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O Romance d'uma cantora

IX A confissão

Salvador de Medonça translation

Um dia,—na vespera da soirée dada por Pozzoli,—Antonino foi a casa de Laura á hora costumada, duas da tarde, e encontrou-a ao piano.

A pedido do visconde a Linda cantou duas ou tres canções populares hespanholas, de que elle gostava muito, com uma graça e perfeição inexcediveis.

Antonino escutava, como mergulhado n'uma especie d'adormecimento.

Ao contrario do que costumava, pouco a applaudiu.

Ella fechou o piano e approximou-se d'elle.

Fallou-lhe com a affabilidade e a franqueza habituaes.

Vendo, porém que o visconde não lhe respondia, disse-lhe:{98}

—Está hoje muito triste! O que tem, meu amigo? Recebeu alguma má noticia? Estará doente seu pae?

—Effectivamente recebi hoje de manhã uma carta de meu pae, que, felizmente, está bom, assim como minha irmã. A carta só fallava de mim, e em resposta a outras que lhe escrevi nos ultimos dias. Como lhe disse, meu pae é o meu confidente e o meu melhor amigo.

—Se não é por elle, é pelo sr. que está triste? Teve algum desgosto? Diga! Como sabe combinámos que eu seria tambem sua amiga.

—Combinamos, é verdade... respondeu Antonino em tom pungente.

—Então faça-me confidente dos seus desgostos; já confessou que estava triste...

—Estou...

—E qual é a causa d'essa tristeza?... Vamos, falle...

—Se fallo, Laura, respondeu Antonino decidindo-se? falto ao compromisso que tomei com a senhora. Mas é o mesmo, fallarei... Perdôe-me e escute-me.

—Acautelle-se, disse a cantora inquieta. Não venha turvar a profunda satisfação que todos os dias me causa a sua visita. Ha apenas duas semanas que o conheço, e parece-me que estamos relacionados ha mais de dez annos. Acautelle-se... acautelle-se. De{99} certo não me quer entristecer tambem, e ainda menos offender-me.

—Não a entristecerei nem a offenderei, certamente. Mas não combinámos tambem que seriamos sempre extremamente francos um com o outro, que nada dissimulariamos, que o primeiro artigo da lei da nossa amisade seria a mais absoluta confiança? Pois bem: vou ler no meu coração, vou indicar-lhe tudo o que n'elle ha. Calou-se por instantes, e depois continuou:

—Pediu-me, Laura, que não fosse mais do que seu amigo. Tentei, de boa vontade e de boa fé, satisfazer o seu pedido, mas não o consegui. Quanto mais vezes a vejo, mais augmenta em mim a estima e a admiração pela senhora, e com a admiração e a estima, o amor. Não posso resistir-lhe, não posso luctar por mais tempo, não posso conter-me! É indispensavel que lhe diga bem alto: amo-a, Laura, amo-a!...

Ella soluçou.

—Escute-me... ainda não acabei. Se a phrase que me prohibiu de pronunciar saltou dos meus labios, não foi com a intenção de a affligir ou de lhe desobedecer. Não me esqueci d'uma só das palavras que trocamos á volta de S. Germano. Consinta apenas que uma ultima vez lhe faça a seguinta pergunta; se casasse com um homem que a amasse e{100} cuja posição e fortuna lhe permittissem abandonar o theatro, ser-lhe-ia completamente impossivel renunciar á scena para sempre?

—Já lh'o disse, mas vou repetir-lhe que o theatro é para mim como uma segunda vida, e que não devo nem quero renunciar a elle.

—Pois bem, Laura, eu é que não posso renunciar á sua mão. Talvez soffresse menos não respirando do que deixando de a ver. A senhora é para mim mais do que uma segunda vida, porque é a minha vida inteira! Não quer ceder ao meu pedido? Cederei eu ao seu.

E accrescentou com voz firme:

—Continue no theatro, Laura, e no dia em que me amar, será minha mulher!

Ella levantou-se, estupefacta, e soltou um grito de surpreza.

—É possivel?... O que disse?... Pois consente?... Deixar-me-ha ficar no theatro... depois de dar-me o seu nome?... Oh! meus Deus!...

Sentiu uma alegria enorme, inexplicavel, de que ella propria não comprehendia a significação.

Elle ajoelhou-lhe aos pés e disse:

—Sim... tudo... tudo! Consisto em tudo, com tanto que seja minha!...

Laura pôz-lhe uma das mãos na frontes e respondeu:{101}

—Não, meu amigo, é muito! Não devo consentir em tanta generosidade... não quero acceitar um tão grande sacrificio... não quero!...

N'esse momento ouviu-se uma voz, alta e clara, na sala contigua áquella em que estavam Antonino e Laura.

Era a voz de Lauretto Mina.{102} {103}

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