SCENA IV
Reading edition
Os mesmos e Itelvina
ITELVINA
(fóra) Quem me acode, quem me acode!
BARNABÉ
Minha filha!
SEBASTIANA
Senhora!... (Todos se dirigem para a porta da direita que se abre para dar passagem a Itelvina que entra em toilette de noute com a perna direita ligada encostando-se á parede).
ITELVINA
Socorram-me... uma cadeira... amparem-me... (Liborio e Barnabé pegam em Itelvina em quanto Sebastiana puxa a cadeira para o centro da scena).
BARNABÉ
Pois tu ergueste-te?
LIBORIO
Então isso como vae? melhorzinha?
ITELVINA
Pelo contrario... cada vez peor.
LIBORIO
Era melhor ter tocado a campainha.
ITELVINA
(deixando-se cahir no fauteuil) Ai! devagar, devagar... Sebastiana, um banquinho...
LIBORIO
(chegando-lh'o) Aqui está... venha uma almofada... (Sebastiana traz a travesseirinha que elle colloca sobre o banquinho; depois quer pegar na perna da mulher) Com licença...
ITELVINA
Não lhe toque... Ai! a menor pressão... (pondo a perna sobre o banco) Ai!... como eu estou!... (Sebastiana tem passado para a direita).
BARNABÉ
Para que te ergueste tu?
ITELVINA
Eu estava melhor... quiz experimentar... E, depois que me levantei, achei-me tão boa, que pensei poder vir até cá; mas receio bem ter aggravado o mal...
LIBORIO
(á parte) Vamos bem!... o casamento está para demora... O meu matrimonio está pendente d'um pé desnocado... Se isto não fôr pé de cantiga, fico toda vida a fazer pé de alferes a minha mulher coixa.
BARNABÉ
(que tem estado a conversar com a filha) Fizeste muito mal em te levantares... Eu não posso demorar-me por que tenho de fallar com o José Francisco Braga que me quer ceder a quinta da Carriça... E, como não pude arranjar a de S. Mamede de Infesta, vou-me lá.
ITELVINA
Então o pae quer deixar-nos? Muda de casa?
LIBORIO
Ó meu sôgro!... (á parte) Não seria máo...
BARNABÉ
Sôgro... precisamente... um sôgro entre uns casados que se adoram, é incommodo... é emprasador...
ITELVINA
Ora...
LIBORIO
Ora... (á parte) Diz muito bem...
BARNABÉ
E, n'esse caso, resolvi... com muito pezar... com muita saudade... ir viver sósinho... o que me hade custar muito... na aldeia... É um sacrificio... vou victimar-me á felicidade dos meus filhos... E além d'isso, está no meu gosto... a meditação... divagar solitario no seio da natureza...
ITELVINA
Então não o demoramos, meu pae; mas esperamo'l-o para o almoço.
BARNABÉ
Não será possivel... Tenciono almoçar no botequim... Não gosto de almoçar de garfo; prefiro o meu café com leite, uma torrada, e o Primeiro de Janeiro que é tudo leve.
ITELVINA
Plena liberdade...
BARNABÉ
Liberdade... liberdade...! E, se tu agora peorasses...
ITELVINA
Não... eu sinto-me melhor... Sebastiana ficará ao pé de mim, e se fôr preciso, o Liborio vae chamar o medico.
BARNABÉ
E eu não me demorarei muito tempo... Se o José Francisco lá estiver, antes do meio dia volto a casa... Vou tratar depressa este negocio... Então é verdade que estás melhorsinha?
ITELVINA
Sim... n'este momento quasi que não soffro.
BARNABÉ
Então vou acabar com isto... Meu genro, aqui lh'a entrego...
LIBORIO
Vá descançado, meu sôgro.
BARNABÉ
(abraçando Itelvina) Até logo, minha Lili... Vou-me já safando, por que, se fôsses a peor, teria de ficar, e fazia-me desarranjo. (Sahe pelo fundo).
LIBORIO
(acompanhando-o) Arrange lá os seus negocios e não se apresse...