ACTOS DOS APOSTOLOS. (continued 2)
João Ferreira d' Almeida translation
35 Então o escrivão da cidade, tendo apaziguado a multidão, disse: Varões ephesios, qual é o homem que não sabe que a cidade dos ephesios é a guardadora do templo da grande deusa Diana, e da imagem que desceu de Jupiter?
36 De sorte que, não podendo isto ser contradito, convém que vos applaqueis, e nada façaes temerariamente;
37 Porque estes homens que aqui trouxestes nem são sacrilegos nem blasphemam da vossa deusa:
38 Porém, se Demetrio e os artifices que estão com elle teem alguma coisa contra alguem, dão-se audiencias e ha proconsules: que se accusem uns aos outros;
39 E, se alguma outra coisa demandaes, averiguar-se-ha em legitimo ajuntamento.
40 Porque corremos perigo de que, por hoje, sejamos accusados de sedição, não havendo causa alguma com que possamos justificar este concurso.
41 E, tendo dito isto, despediu o ajuntamento.
Paulo visita outra vez a Macedonia e a Grecia, e depois volta para a Asia.
20 E, depois que cessou o alvoroço, Paulo chamou para si os discipulos, e, abraçando-os, [1] saiu para a Macedonia.
2 E, havendo andado por aquellas partes, e exhortando-os com muitas palavras, veiu á Grecia.
3 E, passando ali tres mezes, e sendo-lhe pelos judeos postas ciladas, havendo [2] de navegar para a Syria, determinou voltar pela Macedonia.
4 E acompanhou-o, até á Asia, Sopater, de Berea, e, dos de Thessalonica, Aristarcho, [3] e Segundo, e Gaio de Derbe, e Timotheo, e, dos da Asia, Tychico e Trophimo.
5 Estes, indo adiante, nos esperaram em Troas.
6 E, depois dos dias dos pães [4] asmos, navegámos de Philippos, e em cinco dias fomos ter com elles a Troas, onde estivemos sete dias.
7 E no primeiro dia [5] da semana, ajuntando-se os discipulos para partir o pão, Paulo, que havia de partir no dia seguinte, discursava com elles; e alargou a pratica até á meia noite.
8 E havia muitas luzes no [6] cenaculo onde estavam juntos.
9 E, estando um certo mancebo, por nome Eutycho, assentado n’uma janella, caiu, tomado de um somno profundo que lhe sobreveiu durante o extenso discurso de Paulo, desde o terceiro andar; e foi levantado morto.
10 Paulo, porém, descendo, inclinou-se sobre elle, [7] e, abraçando-o, disse: Não vos perturbeis, que a sua alma n’elle está.
11 E subindo, e partindo o pão, e comendo, e fallando-lhes largamente até á alvorada, assim partiu.
12 E levaram vivo o mancebo, e ficaram não pouco consolados.
13 Nós, porém, subindo ao navio, navegámos até Asson, onde deviamos receber a Paulo, porque assim o ordenara, indo elle por terra.
14 E, logo que se ajuntou comnosco em Asson, tomámol-o, e fomos a Mitylene:
15 E, navegando d’ali, chegámos no dia seguinte defronte de Chio, e no outro aportámos a Samos, e, ficando em Trogyllio, chegámos no dia seguinte a Mileto.
16 Porque já Paulo tinha determinado passar adiante de Epheso, para não gastar tempo na Asia. [8] Apressava-se pois para, se lhe fosse possivel, estar em Jerusalem no dia de pentecostes.
Discurso de Paulo aos anciãos da egreja de Epheso.
17 E de Mileto mandou a Epheso, a chamar os anciãos da egreja.
18 E, logo que chegaram junto d’elle, disse-lhes: Vós bem sabeis, desde o primeiro dia em que entrei na Asia, [9] o modo como em todo esse tempo me portei no meio de vós,
19 Servindo ao Senhor com toda a humildade, e com muitas lagrimas e tentações, [10] que pelas ciladas dos judeos me teem sobrevindo.
20 Como nada, [11] que util vos fosse, deixei de vos annunciar, e ensinar publicamente e pelas casas:
21 Testificando, [12] tanto aos judeos como aos gregos, a conversão a Deus, e a fé em nosso Senhor Jesus Christo.
22 E agora, eis que, ligado eu pelo espirito, [13] vou para Jerusalem, não sabendo o que lá me ha de acontecer.
23 Senão que o Espirito Sancto de cidade em cidade [14] me testifica, dizendo que me esperam prisões e tribulações.
24 Mas de nenhuma coisa faço caso, e [15] nem a minha vida tenho por preciosa, comtanto que cumpra com alegria a minha carreira, e o ministerio que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus.
25 E agora, eis-que [16] bem sei que todos vós, por quem passei prégando o reino de Deus, não vereis mais o meu rosto.
26 Portanto, no dia de hoje, vos protesto que estou limpo [17] do sangue de todos.
27 Porque [18] nunca deixei de annunciar-vos todo o conselho de Deus.
28 Olhae pois por vós, [19] e por todo o rebanho sobre que o Espirito Sancto vos constituiu bispos, para apascentardes a egreja de Deus, a qual alcançou com seu proprio sangue.
29 Porque eu sei isto: que, depois da minha partida, entrarão entre vós lobos [20] crueis, que não perdoarão ao rebanho.
30 E que d’entre vós mesmos se levantarão homens [21] que fallarão coisas perversas, para attrahirem os discipulos após si.
31 Portanto, vigiae, lembrando-vos de [22] que, durante tres annos, não cessei, de noite e de dia, de admoestar com lagrimas a cada um de vós.
32 Agora pois, irmãos, encommendo-vos a Deus [23] e á palavra da sua graça; o qual é poderoso para vos edificar e dar herança entre todos os sanctificados.
