SCENA III
Reading edition
Sebastiana, Liborio, Barnabé
SEBASTIANA
O senhor está doente?
BARNABÉ
Será preciso chamar os bombeiros?
LIBORIO
(a Sebastiana) Vem cá... e responde.
SEBASTIANA
Quem, eu?
BARNABÉ
Que tem o meu genro?
LIBORIO
Passados cinco minutos, tem-me ás suas ordens. (a Sebastiana) Vem cá... Que horas são?
BARNABÉ
Então foi para saber que horas eram...
LIBORIO
Snr. Barnabé, não é comsigo que eu fallo. (a Sebastiana) Quantas horas são?
SEBASTIANA
Oito e meia, senhor.
LIBORIO
Por que é então que o meu relogio tem quatro e a pendula dá dez e meia?
SEBASTIANA
Eu sei cá! pergunte-o ao relojoeiro.
BARNABÉ
Ella tem rasão; o seu officio não é esse. Ella de pendulas não percebe nada.
LIBORIO
Espera um pouco. (a Sebastiana) Por que metteste pimenta no meu bonnet?
SEBASTIANA
Eu?! que metti eu?
BARNABÉ
Sim... isso lá da pimenta é com ella... Responde sobre a pimenta, rapariga!
LIBORIO
Por que furaste os meus charutos?
SEBASTIANA
Eu furei os seus charutos!...
BARNABÉ
Ella furou os charutos?... Tu furaste... (a Sebastiana)
LIBORIO
Por que me coseste os lenços ás algibeiras?
SEBASTIANA
Olha que espiga!
BARNABÉ
Pois tu coses os lenços?...
SEBASTIANA
Isso é falso, senhor!...
LIBORIO
(mostrando) Estão cosidos ou não estão cosidos?
SEBASTIANA
Eu cá não fui.
LIBORIO
E os cortinados do leito... e os chinelos que deviam estar aos pés da cama...
BARNABÉ
Nos seus pés, quer dizer o meu genro.
LIBORIO
Meu sogro, queira amordaçar o seu espirito que me está arreliando. (a Sebastiana) Em fim, responde, explica-te.
SEBASTIANA
Não percebo patavina.
BARNABÉ
E dois.
LIBORIO
Não percebem que se está aqui representando uma magica de pessimo gosto... uma diabrura de auctores anonymos...
BARNABÉ
Não está má essa! O senhor disfructa-nos!
SEBASTIANA
É lá possivel a diabrura! cruzes, canhoto!
LIBORIO
Desde esta manhan estou sendo uma almofada em que mão desconhecida espeta alfinetes... Notem isto... Aqui está uma bota. Pergunto eu: onde está a outra? Aqui está um chinelo; e o outro onde está?
SEBASTIANA
(procurando) Eu procuro... (Aproxima-se da meza e vendo o que está escripto) Esperem lá!... (Lendo) «Seguir o fio.»
LIBORIO
(approximando-se) Seguir o fio?!
BARNABÉ
(o mesmo) Então sigamos o fio. (Seguem os tres o fio da linha. Sebastiana á frente vae innovelando o fio. Barnabé atraz) Onde vae isto parar? (Vão indo até chegar á parede) A linha aqui, trepa! (Levantam as cabeças).
SEBASTIANA
(vendo a bota) Olha!
BARNABÉ
É ella!
LIBORIO
A minha bota!
BARNABÉ
A sua bota!
SEBASTIANA
É verdade, a bota!
LIBORIO
(passando para a direita) Quem a pendurou acolá?
SEBASTIANA
(tirando a bota para baixo) Eu não fui.
BARNABÉ
Menos eu.
LIBORIO
Por consequencia...
SEBASTIANA
O snr. Liborio tem estado a mangar comnosco... Isto é uma chalaça... não ha que vêr...
LIBORIO
Hein?
BARNABÉ
(rindo) O meu genro hade ser sempre um pandego...
SEBASTIANA
Quiz-nos impingir esta comedia.
LIBORIO
Irra! Foste tu; olha que te ponho no olho da rua!...
SEBASTIANA
Oh senhor!...
BARNABÉ
Como imagina o senhor que esta rapariga...
LIBORIO
Se não foi ella... foi o senhor.
BARNABÉ
Meu genro!... ousar desconfiar que um antigo negociante...
LIBORIO
Tem razao... seria espirito de mais para um antigo negociante... Mas o certo é que nós aqui não sômos senão trez. Minha mulher não póde ser, porque está de cama com um pé torcido.
BARNABÉ
A respeito d'isso, parece que ella está melhor do pé... O senhor sabe que ella está melhor do pé...
LIBORIO
Como eu que sei?
BARNABÉ
Eu ouvi o meu genro esta noite abrir a porta do quarto d'ella.
LIBORIO
Eu?
BARNABÉ
E que balburdia o senhor fez!...
LIBORIO
Eu?
BARNABÉ
Se não receasse ser indiscreto, vinha cá abaixo.
LIBORIO
O senhor está doudo! Eu não sahi d'aqui!
BARNABÉ
Ora, deixe-se d'isso...
SEBASTIANA
(reflectindo) Achei o que é... Já sei...
LIBORIO
(vivamente) Achaste quem é que manga comigo?
SEBASTIANA
É o senhor mesmo.
LIBORIO
Eu?
BARNABÉ
Elle? dize lá...
SEBASTIANA
(a Barnabé) Eu tive um primo que fazia o mesmo... levantava-se de noite...
BARNABÉ
Um somnambulo! Ella tem razão... O snr. Liborio é somnambulo.
SEBASTIANA
É isso, é isso, somnambulo...
LIBORIO
Eu somnambulo!... está bem!... fico sciente!...
SEBASTIANA
É que o senhor não se lembra do que fez. Uma noite, meu primo, entrou pelo meu quarto dentro, e abraçou-me; e eu como sabia que é um perigo acordar os somnambulos, nada lhe disse, e elle ao outro dia não se lembrava de nada.
LIBORIO
É lá possivel que fôsse eu!...
BARNABÉ
Então quem havia de ser?
LIBORIO
É assim... é--está tudo bem explicado... mas será dificil fazer-me crer que eu a dormir rompesse os meus charutos, que deitasse pimenta no meu bonnet e cozesse os meus lenços.
BARNABÉ
Aqui estou eu que fui somnambulo quando era pequeno, e escrevia os traslados a dormir...
LIBORIO
(á parte) Estou inquieto... (Alto) Meu sôgro, e tambem tu, Sebastiana, peço-lhes que não digam nada do acontecido a minha mulher.
SEBASTIANA
Eu cá por mim...
BARNABÉ
Fique na certeza...
LIBORIO
(scismando) De mais a mais, eu não sei cozer... Como é possivel que eu soubesse cozer a dormir?...
SEBASTIANA
Ó meu senhor, o meu primo só sabia abraçar-me quando estava a dormir... Chama-se a isso vista dobrada.
LIBORIO
(á parte) Este caso faz-me desconfiar...