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O Romance d'uma cantora

XXII Uma representação dos «Huguenottes»

Salvador de Medonça translation

O cartaz da Opera annunciava para aquella noite os Huguenottes, cantando a Linda a parte de Valentina.{255}

Lauretto Mina desempenhava o papel de Raul, em substituição do primeiro tenor, que adoecera.

Pelas seis horas e meia da tarde, Antonino de Bizeux, um pouco pallido e magro, apoiando-se á bengala, entrava n'uma das agencias theatraes então recentemente abertas nos boulevards, e comprava um fauteuil d'orchestra, que pagou por trinta francos, ou fosse o dobro do preço da casa.

Tinham-se passado tres mezes menos alguns dias, desde que Laura abandonara a casa do caes de Saint-Malo, e durante todo esse tempo, a Linda só tivera noticias indirectas e incertas de seu marido.

Cinco dias depois de chegar a Paris recebera,—enviados por Marieta Dauvin,—seis grandes volumes contendo, não só os vestidos e demais roupa do seu uso, como tambem os moveis que guarneciam o seu quarto, e que provinham, quasi todos, da sua antiga casa da rua de Bolonha.

Nem uma carta, nem uma só palavra, acompanhava a remessa. Laura sentiu profunda anciedade.

O que significava aquelle silencio?

N'um primeiro movimento de inergia resolvera quebrar a cadeia que a prendia e que achava pesada, e fizera-o immediatamente, sem hesitar, sem reflectir.

Agora estava livre.

Todavia, essa liberdade, inquietava-a e consternava-a.{256}

Em Saint-Malo tinha saudades da sua querida arte, em Paris recordava-se, saudosa, do seu amor.

O director da Opera, prevenido por Lauretto da volta da Linda, pedira-lhe uma entrevista.

Laura respondeu-lhe que esperasse por alguns dias.

Addiava, por instincto, a sua conversação com o emprezario, que de certo a queria contractar.

Lia todas as manhãs o Correio de Saint-Malo, que mandava comprar á agencia Havas.

Se qualquer facto se passasse em casa do conde de Bizeux,—uma partida, um accidente imprevisto—encontraria a noticia n'aquella folha local.

Mas nada se passava, com certeza, porque o nome de Bizeux, que ella procurava todos os dias com o olhar, avidamente, nem uma só vez foi mencionado pelo jornal.

A quem devia dirigir-se? A quem escrever?

Na Bretanha vivera sempre retirada, pensando apenas em Antonino.

Essa circumstancia fez com que não se relacionasse intimamente com pessoa alguma.

Ao cabo de dez dias não poude conter-se, e escreveu ao proprio Antonino.

Entre outras coisas dizia-lhe o seguinte:

«Porque guardas silencio? Não recebeste a carta{257} que te deixei? Não comprehendeste, por ventura, o grito d'amor com que a terminei? Responde, peço-te! Responde, ainda que seja colerica ou desdenhosamente.»

Depois supplicava ao marido que só escrevesse uma palavra, uma só, que podesse allivial-a da terrivel angustia em que vivia.

Dois dias depois recebeu uma carta com o carimbo do correio de Saint-Malo.

Rasgou o sobrescripto e procurou a assignatura.

A carta era do conde de Bizeux.

Escrevia o pae d'Antonino:

Minha senhora:

Não é o filho que lhe responde, é o pae, é o chefe da familia que a senhora abandonou tão bruscamente, tão cruelmente, e na qual deixou a desolação e o lucto.

Esse chefe de familia não lhe dirigirá, comtudo, a mais leve censura, nem em seu nome, nem em nome do filho.

Desejou ser livre para voltar para o theatro. Satisfez o seu desejo, está livre.

Nós desejamos, apenas, ter a liberdade de soffrer em silencio, sem que nos importune quem quer que seja.{258}

Só lhe pedimos uma coisa: é que nos deixe esquecer, e esqueça o passado.

Augusto, conde de Bizeux.

Laura offendeu-se pela frieza e rispidez que d'aquella carta transparecia.