33 De ninguem cubicei [24] a prata, nem o oiro, nem o vestido.
34 Vós mesmos sabeis que para o que me era necessario a mim, e aos que estão comigo, [25] estas mãos me serviram.
35 Tenho-vos mostrado em [26] tudo que, trabalhando assim, é necessario supportar os enfermos, e lembrar as palavras do Senhor Jesus, que disse: Mais bemaventurada coisa é dar do que receber.
36 E, havendo dito isto, pondo-se de joelhos, [27] orou com todos elles.
37 E levantou-se um grande pranto entre todos, [28] e, lançando-se ao pescoço de Paulo, o beijavam,
38 Entristecendo-se muito, principalmente pela palavra que dissera, que não veriam mais o seu rosto. [29] E acompanharam-n’o até ao navio.
Paulo chega a Jerusalem, e é preso no templo.
21 E aconteceu que, separando-nos d’elles, navegámos e fomos correndo caminho direito, e chegámos a Coos, e no dia seguinte a Rhodes, de onde passámos a Patara.
2 E, achando um navio, que passava á Phenicia, embarcámos n’elle, e partimos.
3 E, indo já á vista de Chypre, deixando-a á esquerda, navegámos para a Syria, e chegámos a Tyro; porque o navio havia de ser descarregado ali.
4 E, achando discipulos, ficámos nós ali sete dias: os quaes pelo Espirito diziam a [1] Paulo que não subisse a Jerusalem.
5 E, havendo passado ali aquelles dias, saimos, e seguimos nosso caminho, acompanhando-nos todos, com suas mulheres e filhos, até fóra da cidade; e, postos de joelhos [2] na praia, orámos.
6 E, saudando-nos uns aos outros, subimos ao navio; [3] e elles voltaram para suas casas.
7 E nós, concluida a navegação de Tyro, viemos a Ptolemaida; e, havendo saudado os irmãos, ficámos com elles um dia.
8 E no dia seguinte, partindo d’ali Paulo, e nós que com elle estavamos, chegámos a Cesarea: e, entrando em casa de Philippe, [4] o evangelista, que era um dos sete, ficámos com elle.
9 E tinha este quatro filhas donzellas, [5] que prophetizavam.
10 E, demorando-nos ali por muitos dias, desceu da Judea um propheta, por nome [6] Agabo;
11 E, vindo elle a nós, e tomando a cinta de Paulo, e ligando-se os pés e mãos, disse: Isto diz o Espirito Sancto: Assim ligarão os [7] judeos em Jerusalem o varão cuja é esta cinta, e o entregarão nas mãos dos gentios.
12 E, ouvindo nós isto, rogámos-lhe, tanto nós como os que eram d’aquelle logar, que não subisse a Jerusalem.
13 Porém Paulo respondeu: [8] Que fazeis vós, chorando e magoando-me o coração? porque eu estou prompto, não só a ser ligado, mas ainda a morrer em Jerusalem pelo nome do Senhor Jesus.
14 E, como não podiamos persuadil-o, nos aquietámos, dizendo: [9] Faça-se a vontade do Senhor.
15 E depois d’aquelles dias, havendo feito os nossos preparativos, subimos a Jerusalem.
16 E foram tambem comnosco alguns discipulos de Cesarea, levando comsigo um certo Mnason, chyprio, discipulo antigo, com o qual haviamos de pousar.
17 E, logo que chegámos [10] a Jerusalem, os irmãos nos receberam de muito boa vontade.
18 E no dia seguinte, Paulo entrou comnosco em casa de Thiago, [11] e todos os anciãos vieram ali.
19 E, havendo-os saudado, [12] contou-lhes por miudo o que por seu ministerio Deus fizera entre os gentios.
20 E, ouvindo-o elles, glorificaram ao Senhor, e disseram-lhe: Bem vês, irmão, quantos milhares de judeos ha que crêem, [13] e todos são zeladores da lei.
21 E já ácerca de ti foram informados que ensinas todos os judeos que estão entre os gentios a apartarem-se de Moysés, dizendo que não devem circumcidar a seus filhos, nem andar segundo o costume da lei.
22 Que faremos pois? em todo o caso é necessario que a multidão se ajunte; porque ouvirão que já és vindo.
23 Faze pois isto que te dizemos: Temos quatro varões que fizeram voto.
24 Toma comtigo a estes, e sanctifica-te com elles, e faze por elles os gastos para que rapem a cabeça, [14] e todos saibam que nada ha d’aquillo de que foram informados ácerca de ti, mas que tambem tu mesmo andas guardando a lei.
25 Porém, quanto aos que crêem dos gentios, já nós havemos [15] escripto, e achado por bem, que nada d’isto observem; mas que só se guardem do que se sacrifica aos idolos, e do sangue, e do suffocado e da fornicação.
26 Então Paulo, tomando comsigo aquelles varões, sanctificado com elles, entrou no dia seguinte [16] no templo, annunciando serem já cumpridos os dias da sanctificação, ficando ali até se offerecer por cada um d’elles a offerta.
27 E, indo-se já acabando os sete dias, os judeos [17] da Asia, vendo-o no templo, alvoroçaram todo o povo e lançaram mão d’elle,
28 Clamando: Varões israelitas, acudi: este é o homem [18] que por todas as partes ensina a todos, contra o povo e contra a lei, e contra este logar; e, demais d’isto, introduziu tambem no templo os gregos, e profanou este sancto logar.
29 Porque d’antes tinham visto com elle na cidade a [19] Trophimo d’Epheso, ao qual pensavam que Paulo introduzira no templo.
30 E alvoroçou-se toda a cidade, [20] e fez-se um concurso de povo; e, pegando de Paulo, o arrastaram para fóra do templo, e logo as portas se fecharam.
31 E, procurando elles matal-o, chegou ao tribuno da cohorte a nova de que Jerusalem estava toda em confusão.
32 O qual, tomando logo comsigo soldados [21] e centuriões, correu para elles. E, vendo elles o tribuno e os soldados, cessaram de ferir a Paulo.
