[MT] O LIVRO DE JOB. (continued 2)
João Ferreira d' Almeida translation
19 Ensina-nos o que lhe diremos; porque nós nada poderemos pôr em boa ordem, por causa das trevas.
20 Ou ser-lhe-hia contado, quando eu assim fallasse? dir-lhe-ha alguem isso? pois será devorado.
21 E agora se não pode olhar para o sol, quando resplandece nos céus; passando e purificando-os o vento.
22 O esplendor de oiro vem do norte: pois em Deus ha uma tremenda magestade.
23 Ao Todo-poderoso não [7] podemos alcançar; grande é em potencia; porém a ninguem opprime em juizo e grandeza de justiça.
24 Por isso o temem os [8] homens: elle não respeita aos sabios de coração.
Deus responde a Job e mostra-lhe sua grandeza e sabedoria.
38 Depois d’isto o Senhor respondeu a Job [1] d’um redemoinho, e disse:
2 Quem é este [2] que escurece o conselho com palavras sem conhecimento?
3 Agora cinge [3] os teus lombos, como homem; e perguntar-te-hei, e tu me ensina.
4 Onde [4] estavas tu, quando eu fundava a terra? faze-m’o saber, se tens intelligencia.
5 Quem lhe poz as medidas? se tu o sabes; ou quem estendeu sobre ella o cordel?
6 Sobre que estão fundadas as suas bases? ou quem assentou a sua pedra da esquina,
7 Quando as estrellas da alva juntas alegremente cantavam, e todos os filhos [5] de Deus jubilavam?
8 Ou quem [6] encerrou o mar com portas, quando trasbordou e saiu da madre;
9 Quando eu puz as nuvens por sua vestidura, e a escuridão por envolvedouro?
10 Quando passei [7] sobre elle o meu decreto, e lhe puz portas e ferrolhos;
11 E disse: Até aqui virás, e não mais adiante, e aqui se quebrarão as tuas ondas empolladas?
12 Ou desde os teus dias déste ordem á madrugada? ou mostraste á alva o seu logar;
13 Para que pegasse dos fins da terra, [8] e os impios fossem sacudidos d’ella;
14 E se transformasse como o barro, sob o sello, e se pozessem como vestidos;
15 E dos impios se desvie a sua luz, e [9] o braço altivo se quebrante;
16 Ou entraste tu até ás origens do mar? ou passeaste no mais profundo do abysmo?
17 Ou descobriram-se-te as portas da morte? ou viste as portas da sombra da morte?
18 Ou com o teu entendimento chegaste ás larguras da terra? faze-m’o saber, se sabes tudo isto.
19 Onde está o caminho para onde mora a luz? e, quanto ás trevas, onde está o seu logar;
20 Para que as tragas aos seus limites, e para que saibas as veredas da sua casa?
21 Acaso tu o sabes, porque já então eras nascido, e por ser grande o numero dos teus dias?
22 Ou entraste tu até aos thesouros da neve? e viste os thesouros da saraiva,
23 Que eu retenho [10] até do tempo da angustia, até ao dia da peleja e da guerra?
24 Onde está o caminho em que se reparte a luz, e se espalha o vento oriental sobre a terra?
25 Quem [11] abriu para a inundação um leito, e um caminho para os relampagos dos trovões;
26 Para chover sobre a terra, onde não ha ninguem, e no deserto, em que não ha gente;
27 Para fartar a terra deserta e assolada, e para fazer crescer os renovos da herva?
28 A chuva [12] porventura tem pae? ou quem géra as gottas do orvalho,
29 De cujo ventre procede o gelo? e quem gera a geada do céu?
30 Como debaixo de pedra as aguas se escondem: e a superficie do abysmo se coalha.
31 Ou poderás tu ajuntar as delicias das sete [13] estrellas, ou soltar os atilhos do Orion?
32 Ou produzir as constellações a seu tempo? e guiar a Ursa com seus filhos?
33 Sabes tu [14] as ordenanças dos céus? ou podes dispor do dominio d’elles sobre a terra?
34 Ou podes levantar a tua voz até ás nuvens, para que a abundancia das aguas te cubra?
35 Ou enviarás aos raios para que saiam, e te digam: Eis-nos aqui?
36 Quem [15] poz a sabedoria nas entranhas? ou quem deu ao sentido o entendimento?
37 Quem numerará as nuvens pela sabedoria? ou os odres dos céus, quem os abaixará,
38 Quando se funde o pó n’uma massa, e se apegam os torrões uns aos outros?
39 Porventura caçarás tu preza para a leôa? ou fartaras a fome dos filhos dos leões,
40 Quando se agacham nos covis, e estão á espreita nas covas?
41 Quem [16] prepara aos corvos o seu alimento, quando os seus pintainhos gritam a Deus e andam vagueando, por não terem de comer?
