram.
25 E elle lhes disse: O nescios, e tardos de coração para crer tudo o que os prophetas disseram!
26 Porventura [21] não convinha que o Christo padecesse estas coisas e entrasse na sua gloria?
27 E, [22] começando de Moysés, e de todos os [23] prophetas, explicava-lhes em todas as Escripturas o que d’elle estava escripto.
28 E chegaram á aldeia para onde iam, e elle [24] fez como quem ia para mais longe.
29 E [25] elles o constrangeram, dizendo: Fica comnosco, porque já é tarde, e já declinou o dia. E entrou para ficar com elles.
30 E aconteceu que, estando com elles á mesa, [26] tomando o pão, o abençoou, e partiu-o, e lh’o deu.
31 Abriram-se-lhes então os olhos, e o conheceram, e elle desappareceu-lhes.
32 E disseram um para o outro: Porventura não ardia em nós o nosso coração quando, pelo caminho nos fallava, e quando nos abria as Escripturas?
33 E na mesma hora, levantando-se, tornaram para Jerusalem, e acharam congregados os onze, e os que estavam com elles,
34 Que diziam: Resuscitou verdadeiramente o Senhor, [27] e já appareceu a Simão.
35 E elles lhes contaram o que lhes acontecera no caminho, e como d’elles foi conhecido no partir do pão.
Apparição de Jesus entre os doze.
João 20.19, etc. e refs.
36 E, [28] fallando elles d’estas coisas, o mesmo Jesus se apresentou no meio d’elles, e disse-lhes: Paz seja comvosco.
37 E elles, espantados e atemorisados, pensavam que viam [29] algum espirito.
38 E elle lhes disse: Porque estaes perturbados, e porque sobem taes pensamentos aos vossos corações?
39 Vêde as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo: [30] apalpae-me e vêde; pois um espirito não tem carne nem ossos, como vêdes que eu tenho.
40 E, dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés.
41 E, não o crendo elles ainda [31] por causa da alegria, e maravilhados, disse-lhes: [32] Tendes aqui alguma coisa que comer?
42 Então elles apresentaram-lhe parte de um peixe assado, e um favo de mel.
43 O [33] que elle tomou, e comeu diante d’elles.
44 E disse-lhes: [34] São estas as palavras que vos disse estando ainda comvosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escripto na lei de Moysés, e nos prophetas, e nos psalmos.
45 Então [35] abriu-lhes o entendimento para comprehenderem as Escripturas.
46 E disse-lhes: [36] Assim está escripto, e assim convinha que o Christo padecesse, e ao terceiro dia resuscitasse dos mortos;
47 E em seu nome se prégasse o arrependimento [37] e a remissão dos peccados, em todas as nações, começando por Jerusalem.
48 E d’estas coisas [38] sois vós testemunhas.
49 E [39] eis que sobre vós envio a promessa de meu Pae: ficae, porém, vós na cidade de Jerusalem, até que do alto sejaes revestidos de poder.
A ascenção.
Act. 1.9-11.
50 E levou-os fóra, até Bethania; e, levantando as suas mãos, os abençoou.
51 [40] E aconteceu que, abençoando-os elle, se apartou d’elles e foi elevado ao céu.
52 E, [41] adorando-o elles, tornaram com grande jubilo para Jerusalem.
53 E estavam sempre no [42] templo, louvando e bemdizendo a Deus. Amen.