XVI A sr.ª baroneza
Salvador de Medonça translation
A rainha da moda, a que dava as leis e fazia a opinião da alta sociedade em Saint-Malo, era a sr.ª baroneza de Pontual, uma formosa mulher de trinta annos. Havia umas cinco ou seis estações que ninguem se atrevia a disputar-lhe a elegante auctoridade.
A baroneza era ainda parenta, em grau affastado, da menina por quem o conde se apaixonára antes de casar com a mãe d'Antonino, e parecia-se até, um pouco, com a infeliz a quem o desgosto matára.
Essa circumstancia atrahira o conde, contra o seu habito, para a esphera d'acção mundana da joven baroneza, elle que tanto amava a vida retirada, onde podesse entregar-se completamente ás suas melancholicas recordações.{188}
O barão de Pontual era um insignificante.
Sendo o primeiro admirador e adorador da esposa, ella facilmente o conduzia por todos os caminhos, bons ou maus, por onde lhe aprouvesse caminhar.
Adelia, que assim se chamava a baroneza, declarava ter alma d'artista, o que é uma percebivel ambição, quando não seja pretenciosa.
Ora, para completo esclarecimento do leitor, devemos dizer que á baroneza faltava simplicidade e sinceridade.
Cultivava simultaneamente, segundo a sua propria phrase, as lettras, a pintura e a musica.
A sua especialidade em litteratura era o genero epistolar, á semelhança da sr.ª de Sévigné, sua compatriota.
Os correspondentes previligiados da baroneza, como no passado os da marqueza, colleccionavam as cartas e os bilhetes, em que havia tres estylos diversos: o serio, o sentimental e o jocoso.
Em pintura orvalhava as suas aguarellas, e dava vida ás paysagens.
Mas a sua arte predilecta era a musica.
Possuia voz agradavel, mas mal educada.
Comtudo recebera lições de canto de Delle Sedia, como recebera lições de piano de Lecouppey.
Tinha opiniões cortantes, audacias pouco vulgares em mulher.{189}
O seu deus era Gounod.
Eatretanto não desgostava de Berlioz, que ella declarava ser quasi sempre extravagante, mas algumas vezes sublime.
A baroneza, ao principio, quando no seu horisonte viu despontar a viscondessa, inquietou-se.
Laura era mais formosa e mais nova que ella.
Além d'isso a situação dos srs. de Bizeux era muito mais brilhante do que a do barão de Pontual.
Tudo isto fazia com que Laura podesse ser uma rival terrivel.
Mas socegou em breve, vendo o aspecto modesto e simples da viscondessa, que apenas parecia desejar não dar nas vistas, occultar-se na sombra.
A formosa Adelia foi desde logo indulgente e quasi amiga de Laura.
—A viscondessinha é encantadora! disse ella.
O barão de Pontual era o thesoureiro da commissão que tratava da fundação do hospicio para marinheiros.
O conde de Bizeux foi eleito, por essa occasião, vice-presidente da mesma commissão.
Uma ultima subscripção produziu approximadamente sessenta mil francos.
Faltava, pois, arranjar apenas os quarenta mil que faltavam para prefazer a quantia julgada indispensavel.{190}
Esplendidas regatas, organisadas em Saint-Malo, produziram quinze mil francos.
O arcebispo de Rennes foi então d'opinião que se devia angariar o restante, dando um grande concerto.
Foi convencionado que o concerto se realisaria nos fins de setembro.
Tratariam d'accumular attractivos, que justificassem os preços elevados, e attrahissem a Saint-Malo a élite da nobreza e da finança de toda a Bretanha.
A baroneza de Pontual estava naturalmente indicada para preparar e dirigir aquella festa.
Haveria canções populares bretãs, para as quaes recrutariam executantes nas classes baixas.
O celebre pianista Nobillet, natural de Lorient, prometteu o seu concurso, e egual promessa fez o barytono Gressier, que nascera em Nantes.
O restante, para conservar ao Concerto o caracter aristocratico que devia ter, a baroneza de Pontual tratou de o procurar e encontrou-o, nos salões da melhor sociedade; homens e senhoras, cujos nomes e talento dessem ao programma grande attracção, tornando-o de fórma a aguçar a curiosidade de todos, prestaram-se a tomar parte na festa.
O salão da baroneza era pequeno para n'elle se fazerem os ensaios.
O conde de Bizeux offereceu o seu.
A viscondessa, como Estephania estava ainda convalescente,{191} viu-se obrigada a fazer as honras da casa.
O sr. de Bizeux, que tomára a peito a terminação da grande obra de caridade, perguntou á nora se não queria dar o seu contingente para o brilho do concerto.
