LIVRO DO ECCLESIASTES, OU PRÉGADOR.
João Ferreira d' Almeida translation
A vaidade de todas as coisas terrestres.
Antes de Christo 977
1 Palavras [1] do prégador, filho de David, rei em Jerusalem:
2 Vaidade [2] de vaidades! diz o prégador, vaidade de vaidades! é tudo vaidade.
3 Que vantagem [3] tem o homem, de todo o seu trabalho, que elle trabalha debaixo do sol?
4 Uma geração vae, e outra geração vem; porém a terra para sempre permanece.
5 E nasce o sol, e põe-se o sol, e aspira ao seu logar d’onde nasceu.
6 Vae para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vae girando o vento, [4] e volta o vento sobre os seus giros.
7 Todos os ribeiros vão para o mar, e comtudo o mar não se enche: para o logar para onde os ribeiros vão, para ali tornam elles a ir.
8 Todas estas coisas se cançam tanto, que ninguem o póde declarar: [5] os olhos se não fartam de vêr, nem se enchem os ouvidos de ouvir.
9 O [6] que foi isso é o que ha de ser; e o que se fez isso se fará; de modo que nada ha de novo debaixo do sol.
10 Ha alguma coisa de que se possa dizer: Vês isto, é novo? já foi nos seculos passados, que foram antes de nós.
11 Já não ha lembrança das coisas que precederam, e das coisas que hão de ser tambem d’ellas não haverá lembrança, nos que hão de ser depois.
12 Eu, [7] o prégador, fui rei sobre Israel em Jerusalem.
13 E appliquei o meu coração a esquadrinhar, e a informar-me com sabedoria de tudo quanto succede debaixo do céu: [8] esta enfadonha occupação deu Deus aos filhos dos homens, para n’ella os exercitar.
14 Attentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade e afflicção d’espirito.
15 Aquillo que é torto não se póde endireitar; aquillo que falta não se póde contar.
16 Fallei eu com o meu coração, dizendo: [9] Eis que eu me engrandeci, e augmentei em sabedoria, sobre todos os que houve antes de mim em Jerusalem: e o meu coração contemplou abundantemente a sabedoria e a sciencia.
17 E appliquei [10] o meu coração a entender a sabedoria e a sciencia, os desvarios e as doidices, e vim a saber que tambem isto era afflicção d’espirito.
18 Porque [11] na muita sabedoria ha muito enfado; e o que se augmenta em sciencia, accrescenta o trabalho.
Os prazeres e as riquezas não produzem a felicidade.
2 Disse eu no meu coração: [1] Ora vem, eu te provarei com alegria, attenta pois para o bem; porém eis que tambem isto era vaidade.
2 Ao riso disse: [2] Estás doido; e á alegria: De que serve esta?
3 Busquei [3] no meu coração como me daria ao vinho (regendo porém o meu coração com sabedoria), e como reteria a loucura, até vêr o que seria melhor que os filhos dos homens fizessem debaixo do céu, durante o numero dos dias de sua vida.
4 Fiz para mim obras magnificas: edifiquei para mim casas: plantei para mim vinhas.
5 Fiz para mim hortas e jardins, e plantei n’elles arvores de toda a especie de fructa.
6 Fiz para mim tanques d’aguas, para regar com elles o bosque em que reverdeciam as arvores.
7 Adquiri servos e servas, e tive filhos de casa; tambem tive grande possessão de vaccas e ovelhas, mais do que todos os que houve antes de mim em Jerusalem.
8 Amontoei tambem para mim prata e oiro, e as joias de reis e das provincias; provi-me de cantores e cantoras, e das delicias dos filhos dos homens: d’instrumentos de musica, e de toda a sorte d’instrumentos.
9 E engrandeci, e [4] augmentei mais do que todos os que houve antes de mim em Jerusalem: perseverou tambem comigo a minha sabedoria.
10 E tudo quanto desejaram os meus olhos não lh’o neguei, nem retive o meu coração d’alegria alguma; mas o meu coração se alegrou de todo o meu trabalho, [5] e esta foi a minha porção de todo o meu trabalho.
