SCENA VI
Reading edition
Itelvina e Liborio
ITELVINA
Ah! tu queres um tête-à-tête... Vamos a isso...
LIBORIO
(á parte) Sosinhos! estamos sosinhos! (com transporte, sentando-se ao lado de Itelvina) Ah! Itelvina! Minha esposa! querida...
ITELVINA
Que é, meu amigo?
LIBORIO
Desculpa a minha perturbação!... esta emoção!... este primeiro tête-à-tête... porque é o primeiro... o primeiro... depois que és minha mulher, e que me pertences, Itelvina!... por que tu és minha, és o meu bem, o meu thesouro, a minha vida...
ITELVINA
Sim, Liborio; somos um do outro, são inseparaveis os nossos destinos... Eu sou sua como o senhor é meu... O senhor póde esquecer isso... eu é que jámais!...
LIBORIO
Esquecer, esquecer, eu! Se tu soubesses as noites tormentosas que eu passo!... o que me custa a adormecer... as reflexões que precedem o meu somno... os sonhos que o acompanham... Queres que eu t'os conte?
ITELVINA
Pois sim, conte lá.
LIBORIO
(erguendo-se) Ás vezes, vejo-te sahir d'uma floresta como a Armengarda do Alexandre Herculano das penhas da Covadonga; outras vezes estamos os dois n'um paraizo terreal como Adão e Eva... e eu a apertar-te ao coração (aproxima-se) a apertar-te... (Cinge-a com os braços).
ITELVINA
(gritando) Ai! ai!
LIBORIO
(recuando) Tu que tens!
ITELVINA
Ah! que dôres!
LIBORIO
(á parte) Diabolico torcegão!...
ITELVINA
Isto passa... não é nada... foi um geito que o senhor me fez dar. (com a voz natural) Póde continuar, meu amigo.
LIBORIO
Em que estavamos nós?
ITELVINA
Estavamos no paraiso terreal.
LIBORIO
É verdade, um ao lado do outro.
ITELVINA
O senhor abraçava-me...
LIBORIO
Mas, presentemente, não me atrevo...
ITELVINA
Isso não faz nada ao caso... o abraço era a sonhar...
LIBORIO
Itelvina!
ITELVINA
Liborio!
LIBORIO
O nosso cazamento não é um sonho... pois não?
ITELVINA
Decerto não, meu amigo.
LIBORIO
E todavia...
ITELVINA
E todavia...
LIBORIO
Olha, Itelvina, eu queria que o pé torcido fôsse meu; ainda que tivesse torcidos ambos os pés não deixaria de me lançar nos teus braços... Não ha supplicio comparavel... Ah! Tantalo no meio da agua, debaixo de arvores carregadas de fructos que elle não podia trincar... Eis a minha posição!... a arvore... és tu! Tantalo, sou eu! Tenho fome, e não posso comer... Horrivel!
ITELVINA
Então o senhor padece muito, não é verdade?
LIBORIO
Até ao extremo de me tornar cruel e insensivel ás tuas dôres... Quando ahi te vejo, face a face, não ouço senão a minha paixão e... (abraça-a)
ITELVINA
Ai! ai! meu Deus! ai!
LIBORIO
(erguendo-se) Não, não, não... nada de novo... mesmo nada... (á parte) Tudo como d'antes... Quartel general d'Abrantes...
ITELVINA
Ai que dôres! que dôres lancinantes!
LIBORIO
Se sou o culpado, peço desculpa...
ITELVINA
Ah!... vae passando... adormece... Ah! respiro! (tom natural:) Póde continuar, meu amigo.
LIBORIO
Continuar... o quê?
ITELVINA
Isso que me estava contando... que era muito bonito...
LIBORIO
(á parte) Ella parece innocente como uma ovelhinha recem-nascida! (alto) Minha senhora, se me dá licença, ataremos o fio partido do cavaco quando a senhora estiver san.
ITELVINA
Mas... por quê?
LIBORIO
Porque esta palestra... agita-me... agita-me bastantemente.
ITELVINA
Ah! sim? então fallemos d'outra coisa.
LIBORIO
Sim... de coisas frias... historias da Siberia... Fallemos do Marão, da Serra da Estrella.
ITELVINA
Diga-me cá, não o incommoda andar com uma bota e um chinelo?
LIBORIO
Incommoda-me horrivelmente... e, se me dás licença, calço a outra.
ITELVINA
Se dou licença? ora essa... Póde calçar.
LIBORIO
(calçando a outra bota) De mais a mais, este acto não é por nenhuma maneira provocante nem estimulante... até acho que faria bem em me vestir... (tira a camisola)
ITELVINA
Vestir-se?
LIBORIO
Sómente vestir um colete e uma rabona (á parte) Creio que um marido, sem faltar á decencia... (Emquanto falla, vae abrir o gabinete da toillete, e recebe na cara o outro chinelo que pendia d'uma guita) Cá está o outro chinelo!
ITELVINA
Tinha-o perdido?
LIBORIO
Nada, fui eu... Estou no habito de todas as noites...
ITELVINA
Pendurar um dos chinelos no gabinete de toillete...
LIBORIO
Sim... isto é... quero dizer... Ordinariamente penduro os chinelos... não, eu ponho-os ambos aos pés da cama; mas aconteceu que pendurei este...
ITELVINA
(á parte) É admiravel! nada o espanta! Forte idiota!
LIBORIO
(á parte, tirando a gravata do gabinete) É inevitavel que eu seja somnambulo... acabou-se... sou somnambulo.
ITELVINA
É singular coisa! Tenho momentos em que não me doe nada o pé... perfeitamente bôa...
LIBORIO
Esses momentos duram pouco (Procurando atar a gravata) Não me ageito!... maldita gravata... estou muito perturbado...
ITELVINA
Quer que o ajude, meu amigo?
LIBORIO
Agradeço, mas receio...
ITELVINA
Venha cá... pois eu não sou sua mulher?
LIBORIO
Ah!
ITELVINA
O senhor diz ah!
LIBORIO
Eu cá me intendo... (Ajoelha aos pés da mulher estendendo-lhe o pescoço e dando-lhe a gravata) Tu não me percebes... mas eu é que me comprehendo... Mysterios...
ITELVINA
(sorrindo) Então tem segredos para mim, Liborio?
LIBORIO
Ah! Itelvina! que gentil, que formosa tu és! (Itelvina aperta a gravata) Ai!
ITELVINA
(ingenuamente) Que tem?
LIBORIO
É que me afogas!
ITELVINA
É por que o senhor mexe-se.
LIBORIO
Eu mexo-me por que tu me asphixias.
ITELVINA
(maviosamente) Esteja assim quietinho... para eu lhe fazer um lindo laço. (Elle quer abraçal-a).
ITELVINA
Ah! Deus do céo! que dôr!
LIBORIO
(erguendo-se) Não, não... não me lembrou... (á parte) Apre! que situação! (Passa para a esquerda, e vae vestir o collete e a rabona que tira do gabinete).
ITELVINA
Que dôres! que dôres!