ACTOS DOS APOSTOLOS.
João Ferreira d' Almeida translation
Introducção. A ascenção.
Anno Domini 33
1 Fiz o primeiro tratado, ó [1] Theophilo, ácerca de todas as coisas que Jesus começou, não só a fazer, mas a ensinar,
2 Até [2] ao dia em que [3] foi recebido em cima, depois de ter dado mandamentos, pelo Espirito Sancto, aos apostolos que escolhera;
3 Aos [4] quaes tambem, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas e infalliveis provas, sendo visto por elles por espaço de quarenta dias, e fallando do que respeita ao reino de Deus.
4 E, [5] ajuntando-os, determinou-lhes que não se ausentassem de Jerusalem, mas que esperassem a promessa do Pae que (disse elle) de mim [6] ouvistes.
5 Porque, [7] na verdade, João baptizou com agua, [8] porém vós sereis baptizados com o Espirito Sancto, não muito depois d’estes dias.
6 Aquelles pois que se haviam ajuntado perguntaram-lhe, dizendo: [9] Senhor, [10] restaurarás tu n’este tempo o reino a Israel?
7 E disse-lhes: [11] Não vos pertence saber os tempos ou as estações que o Pae poz em seu proprio poder.
8 Mas [12] recebereis a virtude do [13] Espirito Sancto, que ha de vir sobre vós; e ser-me-heis [14] testemunhas, tanto em Jerusalem como em toda a Judea e Samaria, e até aos confins da terra.
9 E, [15] havendo dito estas coisas, vendo-o elles, [16] foi elevado ás alturas, e uma nuvem o recebeu, occultando-o a seus olhos.
10 E, estando elles com os olhos fitos no céu, emquanto elle ia subindo, eis que junto d’elles se pozeram dois varões [17] vestidos de branco,
11 Os quaes então disseram: [18] Varões galileos, porque estaes olhando para o céu? Esse Jesus, que d’entre vós foi recebido acima no céu, [19] ha de vir assim como para o céu o vistes ir.
12 Então [20] voltaram para Jerusalem, do monte chamado das Oliveiras, o qual está perto de Jerusalem, á distancia do caminho de um sabbado.
13 E, entrando, subiram [21] ao cenaculo, onde ficaram [22] Pedro e Thiago, João e André, Philippe e Thomé, Bartholomeo e Matheus, Thiago, filho de Alpheo, [23] Simão, o zelador, e [24] Judas, irmão de Thiago.
14 Todos [25] estes perseveravam unanimemente em orações e supplicas, com [26] as mulheres, e Maria mãe de Jesus, [27] e com seus irmãos.
Mathias é escolhido apostolo em logar de Judas.
15 E n’aquelles dias, levantando-se Pedro no meio dos discipulos, disse (ora [28] a multidão junta era de quasi cento e vinte pessoas):
16 Varões irmãos, convinha que se cumprisse a Escriptura [29] que o Espirito Sancto predisse pela bocca de David, ácerca de Judas, [30] que foi o guia d’aquelles que prenderam a Jesus;
18 Ora este [33] adquiriu um campo com o [34] galardão da iniquidade; e, precipitando-se, arrebentou pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram.
19 E foi notorio a todos os que habitam em Jerusalem; de maneira que na sua propria lingua esse campo se chama Aceldama, isto é, Campo de sangue:
20 Porque no livro dos Psalmos está escripto: [35] Fique deserta a sua habitação, e não haja quem n’ella habite, [36] e tome outro [AHX] o seu bispado.
21 É necessario pois que, dos varões que conviveram comnosco todo o tempo em que o Senhor Jesus entrou e saiu d’entre nós,
22 Começando [37] desde o baptismo de João até ao dia [38] em que d’entre nós foi recebido em cima, um d’elles se faça comnosco [39] testemunha da sua resurreição.
23 E apresentaram dois: José, chamado [40] Barsabbás, que tinha por sobrenome o Justo, e Matthias.
24 E, orando, disseram: Tu, Senhor, conhecedor [41] dos corações de todos, mostra qual d’estes dois tens escolhido,
25 Para [42] que tome parte n’este ministerio e apostolado, de que Judas se desviou, para ir para o seu proprio logar.
26 E lançaram-lhes sortes, e caiu a sorte sobre Matthias. E por voto commum foi contado com os onze apostolos.
A descida do Espirito Sancto.
2 E de repente veiu do céu um som, como de um vento vehemente e impetuoso, [3] e encheu toda a casa em que estavam assentados.
3 E foram vistas por elles linguas repartidas, como que de fogo, e pousaram sobre cada um d’elles.
4 E todos foram [4] cheios do Espirito Sancto, [5] e começaram a fallar n’outras linguas, conforme o Espirito Sancto lhes concedia que fallassem.
5 E em Jerusalem estavam habitando judeos, varões religiosos, de todas as nações que estão debaixo do céu.
6 E, correndo aquella voz, ajuntou-se a multidão, e estava confusa, porque cada um os ouvia fallar na sua propria lingua.
7 E todos pasmavam e se maravilhavam, dizendo uns aos outros: Pois que! não [6] são galileos todos esses homens que estão fallando?
8 Como pois os ouvimos, cada um, na nossa propria lingua em que somos nascidos?
9 Parthos e medas, elamitas e os que habitam na Mesopotamia, e Judea, e Cappadocia, Ponto e Asia,
10 E Phrygia e Pamphylia, Egypto e partes da Lybia, junto a Cyrene, e forasteiros romanos, tanto judeos como proselytos,
11 Cretenses e arabes, ouvimos todos em nossas proprias linguas fallar das grandezas de Deus.
12 E todos se maravilhavam e estavam suspensos, dizendo uns para os outros: Que quer isto dizer?
13 E outros, zombando, diziam: Estão cheios de mosto.
O discurso de Pedro no dia de Pentecostes.
14 Porém Pedro, pondo-se em pé com os onze, levantou a sua voz, e disse-lhes: Varões judeos, e todos os que habitaes em Jerusalem, seja-vos isto conhecido, e escutae as minhas palavras;
15 Estes homens não estão embriagados, como vós pensaes, sendo [7] a terceira hora do dia.
16 Mas isto é o que foi dito pelo propheta Joel:
17 E [8] nos ultimos dias acontecerá, diz Deus, [9] que do meu Espirito derramarei sobre toda a carne; e os vossos filhos [10] e as vossas filhas prophetizarão, os vossos mancebos terão visões, e os vossos velhos sonharão sonhos;
18 E tambem do meu Espirito derramarei sobre os meus servos e as minhas servas n’aquelles dias, [11] e prophetizarão;
19 E [12] farei apparecer prodigios nas alturas, no céu; e signaes em baixo na terra, sangue, fogo e vapor de fumo:
20 O [13] sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes de chegar o grande e illustre dia do Senhor;
21 E acontecerá [14] que todo aquelle que invocar o nome do Senhor será salvo.
22 Varões israelitas, escutae estas palavras: A Jesus Nazareno, varão approvado por Deus [15] entre vós com maravilhas, prodigios e signaes, que Deus por elle fez no meio de vós, como vós mesmos bem sabeis:
23 A este, [16] sendo entregue pelo determinado conselho e presciencia de Deus, [17] tomando-o vós, o crucificastes e matastes pelas mãos de injustos:
24 Ao [18] qual Deus resuscitou, soltas as dôres da morte, pois não era possivel que fosse retido por ella;
25 Porque d’elle disse David: Sempre via diante de mim ao Senhor, porque está á minha direita, para que eu não seja commovido:
26 Por isso se alegrou o meu coração, [19] e a minha lingua exultou; e ainda a minha carne ha de repousar em esperança;
27 Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permittirás que o teu Sancto veja a corrupção:
28 Fizeste-me conhecidos os caminhos da vida; com a tua face me encherás de jubilo.
29 Varões irmãos, seja-me licito dizer-vos livremente [20] ácerca do patriarcha David, que elle morreu e foi sepultado, e entre nós está até hoje a sua sepultura.
30 Sendo pois elle propheta, [21] e sabendo que Deus lhe havia promettido com juramento que do fructo de seus lombos, segundo a carne, levantaria o Christo, para o assentar sobre o seu throno,
31 Prevendo isto, fallou da resurreição de Christo, [22] dizendo que a sua alma não foi deixada no inferno, nem a sua carne viu a corrupção.
33 De [25] sorte que, exaltado já pela dextra de Deus, [26] e recebendo do Pae a promessa do Espirito Sancto, [27] derramou isto que vós agora vêdes e ouvis.
34 Porque David não subiu aos céus, mas diz: [28] Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te á minha direita,
35 Até que ponha os teus inimigos por escabello de teus pés.
36 Saiba pois com certeza toda a casa d’Israel que a esse Jesus, a quem [29] vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Christo.
As primeiras conversões.
37 E, ouvindo elles estas [30] coisas, compungiram-se em seu coração, e disseram a Pedro e aos demais apostolos: Que faremos, varões irmãos?
38 E disse-lhes Pedro: [31] Arrependei-vos, e cada um de vós seja baptizado em nome de Jesus Christo, para perdão dos peccados; e recebereis o dom do Espirito Sancto;
39 Porque a promessa vos pertence, a vós, [32] a vossos filhos, e a [33] todos os que estão longe: a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar.
40 E com muitas outras palavras testificava e os exhortava, dizendo: Salvae-vos d’esta geração perversa.
41 De sorte que foram baptizados os que de bom grado receberam a sua palavra; e n’aquelle dia ajuntaram-se á egreja quasi tres mil almas;
42 E [34] perseveravam na doutrina dos apostolos, e na communhão, e no partir do pão e nas orações.
43 E em toda a alma havia temor, [35] e muitas maravilhas e signaes se faziam pelos apostolos.
44 E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo [36] em commum.
45 E vendiam suas propriedades e fazendas, [37] e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister.
46 E, [38] perseverando unanimes todos os dias [39] no templo, e [40] repartindo o pão de casa em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração,
47 Louvando a Deus, [41] e tendo graça para com todo o povo. E todos os dias accrescentava o Senhor [42] á egreja aquelles que se haviam de salvar.
Cura d’um côxo; discurso de Pedro no templo.
2 E [3] era trazido um varão que desde o ventre de sua mãe era côxo, o qual cada dia punham á porta do templo, chamada Formosa, [4] para pedir esmola aos que entravam no templo.
3 O qual, vendo a Pedro e João, que iam entrando no templo, pediu que lhe déssem uma esmola.
4 E Pedro, com João, fitando os olhos n’elle, disse: Olha para nós.
5 E olhou para elles, esperando receber d’elles alguma coisa.
6 E disse Pedro: Não tenho prata nem oiro; mas o que tenho isso te dou. [5] Em nome de Jesus Christo, o Nazareno, levanta-te e anda.
7 E, tomando-o pela mão direita, o levantou, e logo os seus pés e artelhos se firmaram.
8 E, saltando [6] elle, poz-se em pé, e andou, e entrou com elles no templo, andando, e saltando, e louvando a Deus;
9 E [7] todo o povo o viu andar e louvar a Deus;
10 E conheciam-n’o, que era elle o que [8] se assentava á esmola á porta Formosa do templo, e ficaram cheios de pasmo e assombro, pelo que lhe acontecera.
11 E, apegando-se o côxo, que fôra curado, a Pedro e João, todo o povo correu attonito para junto d’elles, ao alpendre [9] chamado de Salomão.
12 E Pedro, vendo isto, disse ao povo: Varões israelitas, porque vos maravilhaes d’isto? Ou, porque olhaes tanto para nós, como se por nossa propria virtude ou sanctidade o fizessemos andar?
13 O [10] Deus d’Abrahão, e de Isaac e de Jacob, o Deus de nossos paes, [11] glorificou a seu filho Jesus, a quem vós [12] entregastes e [13] perante a face de Pilatos negastes, julgando elle que devia ser solto.
15 E matastes o [16] Principe da vida, ao qual Deus resuscitou dos mortos, [17] do que nós somos testemunhas.
16 E [18] pela fé no seu nome o seu nome fortaleceu a este que vêdes e conheceis; e a fé que é por elle deu a este, na presença de todos vós, esta perfeita saude.
17 E agora, irmãos, eu sei que o fizestes [19] por ignorancia, como tambem os vossos [AHY] principes:
18 Mas Deus [20] assim cumpriu o que já d’antes pela bocca de todos os seus prophetas havia [21] annunciado; que o Christo havia de padecer.