11 E olhei eu para todas as obras que fizeram as minhas mãos, como tambem para o trabalho que eu, trabalhando, tinha feito, e eis que tudo era vaidade [6] e afflicção d’espirito, e que proveito nenhum havia debaixo do sol.
12 Então passei á contemplação da sabedoria, e dos desvarios, [7] e da doidice; porque que fará o homem que seguir ao rei? o que outros já fizeram;
13 Então vi eu que a sabedoria é mais excellente do que a estulticia, quanto a luz é mais excellente do que as trevas.
14 Os olhos [8] do sabio estão na sua cabeça, mas o louco anda em trevas: tambem então entendi eu que o mesmo successo lhes succede a todos.
15 Pelo que eu disse no meu coração: Como succeder ao tolo, assim me succederá a mim; porque pois então busquei eu mais a sabedoria? Então disse no meu coração que tambem isto era vaidade.
16 Porque nunca haverá mais lembrança do sabio do que do tolo; porquanto de tudo quanto agora ha nos dias futuros total esquecimento haverá. E como morre o sabio? assim como o tolo.
17 Pelo que aborreci esta vida, porque a obra que se faz debaixo do sol me parece má; porque tudo é vaidade e afflicção d’espirito.
18 Tambem eu aborreci todo o meu trabalho, em que eu trabalhei debaixo do sol, visto que eu havia de deixal-o ao homem que viesse depois de mim.
19 Porque quem sabe se será sabio ou tolo? todavia se assenhoreará sobre todo o meu trabalho em que trabalhei, e em que me houve sabiamente debaixo do sol; tambem isto é vaidade.
20 Pelo que eu me appliquei a fazer que o meu coração perdesse a esperança de todo o trabalho, em que trabalhei debaixo do sol.
21 Porque ha homem que trabalha com sabedoria, e sciencia, e destreza; todavia deixará o seu trabalho, como porção sua, a um homem que não trabalhou n’elle: tambem isto é vaidade e grande enfado.
22 Porque, [9] que mais tem o homem de todo o seu trabalho, e fadiga do seu coração, em que elle anda trabalhando debaixo do sol?
23 Porque todos os seus dias [10] são dôres, e a sua occupação é vexação; até de noite não descança o seu coração: tambem isto é vaidade.
24 Não é pois bom para o homem que [11] coma e beba, e que faça gozar a sua alma do bem do seu trabalho? tambem eu vi que isto vem da mão de Deus.
25 (Porque quem pode comer, ou quem [TA] o pode gozar melhor do que eu?).
26 Porque ao homem que é bom diante d’elle dá Deus sabedoria e conhecimento e alegria, porém ao peccador dá trabalho, para que elle ajunte, e amontoe, [12] para o dar ao bom perante a sua face. Tambem isto é vaidade e afflicção d’espirito.
Ha, para todas as coisas, um tempo determinado por Deus.
3 Tudo tem o seu [1] tempo determinado, e todo o proposito debaixo do céu tem o seu tempo:
2 Ha tempo de nascer, [2] e tempo de morrer: tempo de plantar, e tempo d’arrancar o que se plantou:
3 Tempo de matar, e tempo de curar: tempo de derribar, e tempo de edificar:
4 Tempo de chorar, e tempo de rir: tempo de prantear, e tempo de saltar:
5 Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras: tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar:
6 Tempo de buscar, e tempo de perder: tempo de guardar, e tempo de deitar fóra:
7 Tempo de rasgar, e tempo de coser: tempo de calar, [3] e tempo de fallar:
8 Tempo de amar, [4] e tempo de aborrecer: tempo de guerra, e tempo de paz.
9 Que [5] vantagem tem o trabalhador d’aquillo em que trabalha?
10 Tenho [6] visto o trabalho que Deus deu aos filhos dos homens, para com elle os affligir.
11 Tudo fez formoso em seu tempo: tambem poz o seculo no coração d’elles, [7] sem que o homem possa descobrir a obra que Deus fez desde o principio até ao fim.
