FRANCISCO DE SÁ DE MIRANDA
Reading edition
c. 1490-1558
106. Carta a el Rei Nosso Senhor
Rei de muitos reis, se uma hora me atrevo ocupar-vos, mal faria e ao bem comum nam teria os respeitos que ter devo. Que em outras partes da esfera, em outros ceos diferentes que Deus té gora escondera, tanta multidão de gentes vosso mandado espera. Que sois vos tal que a eles sós, justo e poderoso rei, ou lhe desdais os seus nós ou cortais, porque entre nos vos sois nossa viva lei. Onde ha homens ha cobiça: cá e lá tudo ela enpeça, se a santa, se a igual justiça nam corta ou nam desenpeça o que a má malicia enliça. Senhor, que é muito atrevida, e onde ela nós cegos deu cortar é cousa devida: exemplo o jugo de Mida, que el rei vosso avó fez seu. Ora eu, respeito havendo ao tempo mais que ao estilo, irei fugindo ao que entendo: farei como os cães do Nilo que correm e vam bebendo. A dignidade real que o mundo a direito tem (sem ela ter-se-ia mal) é sagrada, e nam leal quem limpo ante ela nam vem. Nam falemos nos tiranos, falemos nos reis ungidos: remedeiam nossos danos, socorrem os afligidos, cortam polos maos enganos. As vossas velas que vam dando quasi ao mundo volta raramente encontrarão gente de outro algum rei solta: sem cabeça o corpo é vão. Dignidade alta e suprema, quem ha que a nam reconheça? Viu-se em Marco Antonio tema de pôr real diadema a Cesar sobre a cabeça. Que o nome de emperador a qualquer seu capitam que tenha em armas louvor dava Roma, e era entam mais consul, mais ditador. Um rei ao reino convem: vemos que alumia o mundo um sol; um Deus o sostem; certa a queda e o fim tem o rei onde ha rei segundo. Nam ao sabor das orelhas, arenga estudada e branda, abastam as razões velhas: a cabeça os membros manda, seu rei seguem as abelhas. A tempo o bom rei perdoa, a tempo ferro é mezinha: forças e condição boa deram ao lião coroa da sua grei montesinha. As aves, tamanho bando, de outra liga e de outra lei, por vencer todas voando tomaram a aguia por rei, que o sol claro atura olhando. Quanto que sempre guardou David lealdade e fe a Saul! quanto o chorou! Quanta maldição lançou ás montes de Gilboe! Onde caira o escudo do seu rei, inda que imigo, inda que ja mal sesudo, saindo de tal perigo e subindo a mandar tudo. O Senhor da natureza, de quem ceo e terra é chea, vindo a esta nossa baixeza, do real sangue se preza, por Rei na cruz se nomea. Sobre obrigações tamanhas valem-se contudo os reis dos rostos falsos, das manhas com que lhes querem das leis fazer teas de aranhas. Que se nam podem fazer por arte, por força ou graça salvo o que a justiça quer, senhor, nam chamam poder salvo o que lhes val na praça. E por muito que os reis olhem vam por fora mil inchaços que ante vos, senhor, se encolhem, d’ uns gigantes de cem braços com que dão e com que tolhem. Quem graça ante el rei alcança e hi fala o que nam deve, mal grande da má privança, peçonha na fonte lança de que toda a terra beve. Quem joga onde engano vai em vão corre e torna atras, em vão sobre a face cai: mal hajam as manhas más donde tanto engano sai! Homem de um só parecer, de um só rosto, uma só fe, d’ antes quebrar que torcer, ele tudo pode ser mas de corte homem nam é. Gracejar ouço de cá de quem vai inteiro e são, nem se contrafaz mais lá: como esse vem aldeão! que cortesão tornará! As santidades da praça, aqueles rostos tristonhos com os quais este e aquele caça, para Deus, senhor, são graça, para vos tudo são sonhos. E os discursos que fazemos: pode ser! pode nam ser! mais adiante o entenderemos: agora mortos por ver, entam todos nos veremos. Por minas trazem suas azes, os rostos de tintoreiros; falsas guerras, falsas pazes: de fora mansos cordeiros, de dentro lobos roazes. Tudo seu remedio tem, e que é assi bem o sabeis e o remedio tembem: querei-los conhecer bem? No fruto os conhereceis. Obras, que palavras nam! Porem, senhor, somos muitos, e entre tanta multidão tresmalham-se-vos os frutos, que nam sabeis cujas são. Um que por outro se vende lança a pedra e a mão esconde, o dano longe se estende: aquele a quem doi o entende, com só sospiros responde. A vida desaparece, e entretanto geme e jaz o que caiu; e acontece que d’ um mal que se lhe faz outro mor se lhe recrece. Pena