19 Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos peccados, quando vierem os tempos do refrigerio pela presença do Senhor,
20 E elle enviar a Jesus Christo, [22] que já d’antes vos foi prégado:
21 O [23] qual convem que o céu contenha até aos tempos da restauração [24] de todas as coisas, [25] das quaes Deus fallou pela bocca de todos os seus sanctos prophetas, desde todo o seculo.
22 Porque Moysés disse aos paes: [26] O Senhor vosso Deus levantará d’entre vossos irmãos um propheta similhante a mim: a elle ouvireis em tudo quanto vos disser.
23 E acontecerá que toda a alma que não escutar esse propheta será exterminada d’entre o povo.
24 E tambem todos os prophetas, desde Samuel, e todos quantos depois teem fallado, já d’antes annunciaram esses dias.
25 Vós [27] sois os filhos dos prophetas, e do concerto que Deus fez com nossos paes, dizendo a Abrahão: [28] Na tua descendencia serão bemditas todas as familias da terra.
26 Resuscitando [29] Deus a seu Filho Jesus, primeiro o enviou [30] a vós, para que n’isso vos abençoasse, [31] e vos desviasse, a cada um, das vossas maldades.
Pedro e João perante o synhedrio.
4 E, estando elles fallando ao povo, sobrevieram os sacerdotes, e o capitão do templo, e os sadduceos,
2 Doendo-se [1] muito de que ensinassem o povo, e annunciassem em Jesus a resurreição dos mortos.
3 E lançaram mão d’elles, e os encerraram na prisão até ao dia seguinte, pois era já tarde.
4 Muitos, porém, dos que ouviram a palavra crêram, e chegou o numero d’esses homens a quasi cinco mil.
5 E aconteceu, no dia seguinte, reunirem-se em Jerusalem os seus principaes, e anciãos e escribas,
6 E [2] Annás, o summo sacerdote, e Caiphás, e João, e Alexandre, e todos quantos havia da linhagem do summo sacerdote.
7 E, pondo-os no meio, perguntaram: [3] Com que poder fizestes isto, ou em nome de quem?
8 Então [4] Pedro, cheio do Espirito Sancto, lhes disse: Principaes do povo, e vós, anciãos d’Israel.
9 Visto que hoje somos interrogados ácerca do beneficio feito a um homem enfermo, do modo como foi curado,
10 Seja conhecido a vós todos, e a todo o povo d’Israel, [5] que em nome de Jesus Christo, o nazareno, aquelle a quem vós crucificastes [6] e a quem Deus resuscitou dos mortos, em nome d’esse é que este está são diante de vós.
11 Este [7] é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça d’esquina.
12 E [8] em nenhum outro ha salvação, porque tambem debaixo do céu nenhum outro nome ha, dado entre os homens, em que devamos ser salvos.
13 Então elles, vendo a ousadia de Pedro e João, [9] e informados de que eram homens sem lettras e indoutos, se maravilharam; e conheciam que elles haviam estado com Jesus.
14 Mas, vendo [10] estar com elles o homem que fôra curado, nada tinham que dizer em contrario.
15 E, mandando-os sair fóra do conselho, conferenciaram entre si,
16 Dizendo: [11] Que havemos de fazer a estes homens? porque a todos os que habitam em Jerusalem [12] é manifesto que por elles foi feito um signal notorio, e não o podemos negar;
17 Mas, para que não se divulgue mais entre o povo, ameacemol-os para que não fallem mais n’esse nome a homem algum.
18 E, [13] chamando-os, disseram-lhes que absolutamente não fallassem, nem ensinassem, no nome de Jesus.
19 Respondendo, porém, Pedro e João, lhes disseram: [14] Julgae vós se é justo, diante de Deus, ouvir-vos antes a vós do que a Deus;
21 Mas elles ainda os ameaçaram mais, e, não achando motivo para os castigar, [17] deixaram-n’os ir, por causa do povo; porque todos glorificavam a Deus ácerca [18] do que acontecera:
22 Pois tinha mais de quarenta annos o homem em quem se operara aquelle milagre de saude.
23 E, soltos elles, foram [19] para os seus, e contaram tudo o que lhes disseram os principaes dos sacerdotes e os anciãos.
24 E, ouvindo elles isto, unanimes levantaram a voz a Deus, e disseram: [20] Senhor, tu és o Deus que fizeste o céu, e a terra, e o mar, e todas as coisas que n’elles ha;
25 Que disseste pela bocca de David, teu servo: [21] Porque bramaram as gentes, e os povos pensaram coisas vãs?
26 Levantaram-se os reis da terra, e os principes se ajuntaram á uma, [22] contra o Senhor e contra o seu Ungido.
27 Porque verdadeiramente contra [23] o teu sancto Filho Jesus, [24] que tu ungiste, se ajuntaram, não só Herodes, mas Poncio Pilatos, com os gentios e os povos d’Israel;
28 Para [25] fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer.
29 Agora pois, ó Senhor, põe os olhos nas suas ameaças, e concede aos teus servos que [26] fallem com toda a ousadia a tua palavra;
30 Estendendo a tua mão para curar, [27] e para que se façam signaes e prodigios [28] pelo nome do [29] teu sancto Filho Jesus.
31 E, tendo orado, [30] moveu-se o logar em que estavam reunidos; e todos foram cheios do Espirito Sancto, [31] e fallavam com ousadia a palavra de Deus.
A communidade de bens entre os primeiros christãos: Ananias e Saphira.
32 E era um [32] o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguem dizia que coisa alguma do que possuia era sua propria, [33] mas todas as coisas lhes eram communs.
33 E os apostolos davam, [34] com grande poder, [35] testemunho da resurreição do Senhor Jesus, [36] e em todos elles havia abundante graça.
34 Não havia pois entre elles [37] necessitado algum; porque todos os que possuiam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do vendido, [38] e o depositavam aos pés dos apostolos.
35 E [39] repartia-se por cada um, segundo a necessidade que cada um tinha.
36 Então José, cognominado pelos apostolos Barnabé (que, traduzido, é Filho de consolação), levita, natural de Chypre,
37 Possuindo uma [40] herdade, vendeu-a, e trouxe o preço, e o apresentou aos pés dos apostolos.
5 E um certo varão chamado Ananias, com Saphira, sua mulher, vendeu uma propriedade;
2 E reteve parte do preço, sabendo-o tambem sua mulher; [1] e, trazendo uma parte d’elle, a depositou aos pés dos apostolos.
3 Disse [2] então Pedro: Ananias, porque encheu [3] Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espirito Sancto, e retivestes parte do preço da herdade?
4 Guardando-a, não ficava para ti? E, vendida, não estava em teu poder? Porque formaste este designio em teu coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus.
5 E Ananias, ouvindo estas palavras, caiu [4] e expirou. E um grande temor veiu sobre todos os que isto ouviram.
6 E, levantando-se os mancebos, pegaram d’elle, [5] e, transportando-o para fóra, o sepultaram.
7 E, passando um espaço quasi de tres horas, entrou tambem sua mulher, não sabendo o que havia acontecido.
8 E disse-lhe Pedro: Dize-me, vendestes por tanto aquella herdade? E ella disse: Sim, por tanto.
9 Porém Pedro lhe disse: Porque é que entre vós vos concertastes para [6] tentar o Espirito do Senhor? Eis ahi á porta os pés dos que sepultaram a teu marido, e tambem te levarão a ti.
10 E [7] logo caiu aos seus pés, e expirou. E, entrando os mancebos, acharam-n’a morta, e a sepultaram junto de seu marido.
11 E [8] veiu um grande temor a toda a egreja, e a todos os que ouviram estas coisas.
12 E [9] muitos signaes e prodigios eram feitos entre o povo [10] pelas mãos dos apostolos. E estavam todos unanimes no alpendre de Salomão.
13 E dos [11] outros ninguem ousava ajuntar-se com elles: mas o povo tinha-os em grande estima.
14 E a multidão dos que criam no Senhor, tanto homens como mulheres, crescia mais e mais.
15 De sorte que transportavam os enfermos para as ruas, e os punham em leitos e em camilhas [12] para que a sombra de Pedro, quando passasse, cobrisse alguns d’elles.
16 E até das cidades circumvisinhas concorria a multidão a Jerusalem, conduzindo [13] enfermos e atormentados de espiritos immundos; os quaes todos eram curados.
Os apostolos são milagrosamente tirados da prisão, e dão testemunho perante o synhedrio. O conselho de Gamaliel.
17 E, [14] levantando-se o summo sacerdote, e todos os que estavam com elle (que era a seita dos sadduceos), encheram-se de inveja,
18 E [15] lançaram mão dos apostolos, e os pozeram na prisão publica.
19 Mas [16] de noite um anjo do Senhor abriu as portas da prisão, e, tirando-os para fóra, disse:
20 Ide apresentar-vos no templo, e dizei ao povo [17] todas as palavras d’esta vida.
21 E, ouvindo elles isto, entraram de manhã cedo no templo, e ensinavam. [18] Chegando, porém, o summo sacerdote e os que estavam com elle, convocaram o conselho, e a todos os anciãos dos filhos d’Israel, e enviaram ao carcere, para que de lá os trouxessem.
22 Mas, tendo lá chegado os [AHZ] servidores, não os acharam na prisão, e, voltando, lh’o annunciaram,
23 Dizendo: Achámos realmente o carcere fechado, com toda a segurança, e os guardas, que estavam fóra, diante das portas; mas, quando abrimos, ninguem achámos dentro.
24 Então o capitão do templo e os principaes dos sacerdotes, ouvindo [19] estas palavras, estavam perplexos ácerca do que viria a ser aquillo.
25 E, chegando um, annunciou-lhes, dizendo: Eis que os homens que encerrastes na prisão estão no templo e ensinam ao povo.
26 Então foi o capitão com os servidores, e os trouxe, não com violencia (porque [20] temiam ser apedrejados pelo povo).
27 E, trazendo-os, os apresentaram ao conselho. E o summo sacerdote os interrogou, dizendo:
28 Não [21] vos admoestámos nós expressamente que não ensinasseis n’esse nome? E eis que já enchestes Jerusalem d’essa vossa doutrina, [22] e quereis trazer sobre nós [23] o sangue d’esse homem.
29 Porém, respondendo Pedro e os apostolos, disseram: [24] Mais importa obedecer a Deus do que aos homens.
30 O [25] Deus de nossos paes resuscitou a Jesus, ao qual vós matastes suspendendo-o no madeiro.
31 Deus com a sua [26] dextra o elevou a [27] Principe e [28] Salvador, para dar a Israel [29] o arrependimento e remissão dos peccados.
32 E [30] nós somos testemunhas ácerca d’estas palavras, e tambem o Espirito Sancto, que [31] Deus deu áquelles que lhe obedecem.
33 E, [32] ouvindo elles isto, se enfureciam, e deliberaram matal-os.
34 Mas, levantando-se no conselho um certo phariseo, chamado [33] Gamaliel, doutor da lei, venerado por todo o povo, mandou que por um pouco levassem para fóra os apostolos;
35 E disse-lhes: Varões israelitas, acautelae-vos, emquanto ao que haveis de fazer ácerca d’esses homens,
36 Porque antes d’estes dias levantou-se Theudas, dizendo ser alguem: d’este se acercou o numero de uns quatrocentos homens; o qual foi morto, e todos os que lhe deram ouvidos foram dispersos e reduzidos a nada.
37 Depois d’este levantou-se Judas, o galileo, nos dias do alistamento, e levou muito povo após si; e tambem este pereceu, e todos os que lhe deram ouvidos foram dispersos.
38 E agora digo-vos: Dae de mão a estes homens, e deixae-os, [34] porque, se esse designio, ou essa obra, é de homens, se desfará,
39 Mas, [35] se é de Deus, não podereis desfazel-a; para que não aconteça serdes [36] tambem achados combatendo contra Deus.
40 E concordaram com elle. [37] E, chamando os apostolos, [38] e tendo-os açoitado, mandaram que não fallassem no nome de Jesus, e os deixaram ir.
41 Retiraram-se pois da presença do conselho, [39] rogozijando-se de terem sido julgados dignos de padecer affronta pelo nome de Jesus.
42 E todos os dias, [40] no templo e nas casas, não cessavam de ensinar, e de annunciar a Jesus Christo.
A instituição dos diaconos.
6 Ora n’aquelles dias, [1] crescendo o numero dos discipulos, houve uma murmuração dos [2] gregos contra os hebreos, porque as suas viuvas [3] eram desprezadas no ministerio quotidiano.
2 E os doze, convocando a multidão dos discipulos, disseram: [4] Não é razoavel que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos ás mesas.