12 Já tenho advertido [8] que não ha coisa melhor para elles do que alegrar-se e fazer bem na sua vida;
13 Como tambem que todo o homem [9] coma e beba, e goze do bem de todo o seu trabalho: isto é um dom de Deus.
14 Sei eu que tudo quanto Deus faz isso durará eternamente: nada se lhe deve accrescentar, [10] e nada d’elle se deve diminuir; e isto faz Deus para que haja temor diante d’elle.
15 O que houve [11] d’antes ainda o ha agora: e o que ha de ser, já foi; e Deus pede conta do que passou.
16 Vi mais debaixo [12] do sol, no logar do juizo, que havia ali impiedade, e no logar da justiça que ali havia impiedade.
17 Eu disse no meu coração: [13] Deus julgará o justo e o impio; porque ali será o tempo para julgar de todo o intento e sobre toda a obra.
18 Disse eu no meu coração ácerca do estado dos filhos dos homens, que Deus lhes declararia; e elles o veriam, [14] que elles são como as bestas em si mesmos.
19 Porque o que succede aos filhos dos homens, isso mesmo tambem succede ás bestas, e o mesmo succede a elles ambos: como morre um, assim morre o outro; e todos teem o mesmo folego, e a vantagem dos homens sobre as bestas não é nenhuma, porque todos são vaidade.
20 Todos vão para um logar: [15] todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó.
21 Quem [16] adverte que o folego dos filhos dos homens sobe para cima, e que o folego das bestas desce para baixo da terra?
22 Assim que tenho visto [17] que não ha coisa melhor do que alegrar-se o homem nas suas obras, porque essa é a sua porção; [18] porque quem o levará a vêr o que será depois d’elle?
Os males e as tribulações da vida.
4 Depois me virei, [1] e attentei em todas as oppressões que se fazem debaixo do sol; e eis que vi as lagrimas dos que foram opprimidos e dos que não teem consolador; e a força estava da banda dos seus oppressores; porém elles não tinham consolador.
2 Pelo que eu louvei [2] os mortos que já morreram, mais do que os vivos que vivem ainda,
3 E melhor [3] que uns e outros é aquelle que ainda não é; que não viu as más obras que se fazem debaixo do sol.
4 Tambem vi eu que todo o trabalho, e toda a destreza em obras, attrahe ao homem a inveja do seu proximo. Tambem isto é vaidade e afflicção d’espirito.
5 O tolo [4] cruza as suas mãos, e come a sua propria carne.
6 Melhor [5] é uma mão cheia com descanço do que ambos os punhos cheios com trabalho, e afflicção d’espirito.
7 Outra vez me tornei a virar, e vi uma vaidade debaixo do sol.
8 Ha um tal que é só, e não tem segundo, nem tão pouco filho nem irmã; e de todo o seu trabalho não ha fim, [6] nem o seu olho se farta de riquezas; nem diz: Para quem trabalho eu, e privo a minha alma do bem? Tambem isto é vaidade e enfadonha occupação.
9 Melhores são dois do que um, porque teem melhor paga do seu trabalho.
10 Porque se vierem a cair, um levanta ao seu companheiro: mas ai do que estiver só; pois, caindo, não haverá outro que o levante.
11 Tambem, se dois dormirem juntos, elles se aquentarão; mas um só como se aquentará?
12 E, se alguem prevalecer contra um, os dois lhe resistirão; e o cordão de tres dobras não se quebra tão depressa.
13 Melhor é o mancebo pobre e sabio do que o rei velho e insensato, que se não deixa mais admoestar.
14 Porque um sae do carcere para reinar; sim, um que nasceu pobre no seu reino.
15 Vi a todos os viventes andarem debaixo do sol com o mancebo, o successor que estará no seu logar.
16 Não tem fim todo o povo, todo o que houve antes d’elle; tão pouco os descendentes se alegrarão d’elle. Na verdade que tambem isto é vaidade e afflicção d’espirito.
Varios conselhos praticos.
5 Guarda [1] o teu pé, quando entrares na casa de Deus; e inclina-te mais a ouvir do que a offerecer sacrificios de tolos, pois não sabem que fazem mal.
2 Não te precipites com a tua bocca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu estás sobre a terra; [2] pelo que sejam poucas as tuas palavras.