39 Sabes tu o tempo em que as cabras montezes parem? ou consideraste as dôres das cervas?
2 Contarás os mezes que cumprem? ou sabes o tempo do seu parto?
3 Quando se encurvam, produzem seus filhos, e lançam de si as suas dôres.
4 Seus filhos enrijam, crescem [NH] com o trigo: saem, e nunca mais tornam a ellas.
5 Quem despediu livre o jumento montez? e quem soltou as prisões ao jumento bravo?
6 Ao qual dei [1] o ermo por casa, e a terra salgada por suas moradas.
7 Ri-se do arroido da cidade: não ouve os muitos gritos do [NI] exactor.
8 O que descobre nos montes é o seu pasto, e anda buscando tudo que está verde.
9 Ou, querer-te-ha [2] servir o unicornio? ou ficará na tua cavallariça?
10 Ou amarrarás o unicornio com a sua corda no rego? ou estorroará apoz ti os valles?
11 Ou confiarás n’elle, por ser grande a sua força? ou deixarás a seu cargo o teu trabalho?
12 Ou fiarás d’elle que te torne o que semeaste e o recolherá na tua eira?
13 Vem de ti as alegres azas dos [NJ] pavões, que teem pennas de cegonha e d’aguia?
14 A qual deixa os seus ovos na terra, e os aquenta no pó.
15 E se esquece de que algum pé os pise, ou os animaes do campo os calquem.
16 Endurece-se para [3] com seus filhos, como se não fossem seus: debalde é seu trabalho, porquanto está sem temor.
17 Porque Deus a privou de sabedoria, [4] e não lhe repartiu entendimento.
18 A seu tempo se levanta ao alto: ri-se do cavallo, e do que vae montado n’elle.
19 Ou darás tu força ao cavallo? ou vestirás o seu pescoço com trovão?
20 Ou espantal-o-has, como ao gafanhoto? terrivel é o fogoso respirar das suas ventas.
21 Escarva a terra, e folga na sua força, e [5] sae ao encontro dos armados.
22 Ri-se do temor, e não se espanta, e não torna atraz por causa da espada.
23 Contra elle rangem a aljava, o ferro flammante da lança e do dardo.
24 Sacudindo-se, e removendo-se, escarva a terra, e não faz caso do som da buzina.
25 Na furia do som das buzinas diz: Eia! e de longe cheira a guerra, e o trovão dos principes, e o alarido.
26 Ou vôa o gavião pela tua intelligencia, e estende as suas azas para o sul?
27 Ou se remonta a aguia ao teu mandado, e põe [6] no alto o seu ninho?
28 Nas penhas mora e habita: no cume das penhas, e nos logares seguros.
29 Desde ali descobre a preza: seus olhos a avistam desde longe.
30 E seus filhos chupam o sangue, e onde ha mortos [7] ahi está.
40 Respondeu mais [1] o Senhor a Job e disse:
2 Porventura o contender contra o Todo-poderoso é ensinar? quem quer reprehender a Deus, responda a estas coisas.
3 Então Job respondeu ao Senhor, e disse:
4 Eis que sou vil; que te responderia eu? a minha mão ponho na minha bocca.
5 Já uma vez tenho fallado, porém mais não responderei: ou ainda duas vezes, porém não proseguirei.
6 Então o Senhor respondeu a Job desde a tempestade, e disse:
7 Ora, pois, cinge [2] os teus lombos como varão; eu te perguntarei a ti, e tu ensina-me.
8 Porventura [3] tambem farás tu vão o meu juizo? ou tu me condemnarás, para te justificares?
9 Ou tens braço como Deus? ou podes trovejar com voz [4] como a sua?
10 Orna-te pois com excellencia e alteza; e veste-te de magestade e de gloria.
11 Derrama os furores [5] da tua ira, e attenta para todo o soberbo, e abate-o.