3 Escolhei pois, irmãos, [5] d’entre vós, sete varões de boa reputação, cheios do Espirito Sancto e de sabedoria, aos quaes constituamos sobre este importante negocio.
4 Porém nós [6] perseveraremos na oração e no ministerio da palavra.
5 E este parecer contentou a toda a multidão, e elegeram Estevão, homem cheio de [7] fé e do Espirito Sancto, [8] e Philippe e Prochoro, e Nicanor, e Timon, e Parmenas e Nicolau, [9] proselyto de Antiochia:
7 E crescia [12] a palavra de Deus, e em Jerusalem se multiplicava muito o numero dos discipulos, e grande multidão [13] dos sacerdotes obedecia á fé.
Estevão, o primeiro martyr.
8 E Estevão, cheio de fé e de poder, fazia prodigios e grandes signaes entre o povo.
9 E levantaram-se alguns que eram da synagoga chamada dos libertinos, e dos cyreneos e dos alexandrinos, e dos que eram da Cilicia e da Asia, e disputavam com Estevão.
10 E não [14] podiam resistir á sabedoria, e ao espirito com que fallava.
11 Então [15] subornaram uns homens, para que dissessem: Ouvimos-lhe proferir palavras blasphemas contra Moysés e contra Deus.
12 E excitaram o povo, os anciãos e os escribas; e, arremettendo contra elle, o arrebataram e o levaram ao conselho.
13 E apresentaram falsas testemunhas, que diziam: Este homem não cessa de proferir palavras blasphemas contra este sancto logar e contra a lei:
14 Pois nós lhe ouvimos dizer que esse Jesus Nazareno ha de destruir este logar e mudar os costumes que Moysés nos deu.
15 Então todos os que estavam assentados no conselho, fixando os olhos n’elle, viram o seu rosto como o rosto de um anjo.
7 E disse o summo sacerdote: Porventura é isto assim?
2 E elle disse: [1] Varões, irmãos, e paes, ouvi. O Deus da gloria appareceu a nosso pae Abrahão, estando na Mesopotamia, antes de habitar em Haran,
3 E disse-lhe: [2] Sae da tua terra e d’entre a tua parentela, e dirige-te á terra que eu te mostrarei.
4 Então [3] saiu da terra dos chaldeos, e habitou em Haran. E d’ali, depois que seu pae falleceu, o fez passar para esta terra em que agora habitaes.
5 E não lhe deu n’ella herança, nem ainda o espaço de [4] um pé: mas prometteu que lh’a daria em possessão, e depois d’elle á sua descendencia, não tendo elle ainda filho.
6 E fallou Deus assim: [5] Que a sua descendencia seria peregrina em terra alheia, e a sujeitariam á escravidão, e a maltratariam por [6] quatrocentos annos.
7 E eu julgarei a nação a quem servirem, disse Deus. E depois d’isto sairão, [7] e me servirão n’este logar.
8 E deu-lhe [8] o pacto da circumcisão; [9] e assim gerou a Isaac, e o circumcidou ao oitavo dia: [10] e Isaac gerou a Jacob, e [11] Jacob aos doze patriarchas.
9 E [12] os patriarchas, movidos de inveja, venderam a José para o [13] Egypto; e Deus era com elle,
10 E livrou-o de todas as suas tribulações, [14] e lhe deu graça e sabedoria ante Pharaó, rei do Egypto, que o constituiu governador sobre o Egypto e toda a sua casa.
11 E a [15] todo o paiz do Egypto e de Canaan sobreveiu fome e grande tribulação; e nossos paes não achavam alimentos.
12 Porém [16] Jacob, ouvindo que no Egypto havia trigo, enviou ali nossos paes, a primeira vez.
13 E [17] na segunda foi José conhecido por seus irmãos, e a linhagem de José foi manifesta a Pharaó.
14 E [18] José mandou chamar a seu pae Jacob, [19] e a toda a sua parentela, que era de setenta e cinco almas.
16 E [22] foram transportados para Sichem, e depositados [23] na sepultura que Abrahão comprara por certa somma de dinheiro aos filhos de Hemor, pae de Sichem.
17 Approximando-se, [24] porém, o tempo da promessa que Deus tinha jurado a Abrahão, o povo [25] cresceu e se multiplicou no Egypto;
18 Até que se levantou outro rei, que não conhecia a José.
19 Este, usando de astucia contra a nossa linhagem, maltratou nossos paes, ao ponto de lhes fazer [26] engeitar as suas creanças, para que não se multiplicassem.
20 N’esse tempo nasceu Moysés, e [27] era mui formoso, e [28] foi criado tres mezes em casa de seu pae.
21 E, sendo [29] engeitado, tomou-o a filha do Pharaó, e o criou como seu filho.
22 E Moysés [30] foi instruido em toda a sciencia dos egypcios; e era poderoso em suas palavras e obras.
23 E, [31] quando completou o tempo de quarenta annos, veiu-lhe ao coração ir visitar seus irmãos, os filhos d’Israel.
24 E, vendo maltratado um d’elles, o defendeu, e vingou o offendido, matando o egypcio.
25 E elle cuidava que seus irmãos entenderiam que Deus lhes havia de dar a liberdade pela sua mão; porém elles não entenderam.
26 E [32] no dia seguinte, pelejando elles, foi por elles visto, e quiz leval-os á paz, dizendo: Varões, sois irmãos; porque vos aggravaes um ao outro?
27 E o que offendia o seu proximo o repelliu, dizendo: [33] Quem te constituiu principe e juiz sobre nós?
28 Queres tu matar-me, como hontem mataste o egypcio?
29 E a esta palavra fugiu [34] Moysés, e esteve como estrangeiro na terra de Madian, onde gerou dois filhos.
30 E, [35] completados quarenta annos, appareceu-lhe o anjo do Senhor, no deserto do monte Sinai, n’uma chamma de fogo de um sarçal.
31 Então Moysés, vendo-o, se maravilhou da visão; e, approximando-se para vêr, foi-lhe dirigida a voz do Senhor,
32 Dizendo: [36] Eu sou o Deus de teus paes, o Deus d’Abrahão, e o Deus d’Isaac e o Deus de Jacob. E Moysés, todo tremulo, não ousava olhar.
33 E disse-lhe [37] o Senhor: Descalça as alparcas dos teus pés, porque o logar em que estás é terra sancta:
34 Tenho [38] visto attentamente a afflicção do meu povo que está no Egypto, e ouvi os seus gemidos, e desci a livral-os. Agora, pois, vem, e enviar-te-hei ao Egypto.
35 A este Moysés, ao qual haviam negado, dizendo: Quem te constituiu principe e juiz? a este enviou Deus como principe e [AIA] libertador, [39] pela mão do anjo que lhe apparecera no sarçal.
36 Este [40] os conduziu para fóra, [41] fazendo prodigios e signaes na terra do Egypto, [42] e no Mar Vermelho, [43] e no deserto, por quarenta annos.
37 Este é aquelle Moysés que disse aos filhos d’Israel: [44] O Senhor vosso Deus vos levantará d’entre vossos irmãos um propheta como eu; [45] a elle ouvireis.
38 Este é [46] o que esteve entre a congregação no deserto, com [47] o anjo que lhe fallava no monte Sinai, e com nossos paes, [48] o qual recebeu as palavras de vida [49] para nol-as dar.
39 Ao qual nossos paes não quizeram obedecer, antes o rejeitaram, e de coração se tornaram ao Egypto,
40 Dizendo a Aarão: [50] Faze-nos deuses que vão adiante de nós; porque a esse Moysés, que nos tirou da terra do Egypto, não sabemos o que lhe aconteceu.
41 E [51] n’aquelles dias fizeram o bezerro, e offereceram sacrificios ao idolo, e se alegraram nas obras das suas mãos.
42 E [52] Deus se affastou, e os abandonou a que servissem [53] ao exercito do céu, como está escripto no livro dos prophetas: [54] Porventura me offerecestes victimas e sacrificios no deserto por quarenta annos, ó casa d’Israel?
43 Antes tomastes o tabernaculo de Molech, e a estrella do vosso deus Remphan, figuras que vós fizestes para as adorar. Transportar-vos-hei pois para além de Babylonia.
44 Estava entre nossos paes no deserto o tabernaculo do testemunho, como ordenara aquelle que disse a Moysés [55] que o fizesse segundo o modelo que tinha visto.
45 O [56] qual nossos paes, recebendo-o tambem, o levaram com Josué quando entraram na possessão das nações [57] que Deus expulsou da face de nossos paes, até aos dias de David:
47 E [60] Salomão lhe edificou casa;
48 Mas o [61] Altissimo não habita em templos feitos por mãos d’homens, como diz o propheta:
49 O [62] céu é o meu throno, e a terra o estrado dos meus pés. Que casa me edificareis? diz o Senhor: ou qual é o logar do meu repouso?
50 Porventura não fez a minha mão todas estas coisas?
51 Duros [63] de cerviz, [64] e incircumcisos de coração e ouvidos: vós sempre resistis ao Espirito Sancto; tambem vós sois como vossos paes.
52 A qual [65] dos prophetas não perseguiram vossos paes? Até mataram os que anteriormente annunciaram a vinda [66] do Justo, do qual vós agora fostes traidores e homicidas;
53 Vós, que [67] recebestes a lei por disposição dos anjos, e não a guardastes.
54 E, [68] ouvindo estas coisas, enfureciam-se em seus corações, e rangiam os dentes contra elle.
55 Mas [69] elle, estando cheio do Espirito Sancto, fixando os olhos no céu, viu a gloria de Deus, e Jesus, que estava á direita de Deus;
56 E disse: Eis que [70] vejo os céus abertos, [71] e o Filho do homem, que está em pé á mão direita de Deus.
57 Elles, [72] porém, clamando com grande voz, taparam os seus ouvidos, e arremetteram unanimes contra elle.
58 E, expulsando-o da cidade, [73] o apedrejavam. [74] E as testemunhas depozeram os seus vestidos aos pés de um mancebo chamado Saulo.
59 E apedrejaram a Estevão, [75] invocando elle ao Senhor, e dizendo: Senhor Jesus, recebe [76] o meu espirito.
60 E, pondo-se [77] de joelhos, clamou com grande voz: [78] Senhor, não lhes imputes este peccado. E, tendo dito isto, [79] adormeceu.
O evangelho em Samaria.
Anno Domini 34
8 E tambem Saulo consentia na morte d’elle. E fez-se n’aquelle dia uma grande perseguição contra a egreja que estava em Jerusalem; [1] e todos foram dispersos pelas terras da Judea e da Samaria, excepto os apostolos.
2 E alguns varões piedosos foram enterrar a Estevão, [2] e fizeram sobre elle grande pranto.
3 E Saulo [3] assolava a egreja, entrando pelas casas: e, arrastando homens e mulheres, os encerrava na prisão.
4 Mas [4] os que andavam dispersos iam por toda a parte, annunciando a palavra.
5 E, [5] descendo Philippe á cidade de Samaria, lhes prégava a Christo.
6 E as multidões estavam attentas unanimemente ás coisas que Philippe dizia, porquanto ouviam e viam os signaes que elle fazia;
7 Pois [6] os espiritos immundos sahiam de muitos que os tinham, clamando em alta voz; e muitos paralyticos e côxos eram curados.
8 E havia grande alegria n’aquella cidade.
9 E havia um certo varão, chamado Simão, que anteriormente exercera n’aquella cidade a arte magica, [7] e tinha illudido a gente de Samaria, dizendo [8] que era um grande personagem:
10 Ao qual todos attendiam, desde o mais pequeno até ao maior, dizendo: Este é a grande virtude de Deus.
11 E attendiam-n’o a elle, porque já desde muito tempo os havia illudido com artes magicas.
12 Mas, como crêram em Philippe que [9] lhes prégava ácerca do reino de Deus, e do nome de Jesus Christo, se baptizavam, tanto homens como mulheres.
13 E creu até o mesmo Simão; e, sendo baptizado, ficou de continuo com Philippe; e, vendo os signaes e as grandes maravilhas que se faziam, estava attonito.
14 Os apostolos, pois, que estavam em Jerusalem, ouvindo que Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram-lhes Pedro e João.
15 Os quaes, tendo descido, oraram por elles [10] para que recebessem o Espirito Sancto.
16 (Porque [11] sobre nenhum d’elles tinha ainda descido; mas sómente eram [12] baptizados em [13] nome do Senhor Jesus.)