3 Porque, da muita occupação vem os sonhos, [3] e a voz do tolo da multidão das palavras.
4 Quando a Deus fizeres algum voto, não tardes em cumpril-o; [4] porque não se agrada de tolos: o que votares, paga-o.
5 Melhor [5] é que não votes do que votes e não pagues.
6 Não consintas que a tua bocca faça peccar a tua carne, nem [6] digas diante do anjo que foi erro: por que causa se iraria Deus contra a tua voz, que destruisse a obra das tuas mãos?
7 Porque, como na multidão dos sonhos ha vaidades, assim o ha nas muitas palavras: [7] mas tu teme a Deus.
8 Se vires em alguma provincia oppressão de pobres, e violencia do juizo e da justiça, não te maravilhes de similhante caso; porque o que mais alto é do que os altos n’isso attenta; e ha mais altos do que elles.
9 O proveito da terra é para todos: até o rei se serve do campo.
10 O que amar o dinheiro nunca se fartará do dinheiro; e quem amar a abundancia nunca se fartará da renda: tambem isto é vaidade.
11 Onde a fazenda se multiplica, ali se multiplicam tambem os que a comem: que mais proveito pois teem os seus donos do que verem-n’a com os seus olhos?
12 Doce é o somno do trabalhador, quer coma pouco quer muito; porém a fartura do rico não o deixa dormir.
13 Ha mal que vi debaixo do sol, [8] e attrahe enfermidades: as riquezas que os seus donos guardam para o seu proprio mal;
14 Porque as mesmas riquezas se perdem com enfadonhas occupações, e gerando algum filho nada lhe fica na sua mão.
15 Como [9] saiu do ventre de sua mãe, assim nú se tornará, indo-se como veiu; e nada tomará do seu trabalho, que possa levar na sua mão.
16 Assim que tambem isto é um mal que attrahe enfermidades, que, infallivelmente, como veiu, assim se vae: e que proveito lhe vem de trabalhar para o vento,
17 E de haver comido todos os seus dias nas trevas, e de padecer muito enfado, e enfermidade, e cruel furor?
18 Eis aqui o que eu vi, uma boa e bella coisa: [10] comer e beber, e gozar-se do bem de todo o seu trabalho, em que trabalhou debaixo do sol, durante o numero dos dias da sua vida que Deus lhe deu, [11] porque esta é a sua porção.
19 E todo [12] o homem, a quem Deus deu riquezas e fazenda, e lhe deu poder para comer d’ellas, e tomar a sua porção, e gozar do seu trabalho: isto é dom de Deus.
20 Porque não se lembrará muito dos dias da sua vida; porquanto Deus lhe responde com alegria do seu coração.
É licito gozar os bens que Deus deu, mas estes não podem satisfazer a alma.
6 Ha [1] um mal que tenho visto debaixo do sol, e mui frequente é entre os homens:
2 Um homem a quem Deus deu riquezas, fazenda e honra, [2] e nada lhe falta de tudo quanto a sua alma deseja, [3] e Deus não lhe dá poder para d’ahi comer, antes o estranho lh’o come: tambem isto é vaidade e uma má enfermidade.
3 Se o homem gerar cem filhos, e viver muitos annos, e os dias dos seus annos forem muitos, porém a sua alma se não fartar do bem, [4] e tambem não tiver sepultura, digo que um aborto é melhor do que elle.
4 Porquanto debalde veiu, e ás trevas se vae, e de trevas se encobre o seu nome.
5 E ainda que nunca viu o sol, nem o conheceu, mais descanço tem do que o tal.
6 E, ainda que vivesse duas vezes mil annos e não visse o bem, porventura todos não vão para um mesmo logar?
7 Todo [5] o trabalho do homem é para a sua bocca, e comtudo nunca se enche a sua cubiça.
8 Porque, que mais tem o sabio do que o tolo? e que mais tem o pobre que sabe andar perante os vivos?
9 Melhor é a vista dos olhos do que o vaguear da cubiça: tambem isto é vaidade, e afflicção de espirito.
10 Seja qualquer o que fôr, já o seu nome foi nomeado, e sabe-se que é homem, [6] e que não póde contender com o que é mais forte do que elle.
