SCENA VIII
Reading edition
Liborio, Itelvina (entrando pela direita)
ITELVINA
(com uma carta na mão) Está feita a carta... já p'ro correio... (avistando Liborio) Um homem!...
LIBORIO
(cumprimentando) Minha senhora... (á parte) Fatia!... rica natureza!
ITELVINA
O senhor quem procura?
LIBORIO
A snr.ª D. Itelvina Barnabé.
ITELVINA
Sou eu.
LIBORIO
(sorrindo) Minha senhora... (á parte) trabalha-se bem no Mexico... (alto) Venho encarregado de lhe transmittir uma importante noticia...
ITELVINA
Noticia?
LIBORIO
(á parte) Circumspecção...
ITELVINA
Queira dizer (apontando-lhe uma cadeira e sentando-se)
LIBORIO
(pegando de uma cadeira do fundo á esquerda e sentando-se) (á parte) Estou atrapalhado... (alto) Minha senhora, acabo de chegar de Braga.
ITELVINA
(erguendo-se, e elle tambem) De Braga?
LIBORIO
(passando para a direita) (á parte) Parece que o cavaco tem de ser de pé. (Alto)... Venho de Braga, onde estive com Macario...
ITELVINA
O senhor é amigo d'elle?
LIBORIO
Sim... isto é... sim... oh! certamente... amigo intimo...
ITELVINA
(com vehemencia) Por que não está elle aqui ao pé de mim como prometteu e jurou? Por que me não escreve? porque é? diga-me o senhor por que é?
LIBORIO
(á parte) Que bonita ella é zangada!
ITELVINA
O senhor não responde?
LIBORIO
Responderei. (á parte) Circumspecção! (alto) Macario ficou em Braga... e encarregou-me de communicar a V. Exc.ª as rasoens que o prendem lá.
ITELVINA
Mas acabe com isso... vamos direitos á questão... Nada de delongas...
LIBORIO
(á parte) Tambem não é feia na impaciencia!... (alto) Minha senhora, o imprevisto é o machinista da existencia... O acaso arranja uns scenarios, umas tramoias que parecem de peça magica...
ITELVINA
Que mais?
LIBORIO
(á parte) Não vamos logo ás do cabo. (alto) Ah! minha senhora... ser joven, bello, amado de uma mulher... isso não é rasão para impedir que um máu destino... pelo contrario é peor...
ITELVINA
Ó senhor! por piedade! Acabe...
LIBORIO
Macario disse a V. Ex.ª, creio eu, que ia a Braga buscar uns papeis...
ITELVINA
E mentiu-me?
LIBORIO
Quanto ao fim da viagem, mentiu. Ninguem hoje vae a Braga senão por dous motivos.
ITELVINA
Quaes?
LIBORIO
Ou se vae ao Bom Jesus vêr os judeus e comer frigideiras, ou terçar no campo da honra dois floretes, desde que os duelos no Porto, por muito repetidos, têm a policia n'uma constante vigilancia.
ITELVINA
Um duelo!?
LIBORIO
Um conflicto de honra...
ITELVINA
Elle foi bater-se? Ficou ferido?
LIBORIO
Minha senhora...
ITELVINA
Ligeiramente ferido, sim? quasi nada? Oh! diga-me que não é nada!
LIBORIO
Minha senhora... Macario... ah!... não posso... Se V. Ex.ª soubesse...
ITELVINA
Ó ceus!... que foi?...
LIBORIO
(á parte) Chegou o momento.
ITELVINA
Macario?...
LIBORIO
Macario...
ITELVINA
Morto! (Liborio está um momento silencioso; depois, ampara a cabeça com as mãos).
ITELVINA
(expedindo um enorme grito) Ah!
LIBORIO
Minha senhora...
ITELVINA
Morto! assassinado... elle!... ah! (Roda sobre si mesma duas vezes e vae desmaiar no canapé).
LIBORIO
Hein! ella desmaia!... ora esta! Não a julgava capaz d'esta tolice! (vae junto d'ella) Menina... Acho que chamo alguem... Mas que historietas se vão arranjar com este caso!... Menina, peço-lhe que recupere os sentidos... Se eu a despertasse... Mas é preciso bolir-lhe nos colchetes... Não, não me atrevo a fazer tanto... O coração bate-lhe... Estou mais socegado... É gentil!... é mais que gentil, é formosa! Isto é bom a valer!... E aquelle parvo do Macario a desdenhar... Ella está ganhando côres... já lhe tremem as azas do nariz... e pestaneja. Volta á vida... Se eu me safasse agora... (Vae a querer sahir e retrocede) Não: já agora fico, succeda o que succeder.
ITELVINA
Onde estou?
LIBORIO
Menina...
ITELVINA
Quem me falla? quem é o senhor? (encarando-o) ah!
LIBORIO
Por quem é, socegue!
ITELVINA
Esta voz... esta cruel voz...
LIBORIO
Que é?
ITELVINA
Recordo-me... Macario, o meu noivo, a minha alma... ah! ah! ah! (recahe sobre o canapé e chora).
