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O Assassino de Macario

SCENA I

Reading edition

Liborio e Barnabé (ao levantar do pano, Barnabé está sentado no colchão, e Liborio, á direita sobre uma cadeira de braços, cahida. Depois de instantes de silencio, Liborio levanta-se e vae á janella).

LIBORIO

(examinando a rua) Nada, não vejo vir ninguem. Que horas são, snr. Barnabé?

BARNABÉ

Outra vez... Depois do nosso combate... singular, já me perguntou isso trez vezes.

LIBORIO

A quem heide eu perguntal-o? ao meu relogio? á minha pendula? Tudo aqui está desmanchado (á parte) como a cabeça de minha mulher (Levanta a cadeira).

BARNABÉ

Ha cinco minutos que eu lhe disse que eram 3 e 25; agora, por consequencia, são trez e meia.

LIBORIO

(passeando com grandes passos) Ella sahiu ás duas horas... (dirige-se a Barnabé) Como explica o senhor isto? Auzente á hora e meia! (Arruma os trastes).

BARNABÉ

Não que d'aqui de Malmerendas a Miragaya são dois kilometros. Dê-lhe tempo...

LIBORIO

Que lh'o dê? Ella toma o que quer! Fechar o pae e o marido para ir...

BARNABÉ

Minha filha é incapaz de tal...

LIBORIO

É capaz de tudo: é Mexicana, e basta.

BARNABÉ

Não o contrarío, para você não pegar de novo comigo. (Levanta-se e põe o colchão sobre o leito).

LIBORIO

Ah! o senhor tem magnificas ideias! Que eu era pae! Esta só pelo diabo! eu podia lá ser pae, homem!

BARNABÉ

E eu podia lá imaginar que o senhor depois de casado?... Emfim, o que eu lhe disse era para o applacar...

LIBORIO

E para applacar minha mulher disse-lhe que o Macario era vivo. Foi isso?

BARNABÉ

Está claro; as minhas intençoens fôram sempre boas... eu não tive culpa, se o senhor é um marido... distincto.

LIBORIO

Que horas são?

BARNABÉ

(tirando o relogio pacientemente) Trez e trinta e dous minutos. Outra vez. O melhor é ficar com o relogio na mão, (fica assobiando) até o senhor acertar o seu.

LIBORIO

O senhor assobia?

BARNABÉ

Então o senhor quer que eu chore? Deixe-me assobiar, homem! Ha paixoens d'alma que não desafogam se não pelo assobio... situaçoens crueis em que um homem sente a necessidade de estar sempre não só a assobiar, mas até a apitar.

LIBORIO

Tem rasão. Quando se possue uma filha como a sua, e uma esposa como a minha, todas as manifestaçoens do assobio e do apito são permittidas. (Barnabé continua a assobiar) Tem rasão. Assobie á sua vontade... use de todos os instrumentos de sôpro... Desabafe, snr. Barnabé, que eu faço o mesmo. (Assobia tambem. Ouve-se ruido de passos). Sio... escute...

BARNABÉ

Será?... (rumor na fechadura).

LIBORIO

É ella!

BARNABÉ

Prudencia, snr. Liborio, prudencia...

LIBORIO

(sentando-se n'uma cadeira á esquerda, e pegando de um jornal de sobre o fogão) É ella... (atira os pés para cima de uma cadeira).

BARNABÉ

(á parte) Elles vão-se agatanhar!... se eu podesse tingar-me...

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