11 Na verdade que ha muitas coisas que multiplicam a vaidade: que mais tem o homem com ellas!
12 Porque quem sabe o que é bom n’esta vida para o homem, durante o numero dos dias da vida da sua vaidade, os quaes gasta como sombra? porque quem declarará ao homem que é o que passará depois d’elle debaixo do sol?
As vantagens do soffrimento, da paciencia, e da moderação.
7 Melhor é a boa fama do que o melhor unguento, e o dia da morte do que o dia do nascimento d’alguem.
2 Melhor [1] é ir á casa do luto do que ir á casa do banquete, porque n’ella é o fim de todos os homens; e os vivos o applicam ao seu coração.
3 Melhor é o nojo do que o riso, [2] porque com a tristeza do rosto se encommenda o coração.
4 O coração dos sabios está na casa do luto, mas o coração dos tolos na casa da alegria.
5 Melhor [3] é ouvir a reprehensão do sabio, do que ouvir alguem a canção do tolo.
6 Porque qual o ruido dos espinhos debaixo d’uma panella, tal é o riso do tolo: tambem isto é vaidade.
7 Verdadeiramente que a oppressão faria endoidecer até ao sabio, [4] e a peita corrompe o coração.
8 Melhor é o fim das coisas do que o principio d’ellas: [5] melhor é o longanimo do que o altivo de coração.
9 Não te [6] apresses no teu espirito a irar-te, porque a ira repousa no seio dos tolos.
10 Nunca digas: Porque foram os dias passados melhores do que estes? porque nunca com sabedoria isto perguntarias.
11 Tão boa é a sabedoria como a herança, [7] e d’ella os que vêem o sol tiram proveito.
12 Porque a sabedoria serve de sombra, como de sombra serve o dinheiro; mas a excellencia do conhecimento é que a sabedoria dá vida ao seu possuidor.
13 Attenta para a obra de Deus; [8] porque quem poderá endireitar o que elle fez torto?
14 No dia da prosperidade goza do bem, [9] mas no dia da adversidade considera; porque tambem Deus fez a este em opposição áquelle, para que o homem nada ache do que haverá depois d’elle.
15 Tudo isto vi nos dias da minha vaidade: [10] ha um justo que perece na sua justiça, e ha um impio que prolonga os seus dias na sua maldade.
16 Não sejas [11] demasiadamente justo, nem demasiadamente sabio: para que te destruirias a ti mesmo?
17 Não sejas demasiadamente impio, nem sejas demasiadamente louco: para [12] que morrerias fóra de teu tempo?
18 Bom é que retenhas isto, e tambem d’isto não retires a tua mão; porque quem teme a Deus escapa de tudo isto.
19 A sabedoria [13] fortalece ao sabio, mais do que dez governadores que haja na cidade.
20 Na verdade que [14] não ha homem justo sobre a terra, que faça bem, e nunca peque.
21 Tão pouco appliques o teu coração a todas as palavras que se disserem, para que não venhas a ouvir que o teu servo te amaldiçoa.
22 Porque o teu coração tambem já confessou muitas vezes que tambem tu amaldiçoaste a outros.
23 Tudo isto inquiri com sabedoria; e disse: [15] Sabedoria adquirirei; mas ella ainda estava longe de mim.
24 Longe [16] está o que foi; e o profundissimo quem o achará?
25 Eu virei o meu coração para saber, e inquirir, e buscar a sabedoria e a razão, e para saber a impiedade da estulticia e a doidice dos desvarios.
26 E eu achei [17] uma coisa mais amarga do que a morte, a mulher cujo coração são redes e laços, e as suas mãos ataduras: quem fôr bom diante de Deus escapará d’ella, mas o peccador virá a ser preso por ella.
27 Vedes aqui, isto achei, [18] diz o prégador, conferindo uma coisa com a outra para assim achar a razão d’ellas;
28 A qual ainda busca a minha alma, porém ainda não a achei; um homem entre mil achei eu, mas uma mulher entre todas estas não achei.
29 Vedes aqui, que isto tão sómente achei: que Deus fez ao homem recto, porém elles buscaram muitas invenções.
A obediencia devida ao rei.