33 Então, chegando o tribuno, o prendeu e o mandou atar com duas cadeias. [22] e lhe perguntou quem era e o que tinha feito.
34 E na multidão uns clamavam d’uma maneira outros d’outra; porém, como nada podia saber ao certo, por causa do alvoroço, mandou conduzil-o para a fortaleza.
35 E succedeu que, chegando ás escadas, os soldados tiveram de lhe pegar por causa da violencia da multidão.
36 Porque a multidão do povo o seguia, clamando: [23] Mata-o.
37 E, quando iam a introduzir Paulo na fortaleza, disse Paulo ao tribuno: É-me permittido dizer-te alguma coisa? E elle disse: Sabes o grego?
38 Não és tu porventura aquelle egypcio [24] que antes d’estes dias levantou uma sedição e levou ao deserto quatro mil salteadores?
39 Porém Paulo lhe disse: Na verdade que sou um homem judeo, [25] cidadão de Tarso, cidade não pouco celebre na Cilicia: rogo-te, porém, que me permittas fallar ao povo.
40 E, havendo-lh’o permittido, Paulo, pondo-se em pé nas escadas, fez signal com a mão [26] ao povo; e, feito grande silencio, fallou-lhes em lingua hebraica, dizendo:
Discurso de Paulo em sua defeza.
22 Varões irmãos e paes, [1] ouvi agora a minha defeza perante vós.
2 (E, quando ouviram fallar-lhes em lingua hebraica, maior silencio guardaram.) E disse:
3 Quanto a mim, sou varão [2] judeo, nascido em Tarso de Cilicia, e n’esta cidade criado aos pés de Gamaliel, instruido conforme a verdade da lei de nossos paes, zelador de Deus, como todos vós hoje sois.
4 Que tenho perseguido este caminho até á morte, [3] prendendo, e mettendo em prisões, assim varões como mulheres.
5 Como tambem o summo sacerdote me é testemunha, e todo o conselho dos [4] anciãos: dos quaes ainda, levando cartas para os irmãos, fui a Damasco, para trazer manietados para Jerusalem aquelles que ali estivessem, para que fossem castigados.
6 Porém aconteceu [5] que, indo eu já de caminho, e chegando perto de Damasco, quasi ao meio dia, de repente me rodeou uma grande luz do céu.
7 E cahi por terra, e ouvi uma voz que me dizia: Saulo, Saulo, porque me persegues?
8 E eu respondi: Quem és, Senhor? E disse-me: Eu sou Jesus nazareno, a quem tu persegues.
9 E os que estavam [6] comigo viram em verdade a luz, e se atemorisaram muito; mas não ouviram a voz d’aquelle que fallava comigo.
10 Então disse eu: Senhor, que farei? E o Senhor disse-me: Levanta-te, e vae a Damasco, e ali se te dirá tudo o que te é ordenado fazer.
11 E, como eu não via, por causa do esplendor d’aquella luz, fui levado pela mão dos que estavam comigo, e cheguei a Damasco.
12 E um certo Ananias, [7] varão pio conforme a lei, que tinha bom testemunho de todos os judeos que ali moravam,
13 Vindo ter comigo, e apresentando-se, disse-me: Saulo, irmão, recobra a vista. E n’aquella mesma hora o vi.
14 E elle disse: [8] O Deus de nossos paes d’antemão te ordenou para que conheças a sua vontade, e vejas aquelle Justo, e ouças a voz da sua bocca.
15 Porque lhe has de ser [9] testemunha para com todos os homens do que tens visto e ouvido.
16 E agora [10] porque te detens? Levanta-te, e baptiza-te, e lava os teus peccados, invocando o nome do Senhor.
17 E aconteceu-me, [11] tornando eu para Jerusalem, que, orando eu no templo, fui arrebatado para fóra de mim.
18 E vi o que me dizia: [12] Dá-te pressa, e sae apressadamente de Jerusalem; porque não receberão o teu testemunho ácerca de mim.
19 E eu disse: [13] Senhor, elles bem sabem que eu lançava na prisão e açoitava nas synagogas os que criam em ti.
20 E quando [14] o sangue de Estevão, tua testemunha, se derramava, tambem eu estava presente, e consentia na sua morte, e guardava os vestidos dos que o matavam.
21 E disse-me: [15] Vae, porque hei-de enviar-te aos gentios de longe.
22 E ouviram-n’o até esta palavra, e [16] levantaram a voz, dizendo: Tira da terra um tal homem, porque não convem que viva.
23 E, clamando elles, e lançando de si os vestidos, e deitando pó para o ar,
24 O tribuno mandou que o levassem para a fortaleza, dizendo que o examinassem com açoites, para saber por que causa assim clamavam contra elle.
25 E, quando o estavam atando com correias, disse Paulo ao centurião que ali estava: [17] É-vos licito açoitar um homem romano, sem ser condemnado?
26 E, ouvindo isto, o centurião foi, e annunciou ao tribuno, dizendo: Olha o que vaes fazer, porque este homem é romano.
27 E, vindo o tribuno, disse-lhe: Dize-me, és tu romano? E elle disse: Sim.
28 E respondeu o tribuno: Eu com grande somma de dinheiro alcancei este direito de cidadão. Paulo disse: Mas eu sou-o de nascimento.
29 De sorte que logo d’elle se apartaram os que o haviam de examinar; e até o tribuno teve temor, quando soube que era romano, porque o tinha ligado.
Paulo perante o synhedrio.
30 E no dia seguinte, querendo saber ao certo a causa por que era accusado pelos judeos, soltou-o das prisões, e mandou vir os principaes dos sacerdotes, e todo o seu conselho; e, trazendo Paulo, o apresentou diante d’elles.
23 E, pondo Paulo os olhos no conselho, disse: [1] Varões irmãos, até ao dia de hoje tenho andado diante de Deus com toda a boa consciencia.
