O SANCTO EVANGELHO SEGUNDO S. JOÃO. (continued 2)
João Ferreira d' Almeida translation
26 E um dos servos do summo sacerdote, parente d’aquelle a quem Pedro cortara a orelha, disse: Não te vi eu no horto com elle?
27 E Pedro negou outra vez, e [16] logo o gallo cantou.
Jesus perante Pilatos.
Mat. 27.1, 2, 31 e refs.
28 Depois levaram [17] Jesus da casa de Caiphás para a audiencia. E era pela manhã. [18] E não entraram na audiencia, para não se contaminarem, mas poderem comer a paschoa.
29 Então Pilatos saiu fóra e disse-lhes: Que accusação trazeis contra este homem?
30 Responderam, e disseram-lhe: Se este não fosse malfeitor, não t’o entregariamos.
31 Disse-lhes pois Pilatos: Levae-o vós, e julgae-o segundo a vossa lei. Disseram-lhe pois os judeos: A nós não nos é licito matar alguem.
32 (Para [19] que se cumprisse a palavra que Jesus tinha dito, significando de que morte havia de morrer.)
33 Tornou [20] pois a entrar Pilatos na audiencia, e chamou a Jesus, e disse-lhe: Tu és o rei dos judeos?
34 Respondeu-lhe Jesus: Tu dizes isso de ti mesmo, ou disseram-t’o outros de mim?
35 Pilatos respondeu: Porventura sou eu judeo? a tua nação e os principaes dos sacerdotes entregaram-te a mim: que fizeste?
36 Respondeu [21] Jesus: [22] O meu reino não é d’este mundo: se o meu reino fosse d’este mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeos: porém agora o meu reino não é d’aqui.
37 Disse-lhe pois Pilatos: Logo tu és rei? Jesus respondeu: Tu dizes que eu sou rei. Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo, para dar testemunho á verdade. Todo aquelle que [23] é da verdade ouve a minha voz.
38 Disse-lhe Pilatos: Que é a verdade? E, dizendo isto, tornou a sair para os judeos, e disse-lhes: [24] Não acho n’elle crime algum;
39 Mas [25] vós tendes por costume que eu vos solte um pela paschoa. Quereis pois que vos solte o Rei dos Judeos?
40 Então [26] todos tornaram a clamar, dizendo: Este não, mas Barrabbás. [27] E Barrabbás era um salteador.
19 Pilatos [1] pois tomou então a Jesus, e o açoitou:
2 E os soldados, tecendo uma corôa de espinhos, lh’a pozeram sobre a cabeça, e lhe vestiram uma veste de purpura.
3 E diziam: Salve, Rei dos Judeos. E davam-lhe bofetadas.
4 Então Pilatos saiu outra vez fóra, e disse-lhes: Eis aqui vol-o trago fóra, para [2] que saibaes que não acho n’elle crime algum.
5 Saiu pois Jesus fóra, levando a corôa de espinhos e o vestido de purpura. E disse-lhes Pilatos: Eis-aqui o homem.
6 Vendo-o pois [3] os principaes dos sacerdotes e os servos, clamaram, dizendo: Crucifica-o, crucifica-o. Disse-lhes Pilatos: Tomae-o vós, e crucificae-o; porque eu nenhum crime acho n’elle.
7 Responderam-lhe os judeos: [4] Nós temos uma lei, e, segundo a nossa [5] lei, deve morrer, porque se fez Filho de Deus.
8 E Pilatos, quando ouviu esta palavra, mais atemorisado ficou.
9 E entrou outra vez na audiencia, e disse a Jesus: D’onde és tu? [6] Mas Jesus não lhe deu resposta.
10 Disse-lhe pois Pilatos: Não me fallas a mim? não sabes tu que tenho poder para te crucificar e tenho poder para te soltar?
11 Respondeu Jesus: [7] Nenhum poder terias contra mim, se de cima te não fosse dado; porém aquelle que me entregou a ti maior peccado tem.
12 Desde então Pilatos procurava soltal-o; mas os judeos clamavam, dizendo: [8] Se soltas este, não és amigo do Cesar: [9] qualquer que se faz rei [AHW] contradiz ao Cesar.
13 Ouvindo pois Pilatos este dito, levou a Jesus para fóra, e assentou-se no tribunal, no logar chamado Lithostrótos, e em hebraico Gabbatha.