Nem Antonino se dera ao incommodo de lhe responder!

Era o pae que intimava á fugitiva aquella especie de sentença, com ares de juiz justiceiro!

O que houvera no seu procedimento de tão reprehensivel e criminoso que justificasse uma tal attitude?

Se ella na realidade fosse uma mulher culpada, se tivesse trahido e deshonrado seu marido, d'accordo que a tratassem por aquella fórma!

Teria provocado a colera de toda a familia d'Antonino, e até o despreso geral, se assim fosse.

Mas a verdade era que o seu procedimento, uma vez que estava dentro das leis estabelecidas, não podia ser julgado com tanta severidade por seu sogro ou por seu marido.

A injustiça, elevada ao excesso d'injuria, revoltou o espirito nobre e altivo de Laura.

A sua consciencia e o seu coração diziam-lhe que não merecia ser tratada de semelhante modo.{259}

Resolveu, pois, por muito que a penalisasse uma tal abstenção, guardar o mais completo silencio, para que a sua dignidade não soffresse a menor quebra.

Foi então, e só então, que marcou o dia para a entrevista que o director da Opera solicitára.

O emprezario queria escriptural-a.

Laura recusou em absoluto um contracto de longa duração, apezar das magnificas condições que lhe offereciam.

Não desejava prender-se por muito tempo, e por isso só acceitou o contracto por um limitado numero de representações.

O director da Opera, apesar d'uma escriptura n'aquellas condições ir alterar o seu plano d'exploração theatral, curvou-se á imposição de Laura, e acceitou.

A Linda arrendou então, na rua Boudreau, a dois passos da Opera, um rez do chão modesto, que mobilou com simplicidade e bom gosto, aproveitando os moveis que lhe tinham enviado de Saint-Malo.

Além de Jacintha, tomou, para a servirem, um creado, homem de cincoenta annos, casado; a mulher do creado, velha tambem, passou a desempenhar as funcções de cosinheira.

Tres dias depois de receber a carta do conde estava installada na sua nova casa, satisfeita, na sua dôr e no seu isolamento, de sentir-se, pelo menos, senhora absoluta das suas acções.{260}

Ostensivamente parecia alegre, mas intimamente o desgosto minava-a.

Não lhe teria produzido tão doloroso effeito a carta do conde, se soubesse em que circumstancias o velho fidalgo a escrevera.

Oito dias depois da congestão o ter prostrado, ainda Antonino não percebia o estado em que se achava.

A doença aggravara-se dia a dia.

Nem um só dos muitos medicos chamados deixou d'opinar que elle estava condemnado.

A robustez da sua constituição fazia augmentar a violencia da doença

D'hora para hora, de minuto para minuto, o pobre pae suppunha que ia perder o filho unico, a quem tanto amava.

Foi n'este paroxismo de magua paterna que chegou a carta dirigida por Laura a Antonino.

O conde, para estar ao facto do que succedera, tinha aberto a carta que a nora deixára em casa, á partida.

Abriu, portanto, a que chegou de Paris, pela mesma razão.

D'aquellas duas cartas transpirava um affecto immenso.

Mas quem garantia ao fidalgo que Laura não mentia?

Lera tambem o telegramma de Lauretto Mina, que{261} fôra como que um punhal a enterrar-se no coração d'Antonino.

Seu filho acreditára no que dizia o telegramma.

Que razão tinha o conde para não acreditar tambem?

Mas, culpada ou não, Laura era a causadora unica da morte do seu filho. O conde não era juiz, era pae.

Escrevera sem medir o alcance das palavras, respondera o que a sua indignação lhe inspirára.

Laura matava-lhe o filho; não podia deixar de detestar, d'amaldiçoar essa mulher.

A crise, que para todos era agonia, prolongou-se ainda por mais duas semanas.

Durante todo esse tempo Antonino não reconheceu pessoa alguma.

O delirio não o abandonára um só instante.

Mas a prolongação da doença passou a significar esperança.

Ao vigessimo quinto dia os medicos disseram:

—É possivel salvar-se.

