HABACUC.
João Ferreira d' Almeida translation
A iniquidade de Judah: este será castigado pelos chaldeos: a intercessão do propheta.
Antes de Christo 626
1 A carga que viu o propheta Habacuc.
2 Até quando, Senhor, clamarei eu, [1] e tu não me escutarás? até quando gritarei a ti: Violencia! e não salvarás?
3 Por que razão me fazes vêr a iniquidade, e vês a vexação? porque a destruição e a violencia estão diante de mim, havendo tambem quem suscite a contenda e o litigio.
4 Por esta causa a lei se afrouxa, e a sentença nunca sae; [2] porque o impio cérca o justo, e sae a sentença torcida.
5 Vêde entre as nações, e olhae, e maravilhae-vos, [3] e estae maravilhados; porque obro uma obra em vossos dias que não crereis, quando se vos contar.
6 Porque [4] eis que suscito os chaldeos, nação amarga e apressada, que marcha sobre a largura da terra, para possuir moradas que não são suas.
7 Horrivel e terrivel é; d’ella mesma sairá o seu juizo e a sua grandeza.
8 E os seus cavallos são mais ligeiros do que os leopardos, [5] e mais [ADV] perspicazes do que os lobos á tarde, e os seus cavalleiros se espalham; os seus cavalleiros virão de longe; [6] voarão como aguias que se apressam á comida.
9 Elles todos virão a fim de obrar violencia: os seus rostos buscarão o oriente, e congregará os captivos como areia.
10 E escarnecerão dos reis, e dos principes farão zombaria: elles se rirão de todas as fortalezas, porque amontoarão terra, e as tomarão.
11 Então passará como vento, e traspassará, e se fará culpada, attribuindo este seu poder ao seu deus.
12 Porventura não és tu desde sempre, ó Senhor meu Deus, meu Sancto? nós não morreremos: [7] ó Senhor, para juizo o pozeste, e tu, ó Rocha, o fundaste para castigar.
13 Tu és tão puro de olhos, que não podes vêr o mal, e a vexação não podes contemplar: [8] porque olhas para os que obram aleivosamente? porque te calas quando o impio devora aquelle que é mais justo do que elle?
14 E porque farias os homens como os peixes do mar, como os reptis, que não teem quem os governe?
15 Elle [9] a todos tira com o anzol, apanhal-os-ha com a sua rede, e os ajunta na sua varredoura: por isso elle se alegra e se regozija.
16 Por isso sacrifica á sua rede, e queima incenso á sua varredoura; porque com ellas se engordou a sua porção, e se engrossou a sua comida.
17 Porventura por isso vazará a sua rede, e não poupará de matar os povos continuamente?
Os chaldeos serão castigados a seu turno.
2 Sobre a minha guarda estarei, [1] e sobre a fortaleza me apresentarei e vigiarei, para vêr o que fallaria em mim, e o que eu responderei, quando eu fôr arguido.
2 Então o Senhor me respondeu, e disse: [2] Escreve a visão, e declara-a em taboas, para que n’ellas leia o que correndo passa.
3 Porque [3] a visão ainda está para o tempo determinado, pois até ao fim fallará, e não mentirá: se tardar, espera-o, [4] porque certamente virá, nem tardará.
4 Eis que de preguiça se retira, não é recta n’elle; [5] mas o justo pela sua fé viverá.
5 Quanto mais se é dado ao vinho mais desleal se é; aquelle homem soberbo, [6] que alarga como o sepulchro a sua alma, não permanecerá e é como a morte que não se farta, e ajunta a si todas as nações, e congrega a si todos os povos.
6 Não levantariam pois [7] todos estes contra elle uma parabola e dito agudo com enigmas para elle? e se dirá: Ai d’aquelle que multiplica o que não é seu! (até quando!) e d’aquelle que carrega sobre si divida!
7 Porventura não se levantarão de repente os que te morderão? e não despertarão os que te abalarão? e não lhes servirás tu de despojo?
8 Porquanto [8] despojaste a muitas nações, todos os mais povos te despojarão a ti, por causa do sangue dos homens, e da violencia ácerca da terra da cidade, e de todos os que habitam n’ella.
9 Ai [9] d’aquelle que ajunta bens para a sua casa, por uma avareza criminosa, [10] para que ponha o seu ninho no alto, a fim de se livrar da mão do mal!