12 Olha para todo o soberbo, e humilha-o, e atropella os impios no seu logar.
13 Esconde-os juntamente no pó: ata-lhes os rostos em occulto.
14 Então tambem eu a ti confessarei que a tua mão direita te haverá livrado.
15 Vês aqui a Behemoth, que eu fiz comtigo, que come a herva como o boi.
16 Eis que a sua força está nos seus lombos, e o seu poder [NK] no umbigo do seu ventre.
17 Quando quer, move a sua cauda como cedro: os nervos das suas coxas estão entretecidos.
18 Os seus ossos são como coxas de bronze: a sua ossada é como barras de ferro.
19 Elle é obra prima dos caminhos de Deus: o que o fez lhe apegou a sua espada.
20 Em verdade os montes lhe produzem pasto, onde todos os animaes do campo folgam.
21 Deita-se debaixo das arvores sombrias, no esconderijo das canas e da lama.
22 As arvores sombrias o cobrem, com sua sombra: os salgueiros do ribeiro o cercam.
23 Eis que um rio trasborda, e elle não se apressa, confiando que o Jordão possa entrar na sua bocca.
24 Podel-o-hiam porventura caçar á vista de seus olhos? ou com laços lhe furar os narizes?
41 Poderás tirar com anzol [1] o leviathan? ou ligarás a sua lingua com a corda?
2 Podes pôr um junco [2] no seu nariz? ou com um espinho furarás a sua queixada?
3 Porventura multiplicará muitas supplicações para comtigo? ou brandamente fallará?
4 Fará elle concertos comtigo? ou o tomarás tu por escravo para sempre?
5 Brincarás com elle, como com um passarinho? ou o atarás para tuas meninas?
6 Os teus companheiros farão d’elle um banquete? ou o repartirão entre os negociantes?
7 Encherás a sua pelle de ganchos? ou a sua cabeça com arpéos de pescadores?
8 Põe a tua mão sobre elle, lembra-te da peleja, e nunca mais tal intentarás.
9 Eis que a sua esperança falhará: porventura tambem á sua vista será derribado?
10 Ninguem ha tão atrevido, que a despertal-o se atreva: quem pois é aquelle que ousa pôr-se em pé diante de mim?
11 Quem [3] me preveniu, para que eu haja de retribuir-lhe? pois o que está debaixo de todos os céus é meu.
12 Não calarei os meus membros, nem a relação das suas forças, nem a graça da sua formação.
13 Quem descobriria a superficie do seu vestido? quem entrará entre as suas queixadas dobradas?
14 Quem abriria as portas do seu rosto? pois em roda dos seus dentes está o terror.
15 As suas fortes escamas são excellentissimas, cada uma fechada como com sello apertado.
16 Uma á outra se chega tão perto, que nem um assopro passa por entre ellas.
17 Umas ás outras se apegam: tanto se travam entre si, que não se podem separar.
18 Cada um dos seus espirros faz resplandecer a luz, e os seus olhos são como as pestanas da alva.
19 Da sua bocca saem tochas: faiscas de fogo arrebentam d’ella.
20 Dos seus narizes procede fumo, como d’uma panella fervente, ou d’uma grande caldeira.
21 O seu halito faria incender os carvões: e da sua bocca sae chamma.
22 No seu pescoço pousa a força: perante elle até a tristeza salta de prazer.
23 Os musculos da sua carne estão pegados entre si: cada um está firme n’elle, e nenhum se move.
24 O seu coração é firme como uma pedra e firme como parte da mó de baixo.
25 Levantando-se elle, tremem os valentes: em razão dos seus abalos se purificam.
