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O Romance d'uma cantora

XXVII Preliminares

Salvador de Medonça translation

Antonino, voltando para o interior da casa, disse apenas de si para comsigo:

—Era fatal este resultado!

E principiou immediatamente, com a mais perfeita tranquillidade, a tomar as suas disposições.

Em primeiro logar expediu um telegramma a seu pae, dizendo-lhe que tinha, no dia seguinte, um duello grave, e pedindo-lhe para tomar o expresso da noite, que o devia trazer á capital pelas oito da manhã.

A essa mesma hora deixaria sua mulher na casa da rua Boudreau, e encontrar-se-ia com o conde, nos seus aposentos do boulevard Hausmann ás nove horas.

Desejava que, em caso de fatalidade, o conde estivesse junto de Laura.

Em seguida foi para casa do conde de Bauriac, d'onde mandou chamar o barão de Chazeuil, que morava proximo, na rua dos Campos Elyseus.

Os tres conferenciaram em seguida sobre o duello em perspectiva.{325}

O conde de Bauriac, entendedor na materia, disse, movendo a cabeça com ar preoccupado:

—Um duello com Lauretto Mina tem um caracter extremamente excepcional. Esse homem, em dois duellos que teve, matou um dos adversarios, e feriu gravemente o outro, que só escapou por milagre. Jámais foi possivel explicar e justificar os botes que lhe valeram esta dupla e sangrenta victoria. Em virtude da rapidez do ataque, ninguem viu como os botes tinham sido vibrados. Conheço a sua força ao sabre, meu caro visconde, e vel-o-ia, sem inquietação, bater-se com os melhores esgrimistas. Mas considerando a fórma... italiana de Lauretto, todas as cautellas são poucas. A nossa responsabilidade, como testemunhas d'este duello é duplamente seria. Não se trata de regular o negocio, ou de apresentar desculpas; mas, emfim, deve haver, e ha com certeza, no conflicto apparente, razões occultas, que eu não lhe perguntarei. Nós sabemos, Chazeuil e eu, que o meu amigo é corajoso como poucos. Encarregue-nos de dizer ás testemunhas de Lauretto Mina que se recusa a dar-lhe explicações, e nós acceitaremos a missão satisfeitissimos, não é verdade, barão?

Chazeuil respondeu com um gesto affirmativo.

—Agradeço-lhes a confiança que em mim depositam, replicou Antonino, mas não posso nem devo acceitar o seu offerecimento. Insultei esse homem, sabendo{326} bem quem elle era, e conhecendo o risco que corria. Se eu recusasse a bater-me hoje, elle ámanhã offender-me-hia por fórma que fosse então inevitavel o duello. Minha mulher não desconfia agora que eu fui desafiado, e podia ser informada do novo conflicto que se daria de futuro. Peço-lhes, pois, que me deixem terminar este negocio sem perda de tempo.

—Estamos á sua disposição, disse o conde de Bauriac. Tem algumas instrucções a dar-nos?

—Não. Desejo apenas que o duello se realise, sem falta, ámanhã ás onze horas. Meu pae só chega ás oito, e eu tenho que fallar-lhe.

Ficou combinado que os dois iriam buscar Antonino, á casa do boulevard Hausmann, pelas dez horas da manhã.

Pouco depois d'Antonino sahir, entraram as testemunhas de Lauretto Mina.

Estavam ainda mais perplexos do que de manhã.

Gressier, sobretudo, não podia occultar a inquietação de que estava possuido.

Quando o conde de Bauriac lhe disse que era inevitavel o duello, o baritono fez um gesto de profundo desgosto.

É que Lauretto rira diabolicamente quando elles lhe tinham dito que o visconde acceitava o desafio.

Gressier lembrou-lhe o que o tenor d'uma vez dissera no foyer dos artistas:{327}

—N'um duello eu não arranho nem firo, mato. E ajuntou:

—Aquella sua phrase de certo foi simples modo de fallar, meu caro. Sem duvida não teremos que temer ámanhã um resultado tão tragico.

—Está enganado! replicou Lauretto, com sorriso feroz. Hei de matar o visconde! Hei de matal-o!

Gressier estremecera violentamente, por tal fórma Lauretto pronunciára as ultimas palavras.