e galardam igual o mundo a direito tem: ha uma regra geral que a pena se deve ao mal e o galardam ao bem. Se alguma hora aconteceu na paz, muito mais na guerra, que a balança mais pendeu faz-se engano ás leis da terra, nunca se faz ás do ceo. Entre os Lombardos havia lei escrita e lei usada, como se sabe hoje em dia, que onde a prova falecia que o provasse a espada. Ali no campo, ás singelas; enfim morrer ou vencer, fosse qual quisesse d’ elas: nam era milhor morrer a ferro que de cautelas? Ao nosso alto e excelente Dom Dinis, rei tam louvado, tam justo, a Deus tam temente, falsa e maliciosamente foi grande aleive assacado. Ele posto em tal perigo, reis que fez e desfez, contra o malicioso imigo foi-lhe forçoso esta vez chamar-se a esta lei que digo; ás vilas e ás cidades, a quem cumpria de acudir polas suas lealdades: tanto são más as verdades ás vezes de descobrir. Neste tempo quem mal cai mal jaz. E dizem que á luz com o tempo a verdade sai; entretanto põem na cruz o justo; o ladrão se vai. Da mesma casa real em verdade um grande ifante, tratado ás escuras mal, bradava por campo igual e imigos claros diante; enfim, vendo a industria e arte quanto que podem, chamou um leal conde de parte: só com ele se apartou, foi viver a milhor parte, onde tudo é certo e claro, onde são sempre umas leis. Principe no mundo raro! Sobre tanto desemparo foram tres seus filhos reis. Ó senhor, quantos suores passa o corpo e a alma em vão em poder d’ envolvedores! enfim batalhas que são salvo desafios mores? Com a mão sobre um ouvido ouvia Alexandre as partes, como quem tinha entendido por fazer certo o fingido quantas que se buscam de artes. Guardava ele o outro inteiro á parte inda nam ouvida; nam vai nada em ser primeiro: quem muito sabe duvida, só Deus é o verdadeiro. A tudo dão novas cores com que enleam os sentidos; Ah maos, ah enliçadores, ante os reis, vossos senhores, andais com rostos fingidos. Contais, gabais, estendeis serviços e lealdades: olhai que nam nos daneis! Falai em tudo verdades a quem em tudo as deveis. Senhor, nosso padre Adam pecou, chamou-o o juiz: tinha que dizer ou nam hi sua fraca razam, porem livremente diz. Sempre foi, sempre ha de ser que onde uma só parte fala que a outra haja de gemer: se um jogo a todos iguala, as leis que devem fazer? Vidas e honras guardais debaixo de vosso emparo, d’estranhos, de naturais: sospiram, nam podem mais, e ás vezes nam muito claro. Apos estas, senhor, arde a cobiça da fazenda, por mais que se vele e guarde: tem ela milhor emenda se nam viesse mal e tarde. Geralmente é presuntuosa Espanha e d’ isso se preza, gente ousada e belicosa: culpam-na de cobiçosa, tudo sabe Vossa Alteza. Pensamentos nunca cheos! Nam tem fundo aqueles sacos! Inda mal, porque tem meos para viver dos mais fracos e dos suores alheos. Que eu vejo nos povoados muitos dos salteadores com nomes e rostos de honrados andar quentes e forrados das peles dos lavradores. E, senhor, nam me creais se as nam acho mais finas que as de lobos cervais, que arminhos, que zebelinas: custam menos, cobrem mais. Ah senhor, que vos direi, que acuda mais vento ás velas? Nunca se descuide el rei, que inda nam é feita a lei ja lhe são feitas cautelas. Entam tristes das molheres! Tristes dos orfãos coitados! E a pobreza dos mesteres, que nem falar são ousados diante os mores poderes! Os quais, quem os assi quer, quem os negocea assi, que fará quando os tiver? Nossos houveram de ser, tornaram-nos para si. Ora ja que as conciencias o tempo as levou consigo, venhamos ás penitencias: senhor, se eu vira castigo boas são as residencias. Mas eu vejo ca na aldea nos enterros abastados muito padre que passea, enfim ventre e bolsa chea, absoltos de seus pecados. Se se hão de reconciliar uns com os outros tem seu trato, basta-lhes só acenar: nam no fazem tam barato ao tempo do confessar. Senhor, esta vossa vara em quais mãos anda, tal é: a boa é ave mui rara; sabei que esta nunca é cara, que seja muita a mercé. Livre de toda a cobiça, a Deus temente e a vos, sem respeito e sem preguiça, vara direita sem nós, se quereis que haja justiça. Tomai, senhor, o conselho do bom Gethro ao genro amigo; é verdade, é evangelho; como disse aquele velho, humilmente assi