2 Porém o summo sacerdote, Ananias, mandou então aos que estavam junto [2] d’elle que o ferissem na bocca.
3 Então Paulo lhe disse: [3] Deus te ferirá, parede branqueada: tu estás aqui assentado para julgar-me conforme a lei, e contra a lei me mandas ferir?
4 E os que ali estavam disseram: Injurias o summo sacerdote de Deus?
5 E Paulo disse: [4] Não sabia, irmãos, que era o summo sacerdote; porque está escripto: Não dirás mal do principe do teu povo.
6 E Paulo, sabendo que uma parte era de sadduceos e outra de phariseos, clamou no conselho: [5] Varões irmãos, eu sou phariseo, filho de phariseo, no tocante á esperança e resurreição dos mortos sou julgado.
7 E, havendo dito isto, houve dissensão entre os phariseos e sadduceos; e a multidão se dividiu.
8 [6] Porque os sadduceos dizem que não ha resurreição, nem anjo, nem espirito; mas os phariseos confessam ambas as coisas.
9 E originou-se um grande clamor; e, levantando-se os escribas da parte dos phariseos, contendiam, [7] dizendo: Nenhum mal achamos n’este homem, e, se algum espirito ou [8] anjo lhe fallou, não resistamos a Deus.
10 E, havendo grande dissensão, o tribuno, temendo que Paulo fosse despedaçado por elles, mandou descer a soldadesca, e arrebatal-o do meio d’elles, e leval-o para a fortaleza.
11 E na noite [9] seguinte, apresentando-se-lhe o Senhor, disse: Paulo, tem animo: porque, como de mim testificaste em Jerusalem, assim te importa testificar tambem em Roma.
Conspiração dos judeos contra Paulo; este é mandado para Cesarea.
12 E, vindo o dia, [10] alguns dos judeos fizeram uma conspiração, e se conjuraram, dizendo que não comeriam nem beberiam, emquanto não matassem a Paulo.
13 E eram mais de quarenta os que fizeram esta conjuração.
14 Os quaes foram aos principaes dos sacerdotes e aos anciãos, e disseram: [AIF] Conjurámo-nos, sob pena de maldição, que nada provaremos, até que matemos a Paulo.
15 Agora, pois, vós, com o conselho, fazei saber ao tribuno que vol-o traga ámanhã, como que querendo saber mais alguma coisa de seus negocios, e, antes que chegue, estaremos promptos para o matar.
16 E o filho da irmã de Paulo, ouvindo estas ciladas, foi, e entrou na fortaleza, e o annunciou a Paulo.
17 E Paulo, chamando a si um dos centuriões, disse: Leva este mancebo ao tribuno, porque tem alguma coisa que lhe communicar.
18 Tomando-o elle, pois, o levou ao tribuno, e disse: O preso Paulo, chamando-me a si, me rogou que te trouxesse este mancebo, que tem alguma coisa que dizer-te.
19 E o tribuno, tomando-o pela mão, e pondo-se á parte perguntou-lhe em particular: Que tens que me denunciar?
20 E disse elle: [11] Os judeos se concertaram rogar-te que ámanhã leves Paulo ao conselho, como que tendo a inquirir d’elle mais alguma coisa ao certo:
21 Porém tu não os creias; porque mais de quarenta homens d’entre elles lhe andam armando ciladas: os quaes se obrigaram, sob pena de maldição, a não comerem nem beberem, até que o tenham morto: e já estão apercebidos, esperando a tua promessa.
22 Então o tribuno despediu o mancebo, mandando-lhe que a ninguem dissesse que lhe havia manifestado aquillo.
23 E, chamando a si dois centuriões, lhes disse: Apromptae para as tres horas da noite duzentos soldados, e setenta de cavallo, e duzentos archeiros para irem até Cesarea;
24 E apparelhae cavalgaduras, para que, pondo n’ellas a Paulo, o levem a salvo ao presidente Felix.
25 Escreveu uma carta, que continha isto:
26 Claudio Lysias, a Felix, potentissimo [AIG] presidente, saude.
27 Esse homem [12] foi preso pelos judeos; e, estando já a ponto de ser morto por elles, sobrevim eu com a soldadesca, e lh’o tomei, informado de que era romano.
28 E, querendo saber [13] a causa por que o accusavam, o levei ao seu conselho.
29 E achei que o accusavam de algumas questões [14] da sua lei: mas que nenhum crime havia n’elle digno de morte ou de prisão.
30 E, sendo-me [15] notificado que os judeos haviam de armar ciladas a esse homem, logo t’o enviei, mandando tambem aos accusadores que perante ti digam o que tiverem contra elle. Passa bem.
31 Tomando pois os soldados a Paulo, como lhe fôra mandado, o trouxeram de noite a Antipatris.
32 E no dia seguinte, deixando aos de cavallo irem com elle, tornaram á fortaleza.
33 Os quaes, logo que chegaram a Cesarea, e entregaram a carta ao presidente, lhe apresentaram Paulo.
34 E o presidente, lida a carta, perguntou de que provincia era; e, entendendo [16] que da Cilicia,
35 Ouvir-te-hei, disse, [17] quando tambem aqui vierem os teus accusadores. E mandou que o guardassem [18] no pretorio de Herodes.
Paulo perante o tribunal do governador Felix.
24 E cinco dias depois o summo sacerdote [1] Ananias desceu com os anciãos, e um certo Tertullo, orador, os quaes compareceram perante o presidente contra Paulo.
2 E, sendo citado, Tertullo começou a accusal-o, dizendo:
3 Que por ti tenhamos tanta paz e que, por tua prudencia, a este povo se façam muitos e louvaveis serviços, sempre e em todo o logar, ó potentissimo Felix, com todo o agradecimento o reconhecemos.