17 Então [14] lhes impozeram as mãos, e receberam o Espirito Sancto.
18 E Simão, vendo que pela imposição das mãos dos apostolos se dava o Espirito Sancto, lhes offereceu dinheiro,
19 Dizendo: Dae-me tambem a mim esse poder, para que qualquer sobre quem eu pozer as mãos receba o Espirito Sancto.
20 Mas disse-lhe Pedro: O teu dinheiro seja comtigo para perdição, pois cuidaste [15] que o [16] dom de Deus se alcança por dinheiro.
21 Tu não tens parte nem sorte n’esta palavra, porque o teu coração não é recto diante de Deus;
22 Arrepende-te pois d’essa tua iniquidade, e ora a Deus, [17] para que porventura te seja perdoado o pensamento do teu coração;
23 Pois vejo que estás [18] em fel de amargura, e em laço de iniquidade.
24 Respondendo, porém, Simão, disse: Orae vós por mim ao Senhor, para que nada do que dissestes venha sobre mim.
25 Tendo elles pois testificado e fallado a palavra do Senhor, voltaram para Jerusalem, e em muitas aldeias dos [19] samaritanos annunciaram o evangelho.
Philippe e o eunucho.
26 E o anjo do Senhor fallou a Philippe, dizendo: Levanta-te, e vae para a banda do sul, ao caminho que desce de Jerusalem para Gaza, que é deserta.
27 E levantou-se, e foi; e eis que um [20] homem ethiope, eunucho, mordomo-mór de Candace, rainha dos ethiopes, o qual era superintendente de todos os seus thesouros, e tinha ido a [21] Jerusalem a adorar,
28 Regressava, e, assentado no seu carro, lia o propheta Isaias.
29 E disse o Espirito a Philippe: Chega-te, e ajunta-te a esse carro.
30 E, correndo Philippe, ouviu que lia o propheta Isaias, e disse: Entendes tu o que lês?
31 E elle disse: Como o poderei eu, se alguem me não ensinar? E rogou a Philippe que subisse e com elle se assentasse.
32 E o logar da Escriptura que lia era este: [22] Foi levado como a ovelha para o matadouro, e, como está mudo o cordeiro diante do que o tosquia, assim não abriu a sua bocca.
33 Na sua humilhação foi [AIB] tirada a sua sentença; e quem contará a sua geração? porque a sua vida é tirada da terra.
34 E, respondendo o eunucho a Philippe, disse: Rogo-te, de quem diz isto o propheta? De si mesmo, ou d’algum outro?
35 Então Philippe, abrindo a sua bocca, [23] e começando n’esta Escriptura, lhe annunciou a Jesus.
36 E, indo elles caminhando, chegaram ao pé d’alguma agua, e disse o eunucho: Eis aqui agua; que impede [24] que eu seja baptizado?
37 E disse Philippe: [25] É licito, se crês de todo o coração. E, respondendo elle, disse: [26] Creio que Jesus Christo é o Filho de Deus.
38 E mandou parar o carro, e desceram ambos á agua, tanto Philippe como o eunucho, e o baptizou.
39 E, quando sairam da agua, o Espirito do Senhor arrebatou a Philippe, [27] e não o viu mais o eunucho; e, jubiloso, continuou o seu caminho.
40 Porém Philippe achou-se em Azoto, e, indo passando, annunciou o evangelho em todas as cidades, até que chegou a Cesarea.
A conversão de Saulo no caminho de Damasco.
Act. 21.1-16; 26.9-18.
Anno Domini 35
9 E Saulo, [1] respirando ainda ameaças e mortes contra os discipulos do Senhor, dirigiu-se ao summo sacerdote,
2 E pediu-lhe cartas para Damasco, para as synagogas, para que, se encontrasse alguns d’aquella seita, quer homens quer mulheres, os conduzisse presos a Jerusalem.
3 E, indo [2] já no caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu.
4 E, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, [3] Saulo, porque me persegues?
5 E elle disse: Quem és, Senhor? E disse o Senhor: [4] Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões.
6 E elle, tremendo e attonito, disse: [5] Senhor, que queres que faça? E disse-lhe o Senhor: Levanta-te, e entra na cidade, e ali te será dito o que te convem fazer.
7 E [6] os varões, que iam com elle, pararam attonitos, ouvindo a voz, mas não vendo ninguem.
8 E Saulo levantou-se da terra, e, abrindo os olhos, não via a ninguem. E, guiando-o pela mão, o conduziram a Damasco.
9 E esteve tres dias sem vêr, e não comeu nem bebeu.
10 E havia em Damasco um certo discipulo [7] chamado Ananias; e disse-lhe o Senhor em visão: Ananias! E elle respondeu: Eis-me aqui, Senhor.
11 E disse-lhe o Senhor: Levanta-te, e vae á rua chamada Direita, e pergunta em casa de Judas por [8] um chamado Saulo, de Tarso; pois eis que elle ora;
12 E tem visto em visão que entrava um homem chamado Ananias, e punha sobre elle a mão, para que tornasse a vêr.
13 E respondeu Ananias: Senhor, a muitos ouvi ácerca d’este varão, quantos [9] males tem feito aos teus sanctos em Jerusalem;
14 E aqui tem poder dos principaes dos sacerdotes para prender a todos os que [10] invocam o teu nome.
15 Disse-lhe, porém, o Senhor: Vae, porque [11] este é para mim vaso escolhido, para levar o meu nome diante [12] dos gentios, [13] e dos reis e dos filhos d’Israel.
16 Porque [14] eu lhe mostrarei quanto deve padecer pelo meu nome.
17 E Ananias [15] foi, e entrou na casa, e, impondo-lhe [16] as mãos, disse: Irmão Saulo, o Senhor Jesus, que te appareceu no caminho por onde vinhas, me enviou, para que tornes a [17] vêr e sejas cheio do Espirito Sancto.
18 E logo lhe cairam dos olhos como que umas escamas, e recebeu logo a vista; e, levantando-se, foi baptizado.
O perseguidor é perseguido.
Anno Domini 37
19 E, tendo comido, ficou confortado. E esteve Saulo [18] alguns dias com os discipulos que estavam em Damasco.
20 E logo nas synagogas prégava a Jesus, [19] que este era o Filho de Deus.
21 E todos os que o ouviam estavam attonitos, e diziam: [20] Não é este aquelle que em Jerusalem assolava aos que invocavam esse nome, e para isso veiu aqui, para os levar presos aos principaes dos sacerdotes?
22 Porém Saulo [21] se esforçava muito mais, e confundia os judeos que habitavam em Damasco, provando que aquelle era o Christo.
23 E, tendo passado muitos dias, [22] os judeos tomaram conselho entre si para o matar.
24 Mas as suas ciladas vieram ao conhecimento de Saulo: e [23] elles guardavam as portas, tanto de dia como de noite, para poderem matal-o.
25 Porém, tomando-o de [24] noite os discipulos, o arriaram, dentro d’um cesto, pelo muro.
26 E, [25] quando Saulo chegou a Jerusalem, procurava ajuntar-se aos discipulos, porém todos se temiam d’elle, não crendo que fosse discipulo.
27 Mas [26] Barnabé, tomando-o comsigo, o trouxe aos apostolos, e lhes contou como no caminho elle vira ao Senhor e lhe fallara, [27] e como em Damasco fallara ousadamente no nome de Jesus.
28 E [28] andava com elles em Jerusalem, entrando e saindo.
29 E fallou ousadamente no nome de Jesus. Fallava e disputava tambem contra os [29] gregos, [30] mas elles procuravam matal-o.
30 Sabendo-o, porém, os irmãos, o acompanharam até Cesarea, e o enviaram a Tarso.
31 Assim [31] pois, as egrejas em toda a Judea, e Galilea e Samaria tinham paz, e eram edificadas; e se multiplicavam, andando no temor do Senhor e consolação do Espirito Sancto.
Cura de Eneas; resurreição de Tabitha.
Anno Domini 38
32 E aconteceu [32] que, passando Pedro por todas as partes, veiu tambem aos sanctos que habitavam em Lydda.
33 E achou ali um certo homem, chamado Eneas, jazendo n’uma cama havia oito annos, o qual era paralytico.
34 E disse-lhe Pedro: [33] Eneas, Jesus Christo te dá saude; levanta-te e faze a tua cama. E logo se levantou.
35 E viram-n’o todos os que habitavam em Lydda e [34] Sarona, os [35] quaes se converteram ao Senhor.
36 E havia em Joppe uma certa discipula chamada Tabitha, que traduzido se diz [AIC] Dorcas. Esta estava cheia [36] de boas obras e esmolas que fazia.
37 E aconteceu n’aquelles dias, que, enfermando ella, morreu; e, tendo-a lavado, a [37] depositaram n’um quarto alto.
38 E, como Lydda era perto de Joppe, ouvindo os discipulos que Pedro estava ali, lhe mandaram dois varões, rogando-lhe que não se demorasse em vir ter com elles.
39 E, levantando-se Pedro, foi com elles; e quando chegou o levaram ao quarto alto, e todas as viuvas o rodearam, chorando e mostrando as tunicas e vestidos que Dorcas fizera quando estava com ellas.
40 Porém Pedro, [38] fazendo-as sair [39] a todas, poz-se de joelhos e orou: e, voltando-se para o corpo, [40] disse: Tabitha, levanta-te. E ella abriu os olhos, e, vendo a Pedro, assentou-se,
41 E elle dando-lhe a mão a levantou, e, chamando os sanctos e as viuvas, apresentou-lh’a viva.
42 E foi isto notorio por toda a Joppe, [41] e muitos crêram no Senhor.
43 E aconteceu que ficou muitos dias em Joppe, com um [42] certo Simão curtidor.
O centurião Cornelio.
Anno Domini 41
10 E havia em Cesarea um certo varão por nome Cornelio, centurião da cohorte chamada italiana,
2 [1] Piedoso e [2] temente a Deus, com toda a sua casa, o qual fazia muitas esmolas ao povo, e de continuo orava a Deus.
3 Este, [3] quasi á hora nona do dia, viu claramente em visão um anjo de Deus, que se dirigia para elle e dizia: Cornelio.
4 E este, fixando os olhos n’elle, e muito atemorisado, disse: Que é, Senhor? E disse-lhe: As tuas orações e as tuas esmolas teem subido para memoria diante de Deus;
5 Agora, pois, envia varões a Joppe, e manda chamar a Simão, que tem por sobrenome Pedro.
6 Este pousa em casa de um [4] certo Simão curtidor, que tem a sua casa junto do mar. [5] Elle te dirá o que deves fazer.
7 E, ido o anjo que lhe fallava, chamou dois dos seus creados, e a um piedoso soldado dos que estavam ao seu serviço.
8 E, havendo-lhes contado tudo, os enviou a Joppe.
9 E no dia seguinte, indo elles seu caminho, e chegando perto da cidade, subiu [6] Pedro ao terraço para orar, quasi á hora sexta.
10 E, tendo fome, quiz comer; e, emquanto lh’o preparavam, sobreveiu-lhe um arrebatamento de sentidos:
11 E viu [7] o céu aberto, e que para elle descia um certo vaso, como um grande lençol atado pelas quatro pontas, e abaixando-se para a terra.
12 No qual havia de todos os animaes da terra quadrupedes, féras e reptis, e aves do céu.
13 E foi-lhe dirigida uma voz: Levanta-te, Pedro, mata e come.
14 Porém Pedro disse: De modo nenhum, Senhor, [8] porque nunca comi coisa alguma commum nem immunda.
15 E segunda vez lhe disse a voz: [9] Não faças tu commum ao que Deus purificou.
16 E aconteceu isto por tres vezes; e o vaso tornou a recolher-se para o céu.
17 E, estando Pedro duvidando entre si que seria aquella visão que tinha visto, eis que os varões que foram enviados por Cornelio, pararam á porta, perguntando pela casa de Simão.
18 E, chamando, perguntaram se Simão, que tinha por sobrenome Pedro, pousava ali.
19 E, pensando Pedro n’aquella visão, [10] disse-lhe o Espirito: Eis que tres varões te buscam:
20 Levanta-te [11] pois, e desce, e vae com elles, não duvidando; porque eu os enviei.
21 E Pedro, descendo para junto dos varões que lhe foram enviados por Cornelio, disse: Eis que sou eu a quem procuraes; qual é a causa porque estaes aqui?
22 E elles disseram: [12] Cornelio, o centurião, varão justo e temente a Deus, [13] e que tem bom testemunho de toda a nação dos judeos, foi avisado por um sancto anjo para que mandasse chamar-te a sua casa, e ouvisse de ti palavras.
