SCENA II
Reading edition
Sebastiana e Barnabé
SEBASTIANA
(entrando pelo fundo) Aqui estou, senhor!
BARNABÉ
Não me tinhas ouvido?
SEBASTIANA
Perfeitamente. O senhor chamou-me quatro vezes.
BARNABÉ
Então porque não vieste logo?
SEBASTIANA
Estava a almoçar. Acho que o senhor não pretende que os creados não comam.
BARNABÉ
Não...
SEBASTIANA
Além d'isso, eu sei que o senhor é pachorrento, um paz d'alma...
BARNABÉ
Abusas um pouco do meu temperamento.
SEBASTIANA
Está enganado... eu pelo senhor era capaz de me atirar ao lume...
BARNABÉ
Pois bem, vai atirar ao lume esta chocolateira... Quero barbear-me. (Dá-lh'a)
SEBASTIANA
Dentro de 15 minutos aqui estou. (Vai sahir).
BARNABÉ
(chamando) Olha, Sebastiana...
SEBASTIANA
(tornando) Não me mande fazer duas coisas ao mesmo tempo que me atrapalha, ouviu?
BARNABÉ
(á parte) É uma creada como se quer! Boa bisca... (alto) Olha lá... Noto que vae na caza um socêgo extraordinario! Minha filha estará doente?
SEBASTIANA
Não senhor; sahiu de manhan cedo.
BARNABÉ
Ah! é isso? (Senta-se no canapé).
SEBASTIANA
E, na verdade, a menina faz um estardalhaço! credo!... E é de pasmar como o snr., tão manso, tão socegado, fez uma filha tão...
BARNABÉ
Tão estapafurdia, pódes dizer...
SEBASTIANA
É isso, estapafurdia... é uma trovoada... credo!
BARNABÉ
Tu que queres?... A natureza tem desconcertos... Olha, Sebastiana, eu nem sempre vivi dos meus rendimentos.
SEBASTIANA
Pois sim, sim...
BARNABÉ
Tive uma fabrica de ligas em Fradellos.
SEBASTIANA
De ligas? ora vejam...
BARNABÉ
Fazia pouco negocio... Resolvi ir para o Mexico, por que n'um paiz, n'um paiz quente, bem percebes, mostra-se mais a barriga das pernas... Fundei o meu estabelecimento no Mexico, e grangeei logo toda a freguezia das boas pernas do paiz... com sáias curtas.
SEBASTIANA
Olha que pechincha!...
BARNABÉ
Vais vêr... um par das taes pernas... duas buxas fizeram-me uma impressão profunda... Todas as profissoens tem os seus perigos... Esposei...
SEBASTIANA
As taes buxas?
BARNABÉ
Sim... Ella chamava-se Dolores. Sete mezes depois, tinha uma filha...
SEBASTIANA
Sete mezes só? ora essa!...
BARNABÉ
No Mexico a vegetação cresce muito depressa, é o que é; e isso mesmo te explica o genio impaciente da minha Itelvina... Ella não quiz esperar que se completassem os nove mezes... sahiu...
SEBASTIANA
Não admira, não...
BARNABÉ
E aqui tens tu, Sebastiana, como eu, um portuguez de lei, sou pae d'uma mexicana...
SEBASTIANA
Agora é que eu percebo a differença dos dois genios.
BARNABÉ
O ceo do Mexico! Os costumes d'esse clima de fogo! Minha filha tem nas veias o meu sangue; mas... mais quente... ferve-lhe mais... em fim, tem uma temperatura mais alta...
SEBASTIANA
Acho que sim... intendo.
BARNABÉ
Ha-de haver um anno que passei o negocio e vim para a patria... Estava rico... primeira felicidade; estava viuvo, segunda feli... Emfim, como não nos davamos bem... segunda felicidade, está dito.
SEBASTIANA
Então não se davam bem...
BARNABÉ
Quero dizer... a senhora Barnabé... era muito fogosa... muito atiradiça... e chamava-me... maricas.
SEBASTIANA
Credo!
BARNABÉ
Em fim ella tinha desculpa... Eu bem me conheço... Mesmo hoje, com minha filha, sou uma lesma, um fracalhão... Ahi está ella a querer casar com o valdevinos do Macario.
SEBASTIANA
Mas não basta querer ella.
BARNABÉ
Assim é; mas ella quer á fina força e eu não quero; a final, quem hade vencer é ella, que é a forte, e casará! São favas contadas. Era o mesmo com minha mulher. Dizia-lhe eu «quero»; respondia-me ella «não quero», e eu... moita... nem palavra.
SEBASTIANA
Então estavam sempre de harmonia?
BARNABÉ
Está claro. (Rumor fóra)
SEBASTIANA
(indo á janella) Que será isto?
BARNABÉ
Algum choque do americano com o Rippert.
SEBASTIANA
Nada, parece desordem... Tanta gente defronte da porta...
BARNABÉ
Da nossa?
SEBASTIANA
Sim, snr. Quer que eu vá saber o que é?
BARNABÉ
Não... que me importa a mim?... Olha se me aqueces a agua... anda.