Quinze dias depois accrescentaram, emfim:

—Está salvo!

Effectivamente Antonino pareceu ter, n'esse dia, alguma consciencia de si mesmo. Apertou ao de leve a mão da irmã, que estava sentada junto ao leito.

Depois, olhando em torno ao quarto, murmurou com voz enfraquecida:{262}

—Laura?...

Felizmente o pensamento era ainda vago e fraco.

Em seguida áquelle esforço, Antonino recahiu de novo n'uma somnolencia pesada, que era a sua salvação.

A natureza, essa maravilhosa enfermeira, só lhe fez recuperar completamente a razão, quando o doente estava em estado de já poder supportar a verdade.

Recordou-se de tudo.

Laura, a sua Laura, que nos accessos febris nem um momento deixava de chamar, não estava alli, abandonára-o.

Porque?

Quando?

Ah! sim, recordava-se... fôra uma manhã...

Mas ella fugira só?

Accudiu-lhe á memoria o fatal telegramma...

Mas ao mesmo tempo lembrou-se d'uma carta,—d'uma carta d'ella!—que não tivera tempo d'abrir.

Interrogou seu pae.

O conde entregou-lhe então as duas cartas de Laura, cuja leitura só podia fazer bem ao doente.

E com efeito assim foi.

Antonino poude chorar.

O correr das lagrimas diminuiu a profundeza do desgosto.

—Ah! meu pae! disse elle, Laura continua amando-me.{263} Chama-me, espera-me! Nunca deixára d'amar-me! E ha já dois mezes que ella me espera? Mas como poude Laura estar tanto tempo longe de mim, sabendo-me perigosamente enfermo? Ou ella ignora que eu estou doente? Não lhe deram noticias minhas?

O conde teve de confessar-lhe que, n'um instante de desvairamento em que lhe parecia inevitavel a morte do filho, escrevera a Laura aquella carta implacavel que lhe interdizia qualquer pergunta, e lhe assegurava que jámais teria noticias de seu marido.

De resto, o conde declarou que n'aquella resposta influira tambem o ter acreditado no que dizia o telegramma desconfiando, por isso, que Laura mentia nas duas cartas. Ao ouvir a explicação do conde, Antonino respondeu:

—Não, não!... Foi o telegramma que mentiu! Laura diz a verdade, porque declara continuar amando-me! Ah! meu pae!... não a conhece! Ella possue o mais sincero e leal coração que é possivel imaginar-se! Tenho a certeza que Laura não sente despreso por esse Lauretto Mina, sente tambem horror!

O conde de Bizeux, apesar de não estar convencido, não quiz contrariar o filho, temendo que de tal contrariedade resultasse aggravamento da doença.

Antonino desejou escrever immediatamente a Laura, perdoando-lhe, chamando-a para junto d'elle sem detença.{264}

O medico, porém, impedia-o de realisar a intenção, declarando-lhe que ainda não tinha forças sufficientes para escrever, e que, fazendo-o, arriscava-se a peorar.

Como não o deixassem satisfazer aquelle desejo, o visconde, reflectindo, resolveu não escrever a Laura dias depois, quando o medico entendesse que o podia fazer.

Logo que estivesse restabelecido partiria para Paris, correria em procura de Laura, fazendo-lhe assim mais surpreza.

Por essa occasião os jornaes da capital noticiaram as representações de Linda na Opera.

Ao ter conhecimento d'esse facto, Antonino disse ao conde:

—Não a incommodemos. Deixemol-a satisfazer o seu desejo, realisar o seu sonho doirado. Voltará depois mais socegada.

O conde, depois de ter perdido completamente as esperanças de que os medicos salvassem Antonino, ao ter a certeza de que o filho não morreria, estava louco de satisfação.

Cria em tudo que o visconde acreditava, e, como elle, tinha confiança no futuro.

De resto, em consciencia, elle censurava-se pela fórma porque procedera com Laura, respondendo desabridamente á carta que ella dirigira a Antonino.{265}

Fôra injusto, fôra cruel até, e desejava por isso tornar a vel-a para nobremente lhe pedir perdão.