4 Porém, para que te não detenha muito, rogo-te que brevemente, conforme a tua equidade, nos ouças:
5 Porque temos [2] achado que este homem é uma peste, e levantador de sedições entre todos os judeos, por todo o mundo; e o principal defensor da seita dos nazarenos;
6 O qual [3] intentou tambem profanar o templo: ao qual tambem prendemos, e conforme a nossa lei o [4] quizemos julgar.
7 Porém, sobrevindo [5] o tribuno Lysias, nol-o tirou d’entre as mãos com grande violencia:
8 Mandando aos seus [6] accusadores que viessem a ti: do qual tu mesmo, examinando-o, poderás entender tudo o de que o accusamos.
9 E tambem os judeos consentiram, dizendo serem estas coisas assim.
10 Porém Paulo, fazendo-lhe o presidente signal que fallasse, respondeu: Porque sei que já vae para muitos annos que d’esta nação és juiz, com tanto melhor animo respondo por mim.
11 Pois bem podes entender que não ha mais de doze dias que subi [7] a Jerusalem a adorar;
12 E não me acharam no templo fallando com alguem, [8] nem amotinando o povo nas synagogas, nem na cidade.
13 Nem tão pouco podem provar as coisas de que agora me accusam.
14 Porém confesso-te isto: que, conforme aquelle caminho que chamam seita, [9] assim sirvo ao Deus de nossos paes, [10] crendo tudo quanto está escripto na lei e nos prophetas.
15 Tendo esperança em Deus, como estes mesmos tambem, esperam, de que ha de haver resurreição de mortos, assim dos justos como dos injustos.
16 E por isso procuro sempre ter uma [11] consciencia sem offensa, tanto para com Deus como para com os homens.
17 Porém, muitos annos depois, vim trazer á minha nação esmolas [12] e offertas.
18 N’isto me [13] acharam já sanctificado no templo, não com gente, nem com alvoroços, [14] uns certos judeos da Asia,
19 Os quaes convinha que estivessem presentes perante ti, e me accusassem, se alguma coisa contra mim tivessem.
20 Ou digam estes mesmos, se acharam em mim alguma iniquidade, quando compareci perante o conselho.
21 Senão só estas palavras, que estando entre elles, clamei: [15] Hoje sou julgado por vós ácerca da resurreição dos mortos.
22 Então Felix, havendo ouvido estas coisas, lhes poz dilação, dizendo: Havendo-me informado melhor d’este caminho, quando o tribuno [16] Lysias tiver descido, então tomarei inteiro conhecimento dos vossos negocios.
23 E mandou ao centurião que guardassem a Paulo, e estivesse com alguma liberdade, [17] e que a ninguem dos seus prohibisse servil-o ou vir ter com elle.
24 E alguns dias depois, vindo Felix com sua mulher Drusilla, que era judia, mandou chamar a Paulo, e ouviu-o ácerca da fé em Christo.
25 E, tratando elle da justiça, e da temperança, e do juizo vindouro, Felix, espavorido, respondeu: Por agora vae-te, e em tendo opportunidade te chamarei.
26 Esperando tambem juntamente que Paulo lhe désse [18] dinheiro, para que o soltasse; pelo que tambem muitas vezes o mandava chamar, e fallava com elle.
27 Porém, cumpridos dois annos, Felix teve por successor a Porcio Festo; e, querendo Felix comprazer [19] aos judeos, deixou a Paulo preso.
Paulo comparece perante Festo e appella para Cesar.
Anno Domini 62
25 Entrando pois Festo na provincia, subiu d’ali a tres dias de Cesarea a Jerusalem.
2 E o summo sacerdote e [1] os principaes dos judeos compareceram perante elle contra Paulo, e lhe rogaram,
3 Pedindo favor contra elle, para que o fizesse vir a Jerusalem, [2] armando-lhe ciladas para o matarem no caminho.
4 Porém Festo respondeu que Paulo estava guardado em Cesarea, e que elle brevemente partiria para lá.
5 Os que pois, disse, d’entre vós podem, desçam juntamente [3] comigo, e, se n’este varão houver algum crime, accusem-n’o.
6 E, não se havendo entre elles detido mais de dez dias, desceu a Cesarea; e no dia seguinte, assentando-se no tribunal, mandou que trouxessem Paulo.
7 E, chegando elle, o rodeiaram os judeos que haviam descido de Jerusalem, [4] trazendo contra Paulo muitas e graves accusações, que não podiam provar.
8 Pelo que, em sua defeza, disse: Eu não pequei em coisa alguma [5] contra a lei dos judeos, nem contra o templo, nem contra Cesar.
9 Porém Festo, [6] querendo comprazer com os judeos, respondendo a Paulo, disse: Queres tu subir a Jerusalem, e ser lá perante mim julgado ácerca d’estas coisas?
10 E Paulo disse: Estou perante o tribunal de Cesar, onde convem que seja julgado; não fiz aggravo algum aos judeos, como tu muito bem sabes;
11 Porque, se fiz [7] algum aggravo, ou commetti alguma coisa digna de morte, não recuso morrer; porém, se nada ha das coisas de que estes me accusam, ninguem me pode entregar a elles; [8] appello para Cesar.
12 Então Festo, tendo fallado com o conselho, respondeu: Appellaste para Cesar? para Cesar irás.
13 E, passados alguns dias, o rei Agrippa e Berenice vieram a Cesarea, a saudar Festo.
14 E, como ali se detiveram muitos dias, Festo contou ao rei os negocios de Paulo, [9] dizendo: Um certo varão foi deixado por Felix aqui preso,
15 Por cujo [10] respeito os principaes dos sacerdotes e os anciãos dos judeos, estando eu em Jerusalem, compareceram perante mim, pedindo sentença contra elle.
16 Aos quaes respondi [11] não ser costume dos romanos entregar algum homem á morte, sem que o accusado tenha presentes os seus accusadores, e tenha logar de defender-se da accusação.
17 De sorte que, chegando elles aqui juntos, no dia seguinte, sem fazer dilação [12] alguma, assentado no tribunal, mandei trazer o homem.