14 E [10] era a preparação da paschoa, e quasi á hora sexta; e disse aos judeos: Eis aqui o vosso Rei.
15 Mas elles bradaram: Tira, tira, crucifica-o. Disse-lhes Pilatos: Hei de crucificar o vosso Rei? Responderam os principaes dos sacerdotes: [11] Não temos rei, senão o Cesar.
16 Então [12] entregou-lh’o, para que fosse crucificado. E tomaram a Jesus, e o levaram.
A crucifixão.
Mat. 27.31-56 e refs.
17 E, levando [13] elle ás costas a sua cruz, saiu [14] para o logar chamado Caveira, que em hebraico se chama Golgotha,
18 Onde o crucificaram, e com elle outros dois, um de cada lado, e Jesus no meio.
19 E Pilatos [15] escreveu tambem um titulo, e pôl-o em cima da cruz; e n’elle estava escripto: JESUS NAZARENO, REI DOS JUDEOS.
20 E muitos dos judeos leram este titulo; porque o logar onde Jesus estava crucificado era proximo da cidade; e estava escripto em hebraico, grego e latim.
21 Diziam pois os principaes sacerdotes dos judeos a Pilatos: Não escrevas, Rei dos Judeos; mas que elle disse: Sou Rei dos Judeos.
22 Respondeu Pilatos: O que escrevi, escrevi.
23 Tendo pois [16] os soldados crucificado a Jesus, tomaram os seus vestidos, e fizeram quatro partes, para cada soldado uma parte, e a tunica. Porém a tunica, tecida toda d’alto a baixo, não tinha costura.
24 Disseram pois uns aos outros: Não a rasguemos, mas lancemos sortes sobre ella, para vêr de quem será. Para que se cumprisse a Escriptura que diz: Dividiram [17] entre si os meus vestidos, e sobre a minha vestidura lançaram sortes. E os soldados, pois, fizeram estas coisas.
25 E [18] junto á cruz de Jesus estava sua mãe, e a irmã de sua mãe, Maria, mulher [19] de Cleophas, e Maria Magdalena.
26 Ora Jesus, vendo ali a sua mãe, e [20] o discipulo a quem elle amava estando presente, disse a sua mãe: [21] Mulher, eis ahi o teu filho.
27 Depois disse ao discipulo: Eis ahi tua mãe. E desde aquella hora o discipulo a recebeu [22] em sua casa.
28 Depois, sabendo Jesus que já todas as coisas estavam [23] acabadas, para que a Escriptura se cumprisse, disse: Tenho sêde.
29 Estava pois ali um vaso cheio de vinagre. [24] E encheram de vinagre uma esponja, e, pondo-a n’um hyssope, lh’a chegaram á bocca.
30 E, quando Jesus tomou o vinagre, disse: [25] Está consummado. E, inclinando a cabeça, entregou o espirito.
31 Os judeos, pois, para [26] que no sabbado não ficassem os corpos na cruz, porque era a preparação [27] (pois era grande o dia de sabbado), rogaram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas, e fossem tirados.
32 Foram pois os soldados, e, na verdade, quebraram as pernas ao primeiro, e ao outro que com elle fôra crucificado;
33 Mas, vindo a Jesus, e vendo-o já morto, não lhe quebraram as pernas.
34 Porém um dos soldados lhe furou o lado com uma lança, e logo saiu [28] sangue e agua.
35 E aquelle que isto viu o testificou, e o seu testemunho é verdadeiro; e sabe que é verdade o que diz, para que tambem vós o creiaes.
36 Porque estas coisas aconteceram para que [29] se cumprisse a Escriptura, que diz: Nenhum dos seus ossos será quebrado.
37 E outra vez diz a Escriptura: [30] Verão o que traspassaram.
A sepultura de Jesus.
Mat. 27.57, etc. e refs.
38 Depois d’isto, [31] José de Arimathea (o que era discipulo de Jesus, mas occulto, [32] por medo dos judeos) rogou a Pilatos que lhe permittisse tirar o corpo de Jesus. E Pilatos lh’o permittiu. Então foi e tirou o corpo de Jesus.
39 E foi tambem [33] Nicodemos (aquelle que anteriormente se dirigira de noite a Jesus), [34] levando quasi cem arrateis d’um composto de myrrha e aloes.
40 Tomaram pois o corpo de Jesus e o envolveram em lençoes com as especiarias, como os judeos teem por costume preparar para o sepulchro.
41 E havia um horto n’aquelle logar onde fôra crucificado, e no horto um sepulchro novo, em que ainda ninguem havia sido posto.