10 Vergonha maquinaste para a tua casa; destruindo tu a muitos povos, peccaste contra a tua alma.
11 Porque a pedra clamará da parede, e a trave lhe responderá do madeiramento.
12 Ai [11] d’aquelle que edifica a cidade com sangue, e que funda a cidade com iniquidade!
13 Eis que porventura não vem do Senhor dos Exercitos [12] que os povos trabalham pelo fogo e os homens se cançam em vão?
14 Porque [13] a terra sera cheia do conhecimento da gloria do Senhor, como as aguas cobrem o mar.
15 Ai d’aquelle que dá de beber ao seu companheiro! [14] tu, que lhe chegas o teu odre, e o embebedas, [15] para vêr a sua nudez!
16 Tambem tu serás farto de ignominia em logar de honra: [16] bebe tu tambem, e [ADW] descobre o prepucio: o calix da mão direita do Senhor voltará a ti, e vomito ignominioso cairá sobre a tua gloria.
17 Porque a violencia commettida contra o Libano te cobrirá, e a destruição das bestas os assombrará, [17] por causa do sangue dos homens, e da violencia feita á terra, á cidade, e a todos os moradores.
18 Que [18] aproveitará a imagem de esculptura, depois de que a esculpiu o seu artifice? [19] ou a imagem de fundição, que ensina a mentira, para que o artifice confie na obra, fazendo idolos mudos?
19 Ai d’aquelle que diz ao pau: Acorda; e á pedra muda: Desperta; porventura ensinará? eis que está coberto de oiro e de prata, mas no meio d’elle não ha espirito algum.
20 Porém o Senhor está no seu sancto templo: [20] cale-se diante d’elle toda a terra.
A oração de Habacuc.
3 Oração do propheta Habacuc sobre Shigionoth.
2 Ouvi, Senhor, a tua palavra, e temi: aviva, ó Senhor, a tua obra no meio dos annos, no meio dos annos a notifica: na tua ira lembra-te de misericordia.
3 Deus veiu de Teman, [1] e o Sancto do monte de Paran (Selah). A sua gloria cobriu os céus, e a terra foi cheia do seu louvor.
4 E o resplandor se fez como a luz, raios brilhantes lhe sahiam da sua mão, [2] e ali estava o esconderijo da sua força.
5 Diante d’elle ia a peste, e queimaduras passavam diante dos seus pés.
6 Parou, e mediu a terra: olhou, e fez sair as nações: [3] e os montes perpetuos foram esmiuçados; os outeiros eternos se encurvaram, porque o andar eterno é seu.
7 Vi as tendas de Cusan [ADX] debaixo da vaidade: as cortinas da terra de Midian tremiam.
8 Acaso é contra os rios, Senhor, que tu estás irado? contra os ribeiros foi a tua ira? contra o mar foi o teu furor, quando andaste montado sobre os teus cavallos? [4] os teus carros foram a salvação?
9 Descoberto se despertou o teu arco, pelos juramentos feitos ás tribus, pela tua palavra (Selah). Tu fendeste a terra com rios.
10 Os montes te viram, [5] e tremeram: a inundação das aguas passou; deu o abysmo a sua voz, levantou as suas mãos ao alto.
11 O sol e a lua pararam nas suas moradas: [6] andaram á luz das tuas frechas, ao resplandor do relampago da tua lança.
12 Com indignação marchaste pela terra, [7] com ira trilhaste as nações.
13 Tu saiste para salvamento do teu povo, para salvamento do teu ungido: [8] tu feriste a cabeça da casa do impio, descobrindo o alicerce até ao pescoço (Selah).
14 Tu furaste com os teus cajados a cabeça [ADY] das suas aldeias; elles me accommetteram tempestuosos para me espalharem: alegravam-se, como se estivessem para devorar o pobre em segredo.
15 Tu [9] com os teus cavallos marchaste pelo mar, pelo montão de grandes aguas.
16 Ouvindo-o eu, o meu ventre se commoveu, á sua voz tremeram os meus labios; entrou a podridão nos meus ossos, e estremeci dentro de mim; no dia da angustia descançarei, quando subir contra o povo que nos destruirá.
17 Porque ainda que a figueira não floresça, nem haja fructo na vide; o producto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos curraes não haja vaccas:
18 Todavia [10] eu me alegrarei no Senhor: gozar-me-hei no Deus da minha salvação.