Paulo perante o rei Agrippa.
18 Ácerca do qual, estando presentes os accusadores, nenhuma coisa apontaram d’aquellas que eu suspeitava.
19 Tinham, porém, contra elle algumas questões [13] ácerca da sua superstição, e de um certo Jesus, defunto, que Paulo affirmava viver.
20 E, estando eu perplexo ácerca da inquirição d’esta causa, disse se queria ir a Jerusalem, e lá ser julgado ácerca d’estas coisas.
21 E, appellando Paulo para ser reservado ao conhecimento de Augusto, mandei que o guardassem até que o enviasse a Cesar.
22 Então [14] Agrippa disse a Festo: Bem quizera eu tambem ouvir esse homem. E elle disse: Ámanhã o ouvirás.
23 De sorte que, no dia seguinte, vindo Agrippa e Berenice, com muito apparato, e entrando no auditorio com os tribunos e varões principaes da cidade, trouxeram a Paulo por mandado de Festo.
24 E Festo disse: Rei Agrippa, e todos os varões que estaes presentes comnosco: aqui vêdes aquelle de quem toda [15] a multidão dos judeos me tem fallado, tanto em Jerusalem como aqui, clamando que não convém que viva mais.
25 Porém, achando eu que nenhuma coisa [16] digna de morte fizera, e appellando elle mesmo tambem para Augusto, tenho determinado enviar-lh’o.
26 Do qual não tenho coisa alguma certa que escreva ao meu senhor, pelo que perante vós o trouxe, e mórmente perante ti, ó rei Agrippa, para que, feita informação, tenha alguma coisa que escrever.
27 Porque me parece contra a razão enviar um preso, e não notificar contra elle as accusações.
26 Depois Agrippa disse a Paulo: Permitte-se-te fallar por ti mesmo. Então Paulo, estendendo a mão em sua defeza, respondeu:
2 Tenho-me por venturoso, ó rei Agrippa, de que perante ti me haja hoje de defender de todas as coisas de que sou accusado pelos judeos;
3 Mórmente sabendo eu que tens noticia de todos os costumes e questões que ha entre os judeos; pelo que te rogo que me ouças com paciencia.
4 A minha vida, pois, desde a mocidade, qual haja sido, desde o principio, em Jerusalem, entre os da minha nação, todos os judeos sabem:
5 Tendo conhecimento de mim desde o principio (se o quizerem testificar), como, conforme a mais [1] severa seita da nossa religião, vivi phariseo.
6 E agora pela esperança [2] da promessa que por Deus foi feita a nossos paes estou aqui e sou julgado.
7 Á qual as nossas doze tribus esperam [3] chegar, servindo a Deus continuamente, noite e dia. Por esta esperança, ó rei Agrippa, eu sou accusado pelos judeos.
8 Pois que? julga-se coisa incrivel entre vós que Deus resuscite os mortos?
9 Bem [4] tinha eu imaginado que contra o nome de Jesus nazareno devia eu praticar muitos actos:
10 O que tambem fiz em Jerusalem. [5] E, havendo recebido poder dos principaes dos sacerdotes, encerrei muitos dos sanctos nas prisões; e quando os matavam eu dava o meu voto.
11 E, castigando-os muitas vezes por todas as synagogas, [6] os forcei a blasphemar. E, enfurecido demasiadamente contra elles, até nas cidades estranhas os persegui.
12 Ao que indo então a Damasco, [7] com poder e commissão dos principaes dos sacerdotes,
13 Ao meio dia, ó rei, vi no caminho uma luz do céu, que excedia o esplendor do sol, a qual me rodeiou a mim e aos que iam comigo, com sua claridade.
14 E, caindo nós todos por terra, ouvi uma voz que me fallava, e em lingua hebraica dizia: Saulo, Saulo, porque me persegues? Dura coisa te é recalcitrar contra os aguilhões.
15 E disse eu: Quem és, Senhor? E elle respondeu: Eu sou Jesus, a quem tu persegues;
16 Mas levanta-te e põe-te sobre teus pés, porque te appareci para isto; para te pôr por ministro [8] e testemunha tanto das coisas que tens visto como d’aquellas pelas quaes te apparecerei:
17 Livrando-te d’este povo, [9] e dos gentios, a quem agora te envio,
18 Para lhes abrires os olhos, e das trevas os converteres á luz, [10] e do poder de Satanaz a Deus; para que recebam a remissão dos peccados, e sorte entre os sanctificados pela fé em mim.
19 Pelo que, ó rei Agrippa, não fui desobediente á visão celestial.
20 Antes annunciei [11] primeiramente aos que estão em Damasco e em Jerusalem, e por toda a terra da Judea, e aos gentios, que se emendassem e se convertessem a Deus, fazendo obras [12] dignas de arrependimento.
21 Por causa d’isto os judeos lançaram [13] mão de mim no templo, e procuraram matar-me.
22 Porém, alcançando [14] soccorro de Deus, ainda até ao dia de hoje permaneço, testificando tanto a pequenos como a grandes, não dizendo nada mais do que o que os prophetas e Moysés disseram que devia acontecer,
23 Isto é, que o Christo [15] devia padecer, e, sendo o primeiro da resurreição dos mortos, devia annunciar a luz a este povo e aos gentios.
24 E, dizendo elle isto em sua defeza, disse Festo em alta voz: [16] Deliras, Paulo: as muitas lettras te fazem delirar.
25 Porém elle disse: Não deliro ó potentissimo Festo; antes fallo palavras de verdade e de um são juizo.
26 Porque o rei, diante de quem fallo com ousadia, sabe estas coisas, pois não creio que nada d’isto se lhe occulte; porque isto não se fez em qualquer canto.
27 Crês tu nos prophetas, ó rei Agrippa? Bem sei que crês.
28 E disse Agrippa a Paulo: Por pouco não me persuades a que me faça christão.
29 E disse Paulo: [17] Prouvera a Deus que, ou por pouco ou por muito, não sómente tu, mas tambem todos quantos hoje me estão ouvindo, se tornassem taes qual eu sou, excepto estas cadeias.