42 Ali pois (por causa da preparação [35] dos judeos, e por estar perto aquelle sepulchro), [36] pozeram a Jesus.
A resurreição.
Mat. 28.1-10 e refs.
20 E no [1] primeiro dia da semana Maria Magdalena foi ao sepulchro de madrugada, sendo ainda escuro, e viu a pedra já tirada do sepulchro.
2 Correu pois, e foi a Simão Pedro, e ao [2] outro discipulo, a quem Jesus amava, e disse-lhes: Levaram o Senhor do sepulchro, e não sabemos onde o pozeram.
3 Então [3] Pedro saiu com o outro discipulo, e foram ao sepulchro.
4 E estes dois corriam juntos, porém o outro discipulo correu mais apressadamente do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulchro.
5 E abaixando-se, viu postos os lençoes; todavia não entrou.
6 Chegou pois Simão Pedro, que o seguia, e entrou no sepulchro, e viu postos os lençoes,
7 E [4] que o lenço, que tinha sido posto sobre a sua cabeça, não estava com os lençoes, mas enrolado n’um logar á parte.
8 Então entrou tambem o outro discipulo, que chegara primeiro ao sepulchro, e viu, e creu.
9 Porque ainda não sabiam a Escriptura: [5] que era necessario que resuscitasse dos mortos.
10 Tornaram pois os discipulos para casa.
Jesus apparece a Maria Magdalena.
11 E Maria [6] estava chorando fóra, junto ao sepulchro. Estando ella pois chorando, abaixou-se para o sepulchro.
12 E viu dois anjos vestidos de branco, assentados onde jazera o corpo de Jesus, um á cabeceira e outro aos pés.
13 E disseram-lhe elles: Mulher, porque choras? Ella lhes disse: Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o pozeram.
14 E, tendo [7] dito isto, voltou-se para traz, e viu Jesus em pé, [8] porém não sabia que era Jesus.
15 Disse-lhe Jesus: Mulher, porque choras? Quem buscas? Ella, cuidando que era o hortelão, disse-lhe: Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o pozeste, e eu o levarei.
16 Disse-lhe Jesus: Maria! Ella, voltando-se, disse-lhe: Rabboni (que quer dizer, Mestre).
17 Disse-lhe Jesus: Não me toques, porque ainda não subi para meu Pae, mas vae para [9] meus irmãos, e dize-lhes: [10] Subo para meu Pae e vosso Pae, [11] e para meu Deus e vosso Deus.
18 Maria Magdalena foi [12] e annunciou aos discipulos que vira o Senhor, e que elle lhe dissera estas coisas.
Jesus apparece aos onze. A incredulidade de Thomé.
Luc. 24.33-43 e refs.
19 Chegada [13] pois a tarde de aquelle dia, o primeiro da semana, e cerradas as portas onde os discipulos, com medo dos judeos, se tinham ajuntado, chegou Jesus, e poz-se no meio, e disse-lhes: Paz comvosco.
20 E, dizendo isto, mostrou-lhes as suas mãos e o lado. [14] De sorte que os discipulos se alegraram vendo o Senhor.
21 Disse-lhes pois Jesus outra vez: Paz comvosco; [15] assim como o Pae me enviou, tambem eu vos envio a vós.
22 E, havendo dito isto, assoprou sobre elles e disse-lhes: Recebei o Espirito Sancto:
23 Áquelles a quem [16] perdoardes os peccados lhes são perdoados: e áquelles a quem os retiverdes lhes são retidos.
24 Ora Thomé, um dos doze, chamado [17] Didymo, não estava com elles quando Jesus chegou.
25 Disseram-lhe pois os outros discipulos: Vimos o Senhor. Porém elle disse-lhes: Se eu não vir o signal dos cravos em suas mãos e não metter o dedo no logar dos cravos, e não metter a minha mão no seu lado, em maneira nenhuma o crerei.
26 E oito dias depois estavam outra vez os seus discipulos dentro, e com elles Thomé. Chegou Jesus, estando as portas fechadas, e apresentou-se no meio, e disse: Paz comvosco.
27 Depois disse a Thomé: Chega aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; [18] e chega a tua mão, e mette-a no meu lado; e não sejas incredulo, mas crente.
28 Thomé respondeu, e disse-lhe: Senhor meu, e Deus meu!
29 Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Thomé, creste; [19] bemaventurados os que não viram, e creram.