23 Então, chamando-os para dentro, os recebeu em casa. Porém no dia seguinte foi Pedro com elles, [14] e foram com elle alguns irmãos de Joppe.
24 E no dia immediato chegaram a Cesarea. E Cornelio os estava esperando, tendo já convidado a seus parentes e amigos mais intimos.
25 E aconteceu que, entrando Pedro, saiu Cornelio a recebel-o, e, prostrando-se a seus pés, o adorou.
26 Porém Pedro o levantou, dizendo: Levanta-te, eu [15] mesmo tambem sou homem.
27 E, fallando com elle, entrou, e achou muitos que ali se haviam ajuntado.
28 E disse-lhes: Vós bem sabeis como não é [16] licito a um varão judeo ajuntar-se ou chegar-se a estrangeiros; mas [17] Deus mostrou-me que a nenhum homem chame commum ou immundo:
29 Pelo que, sendo chamado, vim sem contradizer. Pergunto pois; por que razão mandastes chamar-me?
30 E disse Cornelio: Ha quatro dias estava eu em jejum até esta hora, e orava em minha casa á hora [18] nona.
31 E eis que diante de mim se apresentou um varão [19] com um vestido resplandecente, e disse: [20] Cornelio, a tua oração é ouvida, e as tuas [21] esmolas estão em memoria diante de Deus:
32 Envia pois a Joppe, e manda chamar Simão, o que tem por sobrenome Pedro; este pousa em casa de Simão o curtidor, junto do mar, e elle, vindo, te fallará.
33 Assim que logo mandei a ti; e bem fizeste em vir. Agora pois estamos todos presentes diante de Deus, para ouvir tudo quanto por Deus te é mandado.
34 E Pedro, abrindo a bocca, disse: [22] Reconheço por verdade que Deus não faz accepção de pessoas;
35 Mas [23] que lhe é agradavel aquelle que, em qualquer nação, o teme e obra a justiça.
36 A palavra que elle enviou aos filhos d’Israel, [24] annunciando a paz por Jesus Christo (este [25] é o Senhor de todos),
37 Esta palavra, vós bem sabeis, veiu por toda a Judea, [26] começando desde a Galilea, depois do baptismo que João prégou;
38 Emquanto a Jesus de Nazareth, como [27] Deus o ungiu com o Espirito Sancto e com virtude; o qual andou fazendo bem, e curando a todos os opprimidos do diabo, [28] porque Deus era com elle.
39 E [29] nós somos testemunhas de todas as coisas que fez, tanto na terra da Judea como em Jerusalem: [30] ao qual mataram, pendurando-o n’um madeiro.
40 A [31] este resuscitou Deus ao terceiro dia, e fez que fosse manifesto,
41 Não a todo o povo, [32] mas ás testemunhas que Deus antes ordenára; a nós, [33] que comemos e bebemos juntamente com elle, depois que resuscitou dos mortos.
42 E [34] mandou-nos prégar ao povo, e testificar que elle [35] é aquelle que por Deus [36] foi constituido juiz dos vivos e dos mortos.
43 A [37] este dão testemunho todos os prophetas, de que [38] todos os que n’elle crêrem receberão o perdão dos peccados pelo seu nome.
44 E, dizendo Pedro ainda estas palavras, [39] caiu o Espirito Sancto sobre todos os que ouviam a palavra.
45 E [40] os fieis que eram da circumcisão, todos quantos tinham vindo com Pedro, [41] maravilharam-se de que o dom do Espirito Sancto se derramasse tambem sobre os gentios.
46 Porque os ouviam fallar linguas, e magnificar a Deus.
47 Respondeu então Pedro: Pode alguem porventura impedir a agua, para que não sejam baptizados estes, que tambem receberam como nós [42] o Espirito Sancto?
48 [43] E mandou que fossem baptizados em [44] nome do Senhor. Então rogaram-lhe que ficasse com elles por alguns dias.
Pedro justifica-se perante a egreja de haver baptizado Cornelio.
11 E ouviram os apostolos, e os irmãos que estavam na Judea, que tambem os gentios receberam a palavra de Deus.
2 E, subindo Pedro a Jerusalem, disputavam [1] com elle os que eram da circumcisão,
4 Mas Pedro começou a contar-lhes tudo [4] por ordem, dizendo:
5 Estando [5] eu orando na cidade de Joppe, vi, arrebatado dos sentidos, uma visão, um certo vaso, como um grande lençol que descia do céu e, baixado, vinha até junto de mim.
6 No qual, pondo eu os olhos, considerei, e vi animaes da terra, quadrupedes, e féras, e reptis, e aves do céu.
7 E ouvi uma voz que me dizia: Levanta-te, Pedro; mata e come.
8 Porém eu disse: De maneira nenhuma, Senhor; pois nunca em minha bocca entrou coisa alguma commum ou immunda.
9 Mas a voz respondeu-me do céu segunda vez: Não chames tu commum ao que Deus purificou.
10 E succedeu isto por tres vezes; e tudo tornou a recolher-se no céu.
11 E eis que, na mesma hora, pararam junto da casa em que eu estava tres varões que me foram enviados de Cesarea.
12 E [6] disse-me o Espirito que fosse com elles, não duvidando; e tambem estes [7] seis irmãos foram comigo, e entrámos em casa d’aquelle varão;
13 E [8] contou-nos como vira estar um anjo em sua casa, e lhe dissera: Envia varões a Joppe, e manda chamar a Simão, que tem por sobrenome Pedro,
14 O qual te dirá palavras com que te salves, tu e toda a tua casa.
15 E, quando comecei a fallar, caiu sobre elles o Espirito Sancto [9] como tambem sobre nós ao principio.
16 E lembrei-me do dito do Senhor, quando disse: João [10] certamente baptizou com agua: [11] mas vós sereis baptizados com o Espirito Sancto.
17 Portanto, [12] se Deus lhes deu o mesmo dom que a nós, que tambem já havemos crido no Senhor Jesus Christo, quem [13] era então eu, para que podesse estorvar a Deus?
18 E, ouvindo estas coisas, apaziguaram-se, e glorificaram a Deus, dizendo: [14] De maneira que até aos gentios deu Deus o arrependimento para a vida.
O evangelho é prégado aos gentios em Antiochia.
19 E [15] os que foram dispersos pela perseguição que succedeu por causa d’Estevão caminharam até á Phenicia, Chypre e Antiochia, não annunciando a ninguem a palavra, senão só aos judeos.
20 E havia entre elles alguns varões chyprios e cyrenenses, os quaes, entrando em Antiochia, fallaram [16] aos gregos, annunciando o Senhor Jesus.
22 E chegou a fama d’isto aos ouvidos da egreja que estava em Jerusalem; e enviaram [19] Barnabé á Antiochia.
23 O qual, quando chegou, e viu a graça de Deus, se alegrou, [20] e exhortou a todos a que permanecessem no Senhor com proposito do coração.
24 Porque era homem de bem, [21] e cheio do Espirito Sancto e de fé. E muita gente se [22] uniu ao Senhor.
25 E partiu Barnabé para [23] Tarso, a buscar Saulo; e, achando-o, o conduziu para Antiochia.
26 E succedeu que todo um anno se congregaram n’aquella egreja, e ensinaram muita gente; e em Antiochia foram os discipulos, pela primeira vez, chamados christãos.
27 E n’aquelles dias [24] desceram prophetas de Jerusalem para Antiochia.
28 E, levantando-se um d’elles, por nome [25] Agabo, dava a entender, pelo Espirito, que haveria uma grande fome em todo o mundo, a qual aconteceu no tempo de Claudio Cesar.
29 E os discipulos determinaram mandar, cada um conforme o que podesse, [26] soccorro para serviço dos irmãos que habitavam na Judea,
30 O [27] que elles com effeito fizeram, enviando-o aos anciãos por mão de Barnabé e de Saulo.
Herodes manda matar Thiago—Pedro é livre da prisão—A morte de Herodes.
Anno Domini 44
12 E por aquelle mesmo tempo o rei Herodes estendeu as mãos sobre alguns da egreja, para os maltratar;
2 E matou á espada Thiago, [1] irmão de João.
3 E, vendo que isso agradára aos judeos, continuou, mandando prender tambem a Pedro. E [2] eram os dias dos asmos.
4 E, [3] havendo-o prendido, o encerrou na prisão, entregando-o a quatro quaternos de soldados, para que o guardassem, querendo apresental-o ao povo depois da paschoa.
5 Pedro, pois, era guardado na prisão; porém a egreja fazia continua oração por elle a Deus.
6 E quando Herodes o havia de tirar, n’aquella mesma noite, estava Pedro dormindo entre dois soldados, ligado com duas cadeias, e os guardas diante da porta guardavam a prisão.
7 E eis que [4] sobreveiu o anjo do Senhor, e resplandeceu uma luz na prisão; e, tocando a Pedro na ilharga, o despertou, dizendo: Levanta-te depressa. E cairam-lhe das mãos as cadeias.
8 E disse-lhe o anjo: Cinge-te, e ata as tuas alparcas. E elle o fez assim. Disse-lhe mais: Lança ás costas a tua capa, e segue-me.
9 E, saindo, o seguia. [5] E não sabia que fosse verdade o que era feito pelo anjo, mas cuidava [6] que via alguma visão.
10 E, quando passaram a primeira e segunda guarda, chegaram á porta de ferro, que dá para a cidade, [7] a qual se lhes abriu por si mesma; e, tendo saido, andaram uma rua, e logo o anjo se apartou d’elle.
11 E Pedro, tornando a si, disse: [8] Agora sei verdadeiramente que o Senhor enviou o seu anjo, [9] e me livrou da mão de Herodes, e de tudo o que o povo dos judeos esperava.
12 E, considerando elle n’isto, [10] foi a casa de Maria, mãe de [11] João, que tinha por sobrenome Marcos, onde muitos estavam juntos e [12] orando.
13 E, batendo Pedro á porta do pateo, uma menina chamada Rhode saiu a escutar;
14 E, conhecendo a voz de Pedro, de gozo não abriu a porta do pateo, mas, correndo para dentro, annunciou que Pedro estava fóra á porta do pateo.
15 E disseram-lhe: Estás fóra de ti. Mas ella affirmava que assim era. E diziam: [13] É o seu anjo.
16 Porém Pedro perseverava em bater, e, quando abriram, viram-n’o, e se espantaram.
17 E, acenando-lhes [14] elle com a mão para que se calassem, contou-lhes como o Senhor o tirára da prisão, e disse: Annunciae isto a Thiago e aos irmãos. E, saindo, partiu para outro logar.
18 E, sendo já dia, houve não pouco alvoroço entre os soldados sobre o que seria feito de Pedro.
19 E, quando Herodes o buscou e o não achou, feita inquirição aos guardas, mandou-os justiçar. E, partindo da Judea para Cesarea, ficou ali.
20 E Herodes estava irritado com os de Tyro e de Sidon; porém elles, vindo de commum accordo ter com elle, e persuadindo Blasto, que era o camarista do rei, pediam paz: porquanto [15] o seu paiz sustentava-se do paiz do rei.
21 E n’um dia designado, vestindo Herodes as vestes reaes, e assentado no tribunal, lhes fez uma pratica.
22 E o povo exclamava: Voz de Deus, e não de homem.
23 E no mesmo instante [16] feriu-o o anjo do Senhor, [17] porquanto não deu gloria a Deus, e, comido de bichos, expirou.
24 [18] E a palavra de Deus crescia e se multiplicava.
25 E Barnabé e Saulo, havendo cumprido aquelle serviço, voltaram de Jerusalem, [19] levando tambem [20] comsigo a João, que tinha por sobrenome Marcos.
Barnabé e Saulo são enviados pela egreja de Antiochia, e pregam em Chypre: Elymas o encantador.
Anno Domini 45
13 E na [1] egreja que estava em Antiochia havia alguns prophetas e doutores, a saber: [2] Barnabé e Simeão, chamado Niger, e [3] Lucio cyreneo, e Manahen, que fôra criado com Herodes o tetrarcha, e Saulo.
2 E, servindo elles ao Senhor, e jejuando, disse o Espirito [4] Sancto: Apartae-me a Barnabé e a Saulo para a obra para [5] que os tenho chamado.
3 Então, [6] jejuando e orando, e pondo sobre elles as mãos, os despediram.
4 Estes então, enviados pelo Espirito Sancto, desceram a Seleucia e d’ali navegaram para [7] Chypre.
5 E, chegados a Salamina, [8] annunciavam a palavra de Deus nas synagogas dos judeos; e tinham tambem a João [9] por ministro.