26 Se alguem lhe tocar com a espada, essa não poderá penetrar, nem lança, dardo ou couraça.
27 Elle reputa o ferro por palha, e o cobre por pau podre.
28 A setta o não fará fugir: as pedras das fundas se lhe tornam em rastolho.
29 As pedras atiradas estima como arestas, e ri-se do brandir da lança.
30 Debaixo de si tem conchas ponteagudas: estende-se sobre coisas ponteagudas como na lama.
31 As profundezas faz ferver, como uma panella: torna o mar como quando os unguentos fervem.
32 Apoz elle allumia o caminho: parece o abysmo tornado em brancura de cãs.
33 Na terra não ha coisa que se lhe possa comparar, pois foi feito para estar sem pavor.
34 Todo o alto vê: é rei sobre todos os filhos d’animaes altivos.
Job humilha-se perante Deus e dá-lhe gloria.
42 Então respondeu Job ao Senhor, e disse:
2 Bem sei eu que tudo podes, [1] e nenhum dos teus pensamentos pode ser impedido.
3 Quem [2] é aquelle, dizes tu, que sem conhecimento encobre o conselho? por isso relatei o que não entendia; coisas que para mim eram maravilhosissimas, e eu as não entendia.
4 Escuta-me pois, e eu [3] fallarei: eu te perguntarei, e tu me ensinas.
5 Com o ouvido das orelhas te ouvi, mas agora te vê o meu olho.
6 Por isso me abomino [4] e me arrependo no pó e na cinza.
Deus manda os amigos de Job ir ter com elle e offerecer sacrificios.
7 Succedeu pois que, acabando o Senhor de fallar a Job aquellas palavras, o Senhor disse a Eliphaz, o temanita: A minha ira se accendeu contra ti, e contra os teus dois amigos; porque não fallaste de mim o que era recto, como o meu servo Job.
8 Tomae pois sete [5] bezerros e sete carneiros, e ide ao meu servo Job, e offerecei holocaustos por vós, e o meu servo Job orará [6] por vós: porque devéras a elle acceitarei, para que vos não trate conforme a vossa loucura; porque vós não fallastes de mim o que era recto como o meu servo Job.
9 Então foram Eliphaz, o temanita, e Bildad, o suhita, e Sofar, o naamathita, e fizeram como o Senhor lhes dissera: e o Senhor acceitou a face de Job.
Deus confere a Job o dobro da prosperidade que antes tinha.
10 E o Senhor virou o captiveiro de Job, quando orava pelos seus amigos: e o Senhor accrescentou a Job outro tanto em [7] dobro, a tudo quanto d’antes possuia.
11 Então vieram [8] a elle todos os seus irmãos, e todas as suas irmãs, e todos quantos d’antes o conheceram, e comeram com elle pão em sua casa, e se condoeram d’elle, e o consolaram ácerca de todo o mal que o Senhor lhe havia enviado: e cada um d’elles lhe deu uma peça de dinheiro, e cada um um pendente de oiro.
12 E assim abençoou [9] o Senhor ao ultimo estado de Job, mais do que o primeiro: porque teve quatorze [10] mil ovelhas, e seis mil camelos, e mil juntas de bois, e mil jumentas.
13 Tambem teve [11] sete filhos e tres filhas.
14 E chamou o nome da primeira Jemima, e o nome da outra Cassia, e o nome da terceira Keren-happuch.
15 E em toda a terra não se acharam mulheres tão formosas como as filhas de Job; e seu pae lhes deu herança entre seus irmãos.
16 E depois d’isto viveu [12] Job cento e quarenta annos: e viu a seus filhos, e aos filhos de seus filhos, até á quarta geração.
17 Então morreu Job, velho e farto de [13] dias.