Comtudo, occasiões houve em que se inquietou.

Nas noticias dadas pelos jornaes sobre os espectaculos em que Laura tomava parte, viu, por vezes, o nome de Lauretto Mina ao lado do nome da Linda.

Entretanto cohibiu-se d'apontar o facto a Antonino.

Foi o proprio visconde que um dia lhe fallou nisso.

Com essa intuição que é como a segunda vista do amor, tinha a convicção absoluta que esse homem, esse Lauretto insolente, nada era, nada podia ser para Laura.

Não lhe restava a maior duvida.

Elle, tão concentrado e tão ciumento, como todos os que amam verdadeiramente, sentia que era amado por Laura, que ella não podia amar outro homem.

Lembrou-se dos ultimos dias que tinham passado juntos, das ultimas caricias trocadas, d'algumas injustiças que Laura lhe censurára, e percebia, interrogando o seu coração, que ella seria sempre d'elle, só d'elle.

E tinha razão, porque não só a Linda não amava o tenor, como até o despresava.

Não se limitava a detestal-o, fazia-lh'o sentir.

Laura suspeitava vagamente que Lauretto Mina influira de qualquer fórma no que ella chamava ter sido abandonada por Antonino.{266}

Na noite do concerto o tenor não estava longe de Remissy, podia ter avisado o violinista de que a Linda não desejava ser reconhecida, e Laura lembrava-se tambem do sorriso mau, vingativo, que entre-abria os labios de Lauretto, quando, no dia da fuga, a cumprimentara em silencio, pouco antes do comboio se pôr em marcha.

De tudo isto concluia a cantora que o tenor praticara qualquer indignidade, o que, de resto, lhe estava nos habitos.

Todavia a fatuidade de Lauretto não lhe fazia perder as esperanças, e quando viu Laura no theatro, pela primeira vez, tentou ainda, empregando meios quasi respeitosos e reservados, fazer-lhe a côrte.

Não amava a Linda, apenas a desejava com violencia, como nunca desejara qualquer outra mulher, segundo affiançava. D'uma vez exprimiu-lhe o seu amor n'um tom serio que não lhe era habitual.

—Vejo-a, disse-lhe elle, isolada e como abandonada, Laura. Aquelle a quem em Saint-Malo chamava seu marido parece despresal-a. Se necessitar d'um amigo, deveras devotado, que com alegria se fará matar pela minha amiga, bastar-lhe-ha fazer um gesto a este seu collega e respeitoso admirador.

A prudencia ordenava que Laura recusasse o offerecimento do tenor com uma certa brandura, sem o irritar, sem o ferir.{267}

Mas a repugnancia que sentia por Lauretto foi mais forte do que a prudencia com que estava resolvida a responder.

Portanto deixou transparecer nas suas palavras todo o despreso que sentia por elle.

Desde esse dia Lauretto juntou ao seu amor um odio sem limites, e tornou-se inimigo de Laura.

—Ah! ella despresa-me? dizia elle comsigo. Pois bem, juro que será minha!

Companheiros antigos, que com Lauretto tinham passado do theatro Italiano para a Opera, recordaram-lhe, rindo, o que em tempo dissera:

—Não serei o primeiro, mas juro que serei o segundo!

Motejavam d'elle, diziam-lhe que não poderia cumprir o juramento feito, porque, decididamente, a fórma pela qual a diva o tratava, os seus cumprimentos frios, despresadores, não lhe deviam deixar esperança de ser bem succedido.

—Veremos, veremos! respondia Lauretto aos companheiros mordendo os labios com raiva contrahida. Quem espera, sempre alcança. O visconde está ausente, portanto não tenho que temer o rival. Aposto o que quizerem em como poderão verificar qualquer dia... ou qualquer noite, a predicção do nosso antigo emprezario, Pozzoli, que dizia:—A Linda será d'elle!{268}

O odiento adorador da Linda estava n'estas disposições ameaçadoras na occasião em que Antonino chegou a Paris.