30 E, dizendo elle isto, se levantou o rei, e o presidente, e Berenice, e os que com elles estavam assentados.
31 E, apartando-se a uma banda, fallavam uns com os outros, dizendo: Este homem nada fez digno [18] de morte ou de prisões.
32 E Agrippa disse a Festo: Bem podia soltar-se [19] este homem, se não houvera appellado para Cesar.
Paulo é mandado para Italia; o naufragio do navio.
27 E, como se determinou [1] que haviamos de navegar para a Italia, entregaram Paulo, e alguns outros presos, a um centurião por nome Julio, da cohorte augusta.
2 E, embarcando nós em um navio adramytino, partimos navegando pelos logares da Asia, estando comnosco [2] Aristarcho, macedonio, de Thessalonica.
3 E chegámos no dia seguinte a Sidon, e Julio, tratando [3] Paulo humanamente, lhe permittiu ir ver os amigos, para que cuidassem d’elle.
4 E, partindo d’ali, fomos navegando abaixo de Chypre, porquanto os ventos eram contrarios.
5 E, tendo atravessado o mar, ao longo da Cilicia e Pamphylia, chegámos a Myrra, na Lycia.
6 E, achando ali o centurião um navio de Alexandria, que navegava para a Italia, nos fez embarcar n’elle.
7 E, indo já por muitos dias navegando vagarosamente, e havendo chegado apenas defronte de Cnido, não nos permittindo o vento ir mais adiante, navegámos abaixo de Creta, junto de Salmone.
8 E, costeando-a difficilmente, chegámos a um certo logar chamado Bons Portos, perto do qual estava a cidade de Lasca.
9 E, passado muito tempo, e sendo já perigosa a navegação, porquanto já tambem o jejum tinha passado, [4] Paulo os admoestava,
10 Dizendo-lhes: Varões, vejo que a navegação ha de ser incommoda, e com muito damno, não só para o navio e carga, mas tambem para as nossas vidas.
11 Porém o centurião cria mais no piloto e no mestre, do que no que dizia Paulo.
12 E, não sendo aquelle porto commodo para invernar, os mais d’elles foram de parecer que se partisse d’ali para ver se podiam chegar a Phenix, que é um ponto de Creta que olha para a banda do vento [AIH] da Africa e do Coro, e invernar ali.
13 E, soprando o sul brandamente, lhes pareceu terem já o que desejavam, e, fazendo-se de vela, foram de muito perto costeando Creta.
14 Porém não muito depois deu n’ella um pé de vento, chamado euro-aquilão.
15 E, sendo o navio arrebatado por elle, e não podendo navegar contra o vento, dando de mão a tudo, nos deixámos ir á tôa.
16 E, correndo abaixo de uma pequena ilha chamada Clauda, apenas podémos ganhar o batel,
17 Levado para cima o qual, usaram de todos os remedios, cingindo o navio; e, temendo darem á costa na Syrte, amainadas as vélas, assim foram á tôa.
18 E, andando nós agitados por uma vehemente tempestade, no dia seguinte alliviaram o navio.
19 E ao terceiro dia nós mesmos, com as nossas proprias mãos, [5] lançámos ao mar a armação do navio.
20 E, não apparecendo, havia já muitos dias, nem sol nem estrellas, e opprimindo-nos uma não pequena tempestade, fugiu-nos toda a esperança de nos salvarmos.
21 E, havendo já muito que se não comia, então Paulo, pondo-se em pé no meio d’elles, disse: Fôra na verdade razoavel, ó varões, ter-me ouvido a mim e não partir de Creta, e evitar assim este incommodo e esta perdição.
22 Porém agora vos admoesto a que tenhaes bom animo, porque não se perderá a vida de nenhum de vós, mas sómente o navio.
23 Porque esta mesma noite o anjo de Deus, [6] de quem eu sou, e a quem sirvo, esteve comigo,
24 Dizendo: Paulo, não temas: importa que sejas apresentado a Cesar, e eis que Deus te deu todos quantos navegam comtigo.
25 Portanto, ó varões, tende bom animo; [7] porque creio em Deus, que ha de acontecer assim como a mim me foi dito.
26 Porém é necessario [8] irmos dar n’uma ilha.
27 E, quando chegou a decima quarta noite, sendo impellidos de uma e outra banda no mar Adriatico, lá pela meia noite suspeitaram os marinheiros de que estavam proximos d’alguma terra.
28 E, lançando o prumo, acharam vinte braças; e, passando um pouco mais adiante, tornando a lançar o prumo, acharam quinze braças.
29 E, temendo ir dar em alguns rochedos, lançaram da pôpa quatro ancoras, desejando que viesse o dia.
30 Procurando, porém, os marinheiros fugir do navio, e deitando o batel ao mar, como que querendo lançar as ancoras pela prôa,
31 Disse Paulo ao centurião e aos soldados: Se estes não ficarem no navio, não podereis salvar-vos.
32 Então os soldados cortaram os cabos do batel, e o deixaram cair.
33 E entretanto que o dia vinha, Paulo exhortava a todos a que comessem alguma coisa, dizendo: É já hoje o decimo quarto dia que esperaes, e permaneceis sem comer, não havendo provado nada.
34 Portanto, exhorto-vos a que comaes alguma coisa, pois importa para a vossa saude; [9] porque nem um cabello da cabeça de qualquer de vós cairá.
35 E, havendo dito isto, tomando o pão, deu graças [10] a Deus na presença de todos; e, partindo-o, começou a comer.
36 E, tendo já todos bom animo, pozeram-se tambem a comer.
37 E eramos por todos no navio duzentas [11] e setenta e seis almas.
38 E, refeitos já da comida, alliviaram o navio, lançando o trigo ao mar.
39 E, sendo já dia, não conheceram a terra; porém enxergaram uma enseada que tinha praia, e consultaram-se sobre se deveriam encalhar n’ella o navio.