8 Quem é tal como o sabio? e quem sabe a interpretação das coisas? A sabedoria do homem allumia o seu rosto, e a aspereza do seu rosto se muda.
2 Eu digo: [1] Observa o mandamento do rei, porém segundo a palavra do juramento que fizeste a Deus.
3 Não te apresses [2] a sair da presença d’elle, nem persistas em alguma coisa má, porque elle faz tudo o que quer.
4 Onde ha a palavra do rei, ahi está o poder; [3] e quem lhe dirá: Que fazes?
5 Quem guardar o mandamento não experimentará nenhum mal; e o coração do sabio saberá o tempo e o modo.
6 Porque para [4] todo o proposito ha seu tempo e seu modo; porquanto o mal do homem é muito sobre elle.
7 Porque não sabe [5] o que ha de succeder: e, quando haja de succeder, quem lh’o dará a entender?
8 Nenhum homem ha que tenha dominio sobre o espirito, para reter o espirito; nem tão pouco tem elle poder [6] sobre o dia da morte: como tambem nem armas n’esta peleja: nem tão pouco a impiedade livrará aos impios.
9 Tudo isto vi quando appliquei o meu coração a toda a obra que se faz debaixo do sol: tempo ha em que um homem tem dominio sobre outro homem, para desgraça sua.
10 Assim tambem vi os impios sepultados, [TB] e os que vinham, e sahiam do logar sancto, que foram esquecidos na cidade em que fizeram bem: tambem isto é vaidade.
O peccador não é logo castigado; o justo vê-se muitas vezes em adversidade.
11 Porquanto [7] logo se não executa o juizo sobre a má obra, por isso o coração dos filhos dos homens está inteiramente disposto para obrar o mal.
12 Ainda [8] que o peccador faça mal cem vezes, e os dias se lhe prolonguem, comtudo bem sei eu, [9] que bem succede aos que temem a Deus, aos que temerem diante d’elle.
13 Porém ao impio não irá bem, e elle não prolongará os dias; será como a sombra; visto que elle não teme diante de Deus.
14 Ainda ha outra vaidade que se faz sobre a terra: que ha justos a quem succede segundo as obras dos impios, e ha impios a quem succede segundo as obras dos justos. Digo que tambem isto é vaidade.
15 Assim que louvei eu a alegria, porquanto o homem coisa nenhuma melhor tem debaixo do sol do que comer, beber e alegrar-se; porque isso o acompanhará no seu trabalho nos dias da sua vida que Deus lhe dá debaixo do sol.
16 Applicando eu o meu coração a entender a sabedoria, e a ver a occupação que ha sobre a terra; que nem de dia nem de noite vê o homem somno nos seus olhos.
17 Então vi toda a obra de Deus, [10] que o homem não pode alcançar, a obra que se faz debaixo do sol, pela qual trabalha o homem para a buscar, porém não a achará; e, ainda que diga o sabio que a virá a saber, nem por isso a poderá alcançar.
As mesmas coisas succedem aos justos e injustos. Gozemos os bens que Deus nos dá.
9 Devéras revolvi todas estas coisas no meu coração, para claramente entender tudo isto: [1] que os justos, e os sabios, e as suas obras, estão nas mãos de Deus, como tambem que não conhece o homem nem o amor nem o odio, por tudo o que passa perante a sua face.
2 Tudo [2] succede a uns, como a todos os outros; o mesmo succede ao justo e ao impio; ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica como ao que não sacrifica; assim ao bom como ao peccador; ao que jura como ao que teme o juramento.
3 Este mal ha entre tudo quanto se faz debaixo do sol, que a todos succede o mesmo; e que tambem o coração dos filhos dos homens esteja cheio de maldade, e que haja desvarios no seu coração, na sua vida, e depois se vão aos mortos.
4 Porque para o que acompanha com todos os vivos ha esperança (porque melhor é o cão vivo do que o leão morto).
5 Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tão pouco teem elles jámais paga, [3] mas a sua memoria ficou entregue ao esquecimento.