O conde de Bizeux manifestara desejos d'acompanhar o filho á capital, em primeiro logar para não se separar d'elle, e depois para velar por Antonino, porque o visconde estava ainda convalescente da terrivel doença que o ia matando.

Mas Antonino tinha a sua idéa.

Instou com o pae para que o deixasse partir só.

Para conseguir a annuencia paterna teve de fazer duas concessões: addiar a partida para oito dias mais tarde, de modo que a convalescença avançasse mais uma semana, e parar em Mans, dividindo a viagem em duas partes, para evitar o cansaço que lhe adviria de uma viagem tão longa.

Pelas noticias dos jornaes elaborara o seu programma d'artista e de amante.

Logo que chegou a Paris, acompanhado por um só creado, installou-se na sua antiga casa de solteiro, no boulevard Haussmann.

Conservou-se deitado sobre um canapé até quasi ás seis horas da tarde, descançando, sonhando.

Pouco depois sahiu, e comprou, como já dissemos, um fauteuil d'orchestra n'uma agencia theatral dos boulevards.{269}

Em seguida foi jantar ao Café Inglez, e ás sete horas e meia entrava na Opera.

Tivera a phantasia, que se transformára em ideia fixa, de tornar a ver sua mulher,—de tornar a ver a Linda,—cantando a parte de Valentina dos Huguenottes, que era justamente o papel que ella representára a ultima vez que a ouvira no theatro, na noite em que lhe salvara a vida.

Tornaria a vel-a, do seu fauteuil d'orchestra, apenas como um simples espectador, e sem que ella desconfiasse da presença d'elle.

Esperava sentir dupla alegria.

Tornaria a ver, simultaneamente, a sua artista predilecta e a sua adorada mulher.

Sentiria as emoções do amador, e os estremecimentos do amante.

A verdade era que, depois da meia anniquilação, da meia morte de que sahia, não se lembrava de experimentar uma tal intensidade de vida nem tanta exhuberancia d'amor.

A sua vida e o seu amor tinham passado, na realidade, por uma terrivel crise.

Mas a convalescença chegara.

Havia em todo o seu ser, e em todo o seu coração uma especie de renascimento.

A força physica e o espirito augmentavam ao mesmo tempo.{270}

Amava Laura com esperança e embriaguez, mais, muito mais, do que d'antes a amara.

Chegando, como um provinciano, meia hora antes de começar o espectaculo, admirou a escadaria, o foyer, as pinturas de Paulo Baudry, o salão!

Extasiou-se ante as toilettes claras das senhoras, que sobresahiam do vermelho do forro dos camarotes.

Maravilhou-se das columnas de marmore polychromo, do bronze dos candelabros, do ouro dos lustres, do enorme panno de bocca purpurino, que dentro em pouco se elevaria para lhe deixar ver Laura.

Um ruido confuso de conversação espalhou-se pela sala.

Os violinos e os baixos afinavam-se indistinctamente.

Antonino adorava aquelle sussurro, como adorava o do mar. O director da orchestra levantou a batuta.

A opera começou.

Antonino, porém, conhecia a partitura de cór, escutava como em sonho, apenas vagamente via passar Lauretto Mina.

Todo o seu ser esperava por Laura.

Quando, emfim, a Linda entrou, quando passou, velada, ao fundo da scena, sentiu a louca tentação de se precipitar para o palco, e esteve prestes a soltar um grito.{271}

Quasi immediatamente depois, porém, voltando a si, olhou em volta para ver se tinha chamado a attenção dos demais espectadores.

Mas não; mercê do instinctivo habito adquirido, conservára-se correcto.

A representação seguia como um encanto para o visconde.

No segundo acto a Linda foi admiravel no dueto com Marcel.

Disse a phrase

A offensa mortal do ingrato...

com um sentimento tão penetrante e tão meigo, que os olhos d'Antonino marejaram-se de lagrimas.

A sua emoção, porém, foi elevada ao cumulo no recitativo de Valentina, que abre o terceiro acto, e começa

Estou só com a minha dor!