30 Jesus pois operou tambem em presença de seus discipulos muitos outros [20] signaes, que não estão escriptos n’este livro.
31 Porém [21] estes foram escriptos para que creiaes que Jesus é o Christo, o Filho de Deus, [22] e para que, crendo, tenhaes vida em seu nome.
Jesus apparece a alguns dos discipulos junto do mar de Tiberiades.
21 Depois d’isto manifestou-se Jesus outra vez aos discipulos junto do mar de Tiberiades; e manifestou-se assim:
2 Estavam juntos Simão Pedro, e Thomé, chamado Didymo, [1] e Nathanael, o de Caná da Galilea, [2] os filhos de Zebedeo, e outros dois dos seus discipulos.
3 Disse-lhes Simão Pedro: Vou pescar. Dizem-lhe elles: Tambem nós vamos comtigo. Foram, e subiram logo para o barco, e n’aquella noite nada apanharam.
4 E, sendo já manhã, Jesus se apresentou na praia, [3] porém os discipulos não conheceram que era Jesus.
5 Disse-lhes [4] pois Jesus: Filhos, tendes alguma coisa de comer? Responderam-lhe: Não.
6 E elle lhes disse: [5] Lançae a rede para a banda direita do barco, e achareis. Lançaram-n’a pois, e já não a podiam tirar, pela multidão dos peixes.
7 Então [6] aquelle discipulo a quem Jesus amava disse a Pedro: É o Senhor. E, quando Simão Pedro ouviu que era o Senhor, cingiu-se com a tunica (porque estava nu) e lançou-se ao mar.
8 E os outros discipulos foram com o barco (porque não estavam distantes da terra senão quasi duzentos covados), levando a rede dos peixes.
9 Logo que desceram para terra, viram ali umas brazas, e um peixe posto em cima, e pão.
10 Disse-lhes Jesus: Trazei dos peixes que agora apanhastes.
11 Simão Pedro subiu, puxou a rede para terra, cheia de cento e cincoenta e tres grandes peixes, e, sendo tantos, não se rompeu a rede.
12 Disse-lhes Jesus: [7] Vinde, jantae. E nenhum dos discipulos ousava perguntar-lhe: Quem és tu? sabendo que era o Senhor.
13 Chegou pois Jesus, e tomou o pão, e deu-lh’o, e, similhantemente o peixe.
14 E já [8] esta era a terceira vez que Jesus se manifestava aos seus discipulos, depois de ter resuscitado dos mortos.
15 E, depois de terem jantado, disse Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de Jonas, amas-me mais do que estes? E elle respondeu: Sim, Senhor; tu sabes que te amo. Disse-lhe: Apascenta os meus cordeiros.
16 Tornou a dizer-lhe segunda vez. Simão, filho de Jonas, amas-me? Disse-lhe: Sim, Senhor; tu sabes que te amo. [9] Disse-lhe: Apascenta as minhas ovelhas.
17 Disse-lhe terceira vez: Simão, filho de Jonas, amas-me? Simão entristeceu-se por lhe ter dito terceira vez: Amas-me? e disse-lhe: Senhor, tu [10] sabes todas as coisas; tu sabes que eu te amo. Jesus disse-lhe: Apascenta as minhas ovelhas.
18 Na [11] verdade, na verdade, te digo, que, quando eras mais moço, te cingias a ti mesmo, e andavas por onde querias: mas, quando já fores velho, estenderás as tuas mãos; e outro te cingirá, e te levará para onde tu não queiras.
19 E disse isto, significando com [12] que morte havia elle de glorificar a Deus. E, dito isto, disse-lhe: Segue-me.
20 E Pedro, voltando-se, [13] viu que o seguia aquelle discipulo a quem Jesus amava, e que na ceia se recostara tambem ao seu peito, e que dissera: Senhor, quem é que te ha de trahir.
21 Vendo Pedro a este, disse a Jesus: Senhor, e d’este que será?
22 Disse-lhe Jesus: Se eu quero que elle fique [14] até que eu venha, que te importa a ti? Segue-me tu.
23 Divulgou-se pois entre os irmãos este dito, que aquelle discipulo não havia de morrer. Jesus, porém, não lhe disse que não morreria, mas: Se eu quero que elle fique até que eu venha, que te importa a ti?
24 Este é o discipulo que testifica d’estas coisas, e estas coisas escreveu; e [15] sabemos que o seu testemunho é verdadeiro.