vos digo que estas leis justinianas, se nam ha quem as bem reja, fora de paixões humanas, são um campo de peleja com razões fracas e ufanas. Morre o nobre Conradino com o parceiro em tudo igual, cada um de tal morte indino, pelo pesado ou malino doutor que interpreta mal. Diz o texto: o sangue cesse por batalha e guerra finda; vem com grosa outro interesse, diz que ande o cutelo, ainda que em prisam certa o tivesse. Mas, senhor, milhor o temos sendo vos o que mandais: todos nos revolveremos, os que tanto nam podemos e aqueles que podem mais. Quem por amor se encadea nam é nome errado ou novo se por livre se nomea; nam tem tanto amor de povo rei em quanto o mar rodea. Aqui nam vemos soldados, aqui nam soa tambor: outros reis os seus estados guardam de armas rodeados, vos rodeado de amor. Achar-nos-hão as divinas no meo dos corações entalhadas vossas quinas: estas são as guarnições de vos e dos vossos dinas. Tem na verdade o frances a seu rei amor acceso, nam lh’ o nega o portugues; porem traz guarda escoces, que nam é de pouco peso. O Padre Santo assi faz, a quem certo se devia alto assossego, alta paz: mas tem guarda todavia com que vai seguro e jaz. Que se pode ir mais avante com quanto alcança o sentido sem ferro ou fogo que espante: com duas canas diante is amado e is temido. Uns sobre os outros corremos a morrer por vos com gosto: grandes testemunhas temos com que mãos e com que rosto por Deus e por vos morremos. Outrosi para os reveses (queira Deus que nam releve!) em vos tem os portugueses o bom rei dos athenieses, Codro, que outro algum nam teve. Do vosso nome um gram rei neste reino lusitano se pos esta mesma lei, que diz o seu pelicano: Pola lei e pola grei. Mas eu sou d’ uns guardacabras que se vão de ponto em ponto: querem só duas palavras, que dos gados, que das lavras, depois nam tem fim nem conto. Assi que seja aqui fim, tornem as praticas vivas: perdestes mea hora em mim das que chamam socessivas estes que sabem latim.
107. A este cantar das moças ao adufe: Naquela serra quero ir a morar, quem me bem quiser lá me irá buscar.
Voltas Nestes povoados tudo são requestas, deixai-me os cuidados, que eu vos deixo as festas! D’ aquelas florestas verei longe o mar, pôr-me-hei a cuidar. Responde-lhe outra companheira de outra opinião: Sombras e aguas frias, cantar de aves, bem! Quando as tardes vem por ca bradaria! Ves que pressa os dias levam sem cansar, nunca ham de voltar! A primeira Nam julgue ninguem nunca outrem por si: mais d’ um bem que vi a vida nam tem. Nam deixa este bem onde se ele achar mais que desejar. A outra Deixa as vaidades, que da mão á boca o sabor se troca, trocam-se as vontades; são essas suidades armadas no ar, nam podem durar. A primeira Naquela espessura me hei de ir esconder: venha o que vier, achar-me-hei segura. Se tal bem nam dura, ao seu passar tudo ha de acabar.
108. Cantiga
Comigo me desavim no estremo som do perigo: nam posso aturar comigo, nam posso fugir de mim. Com dor da gente fugia antes que esta assi crecesse, agora ja fugiria de mim, se de mim pudesse. Que meo espero ou que fim do vão trabalho que sigo se trago a mim comigo, tamanho imigo de mim?
109. Soneto
O sol é grande, caem com a calma as aves do tempo em tal sazão que soe de ser fria: esta agua que do alto cai acordar-me-ia do sono nam, mas de cuidados graves. Ó cousas todas vãs, todas mudáveis! Qual é o coraçam que em vos confia? Passando um dia vai, passa outro dia, incertos todos mais que ao vento as naves! Eu vi ja por aqui sombras e flores, vi aguas e vi fontes, vi verdura, as aves vi cantar todas d’ amores. Mudo e seco é ja tudo e de mistura; tambem fazendo-me eu fui de outras cores; e tudo o mais renova, isto é sem cura.
110. Á morte de sua molher
Aquele espirito tam bem pagado, como ele merecia, claro e puro, deixou de boa vontade o vale escuro, de tudo o que cá viu como anojado. Aquele espirito que do mar irado d’ esta vida mortal posto em seguro, da gloria que la tem de herdade e juro cá nos deixou o caminho abalisado. Alma aqui vinda nesta nossa idade de ferro que tornaste a antiga de ouro em quanto cá regeste a humanidade, em chegando ajuntaste tal tesouro que para sempre dure! Ah vaidade! Ricas areas d’ este Tejo e Douro!