Quando Laura soltou o grito doloroso:

Meu Deus! afugentae esta lembrança fatal...

a vibração da sua voz maravilhosa foi tão pungente e tão vivida, que não podia deixar de ser palpavel para Antonino que era Laura quem se lamentava e não Valentina.

O visconde sentiu, por isso, percorrer-lhe as veias uma especie de terror gelado.{272}

Pensou que Laura o vira na sala, que era exclusivamente para elle que cantava, unicamente a elle que se dirigia.

Segundo as suas impressões, até então tudo se passara, por assim dizer, entre ella e elle.

Todavia no quarto acto teve que passar por um outro genero de prova.

Depois da benção dos punhaes, Raul fica só com Valentina.

Raul, por substituição n'aquella noite, era Lauretto Mina.

O dueto sublime começou.

Aquelle trecho de musica produz o que não poderia produzir qualquer outra arte, nem a pintura ou a poesia.

Explica, delinia, faz sentir o amor completo, o amor da alma e o amor dos sentidos.

Ha n'aquelle dueto assombroso, com todas as dilacerações da paixão, com todos os horrores do passado susto, todas as delicias e todos os extasis da voluptuosidade!

E Raul era Lauretto! e Valentina era Laura!

Antonino ouvira muitas vezes a parte de Valentina cantada por Laura.

D'antes, a Linda cantava aquelle dueto com o superior talento e virtuosidade que possuia, com vigor e expressão.{273}

Jámais, porém, a ouvira cantar com aquella paixão e embriaguez.

N'outro tempo ella comprehendia, adivinhava.

Agora sentia, recordava-se.

No espirito d'Antonino passou como que uma hallucinação extranha.

Quando viu Laura—porque, para elle, aquella mulher deixára de ser Valentina—lançar-se, supplicante, aos pés de Lauretto—que já não considerava como Raul—acerbo ciume se apossou d'elle.

Pouco a pouco, o admiravel jogo physionomico da Linda acabou por dar á ficção uma realidade terrivel.

O salão, o publico, desappareceram.

Parecia-lhe que assistia, immovel e mudo, a uma verdadeira scena d'amor entre sua mulher e aquelle homem detestado.

E no cerebro fervia-lhe, confusamente, este pensamento:

—Por grande tragica que seja, poderia Laura, se Lauretto lhe fosse indifferente, envolvel-o em arrebatados abraços, dirigir-lhe tão ardentes supplicas? Poderia, se não o amasse, attrahil-o e retel-o contra o coração com tal accesso de ternura e de dôr?

Quando Laura dirigiu ao tenor o desesperado appello;

Fica, Raul, eu amo-te!

o visconde mordeu a mão para não gritar:{274}

—Miseravel!

Raul parte e Valentina cae desmaiada.

Antonino, no seu fauteil, parecia ter desmaiado tambem.

Voltou a si aos primeiros compassos do terceto entre Valentina, Raul e Marcial.

A presença d'um terceiro personagem bastou, caso extraordinario, para o despertar d'aquelle terrivel pesadello, chamando-o á verdade da situação theatral.

Os olhos viram claro.

Laura passou novamente a ser Valentina para elle.

Desempenhava superiormente o papel d'um drama, nada mais.

Se ella representava com tanto ardor e enthusiasmo, se cantava o inegualavel dueto d'amor com tanta paixão pessoal, deixando n'elle, por assim dizer, a sua alma, não era um tenor qualquer que ella escongurava, que ella adorava com aquelle abandono e aquellas lagrimas, mas o homem que amava, o homem que não via, mas que estava sempre presente á sua imaginação, o homem que primeiro lhe revelára as alegrias celestes que podem gosar duas almas irmãs.

E Antonino sentia agora vontade de rir da horrivel visão que tivera, como se ri quando a luz do dia nos mostra os objectos sob as suas verdadeiras formas, deturpadas pela illusão das trevas. Estava já{275} completamente senhor de si quando o panno caiu, no fim do espectaculo, para de novo se levantar ás duas chamadas que o publico enthusiasmado fez a Laura.