40 E, levantando as ancoras, deixaram-n’o ir ao mar, largando tambem as amarras do leme; e, alçando a véla maior ao vento, dirigiram-se para a praia.
41 Dando, porém, em logar de dois mares, encalharam ali o navio; [12] e, fixa a prôa, ficou immovel, porém a pôpa abria-se com a força das ondas.
42 Então o conselho dos soldados foi que matassem os presos para que nenhum fugisse, escapando a nado.
43 Porém o centurião, querendo salvar a Paulo, lhes estorvou este intento; e mandou que os que podessem nadar se lançassem primeiro ao mar, e se salvassem em terra;
44 E os demais, uns em taboas e outros em coisas do navio. E assim aconteceu [13] que todos se salvaram em terra.
Paulo em Melita.
Anno Domini 63
28 E, havendo escapado, então souberam que a ilha se chamava Melita.
2 E os [1] barbaros usaram comnosco de não pouca humanidade; porque, accendendo um grande fogo, nos recolheram a todos por causa da chuva que sobrevinha, e por causa do frio.
3 E, havendo Paulo ajuntado uma quantidade de vides, e pondo-as no fogo, uma vibora, fugindo do calor, lhe accommetteu a mão.
4 E os barbaros, vendo-lhe a bicha pendurada na mão, diziam uns aos outros: Certamente este homem é homicida, a quem, escapando do mar, a Justiça não deixa viver.
5 Porém, sacudindo elle a bicha no fogo, não padeceu [2] nenhum mal.
6 E elles esperavam que viesse a inchar ou a cair morto de repente; porém, tendo esperado já muito, e vendo que nenhum incommodo lhe sobrevinha, [3] mudando de parecer, diziam que era um deus.
7 E ali, proximo d’aquelle mesmo logar, havia umas herdades que pertenciam ao principal da ilha, por nome Publio, o qual nos recebeu e hospedou benignamente por tres dias.
8 E aconteceu que o pae de Publio estava de cama enfermo de febres e dysenteria, ao qual Paulo [4] foi ver, e, havendo orado, poz as mãos sobre elle, e o curou.
9 Feito pois isto, vieram tambem ter com elle os demais que na ilha tinham enfermidades, e sararam.
10 Os quaes nos honraram tambem com [5] muitas honras: e, havendo de navegar, nos proveram das coisas necessarias.
Paulo chega a Roma e fica prisioneiro em sua propria casa durante dois annos.
11 E tres mezes depois partimos n’um navio de Alexandria que invernára na ilha, o qual tinha por insignia [AII] Castor e Pollux.
12 E, chegando a Syracusa, ficámos ali tres dias.
13 D’onde, indo costeando, viemos a Rhegio; e um dia depois, soprando um vento do sul, chegámos no segundo dia a Puteolos.
14 Onde, achando alguns irmãos, nos rogaram que por sete dias ficassemos com elles; e assim fomos a Roma.
15 E de lá, ouvindo os irmãos novas de nós, nos sairam ao encontro á praça d’Appio e ás tres Vendas, e Paulo, vendo-os, deu graças a Deus, e tomou animo.
16 E, logo que chegámos a Roma, o centurião entregou os presos ao general dos exercitos; porém [6] a Paulo se lhe permittiu morar sobre si á parte, com o soldado que o guardava.
17 E aconteceu que, tres dias depois, Paulo convocou os que eram principaes dos judeos, e, juntos elles, lhes disse: Varões [7] irmãos, não havendo eu feito nada contra o povo, ou contra os ritos paternos, vim todavia preso desde Jerusalem, entregue nas mãos dos romanos;
18 Os quaes, havendo-me examinado, [8] queriam soltar-me, por não haver em mim crime algum de morte.
19 Porém, oppondo-se os judeos, foi-me forçoso [9] appellar para Cesar, não tendo, comtudo, de que accusar a minha nação.
20 Assim que por esta causa vos chamei, para vos ver e fallar; [10] porque pela esperança d’Israel estou com esta cadeia.
21 Porém elles lhe disseram: Nós não recebemos ácerca de ti cartas algumas da Judea, nem, vindo aqui algum dos irmãos, nos annunciou ou fallou de ti mal algum.
22 Porém bem quizeramos ouvir de ti o que sentes; porque, quanto a esta seita, [11] notorio nos é que em toda a parte se falla contra ella.
23 E, havendo-lhe elles assignalado um dia, muitos foram ter com elle á pousada, aos quaes declarava [12] e testificava o reino de Deus, e procurava persuadil-os á fé de Jesus, tanto pela lei de Moysés como pelos prophetas, desde pela manhã até á tarde.
24 E alguns criam [13] no que se dizia; porém outros não criam.
25 E, como ficaram entre si discordes, se despediram, dizendo Paulo esta palavra: Bem fallou o Espirito Sancto a nossos paes pelo propheta Isaias,
26 Dizendo: Vae a este povo, e dize: [14] De ouvido ouvireis, e de maneira nenhuma entendereis; e, vendo, vereis, e de maneira nenhuma percebereis.
27 Porque o coração d’este povo está endurecido, e com os ouvidos ouviram pesadamente, e fecharam os olhos, para que nunca com os olhos vejam, nem com os ouvidos ouçam, nem do coração entendam, e se convertam e eu os cure.
28 Seja-vos pois notorio que esta salvação de Deus é enviada aos gentios, e [15] elles a ouvirão.
29 E, havendo elle dito isto, partiram os judeos, tendo entre si grande contenda.
30 E Paulo ficou dois annos inteiros na sua propria habitação que alugára, e recebia todos quantos vinham vêl-o;
31 Prégando o reino de Deus, [16] e ensinando com toda a ousadia as coisas pertencentes ao Senhor Jesus Christo, sem impedimento algum.