SCENA III
Reading edition
Liborio e Itelvina (Itelvina está momentos sem fallar, olhando para o marido que a não encara; depois faz um gesto de impaciencia e diz:)
ITELVINA
Vi Macario. Não estava só... Estava com uma creatura com um penteado de estardalhaço, muito estapafurdio. Iam sentar-se á meza... e eu puxei pela toalha e quebrei tudo... (Movimento de Liborio, que logo se riprime, e retoma a sua apparente tranquilidade). Levantaram-se ambos e avançavam para mim; eu fiquei de braços cruzados, serena, immovel, encarando-os assim! Depois affastei-me lentamente, sem dar palavra, e sahi! (Silencio. Itelvina dá uns grandes passos) Ah! o que são os homens! o que são os homens! (Torna para o marido) Por que é que o senhor me annunciou a morte d'elle? (Silencio) Eu sei-o, disse-m'o meu pae... foi elle, esse miseravel que assim o quiz, não foi? O infame Macario escarneceu o meu amor, ludibriou a minha angustia! Ah! é incomprehensivel! é execravel! (Pega da cadeira em que o marido tem os pés e senta-se ao lado d'elle) Como é que nós havemos de matar Macario?
LIBORIO
(agitado, erguendo-se) Que diz?
ITELVINA
(fazendo-o sentar-se) Ambos nós andamos mal, Liborio. Eu cuidei que tu o matáras... Não se falle mais no passado... acabou-se... Agora, unamo-nos para a vingança... Como é que se hade assassinar Macario?
LIBORIO
(erguendo-se) A senhora terá o diabo no corpo?
ITELVINA
Se estivessemos na minha patria, eu não o consultava; mas aqui, os homens que fizeram as leis, reservam para si o monopolio da vingança, e a honra de uma mulher nada importa, se não implica com a honra do homem. Pois então, snr. Liborio, visto que me esposou, a minha honra é a sua. Um pulha, um sacripanta escarneceu sua mulher... cumpre-lhe evitar que elle o escarneça tambem a si... (com ternura) Mata-o! filho! mata-o!
LIBORIO
(á parte) Arreda! estou em braza!
ITELVINA
(formalisada) Dar-se-ha caso que o senhor, escravo de vãos prejuizos, não queira attentar contra a vida d'elle sem expor a sua? Se é isso, esteja descançado. Se Macario o matar, eu não lhe sobreviverei, nem elle, por que morrerá ás minhas mãos; matal-o-ei, matal-o-ei, e depois lá nos veremos... no ceu! (Apontando-lhe para o ceu, bate-lhe com a outra mão no hombro).
LIBORIO
A senhora com toda a certeza está doida!
ITELVINA
Doida?
LIBORIO
Então a senhora quer que eu vendime o Macario por que elle não quiz cazar comsigo... Tomára eu obrigal-o a cazar...
ITELVINA
Senhor! veja lá o que diz!
LIBORIO
Olhe, menina; isso que a senhora me propõe já Hermione o propoz a Orestes em uma tragedia de Racine, e sabe o que fez a canalha da Hermione, depois que o parvo do Orestes matou Pyrrho? Poz-se a chorar por Pyrrho, e mandou o Orestes á fava. Aqui tem a gratidão das mulheres...
ITELVINA
Por tanto, recuza?
LIBORIO
Redondissimamente. (á parte) Isto é que é o chic da patifaria!
ITELVINA
Bem! Eu pedia-lhe a cabeça de Macario para salvar a sua... Você não quer? não quer? não se falla mais n'isso.
LIBORIO
Isso que quer dizer... explique-se!
ITELVINA
Macario recuou deante dos laços indissoluveis; mas amava-me, estou certa d'isso, e eu... ainda o amo.
LIBORIO
(levantando os dois braços) Que diabo!
ITELVINA
E visto que o senhor desculpa o proceder passado de Macario, terá de desculpar tambem o futuro...
LIBORIO
(agarrando-a pelos braços) Mulher!... Ah! tu pensavas que...
ITELVINA
Largue-me!
LIBORIO
Amas Macario?
ITELVINA
Você magoa-me!
LIBORIO
Os indigenas do Mexico que é o que fazem ás mulheres que se parecem comtigo?
ITELVINA
O senhor está-me a quebrar os braços...
LIBORIO
Póde ser; por que em Portugal, nós os homens, ao lado da lei, tambem temos a força.
ITELVINA
Isso é uma covardia!
LIBORIO
Não sei se é; mas eu, se houvesse de matar alguem, não mataria o Macario...
ITELVINA
Ai! (Cahe de joelhos).
LIBORIO
Olhe bem para mim, senhora! (Ella quer morder-lhe a mão) e não môrda! Se cuidou que cazava com um cordeirinho, mude de opinião a meu respeito. Este homem que se chama Liborio, nascido no Porto, no Poço das Patas n.º 610, é de per si só mais feroz que todos os leopardos do Mexico... Não môrda, ouviu?
ITELVINA
Ai!
LIBORIO
Por emquanto, deixo-a viver; mas tenha juizo, muito juizo, ou dou-lhe a minha palavra de honra que não tardarei a passar a segundas nupcias! (Deixa-a).
ITELVINA
(conserva-se um instante immovel, como humilhada de sua fraqueza; relança á volta de si olhos furiosos, depois levanta-se de um pulo, exclamando:) Ah! a faca de mato! (Corre para o gabinete da toillete).
LIBORIO
Bem sei... (Vae atraz d'ella, e fecha-lhe a porta por fóra logo que ella entra).
ITELVINA
(fechada) Abra, abra a porta!
LIBORIO
(pegando do chapeo) Medite, senhora, que eu passados tres dias, volto cá. (Sahe pelo fundo).
ITELVINA
(batendo na porta) É infame, é abominavel! Snr. Liborio! Olhe que quebro a porta. (Pancadas cada vez mais fortes) Abra-me a porta; peço-lhe que me abra a porta por quem é! Oh! que vil, que indigno procedimento!