O visconde sentia-se satisfeito pela resolução que tomara, antes de partir para Paris.

Sahiu, deu a volta ao edificio do theatro e entrou pela porta do palco, perguntando ao porteiro onde era o camarim de madame Laura Linda.

Entrou.

Ao atravessar um corredor, viu Lauretto Mina que sahia do foyer.

O tenor, ainda vestido de Raul, ia de certo para o seu camarim. Ao ver Antonino, recuou admirado.

—O sr. de Bizeux! disse elle estupefacto.

Mas quasi immediatamente voltou-lhe a presença d'espirito, e accrescentou no tom de cortezia que exasperava Antonino:

—O sr. visconde procura sem duvida madame Laura Linda?... É a segunda porta, n'esse corredor da direita. Creio que madame Linda está só esta noite.

Antonino inclinou ligeiramente a cabeça, e passou sem responder.

Logo que o viu desapparecer no corredor que lhe indicára, Lauretto murmurou colerico:

—Delicadissimo, este neto de fidalgos! Bem, bem! Isto é para juntar ao total!{276}

Antonino parou em frente da segunda porta do corredor, e bateu.

Jacintha foi abrir.

Ao ver o visconde soltou um grito.

Deixou-o entrar para a especie de sala d'espera que antecedia o camarim, para o qual correu, gritando:

—Minha senhora... minha senhora... é o sr. visconde!

Laura, de penteador de cachemira branca, entrançava o cabello diante d'um espelho.

—O que dizes tu?... perguntou ella a Jacintha, voltando-se.

No limiar da porta viu Antonino, pallido, magro, d'olhos fundos, phantasma de si proprio.

Conservaram-se por algum tempo contemplando-se, sem fazerem um só gesto nem pronunciarem uma só palavra. Antonino disse por fim:

—Laura!

Depois caminhou para ella lentamente.

A Linda, indecisa, olhava-o estupefacta.

Ao chegar junto d'ella, disse-lhe em voz baixa e extraordinariamente terna.

—Minha Laura... amo-te!

Ella juntou as mãos, extasiada, e replicou:

—Meu Antonino!... És tu?... Ah! tambem eu te amo!{277}

Lançou-lhe os braços em volta do pescoço, alegremente.

Foi longo o abraço.

Por fim Laura desprendeu-se d'Antonino, e perguntou-lhe:

—Mas porque estás n'este estado?

O visconde respondeu, sorrindo:

—Vou contar-te tudo em duas palavras. Estive, durante mez e meio, entre a vida e a morte, mas mais proximo da morte que da vida. Ia-me matando uma terrivel febre cerebral. Todos me suppozeram perdido. Meu pae, afflictissimo, e de mais a mais illudido por uma abominavel denuncia anonyma, escreveu-te uma carta, que sem duvida te magoou muito. Elle está arrependido do que fez, e pede-te perdão. Eu, logo que estive em estado de partir, vim procurar te. Eis-me aqui.

Quiz tomal-a nos braços.

Ella impediu-o de realisar a intenção.

Fez-o sentar n'um canapé e ajoelhou no tapete, contemplando-o com paixão.

—Estiveste quasi a morrer, meu querido Antonino, e eu estava longe de ti! Porque não me chamaste?

—Estive muito tempo sem consciencia...

—Mas depois?

—Depois ias tu entrar para o theatro. Tinhas reclamado a minha palavra, não quiz privar-te da liberdade{278} promettida Não desejei ser um impedimento, um obstaculo á vontade que tinhas de voltar para o theatro, que é como o teu paiz natal. Álem disso, considerei-me obrigado a expiar algumas culpas, Eras tu que tinhas rasão, Laura, n'aquella funesta noite em que partiste. Que me importava a opinião d'estranhos? Não devia inquietar-me com os prejuizos da sociedade. Existe, porventura, a sociedade para o amor? A sociedade, para nós, somos nós proprios. Ama-me como eu te amo, e nada mais te pedirei. Que me importa que ames tambem Mozart, Beethoven e Meyerbeer? Não os amo eu tambem, principalmente por tua causa?