6 E, havendo atravessado a ilha até Paphos, acharam [10] um certo judeo magico, falso propheta, chamado Bar-jesus,
7 O qual estava com o proconsul Sergio Paulo, varão prudente. Este, chamando a si Barnabé e Saulo, procurava muito ouvir a palavra de Deus.
8 Mas [11] resistia-lhes Elymas, o encantador (que assim se interpreta o seu nome), procurando apartar da fé o proconsul.
9 Porém Saulo, que tambem se chama Paulo, [12] cheio do Espirito Sancto, e fixando os olhos n’elle, disse:
10 Ó filho do diabo, cheio de todo o engano e de toda a malicia, [13] inimigo de toda a justiça, não cessarás de perturbar os rectos caminhos do Senhor?
11 Eis-ahi, pois, [14] agora contra ti a mão do Senhor, e ficarás cego, sem vêr o sol por algum tempo. E no mesmo instante a escuridão e as trevas cairam sobre elle, e, andando em redor, buscava a quem o guiasse pela mão.
12 Então o proconsul, vendo o que havia acontecido, creu, maravilhado da doutrina do Senhor.
O discurso de Paulo na synagoga de Antiochia da Pisidia: a opposição dos judeos.
13 E, partindo de Paphos, Paulo e os que estavam com elle chegaram a Perge, cidade da Pamphylia. [15] Porém João, apartando-se d’elles, voltou para Jerusalem.
14 E elles, saindo de Perge, chegaram a Antiochia, [16] da Pisidia, e, entrando na synagoga, n’um dia de sabbado, assentaram-se;
15 E, depois [17] da lição da lei e dos prophetas, lhes mandaram dizer os principaes da synagoga: Varões irmãos, [18] se vós tendes alguma palavra de consolação para o povo, fallae.
16 E, levantando-se Paulo, [19] e pedindo silencio com a mão, disse: Varões israelitas, e os [20] que temeis a Deus, ouvi:
17 O Deus d’este povo d’Israel escolheu a [21] nossos paes, e exaltou o [22] povo, sendo elles estrangeiros na terra do Egypto; e [23] com braço levantado os tirou d’ella;
18 E [24] supportou os seus costumes no deserto por espaço de quasi quarenta annos.
19 E, [25] destruindo a sete nações na terra de Canaan, [26] lhes repartiu por sorte a terra d’elles.
20 E, depois d’isto, [27] por quasi quatrocentos e cincoenta annos, lhes deu juizes, [28] até ao propheta Samuel.
21 E [29] depois pediram um rei, e Deus lhes deu por quarenta annos, a Saul filho de Kis, varão da tribu de Benjamin.
22 [30] E, tirado este, [31] lhes levantou como rei a David, ao qual tambem deu testemunho, e disse: [32] Achei a David, filho de Jessé, [33] varão conforme o meu coração, que executará toda a minha vontade.
23 Da [34] descendencia d’este, conforme [35] a promessa, levantou Deus a Jesus [36] para Salvador d’Israel;
24 Tendo primeiramente [37] João, antes da vinda d’elle, prégado a todo o povo d’Israel o baptismo do arrependimento.
25 Mas, como João cumprisse a sua carreira, disse: [38] Quem pensaes vós que eu sou? Eu não sou o Christo; mas eis que após mim vem aquelle a quem não sou digno de desatar as alparcas dos pés.
26 Varões irmãos, filhos da geração d’Abrahão, e os que d’entre vós temem a Deus, [39] a vós vos é enviada a palavra d’esta salvação.
27 Porque, [40] não conhecendo a este os que habitavam em Jerusalem, nem os seus principes, condemnando-o, cumpriram assim as vozes dos [41] prophetas que se lêem todos [42] os sabbados.
29 E, [45] havendo elles cumprido todas as coisas que d’elle estavam escriptas, tirando-o [46] do madeiro, o pozeram na sepultura;
31 E elle por muitos dias foi visto pelos que subiram com elle [49] da Galilea a Jerusalem, [50] e são suas testemunhas para com o povo.
32 E nós vos annunciamos [51] a promessa que foi feita aos paes, a qual já Deus nos cumpriu, a nós, seus filhos, resuscitando a Jesus:
33 Como tambem está escripto no psalmo segundo: Meu filho és [52] tu, hoje te gerei.
34 E que o resuscitaria dos mortos, para nunca mais tornar á corrupção, disse-o assim: [53] [AID] As sanctas e fieis bençãos de David vos darei.
35 Pelo que tambem em outro psalmo diz: [54] Não permittirás que o teu sancto veja corrupção.
36 Porque, na verdade, tendo David no seu tempo servido conforme a vontade de Deus, [55] dormiu, e foi posto junto de seus paes e viu a corrupção,
37 Mas aquelle a quem Deus resuscitou nenhuma corrupção viu.
38 Seja-vos pois notorio, varões irmãos, [56] que por este se vos annuncia a remissão dos peccados.
39 E de tudo o que, pela lei de Moysés não podestes ser justificados n’este é [57] justificado todo aquelle que crê.
40 Vêde pois que não venha sobre vós o que está dito nos [58] prophetas:
41 Vêde, ó desprezadores, e espantae vos e desapparecei; porque opéro uma obra em vossos dias, obra que não crereis, se alguem vol-a contar.
42 E, saidos os judeos da synagoga, os gentios rogaram que no sabbado seguinte se lhes fallassem as mesmas coisas.
43 E, despedida a synagoga, muitos dos judeos e dos proselytos religiosos seguiram Paulo e Barnabé; os quaes, fallando-lhes, [59] os exhortavam a que permanecessem [60] na graça de Deus.
44 E no sabbado seguinte ajuntou-se quasi toda a cidade a ouvir a palavra de Deus.
45 Porém os judeos, vendo a multidão, encheram-se de inveja: e, blasphemando, [61] contradiziam o que Paulo dizia.
46 Mas Paulo e Barnabé, usando de ousadia, disseram: [62] Era mister que a vós se vos fallasse primeiro a palavra de Deus; [63] mas, visto que a rejeitaes, e vos não julgaes dignos da vida eterna, eis que [64] nós voltamos para os gentios;
47 Porque o Senhor assim nol-o mandou, dizendo: [65] Eu te puz para luz dos gentios, para que sejas para salvação até aos confins da terra.
48 E os gentios, ouvindo isto, alegraram-se, e glorificavam a palavra do Senhor; [66] e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna.
49 E a palavra do Senhor se divulgava por toda aquella provincia.
50 Mas os judeos incitaram [67] a algumas mulheres religiosas e honestas, e aos principaes da cidade, e levantaram perseguição contra Paulo e Barnabé, e os lançaram fóra dos seus termos.
51 Sacudindo, [68] porém, contra elles o pó dos seus pés, partiram para Iconio.
52 E os discipulos estavam [69] cheios d’alegria e do Espirito Sancto.
O evangelho é prégado em Iconio, Lystra, e Derbe; successo e perseguição; a volta a Antiochia.
Anno Domini 46
14 E aconteceu que em Iconio entraram juntos na synagoga dos judeos, e fallaram de tal modo, que creu uma grande multidão, não só de judeos mas de gregos.
2 Porém os judeos incredulos incitaram e irritaram, contra os irmãos, os animos dos gentios.
3 Detiveram-se pois muito tempo, fallando ousadamente no Senhor, [1] o qual dava testemunho á palavra da sua graça, permittindo que por suas mãos se fizessem signaes e prodigios.
4 E dividiu-se a multidão da cidade; e [2] uns eram pelos judeos, e outros pelos apostolos.
5 E, havendo um motim, tanto dos judeos como dos gentios, com os seus principaes, [3] para os insultarem e apedrejarem,
6 Entendendo-o elles, [4] acolheram-se a Lystra e Derbe, cidades de Lycaonia, e á provincia circumvisinha;
7 E ali prégavam o Evangelho.
8 E estava assentado em [5] Lystra um certo varão leso dos pés, côxo desde o ventre de sua mãe, o qual nunca tinha andado.
9 Este ouviu fallar Paulo, que, fixando n’elle os olhos, [6] e vendo que tinha fé para ser curado,
10 Disse em voz [7] alta: Levanta-te direito sobre teus pés. E elle saltou e andou.
11 E as multidões, vendo o que Paulo fizera, levantaram a sua voz, dizendo em lingua lycaonica: [8] Fizeram-se os deuses similhantes aos homens, e desceram até nós.
12 E chamavam Jupiter a Barnabé, e Mercurio a Paulo; porque este era o que fallava.
13 E o sacerdote de Jupiter, que estava em frente da cidade, trazendo para a entrada da porta toiros e grinaldas, [9] queria com a multidão sacrificar-lhes.
14 Ouvindo, porém, isto os apostolos Barnabé e Paulo, [10] rasgaram os seus vestidos, e saltaram entre a multidão, clamando,
15 E dizendo: Varões, [11] porque fazeis essas coisas? [12] Nós tambem somos homens como vós, sujeitos ás mesmas paixões, [13] e vos annunciamos que vos convertaes d’essas vaidades ao [14] Deus vivo, [15] que fez o céu, e a terra, e o mar, e tudo quanto ha n’elles;
16 O qual nos [16] tempos passados deixou andar todas as gentes em seus caminhos.
17 Ainda [17] que, apezar d’isso, nunca se deixou a si mesmo sem testemunho, beneficiando lá do céu, [18] dando-nos chuvas e tempos fructiferos, enchendo de mantimento e de alegria os nossos corações.
19 Sobrevieram, porém, alguns judeos de Antiochia e de Iconio, e, persuadindo a multidão, apedrejaram a Paulo, e o arrastaram para fóra da cidade, cuidando que estava morto.
20 Mas, rodeando-o os discipulos, levantou-se, [21] e entrou na cidade, e no dia seguinte saiu com Barnabé para Derbe.
21 E, tendo annunciado o evangelho áquella cidade, e feito muitos discipulos, voltaram para Lystra, e Iconio, e Antiochia,
22 Confirmando os animos dos discipulos, [22] exhortando-os a permanecer na fé, e [23] dizendo que por muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus.
23 E, havendo-lhes, [24] por commum consentimento, eleito anciãos em cada egreja, orando com jejuns, os encommendaram ao Senhor em quem haviam crido.
24 Passando depois por Pisidia, dirigiram-se a Pamphylia.
25 E, tendo annunciado a palavra em Perge, desceram a Attalia.
26 E d’ali navegaram para Antiochia, [25] d’onde tinham sido [26] encommendados á graça de Deus para a obra que já haviam cumprido.
27 E, quando chegaram e reuniram a egreja, [27] relataram quão grandes coisas Deus fizera por elles, e [28] como abrira aos gentios a porta da fé.
28 E ficaram ali não pouco tempo com os discipulos.
A questão ácerca do rito mosaico; a assembléa de Jerusalem, e sua decisão.
Anno Domini 52
15 Então [1] alguns que tinham descido da Judea ensinavam os irmãos, dizendo: Se vos [2] não circumcidardes, conforme o uso de Moysés, não podeis salvar-vos.
2 Feita pois por Paulo e Barnabé não pequena dissensão e contenda contra elles, resolveu-se que Paulo [3] e Barnabé, e alguns d’entre elles, subissem a Jerusalem, aos apostolos e aos anciãos, sobre aquella questão.
3 De sorte [4] que elles, acompanhados pela egreja, passavam pela Phenicia e por Samaria, [5] contando a conversão dos gentios; e davam grande alegria a todos os irmãos.
4 E, vindos a Jerusalem, foram recebidos pela egreja e pelos apostolos e anciãos, [6] e lhes annunciavam quão grandes coisas Deus tinha feito com elles.
5 Porém alguns da seita dos phariseos, que tinham crido, se levantaram, dizendo [7] que era mister circumcidal-os e mandar-lhes que guardassem a lei de Moysés.
6 Congregaram-se pois os apostolos e os anciãos para examinar este negocio.
7 E, havendo grande contenda, levantou-se Pedro e disse-lhes: [8] Varões irmãos, bem sabeis que já ha muito tempo Deus me elegeu d’entre nós, para que os gentios ouvissem da minha bocca a palavra do evangelho, e cressem.
8 E Deus, [9] que conhece os corações, deu testemunho d’elles, [10] dando-lhes o Espirito Sancto, assim como tambem a nós;
10 Agora, pois, porque tentaes a Deus, pondo sobre a cerviz dos discipulos um [13] jugo que nem nossos paes nem nós podémos supportar?
