SCENA IV
Reading edition
Barnabé, Itelvina, e depois Sebastiana
ITELVINA
(depondo o chapeu e o chaile, vae sentar-se ao piano e canta) Trai la ri, trai la ri, trai la ró.
BARNABÉ
Isso é um bota a baixo! Agora é o piano que leva a sua conta...
ITELVINA (Cantando)
«Na primavera da vida Ambos e dois muito amigos Suspiravam por um ninho, Por um ninho entre os trigos.»
BARNABÉ
Que é isso que tu cantas?
ITELVINA
Uma cançoneta moderna, que se chama: Um ninho entre os trigos. (Canta):
E de braço dado juntos Ao repontar da manhan Iam fazer o seu ninho Nos trigos de Campanhan.
BARNABÉ
É mais natural que fôsse nas arvores... Os passaros em geral preferem...
ITELVINA
Mas não se trata de passaros. (Canta):
E depois elle cantava Pousado nos ramos novos, E ella aquecia, cantando No seu ninho os caros ovos.
BARNABÉ
Ah! então não é de passaros que se trata? Lá me parecia que dois passaros de braço dado por Campanhan...
ITELVINA
É uma menina e um rapaz.
BARNABÉ
(pegando na cançoneta com arremesso). Basta! Deixa vêr. (Lê alto as tres quadras que ella cantou). E chama a isto um ninho o tratante do cançoneteiro! Quem diabo fez esta coisa?
ITELVINA
Foi um poeta inspirado. Dê-me cá a muzica, ande!
BARNABÉ
Empresto-t'a para a estudares, de tarde, quando eu estiver a dormir a sésta... (Á parte). Mandem lá ensinar piano ás raparigas n'uma terra em que os poetas inspirados dizem ás meninas que se fazem ninhos nos trigos de Campanhan!... e que se aquecem os ovos... O Porto está peor que o Mexico a respeito de ovos e de ninhos...
SEBASTIANA
(entrando pelo fundo). Ainda havia agua quente. Ella aqui está (Dá-lhe a chocolateira).
BARNABÉ
Bem, vou para o meu quarto (Mudando de ideia). Mas, se estiveres quieta... Um pae póde escanhoar-se na presença da filha (Arranja os utensilios, e remeche o pincel na vasilha do sabonete).
ITELVINA
(a Sebastiana) Veio carta para mim?... de Braga?
SEBASTIANA
Não, minha senhora, o carteiro passou ha muito. (Sahe pela porta do fundo)
ITELVINA
(comsigo mesma) É espantoso! Ha trez dias que Macario foi para Braga, e nada de noticias! Se eu não tivesse inteira confiança no seu amor... Talvez uma catastrophe! Acontecem tantas desgraças nos caminhos de ferro!... (Vae agitadamente para o pae que lhe voltou as costas e se está barbeando) Meu pae! (com intimativa)
BARNABÉ
Que é? cuidado, que por pouco me não cortei... Que temos?
ITELVINA
Acha isto natural?
BARNABÉ
Natural, o quê?
ITELVINA
Trez dias de auzencia sem me escrever?
BARNABÉ
Ah! sim, o Macario? (Á parte) Bem me importa a mim isso... (alto) Se elle foi buscar os papeis a Braga, é preciso dar-lhe tempo. (Torna a escanhoar-se)
ITELVINA
(passeando) Dar-lhe tempo, dar-lhe tempo! Eu não exijo que elle volte; mas que me escreva; não se está assim trez dias... a fazer o quê?... que difficuldades encontrou?
BARNABÉ
Não andes assim n'esse passo que me incommodas. Fazes tremer o sobrado.
ITELVINA
O pae não sabe o que é amor!
BARNABÉ
Soube-o primeiro que tu, e dou-te a minha palavra que depois que a gente sabe o que isso é, e pensa a sangue frio... não vale um caracol o amor... Tu o saberás...
ITELVINA
Ha tres mezes que conheço Macario, e a toda a hora maldigo as formalidades portuguezas, e pergunto de que servem para a gente se casar, papeis, banhos, tabellião, padre, sacristão...
BARNABÉ
Ha pessoas que dispensam tudo isso... mas (com energia) fazem mal... fazem muito mal... Sem tabellião, e banhos, e padre e sacristão não ha honra.
ITELVINA
Finalmente, logo que Macario chegar com os papeis, não haverá impedimentos...
BARNABÉ
Isso lá de impedimentos... veremos.
ITELVINA
(derrubando uma cadeira, e indo direita ao pae) Haverá alguns? diga...