6 Até o seu amor, até o seu odio, e até a sua inveja já pereceu, e já não teem parte alguma n’este seculo, em coisa alguma do que se faz debaixo do sol.
7 Vae, pois, come com alegria o teu pão [4] e bebe com bom coração o teu vinho, pois já Deus se agrada das tuas obras.
8 Em todo o tempo sejam alvos os teus vestidos, e nunca falte o oleo sobre a tua cabeça.
9 Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias da vida da tua vaidade, os quaes Deus te deu debaixo do sol, todos os dias da tua vaidade: porque esta é a tua porção n’esta vida, e no teu trabalho, em que tu trabalhaste debaixo do sol.
10 Tudo quanto te vier á mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque na sepultura, para onde tu vaes, não ha obra, nem industria, nem sciencia, nem sabedoria alguma.
A sabedoria é muitas vezes mais util aos outros do que áquelle que a possue.
11 Volvi-me, [5] e vi debaixo do sol que não é dos ligeiros a carreira, nem dos valentes a peleja, nem tão pouco dos sabios o pão, nem tão pouco dos prudentes as riquezas, nem tão pouco dos entendidos o favor, mas que o tempo e o acaso lhes succedem a todos.
12 Que tambem [6] o homem não sabe o seu tempo; assim como os peixes que se pescam com a rede maligna, e como os passarinhos que se prendem com o laço, [7] assim se enlaçam tambem os filhos dos homens no mau tempo, quando cae de repente sobre elles.
13 Tambem vi esta sabedoria debaixo do sol, que foi para comigo grande;
14 Houve [8] uma pequena cidade em que havia poucos homens, e veiu contra ella um grande rei, e a cercou e levantou contra ella grandes tranqueiras:
15 E se achou n’ella um sabio pobre, que livrou aquella cidade pela sua sabedoria, e ninguem se lembrava d’aquelle pobre homem.
16 Então disse eu: [9] Melhor é a sabedoria do que a força, ainda que a sabedoria do pobre foi desprezada, e as suas palavras não foram ouvidas.
17 As palavras dos sabios em silencio se devem ouvir, mais do que o clamor do que domina sobre os tolos.
18 Melhor [10] é a sabedoria do que as armas de guerra, porém um só peccador destroe muitos bens.
A loucura é a causa de muitas desgraças.
10 Assim como a mosca morta faz [TC] exhalar mau cheiro e evaporar o unguento do perfumador, assim o faz ao famoso em sabedoria e em honra uma pouca de estulticia.
2 O coração do sabio está á sua dextra, mas o coração do tolo está á sua esquerda.
3 E, até quando o tolo vae pelo caminho, falta-lhe o seu entendimento [1] e diz a todos que é tolo.
4 Levantando-se contra ti o espirito do governador, [2] não deixes o teu logar, porque [TD] é um remedio que aquieta grandes peccados.
5 Ainda ha um mal que vi debaixo do sol, como o erro que procede de diante do governador.
6 Ao tolo [3] assentam em grandes alturas, mas os ricos estão assentados na baixeza.
7 Vi os servos [4] a cavallo, e os principes que andavam a pé como servos sobre a terra.
8 Quem [5] cavar uma cova, cairá n’ella, e, quem romper um muro, uma cobra o morderá.
9 Quem acarretar pedras, será maltratado por ellas, e o que rachar lenha perigará com ella.
10 Se estiver embotado o ferro, e não se amollar o córte, então se devem pôr mais forças: mas a sabedoria é excellente para dirigir.
11 [TE] Se a cobra [6] morder, não estando encantada, então remedio nenhum se espera do encantador, por mais habil que seja.
12 Nas palavras [7] da bocca do sabio ha favor, porém os labios do tolo o devoram.
13 O principio das palavras da sua bocca é a estulticia, e o fim da sua bocca um desvario pessimo.
14 Bem que [8] o tolo multiplique as palavras, não sabe o homem o que ha de ser; e quem lhe fará saber o que será depois d’elle?
15 O trabalho dos tolos a cada um d’elles fatiga, porque não sabem ir á cidade.
16 Ai de ti, [9] ó terra, cujo rei é criança, e cujos principes comem de manhã.
17 Bemaventurada tu, ó terra, cujo rei é filho dos nobres, [10] e cujos principes comem a tempo, para refazerem as forças, e não para bebedice.