11 Antes [14] crêmos que seremos salvos pela graça do Senhor Jesus Christo, como elles tambem.
12 Então toda a multidão se calou, e escutava a Barnabé e a Paulo, [15] que contavam quão grandes signaes e prodigios Deus havia [16] feito por meio d’elles entre os gentios.
13 E, havendo-se elles calado, [17] tomou Thiago a palavra, dizendo: Varões irmãos, ouvi-me:
14 Simão [18] relatou como Deus primeiramente visitou os gentios, para tomar d’elles um povo para o seu nome.
15 E com isto concordam as palavras dos prophetas; como está escripto:
16 Depois [19] d’isto voltarei, e reedificarei o tabernaculo de David, que está caido, e reedificarei as suas ruinas, e tornarei a levantal-o.
17 Para que o resto dos homens busque ao Senhor, e todos os gentios, sobre os quaes o meu nome é invocado, diz o Senhor, que faz todas estas coisas.
18 São notorias a Deus desde toda a eternidade as suas obras.
19 Pelo que [20] julgo que não se deve perturbar aquelles, d’entre os gentios, que se [21] convertem a Deus,
20 Mas escrever-lhes que se abstenham [22] das contaminações dos idolos, e da fornicação, [23] e das carnes suffocadas e [24] do sangue.
21 Porque Moysés, desde os tempos antigos, tem em cada cidade quem [25] o prégue, e cada sabbado é lido nas synagogas.
22 Então pareceu bem aos apostolos e aos anciãos, com toda a egreja, eleger d’elles alguns varões, e envial-os com Paulo e Barnabé a Antiochia, a saber: Judas, chamado Barsabbás, e [26] Silas, varões distinctos entre os irmãos.
23 E por elles escreveram o seguinte: Os apostolos, e os anciãos e os irmãos, aos irmãos d’entre os gentios que estão em Antiochia, e Syria e Cilicia, saude.
24 Porquanto ouvimos que [27] alguns que sairam d’entre nós vos perturbaram com palavras, e transtornaram as vossas almas, dizendo que devieis circumcidar-vos e guardar a lei, aos quaes nada mandámos:
25 Pareceu-nos bem, reunidos concordemente, eleger alguns varões, e envial-os com os nossos amados Barnabé e Paulo,
26 Homens [28] que já expozeram as suas vidas pelo nome de nosso Senhor Jesus Christo.
27 Enviamos pois Judas e Silas, os quaes de bocca vos annunciarão tambem o mesmo.
28 Porque pareceu bem ao Espirito Sancto, e a nós, não vos impôr mais encargo algum, senão estas coisas necessarias:
29 Que [29] vos abstenhaes das coisas sacrificadas aos idolos, [30] e do sangue, e da carne suffocada, e da fornicação: das quaes coisas fazeis bem se vos guardardes. Bem vos vá.
30 Tendo-se elles pois despedido, partiram para Antiochia, e, ajuntando a multidão, entregaram a carta.
31 E, lendo-a, alegraram-se, pela consolação a que lhes causava.
32 Depois Judas e Silas, que tambem eram [31] prophetas, exhortaram e confirmaram os irmãos com muitas palavras.
33 E, detendo-se ali algum tempo, os [32] irmãos os deixaram voltar em paz para os apostolos;
34 Mas pareceu bem a Silas ficar ali.
Separação entre Paulo e Barnabé.
35 E Paulo [33] e Barnabé ficaram em Antiochia, ensinando e prégando, com muitos outros, a palavra do Senhor.
36 E alguns dias depois disse Paulo a Barnabé: Tornemos a visitar nossos irmãos [34] por cada cidade em que já annunciámos a palavra do Senhor, a vêr como estão.
37 E Barnabé aconselhava que tomassem comsigo a João, chamado Marcos.
38 Mas a Paulo parecia razoavel que não tomassem comsigo [35] aquelle que desde Pamphylia [36] se tinha apartado d’elles, e não tinha ido com elles áquella obra.
39 E tal contenda houve entre elles, que se apartaram um do outro. Barnabé, levando comsigo a Marcos, navegou para Chypre.
Paulo emprehende uma segunda viagem missionaria na companhia de Silas e Timotheo.
40 E Paulo, tendo escolhido a Silas, partiu, [37] encommendado pelos irmãos á graça de Deus.
41 E foi passando por Syria e Cilicia, confirmando [38] as egrejas.
16 E chegou a [1] Derbe e Lystra. E eis que estava ali um certo discipulo por nome [2] Timotheo, [3] filho de uma mulher judia fiel, mas de pae grego:
Anno Domini 53
2 Do qual [4] davam bom testemunho os irmãos que estavam em Lystra e em Iconio.
3 Paulo quiz que este fosse com elle: e [5] tomando-o, o circumcidou, por causa dos judeos que estavam n’aquelles logares; porque todos sabiam que seu pae era grego.
4 E, quando iam passando pelas cidades, lhes entregavam, para serem observados, os decretos [6] que haviam sido estabelecidos pelos apostolos e anciãos em Jerusalem.
5 De sorte [7] que as egrejas eram confirmadas na fé, e cada dia se augmentavam em numero.
6 E, passando pela Phrygia e pela provincia da Galacia, foram impedidos pelo Espirito Sancto de annunciar a palavra na Asia.
7 E, quando chegaram a Mysia, intentavam ir para Bithynia, porém o Espirito não lh’o permittiu.
8 E, passando por Mysia, [8] desceram a Troas.
A visão em Troas. Paulo passa á Macedonia e préga em Philippos. Lydia, a pythonissa. O carcereiro de Philippos.
9 E Paulo viu de noite uma visão, em que se apresentou [9] um varão da Macedonia, e lhe rogou, dizendo: Passa á Macedonia, e ajuda-nos.
10 E, logo que viu a visão, procurámos partir [10] para a Macedonia, concluindo que o Senhor nos chamava para lhes annunciarmos o evangelho.
11 E, navegando de Troas, fomos correndo caminho direito para Samothracia, e no dia seguinte para Napoles;
12 E d’ali para [11] Philippos, que é a primeira cidade d’esta parte da Macedonia, e é uma colonia; e estivemos alguns dias n’aquella cidade.
13 E no dia de sabbado saimos fóra da cidade para o rio, onde se costumava fazer oração; e, assentando-nos, fallámos ás mulheres que ali se ajuntaram.
14 E uma certa mulher, chamada Lydia, vendedora de purpura, da cidade de Thyatira, e que servia a Deus, nos ouvia, [12] e o Senhor lhe abriu o coração para que estivesse attenta ao que Paulo dizia.
15 E, depois que foi baptizada, ella e a sua casa, nos rogou, dizendo: Se haveis julgado que eu seja fiel ao Senhor, entrae em minha casa, e ficae [13] ali. E nos constrangeu a isso.
16 E aconteceu que, indo nós á oração, nos saiu ao encontro uma moça [14] que tinha espirito de adivinhação, [15] a qual, adivinhando, dava grande lucro aos seus senhores.
17 Esta, seguindo a Paulo e a nós, clamava, dizendo: Estes homens, que nos annunciam o caminho da salvação, são servos do Deus Altissimo.
18 E ella fazia isto por muitos dias. Porém, [16] descontentando isto a Paulo, voltou-se, e disse ao espirito: Em nome de Jesus Christo, te mando que saias d’ella. [17] E na mesma hora saiu.
19 E, [18] vendo seus senhores que a esperança do seu lucro estava perdida, pegaram [19] de Paulo e Silas, e os levaram á praça, á presença dos magistrados.
20 E, apresentando-os aos magistrados, disseram: Estes homens, [20] sendo judeos, perturbaram a nossa cidade,
21 E prégam ritos que nos não é licito receber nem praticar, visto que somos romanos.
22 E a multidão se levantou juntamente contra elles, [21] e os magistrados, rasgando-lhes os vestidos, mandaram açoital-os com varas,
23 E, havendo-lhes dado muitos açoites, os lançaram na prisão, mandando ao carcereiro que os guardasse com segurança.
24 O qual, tendo recebido tal ordem, os lançou no carcere mais interior, e lhes segurou os pés no tronco.
25 E, perto da meia noite, Paulo e Silas oravam e cantavam hymnos a Deus, e os outros presos os escutavam.
26 E [22] de repente sobreveiu um tão grande terremoto, que os alicerces do carcere se moveram, e logo [23] se abriram todas as portas e se soltaram as prisões de todos.
27 E, acordando o carcereiro, e vendo abertas as portas da prisão, tirando da espada, quiz matar-se, cuidando que os presos já tinham fugido.
28 Porém Paulo clamou com grande voz, dizendo: Não te faças nenhum mal, que todos aqui estamos.
29 E, pedindo luz, saltou dentro, e, todo tremendo, se prostrou aos pés de Paulo e Silas.
30 E, tirando-os para fóra, disse: Senhores, [24] que me é necessario fazer para me salvar?
31 E elles disseram: [25] Crê no Senhor Jesus Christo, e serás salvo, tu e a tua casa.
32 E lhe fallavam a palavra do Senhor, e a todos os que estavam em sua casa.
33 E, tomando-os elle comsigo n’aquella mesma hora da noite, lavou-lhes os açoites; e logo foi baptizado, elle e todos os seus.
34 E, levando-os a sua casa, [26] lhes poz a mesa; e, crendo em Deus, alegrou-se com toda a sua casa.
35 E, sendo já dia, os magistrados mandaram quadrilheiros, dizendo: Soltae aquelles homens.
36 E o carcereiro annunciou a Paulo estas palavras, dizendo: Os magistrados mandaram que vos soltasse; agora pois sahi, e ide em paz.
37 Porém Paulo disse-lhes: Açoitaram-nos publicamente e, sem ser sentenciados, [27] sendo homens romanos, nos lançaram na prisão, e agora encobertamente nos lançam fóra? Não será assim; mas venham elles mesmos e tirem-nos para fóra.
38 E os quadrilheiros foram dizer aos magistrados estas palavras; e elles temeram, ouvindo que eram romanos.
39 E, vindo, [28] lhes rogaram; e, tirando-os para fóra, lhes pediram que saissem da cidade.
40 E, saindo da prisão, [29] entraram em casa de Lydia, e, vendo os irmãos, os confortaram, e depois partiram.
Paulo em Thessalonica e em Berea.
Anno Domini 54
17 E, passando por Amphipolis e Apollonia, chegaram a Thessalonica, onde havia uma synagoga de judeos.
2 E Paulo, [1] como tinha por costume, foi ter com elles; e por tres sabbados disputou com elles sobre as Escripturas,
3 Declarando-as, [2] e demonstrando que convinha que o Christo padecesse e resuscitasse dos mortos. E este Jesus, que vos annuncio, dizia elle, é o Christo.
4 E [3] alguns d’elles crêram, e ajuntaram-se com Paulo e [4] Silas uma grande multidão de gregos religiosos, e não poucas mulheres principaes.
5 Porém os judeos desobedientes, movidos d’inveja, tomaram comsigo alguns homens malignos, d’entre os vadios, e, ajuntando o povo, alvoroçaram a cidade, e, accommettendo a casa de Jason, [5] procuravam tiral-os para junto do povo.
6 E, não os achando, trouxeram com violencia a Jason, e alguns irmãos, aos magistrados da cidade, [6] clamando: Estes que teem alvoroçado o mundo, chegaram tambem aqui;
7 Os quaes Jason tem recolhido; e todos estes obram contra os mandados de Cesar, [7] dizendo que ha outro rei, a saber, Jesus.
8 E alvoroçaram a multidão e os principaes da cidade, que ouviram estas coisas.
9 Tendo, porém, recebido satisfação de Jason, e dos demais, os soltaram.
10 E logo [8] os irmãos enviaram de noite Paulo e Silas a Berea: os quaes, chegando lá, foram á synagoga dos judeos.
11 E estes foram mais nobres do que os que estavam em Thessalonica, porque de bom grado receberam a palavra, [9] examinando cada dia nas Escripturas se estas coisas eram assim.
12 De sorte que crêram muitos d’elles, e mulheres gregas honestas, e não poucos varões.
13 Mas, logo que os judeos de Thessalonica souberam que a palavra de Deus tambem era annunciada por Paulo em Berea, foram tambem lá, e commoveram as multidões.
14 Porém [10] no mesmo instante os irmãos mandaram a Paulo que fosse como para o mar, mas Silas e Timotheo ficaram ali.
Paulo em Athenas; o seu discurso no Areopago.
15 E os que acompanhavam Paulo o levaram até Athenas, [11] e, recebendo ordem para que Silas e Timotheo fossem ter com elle o mais depressa possivel, partiram.
