SCENA VI
Reading edition
Sebastiana e Liborio
SEBASTIANA
Ai! não é elle!
LIBORIO
Não é elle: sou eu.
SEBASTIANA
O senhor que quer?
LIBORIO
A snr.ª D. Itelvina Barnabé, uma mexicana de raça portugueza...
SEBASTIANA
É aqui; mas...
LIBORIO
Ella sahiu? É o que eu quero. (Assenta-se, e apresenta um aspecto risonho) Vou-me ensaiar.
SEBASTIANA
Mas a senhora está em casa.
LIBORIO
(erguendo-se de impeto, e tornando-se grave) Recôlho o meu sorriso; n'esse caso vae dizer a tua ama...
SEBASTIANA
A senhora está a escrever, e prohibiu-me de a interromper.
LIBORIO
(tornando-se a sentar risonho) Muito bem... vou-me ensaiar.
SEBASTIANA
(á parte) A fallar a verdade, a menina é tão exquisita que, se eu a não aviso, é capaz de se escamar. (alto) O senhor como se chama?
LIBORIO
Como me chamo?
SEBASTIANA
Sim... vou avisar a senhora. Quem direi que a procura?
LIBORIO
Annuncia-lhe... um desgraçado! (passa para a esquerda).
SEBASTIANA
Um desgraçado?!
LIBORIO
Não... (á parte) Seria parlapatice de mais...
SEBASTIANA
Então que decide?
LIBORIO
A tua ama é nervosa?
SEBASTIANA
O senhor que diz? olha que pergunta!
LIBORIO
Deve ser nervosa... Olha bem para mim... Vês esta cara melancolica? vês? pois vae dizer á menina Itelvina que está aqui um sujeito com cara de quem chorou...
SEBASTIANA
Como? o senhor quer que eu diga...
LIBORIO
Não, outra coisa... espera...
SEBASTIANA
O senhor não pense que eu vou agora incommodar a menina para lhe fazer o seu retrato.
LIBORIO
Tens rasão; não a incommodes... Esperarei... convem-me esperar...
SEBASTIANA
(á parte) Tem grande têlha o homem!
LIBORIO
Como te chamas?
SEBASTIANA
Para que o quer saber?
LIBORIO
Para quê? É para não estar a chamar-te creada; mas, tens rasão... Que me importa a mim? Eu queria chamar-te Mariquinhas ou Theresinha... Que lindos olhos tu tens, e que cinta!... (Cinge-a pela cintura).
SEBASTIANA
Está bonita a chalaça!... foi para isto que veio cá?
LIBORIO
Não. Tu me impões o cumprimento de um dever. Obrigado, rapariga, obrigado!
SEBASTIANA
(á parte) Elle é doido; mas aparelha bem com a minha ama... Cá se avenham, que eu vou para a cosinha. (Sahe pelo fundo, levando o rob-de-chambre de Barnabé, e os utensilios de barbear.)