18 Pela muita preguiça se [TF] enfraquece o tecto, e pela frouxidão das mãos goteja a casa.
19 Para rir se fazem convites, e o vinho alegra a vida, e por tudo o dinheiro responde.
20 Nem [11] ainda no teu pensamento amaldiçoes ao rei, nem tão pouco no mais interior da tua recamara amaldiçoes ao rico: porque as aves dos céus levariam a voz, e os que teem azas dariam noticia da palavra.
Façamos o que é bom no tempo opportuno.
11 Lança o [1] teu pão sobre as aguas, porque depois de muitos dias o acharás.
2 Reparte [2] com sete, e ainda até com oito, porque não sabes que mal haverá sobre a terra.
3 Estando as nuvens cheias, vazam a chuva sobre a terra, e caindo a arvore para o sul, ou para o norte, no logar em que a arvore cair ali ficará.
4 Quem observa o vento, nunca semeará, e o que olha para as nuvens nunca segará.
5 Assim como tu não sabes [3] qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da mulher gravida, assim tu não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas.
6 Pela manhã semeia a tua semente, e á tarde não retires a tua mão, porque tu não sabes qual será recto, se isto, se aquillo, ou se ambas estas coisas egualmente serão boas.
7 Devéras suave é a luz, e agradavel é aos olhos ver o sol.
8 Porém se o homem viver muitos annos, e em todos elles se alegrar, tambem se deve lembrar dos dias das trevas, porque hão de ser muitos, e tudo quanto succedeu é vaidade.
9 Alegra-te, mancebo, na tua mocidade, e recreie-se o teu coração nos dias da tua mocidade, e [4] anda pelos caminhos do teu coração, e pela vista dos teus olhos: sabe, porém, que por todas estas coisas te trará Deus a juizo.
10 Afasta pois a ira do teu coração, [5] e remove da tua carne o mal, porque a adolescencia e a juventude são vaidade.
A mocidade deve preparar-se para a velhice e morte.
12 Lembra-te [1] do teu Creador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os annos dos quaes venhas a dizer: [2] Não tenho n’elles contentamento:
2 Antes que se escureçam o sol, e a luz, e a lua, e as estrellas, e tornem a vir as nuvens depois da chuva;
3 No dia em que tremerem os guardas da casa, e se encurvarem os fortes varões, e cessarem os moedores, por já serem poucos, e se escurecerem os que olham pelas janellas;
4 E as duas portas da rua se fecharem por causa do baixo ruido da moedura, e se levantar á voz das aves, [3] e todas as vozes do canto se encurvarem:
5 Como tambem quando temerem os logares altos, e houver espantos no caminho, e florescer a amendoeira, e o gafanhoto o carregar, e perecer o appetite, porque o homem se vae á sua [TG] eterna casa, [4] e os pranteadores andarão rodeando pela praça.
6 Antes que se quebre a cadeia de prata, e se despedace o copo d’oiro, e se despedace o cantaro junto á fonte, e se despedace a roda junto ao poço,
7 E o pó voltar [5] á terra, como o era, e o espirito voltar a Deus, que o deu.
8 Vaidade de vaidade, diz o prégador, tudo é vaidade.
9 E, quanto mais o prégador foi sabio, tanto mais sabedoria ao povo ensinou, e attentou, e esquadrinhou, [6] e compoz muitos proverbios.
Todo o dever do homem consiste em temer a Deus e em guardar os seus mandamentos.
10 Procurou o prégador achar palavras agradaveis; e o escripto é a rectidão, palavras de verdade.
11 As palavras dos sabios são como aguilhões, e como pregos, bem affixados pelos mestres das congregações, que nos foram dados pelo unico Pastor.
12 E, de mais d’isto, filho meu, attenta: não ha limite para [TH] fazer livros, e o muito estudar [7] enfado é da carne.
13 De tudo o que se tem ouvido, o fim da coisa é: [8] Teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo o homem.
14 Porque [9] Deus ha de trazer a juizo toda a obra, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom quer seja mau.