LIBORIO
(á parte) Palavra, que me mordem remorsos.... Se eu previsse... Acabou-se... Vou-lhe dizer tudo... (caminha para ella; mas reconsidera) É demais atormentar assim esta mulher com mentiras... Diabo! como ella chora... (avisinha-se) Minha senhora, então, então...
ITELVINA
(erguendo-se energicamente, limpando as lagrimas, e passando para a direita) Basta de fraqueza! Nada mais de prantos! Um scelerado matou Macario... e eu aqui a carpir-me em vez de o vingar! (Vae a Liborio) O senhor foi testemunha do duelo?
LIBORIO
Sem duvida... isto é... sim... fui testemunha (com dôr) Fiz quanto podia; mas...
ITELVINA
Sabe qual foi a causa do duelo?
LIBORIO
A causa? ora, se sei... pois não sei?... (á parte) Ó diabo!... (alto) pois não heide saber a causa? não sei eu outra coisa...
ITELVINA
Então diga lá qual foi?
LIBORIO
Uma questão de carambolas... A paixão do Macario... bem sabe... é o bilhar... Por causa de uma carambola...
ITELVINA
De uma carambola?
LIBORIO
Sim... o parceiro tinha descolado a bola.
ITELVINA
Está bem... não quero saber d'isso... Logo que o motivo não foi outra mulher, o resto não me importa. Como se chama o adversario?
LIBORIO
O adversario?
ITELVINA
O nome d'elle?
LIBORIO
Então quer que eu lh'o diga...
ITELVINA
O nome do assassino. (Liborio hesita) Vamos!
LIBORIO
Ah! sim o nome do assa... Ora espere... Mas é que eu fui padrinho do Macario... e não conheço o outro...
ITELVINA
Ora essa! um padrinho deve conhecer os dois.
LIBORIO
Tem razão; é natural que m'o dissessem; mas a commoção...
ITELVINA
(á parte) O homem está atrapalhadissimo! (alto) Mas o senhor quem é? como se chama?
LIBORIO
Liborio, minha senhora, Arthur Liborio; profissão, filho familia que devora a legitima paterna; mas tenho muitos tios ricos...
ITELVINA
Pois então, senhor Liborio, meu presado senhor Liborio, diga-me o nome...
LIBORIO
De quem?
ITELVINA
Do assassino de Macario.
LIBORIO
Palavra d'honra que não sei...
ITELVINA
O senhor mente!
LIBORIO
Ó minha senhora...
ITELVINA
Não é possivel...
LIBORIO
Antes isso... que é menos indelicado...
ITELVINA
Está bom: eu saberei o nome. Onde foi que se bateram?
LIBORIO
Onde foi?
ITELVINA
Tambem não sabe?
LIBORIO
Não sei eu outra coisa! mas essas miudezas... (á parte) ella embrulha-me!
ITELVINA
(á parte) Outra vez atrapalhado!
LIBORIO
Foi n'uma carvalheira... A snr.ª D. Etelvina conhece Braga?
ITELVINA
Nada.
LIBORIO
(á parte) Ainda bem! (alto) Braga tem a figura d'um enorme bacalhau da Noruega, e tem 3 portas. Nós sahimos pela estrada de Guimaraens. Foi ao pé da Falperra. Carregando á mão direita topa-se uma azenha, depois sobe-se um pedaço de monte, toma-se para a esquerda, e entra-se n'uma mata virgem... Foi ahi que se bateram.
ITELVINA
Não preciso mais nada. A que horas se sahe para Braga?
LIBORIO
Ha tres comboios a escolher.
ITELVINA
Iremos no primeiro.
LIBORIO
Iremos?!
ITELVINA
Duvída acompanhar-me?
LIBORIO
Eu?
ITELVINA
Ir mostrar-me a fatal mata virgem, e auxiliar-me nas minhas pesquizas até descobrir o assassino de Macario?
LIBORIO
Mas, minha senhora...
ITELVINA
Não vae?
LIBORIO
Irei; mas...
ITELVINA
Vou escrever a meu pae, preparar a malêta e vamos... (vae para a direita)
LIBORIO
Sosinhos?
ITELVINA
Com meu pae... Jura que me espera?
LIBORIO
Faça favor de reflectir... minha senhora...
ITELVINA
Jura?
LIBORIO
Sobre os manes de Macario! juro!
ITELVINA
Obrigada! venho já. Oh! sim! a Braga, no expresso! (sahe velozmente pela direita).
LIBORIO
(só, cobrindo-se) Toca a safar! É uma canalhice faltar ao juramento... mas basta de asneiras... Onde esta o meu chapeo? A rapariga é bonita, é adoravel; mas leval-a a Braga e mais o pae, e continuar esta tramoia absurda...--onde poria eu o chapeo?--que eu vim representar no seio d'esta familia (Põe a mão na cabeça) Cá está o chapeo... Por aqui me esgueiro... (Vae a sahir pelo fundo, e encontra Barnabé que entra).