—Ah! como és bondoso! disse Laura. Sim, amas-me, sinto-o! A proposito: assististe ao espectaculo de hoje?

—Assisti.

—Não te vi, mas adivinhei-te!... Sentiste no meu canto que pensava em ti, não é verdade? Nem por um momento me esqueces quando desempenho o papel de Valentina, cheio de phrases que parecem ter sido escriptas para a situação d'espirito em que me encontro. Aquella musica faz-me mal, especialmente depois que estou só, e comtudo sinto-me feliz quando a canto! E o dueto do quarto acto? Não é verdade que o canto agora melhor do que d'antes?

—Sim, sim, cem vezes melhor!{279}

Laura ajuntou, collocando as mãos sobre os hombros, do marido:

—Foste tu que me ensinaste a cantar aquelle dueto!

Antonino sentiu o coração innundado d'alegria.

A segunda impressão que tivera durante o espectaculo, não o havia enganado.

Era o seu amor, que Laura cantara tão apaixonadamente.

Ella proseguiu:

—A partir d'hoje vou amar sem reserva esse afortunado papel que duas vezes me trouxe a felicidade. Eis-te aqui, meu Antonino, és novamente meu. Estão reunidas as duas partes da minha alma. Eu tinha, por vezes, junto de ti, a nostalgia do theatro; mas, no theatro, tive sempre a nostalgia do teu amor!

Em seguida contaram-se mutuamente tudo o que os interessava.

Laura estava completamente entregue á sua querida arte.

A casa da rua Boudreau era pequena demais para receber os seus amigos d'outr'ora.

Apenas algumas vezes alli ia o dr. Despujolles, que a tratara d'uma bronchite.

Remissy, terminado o contracto que o retinha em Vichy, partira para a Italia, e devia passar o resto do inverno na Hungria.

Por sua parte, Antonino contava não receber ninguem{280} nos seus aposentos do boulevard Haussmann.

Era possivel que o pae viesse vel-o, mas só muito mais tarde.

—Bem, disse Laura satisfeita, sorridente, qual é a vontade do meu senhor e amo? Irei eu para sua casa, ou irá elle para a minha?

—Escuta, replicou Antonino, vou contar-te um sonho que tive durante os longos dias de convalescença. É provavel que aches n'elle o quer que seja de romanesco. Se te desagradar, dil-o com franqueza! Quebraste bruscamente a nossa vida em commum, que talvez fosse um pouco monotona para a tua alma d'artista. Se quizeres, viveremos agora d'outra forma. Recuperaste a tua liberdade; como tenho plena confiança em ti, deixo-t'a. Não serei mais teu marido, passarei a ser teu amante. Queres?

—Quero, sim, quero, porque é a verdade!

—Então nem eu irei para tua casa, nem tu te installarás na minha. Concede-me oito dias d'espera. Durante esse tempo encontrarei e prepararei em qualquer canto de Paris, um ninho, occulto, secreto, apenas por nós conhecido, onde ninguem poderá surprehender-nos ou incommodar-nos. Dar-nos-hemos entrevistas n'esse ninho, furtivamente, clandestinamente, de noite, como quem teme a policia. De dia seremos correctissimos. Eu irei visitar-te de tarde,{281} e tu convidar-me-has algumas vezes para jantar com Despujolles.

—Oh! mas isso é encantador! disse Laura.

—Agrada-te a minha idéa?

—Immenso!

—Bem! Havemos de ser muito felizes, verás. Está combinado. Chama Jacintha. Vou deixar-te, para só te tornar a ver d'aqui a oito dias. Necessito de todos os minutos d'esta semana para tratar da nossa felicidade. O que me fará diminuir o pesar d'esta separação, será lembrar-me que me occupo da minha querida Laura.

—E eu, durante esse tempo, só em ti pensarei!

Antonino levantou-se.

Laura, pegando-lhe nas mãos, disse:

—Troquemos, ao menos, o beijo dos esponsaes.

Beijaram-se longamente, ardentemente.

Depois, trocando um ultimo adeus, separaram-se.

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