16 E, emquanto Paulo os esperava em Athenas, [12] o seu espirito se commovia em si mesmo, vendo a cidade tão dada á idolatria.
17 De sorte que disputava na synagoga com os judeos e religiosos, e todos os dias na praça com os que se apresentavam.
18 E alguns dos philosophos epicureos e estoicos contendiam com elle; e uns diziam: Que quer dizer este paroleiro? E outros: Parece que é prégador de deuses estranhos. Porque lhes annunciava a Jesus e a resurreição.
19 E, tomando-o, o levaram ao Areopago, dizendo: Poderemos nós saber que nova doutrina é essa de que fallas?
20 Pois coisas estranhas nos trazes aos ouvidos: queremos pois saber o que vem a ser isto.
21 (Pois todos os athenienses e hospedes estrangeiros de nenhuma outra coisa se occupavam, senão de dizer e ouvir alguma coisa nova).
22 E, estando Paulo no meio do Areopago, disse: Varões athenienses, em tudo vos vejo um tanto supersticiosos:
23 Porque, passando eu e vendo os vossos sanctuarios, achei tambem um altar em que estava escripto: AO DEUS DESCONHECIDO. Aquelle pois que vós honraes, não o conhecendo, vos annuncio.
24 O Deus [13] que fez o mundo e todas as coisas que n’elle ha: este, sendo Senhor [14] do céu e da terra, [15] não habita em templos feitos por mãos de homens;
25 Nem tão pouco é servido por mãos de homens, [16] como que necessitando de alguma coisa; pois é [17] elle só quem dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas;
26 E de um sangue fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos [18] já d’antes ordenados, e os limites da sua habitação;
27 Para [19] que buscassem ao Senhor, se porventura o podessem apalpar e achar; ainda [20] que não está longe de cada um de nós;
28 Porque [21] n’elle vivemos, e nos movemos, e existimos; [22] como tambem alguns dos vossos poetas disseram: Porque somos tambem sua geração.
29 Sendo pois geração de Deus, [23] não havemos de cuidar que a divindade seja similhante ao oiro, ou á prata, ou á pedra esculpida por artificio e imaginação dos homens.
30 De sorte que Deus, [24] [AIE] dissimulando os tempos da ignorancia, [25] annuncia agora a todos os homens, e em todo o logar, que se arrependam;
31 Porquanto tem determinado um dia [26] em que com justiça ha-de julgar o mundo com justiça por aquelle varão que destinou; dando certeza a todos, [27] resuscitando-o dos mortos.
32 E, como ouviram da resurreição dos mortos, uns escarneciam, e outros diziam: Ácerca d’isso te ouviremos outra vez.
33 E assim Paulo saiu do meio d’elles.
34 Porém, chegando alguns varões a elle, creram: entre os quaes foram Dionysio, areopagita, e uma mulher por nome Damaris, e com elles outros.
Paulo em Corintho; em Epheso; volta para Jerusalem.
Anno Domini 55
18 E depois d’isto partiu Paulo de Athenas, e chegou a Corintho.
2 E, achando um certo judeo por nome [1] Aquila, natural do Ponto, que havia pouco que tinha vindo da Italia, e Priscilla, sua mulher (porquanto Claudio tinha mandado que todos os judeos saissem de Roma), se ajuntou com elles,
3 E, porque era do mesmo officio, ficou com elles, [2] e trabalhava; pois tinham por officio fazer tendas.
4 E cada sabbado [3] disputava na synagoga, e persuadia a judeos e gregos.
5 E, [4] quando Silas e Timotheo desceram da Macedonia, foi [5] Paulo constrangido pelo Espirito, testificando aos judeos que Jesus era o Christo.
6 Porém, [6] resistindo e [7] blasphemando elles, sacudiu os vestidos, e disse-lhes: O [8] vosso sangue seja sobre a vossa cabeça; [9] eu estou limpo, e desde agora parto para os gentios.
7 E, partindo d’ali, entrou em casa de um, por nome Justo, que servia a Deus, cuja casa estava junto da synagoga.
8 E [10] Crispo, principal da synagoga, creu no Senhor com toda a sua casa; e muitos dos corinthios, ouvindo-o, crêram e foram baptizados.
9 E disse [11] o Senhor em visão a Paulo: Não temas, mas falla, e não te cales;
10 Porque [12] eu estou comtigo, e ninguem lançará mão de ti para te fazer mal, porque tenho muito povo n’esta cidade.
11 E ficou ali um anno e seis mezes, ensinando entre elles a palavra de Deus.
12 Porém, sendo Gallio proconsul da Achaia, levantaram-se os judeos concordemente contra Paulo, e o levaram ao tribunal,
13 Dizendo: Este persuade os homens a servir a Deus contra a lei.
14 E, querendo Paulo abrir a bocca, disse Gallio aos judeos: [13] Se houvesse, ó judeos, algum aggravo ou crime enorme, com razão vos soffreria,
15 Mas, se a questão é de palavras, e de nomes, e da lei que entre vós ha, vêde-o vós mesmos: porque eu não quero ser juiz d’essas coisas.
16 E lançou-os do tribunal.
17 Porém, tomando todos os gregos a [14] Sosthenes, principal da synagoga, o feriram diante do tribunal; e a Gallio nada d’estas coisas se lhe davam.
18 E Paulo, ficando ainda ali muitos dias, despediu-se dos irmãos e d’ali navegou para a Syria, e com elle Priscilla e Aquila, tendo [15] tosquiado a cabeça em Cenchrea, [16] porque tinha voto.
19 E chegou a Epheso, e deixou-os ali; porém elle, entrando na synagoga, disputava com os judeos.
20 E, rogando-lhe elles que ficasse com elles por mais algum tempo, não conveiu n’isso.
21 Antes se despediu d’elles, dizendo: É-me necessario em todo o caso guardar em Jerusalem a festa que se approxima; [17] mas, querendo Deus, outra vez voltarei para vós. E partiu de Epheso.
22 E, chegando a Cesarea, subiu a Jerusalem, e, saudando a egreja, desceu a Antiochia.
23 E, estando ali algum tempo, partiu, passando successivamente pela provincia da [18] Galacia e Phrygia, confirmando [19] a todos os discipulos.
Apollo em Epheso e em Corintho.
24 E chegou [20] a Epheso um certo judeo chamado Apollo, natural d’Alexandria, varão eloquente e poderoso nas Escripturas.
25 Este era instruido no caminho do Senhor, [21] e, fervoroso de espirito, fallava e ensinava diligentemente as coisas do Senhor, [22] conhecendo sómente o baptismo de João.
26 E este começou a fallar ousadamente na synagoga; e, ouvindo-o Priscilla e Aquila, o levaram comsigo, e lhe declararam mais pontualmente o caminho de Deus.
27 E, querendo elle passar á Achaia, exhortando-o os irmãos, escreveram aos discipulos que o recebessem; o qual, tendo chegado, [23] aproveitou muito aos que pela graça criam.
28 Porque com grande vehemencia convencia publicamente os judeos, mostrando pelas Escripturas [24] que Jesus era o Christo.
Terceira viagem missionaria de Paulo. Prega o evangelho em Epheso. Tumulto excitado por Demetrio.
Anno Domini 56
19 E succedeu que, emquanto Apollo estava [1] em Corintho, Paulo, tendo passado por todas as regiões superiores, chegou a Epheso; e, achando ali alguns discipulos,
2 Disse-lhes: Recebestes vós já o Espirito Sancto quando crêstes? E elles disseram-lhe: [2] Antes nem ainda ouvimos que haja Espirito Sancto.
3 Disse-lhes então: Em que sois baptizados então? E elles disseram: [3] No baptismo de João.
4 Porém Paulo disse: [4] Certamente João baptizou com o baptismo do arrependimento, dizendo ao povo que crêsse no que após elle havia de vir, isto é, em Jesus Christo.
5 E os que ouviram foram baptizados [5] em nome do Senhor Jesus.
6 E, impondo-lhes Paulo [6] as mãos, veiu sobre elles o Espirito Sancto; [7] e fallavam diversas linguas, e prophetizavam.
7 E estes eram, ao todo, quasi doze varões.
8 E, [8] entrando na synagoga, fallou ousadamente por espaço de tres mezes, disputando e persuadindo [9] ácerca do reino de Deus.
9 Mas, endurecendo-se [10] alguns, e não obedecendo, [11] e fallando mal do caminho do Senhor perante a multidão, retirou-se d’elles, e separou os discipulos, disputando todos os dias na escola de um certo Tyranno.
10 E durou [12] isto por espaço de dois annos; de tal maneira que todos os que habitavam na Asia, ouviram a palavra do Senhor Jesus, assim judeos como gregos.
11 E Deus [13] pelas mãos de Paulo fazia maravilhas extraordinarias.
12 De tal [14] maneira que até os lenços e aventaes do seu corpo se levavam aos enfermos, e as enfermidades fugiam d’elles, e os espiritos malignos sahiam.
13 E [15] alguns dos exorcistas [16] judeos vagabundos tentavam invocar o nome do Senhor Jesus sobre os que tinham espiritos malignos, dizendo: Esconjuramos-vos por Jesus a quem Paulo préga.
14 E os que faziam isto eram sete filhos de Sceva, judeo, principal dos sacerdotes.
15 Respondendo, porém, o espirito maligno, disse: Conheço a Jesus, e bem sei quem é Paulo; porém vós quem sois?
16 E, saltando n’elles o homem em que estava o espirito maligno, e assenhoreando-se d’elles, poude mais do que elles; de tal maneira que, nús e feridos, fugiram d’aquella casa.
17 E foi isto notorio a todos os que habitavam em Epheso, [17] tanto judeos como gregos; e caiu temor sobre todos elles, e o nome do Senhor Jesus era engrandecido.
18 E muitos dos que criam vinham, confessando [18] e publicando os seus feitos.
19 Tambem muitos dos que seguiam artes curiosas trouxeram os seus livros, e os queimaram na presença de todos, e, feita a conta do seu preço, acharam que montava a cincoenta mil peças de prata.
Anno Domini 59
20 Assim [19] a palavra do Senhor crescia poderosamente e prevalecia.
21 E, [20] cumpridas estas coisas, Paulo [21] propoz-se, em espirito, ir a Jerusalem, passando pela Macedonia e pela Achaia, dizendo: Depois que houver estado ali, [22] importa-me vêr tambem Roma.
22 E, enviando á Macedonia dois d’aquelles que o [23] serviam, Timotheo [24] e Erasto, ficou elle por algum tempo na Asia.
23 Porém, [25] n’aquelle mesmo tempo, houve um não pequeno alvoroço ácerca do caminho do Senhor.
24 Porque um certo ourives da prata, por nome Demetrio, que fazia de prata nichos de Diana, [26] dava não pouco lucro aos artifices,
25 Aos quaes, havendo-os ajuntado com os officiaes de obras similhantes, disse: Varões, vós bem sabeis que d’este officio temos a nossa prosperidade:
26 E bem vêdes e ouvis que não só em Epheso, mas até quasi em toda a Asia, este Paulo tem persuadido e afastado uma grande multidão, [27] dizendo que não são deuses os que se fazem com as mãos.
27 E não sómente ha o perigo de que isto venha a servir-nos de desprezo, mas tambem de que o proprio templo da grande deusa Diana seja estimado em nada, e de que a sua magestade, a qual toda a Asia e o mundo inteiro veneram, venha a ser destruida.
28 E, ouvindo-o, encheram-se de ira, e clamaram, dizendo: Grande é a Diana dos ephesios.
29 E encheu-se de confusão toda a cidade; e unanimes arremetteram ao theatro, arrebatando comsigo [28] a Gaio e [29] a Aristarcho, macedonios, companheiros de Paulo na viagem.
30 E, querendo Paulo apresentar-se ao povo, não lh’o permittiram os discipulos.
31 E tambem alguns dos principaes da Asia, que eram seus amigos, lhe enviaram, rogando que não se apresentasse no theatro.
32 Uns pois clamavam de uma maneira, outros d’outra, porque o ajuntamento era confuso; e os mais d’elles não sabiam por que causa se tinham ajuntado.
Anno Domini 60
33 Então tiraram Alexandre d’entre a multidão, impellindo-o os judeos para diante; e Alexandre, [30] acenando com a mão, queria dar razão d’isto ao povo.
34 Porém, conhecendo que era judeo, todos unanimemente levantaram a voz, clamando por espaço de quasi duas horas: Grande é a Diana dos ephesios.