Quando entrou em casa do conde de Bauriac, o baritono estava ainda sob o peso d'aquella desagradavel impressão.

O barão de Chazeuil reparou para o gesto de Gresnier, e disse:

—Não me parece que seja caso para temores. O sr. Lauretto Mina é um adversario para respeitar... como esgrimista, bem entendido, mas o sr. visconde de Bizeux saberá defender-se, com certeza.

Os infelizes artistas temiam as responsabilidades que pesam sobre as testemunhas de duellos que occasionam a morte, e desejavam encontrar um meio que os levasse a não continuar com as negociações.

Quando se tratou de resolver que sabres serviriam o conde de Bauriac disse, segundo o costume, que a sorte decediria.

Nós acceitamos sem o mais leve inconveniente os sabres do sr. visconde de Bizeux, disse Nobillet.{328}

—O sr. Lauretto Mina não ratificaria a sua concessão, observou o conde.

—N'esse caso retirar-nos-iamos, replicou Gressier apressadamente.

O conde viu-se obrigado a conter aquelle ardor... d'abstenção, affirmando que não poderiam ser censurados por tomar a sorte como arbitro.

Foi resolvido que o duello se efectuaria no bosque de Bolonha.

O barão de Chazeuil indicou uma clareira, sobre o mappa.

Encontrar-se-iam n'aquelle sitio pelas onze horas do dia seguinte.

Gressier e Nobillet retiraram-se, porque nada mais tinha que ser combinado.

Durante esse tempo Antonino fôra a casa do dr. Despujolles, que deu um salto ao saber que o visconde se batia com Lauretto.

Depois, readquirindo a presença d'espirito, disse:

—Lá estarei com os meus instrumentos, mas, não sei porque, estou convencido que elles não servirão ao meu amigo. Já o vi de sabre em punho; ia affiançar em como dará uma lição ao ajudante do professor d'esgrima. O que é necessario é que não se distraia.

Antonino quiz que o doutor o acompanhasse a jantar em casa de Linda.{329}

Despujolles, porém, pretextando affazeres, mas na realidade por temer não estar sempre de bom humor, desculpou-se de não acceitar o convite.

O visconde, que não desejava estar só com sua mulher, ao sahir de casa de Despujolles procurou e convidou dois amigos para jantar.

Chegando a casa, disse a Laura:

—Encontrei Heitor e Linage; jantarão comnosco.

—Desejava antes jantar só comtigo.

E depois, olhando fixamente para o marido, perguntou:

—Nada de novo sobre Lauretto Mina?

—Nada. O biltre nem bulio, respondeu Antonino.

O jantar correu alegremente.

A fatalidade, porém, quiz que, pelas dez horas da noite, quando o visconde acompanhava os dois amigos até á porta, Jacintha lhe entregasse um telegramma.

Antonino voltou para junto da esposa.

Ella viu o carimbo de Saint-Malo, e estremeceu.

—É um telegramma de teu pae? perguntou.

—Ah! sim, é verdade. Escrevi-lhe sobre a nossa proxima mudança de vida. Elle ficou satisfeitissimo e participa-me que vem ver-nos. Chega ámanhã, talvez...

—Deixa ver... disse Laura estendendo a mão para o telegramma.{330}

—Curiosa!... respondeu elle, rindo.

Fez uma bola com o papel, e lançou-o ao fogão.

Laura pensou immediatamente:

—Bate-se ámanhã com Lauretto Mina.

Mas ao mesmo tempo reflectiu que coisa alguma impediria, que os seus pedidos e as suas lagrimas podiam dessocegar Antonino, e resolveu calar-se.

—Em que pensas? perguntou-lhe elle.

—Penso que teu pae será um magnifico avô.

E não fallaram mais senão no pae e no filho.

No dia seguinte o visconde levantou-se cedo.

Ás oito horas estava prompto para sahir.

Laura deu-lhe um beijo tranquillo, e limitou-se a recommendar-lhe:

—Volta depressa, pensa em mim e n'elle!...

O visconde calculou:

—Não desconfia de nada!

E Laura dizia para comsigo:

—Não suppõe que eu adivinhei tudo!

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