BARNABÉ
(cortando-se) Cá está um... vês tu?
ITELVINA
Um impedimento?
BARNABÉ
Um golpe de navalha... estou acutilado!
ITELVINA
(estancando-lhe o sangue com o lenço) Deixe vêr... Isto não é nada.
BARNABÉ
Arde-me... e bastante...
ITELVINA
Vae passar.
BARNABÉ
Falla-me, se queres, mas lá de longe... Eu só de longe é que ouço bem.
ITELVINA
(afastando-se e levantando a cadeira) Faço-lhe a vontade; mas o pae fallou de um impedimento... desejo conhecêl-o.
BARNABÉ
É o meu consentimento.
ITELVINA
O seu consentimento?
BARNABÉ
Está claro; tu não pódes casar sem eu consentir... A lei é positiva.
ITELVINA
Que arrelia! Isso quer dizer que, se o pae não ama Macario, tambem eu não posso amál-o...
BARNABÉ
Lá tu amál-o pódes... mas não basta...
ITELVINA
Não posso casar com elle, se o pae o não amar?...
BARNABÉ
Não.
ITELVINA
As leis portuguezas dizem isso? Existem absurdos taes n'um povo livre?
BARNABÉ
(limpando a navalha e pondo-a sobre o contador) Tal e qual, minha filha. Ora agora, quanto a Macario...
ITELVINA
(passando para a esquerda) Meu pae, eu amo Macario!
BARNABÉ
Elle não tem chêta.
ITELVINA
Amo Macario!
BARNABÉ
Passa a vida nos bilhares e nas cervejarias.
ITELVINA
Mas eu amo-o.
BARNABÉ
Serás desgraçada com elle.
ITELVINA
Acabemos com isto. Amo Macario!
BARNABÉ
«Amo Macario, amo Macario!» Estás-me cantando o 1.º acto da Favorita. «Eu o amo, eu o amo!»
ITELVINA
Dá ou não dá o consentimento?
BARNABÉ
Não.
ITELVINA
Não? (Pega da navalha) O pae é implacavel, hein?
BARNABÉ
Que é o que ella tem na mão? Ceus! a minha navalha!
ITELVINA
(caminhando e brandindo a navalha e o pae a seguil-a) Trato de me evadir ás leis infames d'este paiz. Suicido-me.
BARNABÉ
Larga a navalha.
ITELVINA
Ultima vez: consente?
BARNABÉ
Consinto: casa com elle.
ITELVINA
(largando a navalha e abraçando-o) Obrigada, meu pae, obrigada!
BARNABÉ
Agora, asfixias-me... (Passa para a direita, levanta a navalha e colloca-a sobre o contador) Cruzes!
ITELVINA
Mas o silencio d'elle assusta-me, meu pae! Trez dias sem noticias! Vou escrever a Macario; e, se me não responder, amanhan parto para Braga. Se lhe tivesse acontecido algum revez! (A Sebastiana, que entra pelo fundo) Sebastiana, não estou em casa para ninguem, absolutamente para ninguem (Entra pela direita)
BARNABÉ
Sou o pae d'esta pombinha... É um anjo... Se eu me vejo livre d'esta ardente creatura do Mexico... Sebastiana, dá-me o casaco e o chapéo.
SEBASTIANA
Sim, senhor. (Sahe pela esquerda)
BARNABÉ
(só) Deixál-a casar com o Macario! O que eu quero, sobre tudo, é paz e socego... O casamento favorece os meus projectos... Fallaram-me d'uma quinta que se vende em S. Mamede de Infesta. O dono mora perto d'aqui; vou tratar com elle; e, se não fôr muito cara, o meu sonho d'esta noite realisa-se... O repuxo! Ah! o repuxo!
SEBASTIANA
(entrando com o casaco e o chapeo) Aqui estão as coisas.
BARNABÉ
(despindo o rob-de-chambre) Obrigado... Ajuda-me... (Vestindo-se) Irei viver sosinho em paz e socego.
SEBASTIANA
O senhor vem jantar?
BARNABÉ
Sim, mas ha de ser tarde. (Sahe pelo fundo repetindo) Em paz e socego...
SEBASTIANA
(só) Muito bom sujeito! (arruma); mas a filha... Ah! tenho pena do tal Macario, se casar com ella! Credo! se eu fôsse homem, e topasse uma creatura assim... ó senhores!... Emfim, isto de homens gostam assim das mulheres que puxem por elles... Mas esta ida a Braga... Quem sabe se o tal Macario... an, an... (Toque fóra) Quem sabe se é elle? (Liborio entra pelo fundo)