Laura, sem recusar abertamente, observou-lhe que se arriscava a trahir o seu incognito d'artista e a deixar descobrir a cantora na viscondessa, tomando parte n'esse espectaculo, a que de certo concorreria muita gente.
O conde, ainda que com pesar, acceitou aquellas razões.
Um incidente imprevisto tornou inutil aquella precaução.
A baroneza devia cantar, no concerto, a Ave Maria de Gounod, o seu deus.
D'uma vez ensaiava, em casa do conde, aquelle delicioso trecho de musica, ante um auditorio que, n'aquelle dia, por acaso, era numeroso.
Obteve o successo costumado, e todos os presentes foram, no fim, fazer-lhe os seus cumprimentos...
Laura, como todos, foi testemunhar a sua admiração á baroneza.
Adelia requebrou-se toda, segundo, o seu habito, defendendo-se dos cumprimentos com a mais falsa das modestias.
—Não, não... Favores!... Hoje não estava com{192} voz... De certo reparou que, no fim, a respiração faltou-me!...
—Permitte-me que lhe diga de que foi resultante essa falta? perguntou Laura com simplicidade.
—Pois não, minha querida!... Falle... peço-lhe...
—Parece-me, disse a viscondessa, que, em vez d'observar o crescendo phonico obrigado, a sr.ª baroneza o atacou demais no principio, faltando-lhe depois a força no final, que deve ser cantado com toda a intensidade de tom possivel.
—Não percebo bem... objectou a baroneza deveras contrariada.
E depois d'um momento de silencio, perguntou:
—A sr.ª viscondessa sabe musica?
—Um pouco...
—Ah! sabe?... Então queira ter a bondade de juntar a pratica á theoria, cantando o trecho como entende que elle deve ser cantado.
—Depois da sr.ª baroneza ter cantado, não devo eu...
—Não faça ceremonia... Cante... peço-lhe, insistiu a baroneza com frieza.
Com a insistencia esperava collocar em terrivel embaraço a imprudente conselheira.
Laura fez um movimento de contrariada, mas accedeu ao pedido.{193}
Começou muito piano, com intensão de cantar a meia voz, quando muito.
Mas o instincto d'artista foi mais forte que ella: arrastou-a.
Quando chegou ás ultimas notas, a sonoridade da sua voz foi tal, manifestou-se tanto o conhecimento do methodo, que todos os assistentes, admirados, romperam em bravos e palmas.
Antonino não estava presente, mas o conde de Bizeux assistiu ao triumpho de Laura, o que, no intimo, lhe deu grande satisfação.
A baroneza de Pontual ficou abysmada!
A incontestavel superioridade de Laura esmagava-a ao primeiro recontro.
Entretanto assaltou-a uma duvida.
Quem seria aquella mulher que tinha dissimulado, e que subitamente revelava, uma voz e uma arte de cantar pouco vulgares entre amadoras, e mais do que sufficientes para fazerem a reputação d'uma cantora de primeira ordem?
Entretanto a baroneza não foi a ultima a felicitar Laura.
—Mas que admiravel surpreza! disse ella. Porque me não fez conhecedora, ha mais tempo, do seu maravilhoso talento, sr.ª viscondessa?
Comtudo cohibiu-se de perguntar a Laura se queria tomar no concerto o logar que lhe pertencia.{194}
É porque percebeu perfeitamente que esse logar seria o primeiro, e a baroneza não desejava occupar o segundo plano.
No dia seguinte, porém, a infeliz baroneza recebeu do arcebispo de Rennes, a quem enviára o programma, uma carta desoladora.
O arcebispo admirava-se de não ver figurar n'esse programma, o nome d'aquella que devia ser a grande attracção, e que produziria o mais brilhante successo.
Esse nome era o da viscondessa de Bizeux.
Fôra ouvindo-a cantar na missa d'inauguração da capella do castello, que ao arcebispo occorrera a idéa de dar um concerto, cujo producto revertesse a favor da subscripção para o hospicio de marinheiros.
Em seguida o arcebispo perguntava se a baroneza de Pontual desconhecia o raro talento da nora do conde de Bizeux.
Pois a extrema modestia da viscondessa fazia com que ella não desejasse manifestar o seu talento em publico?
Quando se tratava d'uma obra meritoria, não se tinha o direito de ser modesto, e por isso instava com a baroneza para que convidasse Laura.
Ante esta especie d'intimação, a baroneza não poude deixar de convidar a viscondessa.
Portanto, no dia seguinte, foi officialmente perguntar-lhe{195} se queria prestar ao concerto o seu valioso concurso.
