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O Assassino de Macario

SCENA XI

Reading edition

Itelvina e Liborio

LIBORIO

(entrando pelo fundo) Queira perdoar, minha senhora! Chove a cantaros; hade consentir que eu espere o trem que mandei buscar.

ITELVINA

Póde esperar, e como está em jejum, e a sopa está excellente... se quer...

LIBORIO

A sopa cheira bem... muito bem... Isso é verdade.

ITELVINA

Se não receia que o envenene...

LIBORIO

Oh!... (reconsiderando) Em fim... (jovialmente) visto que a senhora tambem come...

ITELVINA

Então sente-se.

LIBORIO

Pois sim... Nada, não quero... Tenho visto muitas comedias em que esposos zangados commettiam a imprudencia de comer juntos, e á sobremeza tinham a desgraça de fazer as pazes... Eu não quero que a senhora se persuada...

ITELVINA

Sem cerimonia... Não quer?

LIBORIO

Não duvido... mas peço licença para comer a minha sopa, longe, acolá, sobre aquella meza (Leva para a meza da direita o seu talher e prato; á parte) Antes quero isto.

ITELVINA

Á sua vontade... talvez estivesse mais seguro no páteo.

LIBORIO

Isso não, porque o vento me sacudiria a chuva sobre o prato. (come).

ITELVINA

(comendo tambem) Que triste tempo para viajar!...

LIBORIO

Não tanto assim... Em primeira classe vae-se agasalhado... Mas pergunto eu: a senhora por que vae?

ITELVINA

Porque não quero estar no Porto.

LIBORIO

Mas, visto que eu me retiro, a senhora fique.

ITELVINA

Sosinha?

LIBORIO

Não: com seu pae e com o defunto Macario.

ITELVINA

Acha que é de bom gosto fazer-me troça?

LIBORIO

Pois não me disse ainda ha pouco que o amava?

ITELVINA

O senhor não me acreditou. Conhece-me bastante para saber que eu não sou mulher que ame quem a ultraja... Quer beber? (deita-lhe vinho no copo) Beba, ande. Ora vá!...

LIBORIO

(erguendo-se) Muito obrigado (Vae pegar do seu copo de sobre a jardineira e bebe).

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