SCENA XII
Reading edition
Os mesmos e Sebastiana
SEBASTIANA
(entrando pelo fundo com um prato) Fil-a esperar, minha senhora: mas a causa foi o senhor que me mandou buscar um trem (a Liborio:) Já lá está.
LIBORIO
(pousando o copo) Ah! bem! (saudando) Minha senhora!
ITELVINA
(a meia voz) Deante da creada, não. (alto) Sáe, Sebastiana.
SEBASTIANA
(pondo o prato sobre a jardineira) Sim, minha senhora. (Sahe pelo fundo levantando a terrina e os pratos servidos).
LIBORIO
Agora, se me dá licença... (faz mensão de sahir).
ITELVINA
Peço-lhe que se demore um momento... O meu fim não é fazer a tal scena das pazes, descance. Mas, como não nos veremos mais é necessaria a ultima explicação.
LIBORIO
De que serve isso?
ITELVINA
De mais a mais, sobra-lhe tempo para jantar aqui ou na estação. (Servindo-o) Quer uma aza de perdigoto?
LIBORIO
O certo é que as emoçoens tem-me extenuado... Tomarei um pãosito; mas deixemo-nos de explicações, se faz favor... (Pega d'um prato e pão e vae sentar-se á sua meza, a comer).
ITELVINA
(passados instantes) Confesso que fui violenta, arrebatada; mas o senhor julga-se innocente?
LIBORIO
De modo nenhum. Eu pratiquei o enorme e condemnavel crime de me apresentar á senhora em fórma de carta a participar um enterro. Confesso, contrito, a culpa. Se me levassem a uma policia correccional e o juiz me perguntasse: «O snr. Liborio é réo?» Eu respondia: «Sou réo, snr. juiz!»
ITELVINA
O senhor prestou-se a uma ridicula mistificação, uma fraude ultrajante, odiosa, só com o fim de dilacerar uma mulher.
LIBORIO
Não foi isso.
ITELVINA
Então que foi?
LIBORIO
O caso é este. Macario tinha-me dito o diabo a quatro da senhora. Ora eu tenho cá para mim que quanto mais mal se diz de uma mulher, mais se deseja ser amado d'ella. A alma do homem é assim formada de estupidez e capricho...
ITELVINA
Huum! (Depois de um curto silencio) Quer beber? (Enche o copo).
LIBORIO
(erguendo-se) Agradeço (vae á jardineira) Muito obrigado, querida senhora! (Bebe e torna a ir sentar-se, levando o copo).
ITELVINA
(tendo bebido) Sempre o senhor me collocou n'uma situação bem exquisita! Eu julgava-o o assassino de Macario; e, n'esta persuasão, o meu dever qual era? que me cumpria fazer?
LIBORIO
Mandar chamar o chefe da policia.
ITELVINA
Eu conheco lá policias...
LIBORIO
Em vez d'isso, pensou lá comsigo: «Como é um scelerado, cazo com elle. Se o mettesse na Relação, elle poderia fugir vestido de mulher; mas, cazando com elle, é o mesmo que pôl-o na Penitenciaria, d'onde não se foge facilmente.
ITELVINA
(erguendo-se e vindo ao meio) E isso é tão verdade que o senhor gosa a liberdade de retirar-se quando quizer.
LIBORIO
Mas pergunto eu: tenho liberdade para offerecer a outra o nome que lhe dei? Posso mentir, enganar... e mais nada. Com toda a certeza, heide esquecêl-a; mas hade levar tempo... Não me fingo mais forte do que sou... Esta manhan ainda eu a amava... Como os homens são, senhora!... As mulheres, ás vezes, agradam pelos seus defeitos... e a senhora estava na conta. A senhora chorava de raiva; e eu ao deixal-a, chorava imbecilmente de saudade... d'amor! (Ergue se) Estupida confissão, mas verdadeira!... (Passa á esquerda) Ah! Como os homens são bêstas! Graças vos sejam dadas, Senhor! Isto acabou-se! (Itelvina, sem lhe responder, corre á janella que abre).
ITELVINA
(atirando dinheiro á rua) Cocheiro, ahi tem 10 tostoens; vá-se embora.
LIBORIO
Como é isso? elle é o meu cocheiro.
ITELVINA
Liborio! eu amo-te!
LIBORIO
Como?
ITELVINA
Tu não te vaes embora!
LIBORIO
Não vou?...
ITELVINA
Peço-te perdão, peço-t'o de joelhos! (ajoelha).
LIBORIO
(ajoelhando-se tambem) Tu... de joelhos!
ITELVINA
Confesso que fui injusta.
LIBORIO
Sim... a fallar verdade... mas não...
ITELVINA
Perdôa-me!
LIBORIO
Perdôo... E o pé torcido? Destorceu-se?
ITELVINA
Estou boa de todo.
LIBORIO
Minha esposa!
ITELVINA
Meu marido! (abraçam-se sem se levantarem).