Laura, perplexa, respondeu que necessitava consultar o marido e o sogro.
Houve conselho privado entre o conde de Bizeux, Antonino e Laura.
O conde foi d'opinião que a nora não devia deixar de prestar-se a dar a sua contingente para tão santa obra.
A Linda desapparecera havia mais de dois annos.
Que mal podia resultar d'ella reapparecer, uma unica vez, n'uma cidade tão distanciada de Paris, diante d'um publico local, que não estava ao corrente do movimento dos theatros parisienses?
O maior numero de probabilidades, era de que Laura não seria reconhecida.
—Mas se o fôr? perguntou a viscondessa.
—Se assim succedesse, respondeu o conde, a descoberta far-se-ia em condições tão honrosas, tão respeitaveis para todos nós, que, ante o facto consumado, os mais rigoristas não tinham o direito d'arguir meu filho de a ter amado sufficientemente, Laura, para lhe dar o seu nome, nem a mim por lhe chamar filha.
Houve um momento de silencio.
O conde, passados instantes, accrescentou:
—Nada tem no seu passado, Laura, de que deva{196} envergonhar-se. Estephania, que tem os prejuizos que sabe, sem duvida ficaria contrariada se lhe tivessemos, de principio, revelado toda a verdade. Mas agora ella já a conhece e apprecia. Tratou-a com uma dedicação tão fraternal, que minha filha está reconhecidissima. O arcebispo de Rennes, que possue um espirito superior, reclama este serviço; depois seria o primeiro a não consentir que elle se voltasse contra aquelles a quem o pede. Se o seu segredo, que é tambem nosso, tem de ser conhecido mais tarde ou mais cedo, parece-me que não encontraremos occasião mais favoravel do que esta, para que todos saibam que a esposa de meu filho foi cantora.
Antonino, menos optimista que seu pae, e vagamente inquieto, nada achou que oppôr ás razões apresentadas pelo conde.
De resto, como sempre, desejava fazer-lhe a vontade.
Assim pois, foi Laura a unica que resistiu á idéa de reapparecer e cantar em publico.
Mas não queria ou não podia dizer tudo o que pensava sobre o caso.
A verdade era que, sobretudo, ella temia-se a si propria.
Sabia com que intima alegria estremecera no dia da inauguração da capella.{197}
Dois dias antes, ao cantar, ante um auditorio ainda assim restricto, a Ave Maria de Gounod, experimentára maior satisfação.
Os bravos e palmas que então ouvira, tinham a como que transportado aos bellos tempos em que ella arrebatava uma platéa inteira.
O que lhe succederia se de novo se encontrasse na frente d'um publico numeroso?
Que effeito lhe produziriam os bravos, as chamadas, as corôas?
Ah! a queda era tão facil e podia ser tão desastrosa!
Tel-a-iam esquecido em Paris tanto quanto o conde julgava?
Não.
Poucos dias antes lera n'um jornal da capital, a proposito da abertura da nova Opera e da companhia que n'ella devia cantar, que o director do novo templo da arte, devia, se fosse habil, lembrar-se da Linda.
N'essa mesma noticia accrescentava-se que a diva estava no Mexico, mas dizia-se tambem que o Mexico não era no fim do mundo, que se volta de lá dentro d'algumas semanas.
Mas a Linda não estava longe!
Podia chegar a Paris, ao seu querido Paris, em algumas horas.{198}
Laura, em seguida, pensou no seu amor por Antonino, sempre inalteravel no seu coração.
Era esse sentimento que ainda a retinha junto d'elle.
Mas ao mesmo tempo recordava-se da palavra que o visconde lhe dera, e que a tornava livre se achasse muito pesada a cadeia que a prendia.
Eram todos estes pensamentos que a tornavam hesitante. Não tinha, porém, a coragem de os expôr.
Se a tivesse, seu marido e seu sogro ficariam convencidos de que ella não devia cantar no concerto de benificencia.
O conde persistia, insistia, e Antonino juntava os seus rogos aos do pae. Ella, por fim, disse:
—Reconhecem bem, não é verdade, que o que está mais em jogo não é o meu interesse pessoal, mas o interesse da familia?
—Sem duvida, respondeu o conde, e é por isso mesmo que insistimos e somos de opinião que deve ceder, como nós cedemos.
Laura, replicou então:
—Visto assim o quererem, cantarei no concerto!
N'essa noite, Laura disse á baroneza, pouco satisfeita, o seguinte:
—Pode accrescentar no seu programma, minha senhora, que a viscondessa X... cantará as arias Fidelio e o Rei dos Alamos.{199}