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O Romance d'uma cantora

XIII Regresso a França

Salvador de Medonça translation

Dezoito mezes depois, no fim de abril, o conde de Bizeux e Estephania de Bizeux, sua filha, esperavam, no molhe de Saint-Malo, a chegada do vapor de Jersey, em que vinham o visconde e a viscondessa de Bizeux, de regresso da America do Sul, via Liverpool e Southampton.

O conde era um velho extremamente sympathico, de elevada estatura e aspecto veneravel e terno.

A menina de Bizeux contava trinta e seis annos.

Tinha o rosto ossudo, aspecto altivo e severo, e comtudo, do conjuncto das suas feições e de toda a sua pessoa, resaltava o cunho da alta estirpe.{158}

O conde esperava ancioso a chegada do filho que estremecia, e que ia tornar a vêr depois de prolongada ausencia.

Assistira ao casamento do visconde em Inglaterra, e depois viajára durante um mez, com os recém-casados, pela Escocia e pelo paiz de Galles.

A nora conquistara-o sem difficuldade logo nos primeiros dias, pelo finissimo espirito de que era dotada, e pelos cuidados, affectuosos e ternos, de que o rodeava.

Sentia tanta impaciencia de a abraçar, como de abraçar o filho.

A menina de Bizeux esperava a cunhada, que nunca vira, com disposições menos benevolas, e até com uma especie de desconfiança.

O pae occultara-lhe cautellosamente que Laura tinha sido cantora, e que estivera escripturada em diversos theatros.

Se a tivesse prevenido d'essa circumstancia sem duvida a menina de Bizeux abandonaria o lar paterno, refugiando-se n'um convento, para não estar em contacto com uma comediante.

Para não sympathisar com a cunhada bastava-lhe saber que o irmão a desposara por amor, e que, apezar de ser d'alto nascimento, filha d'um conde hespanhol, não tinha outro dote além da belleza.

Estephania soubera, pela que lhe dera o ser, a{159} historia do primeiro amor de seu pae, historia em tudo semelhante á de Antonino, á excepção de que no primeiro caso a moral social e religiosa e o direito augusto da familia tinham triumphado, emquanto que, no caso d'Antonino, fôra o amor, o amor profano, que vencera.

Parecia a Estephania que o irmão, esposando a mulher que amava, insultara a memoria de sua mãe.

O vapor de Jersey não tardou a chegar.

Logo que desembarcou, Antonino abraçou o pae com effusão, e seguidamente deu um abraço na irmã.

O conde, depois d'abraçar o filho, abraçou a nora, com alegria, e apresentou as duas senhoras uma á outra.

Laura, prevenida pelo marido, tinha resolvido tratar a cunhada por fórma identica áquella por que fosse tratada.

Estephania não a abraçou, limitando-se a estender-lhe a mão, dizendo:

—Senhora viscondessa!...

—Minha senhora...

As relações futuras ficaram assim fixadas, graves e dignas.

Ficou um creado para fazer conduzir as bagagens, e os quatro metteram-se n'uma carruagem que os levou a casa, ou antes, que os levou a suas casas.{160}

O visconde tinha casa sua, junto á do pae, que lhe legara um tio, fallecido, viuvo e sem filhos, dez annos antes.

As duas casas, juntas e separadas a um tempo, tinham portas de communicação em todos os andares.

Eram dois velhos palacetes patrimoniaes, de construcção antiga.

O primeiro pavimento habitavel era no terceiro andar, porque os antigos navegadores e corsarios de Saint-Malo desejavam poder deitar sempre a cabeça por cima das muralhas da cidade, afim de não deixarem de gozar a vista do mar.

Os Bizeux descendiam de velhos bretões, marinheiros de raça.

Da sua familia sahiram, nos reinados de Luiz XIV e de Luiz XV, dois almirantes francezes.

O pae e o filho tinham combinado, em cartas, que passariam uma vida simultaneamente separada e commum.

Viveria cada um em sua casa, mas tomariam as refeições juntos.

De resto, como chegara a primavera, demorar-se-hiam em Saint-Malo apenas uma ou duas semanas, o tempo indispensavel para apresentar a viscondessa ás pessoas mais intimas.

Depois partiriam para o castello da familia, situado proximo a Saint-Pol-de-Léon.{161}

Deviam tomar todas as cautellas possiveis para que a Linda não podesse ser reconhecida na viscondessa de Bizeux.

Depois de viverem por algum tempo juntos, o conde, que no fundo temia a filha, suppunha que, habituada á cunhada, attrahida pela meiguice e encanto de Laura, Estephania revoltar-se-hia com menor violencia, na hypothese d'uma revelação sempre possivel.

Laura installou-se, pois, em sua casa, e, como uma verdadeira artista que se accommoda a tudo que não seja burguez e vulgar, sentiu-se immediatamente á vontade no velho palacete, cujas rasgadas janellas e mobilia á Luiz XVI tinham a dupla vantagem de ser commodas, elegantes e hygienicas. A vida, no castello, seria mais desafogada ainda, apesar de dever ser, no fundo, um pouco monotona.

Laura, porém, não dava por essa monotonia.

Para isso era necessario que ella, habituada ás emoções do trabalho, da acção, do combate, achasse muita novidade e muita variedade em volta de si.

O primeiro anno do seu casamento foi para ella um verdadeiro encanto.

A lua de mel durára doze luas, sem uma nuvem no céu d'anil.

Gosou, sem a mais leve interrupção, o prazer d'amar e ser amada, que é o melhor da vida.{162}

Percorreram os admiraveis paizes da America do Sul, o Perú, o Brazil, visitaram as suas melhores cidades, atravessaram as mais esplendidas paisagens, aventurando-se até ás florestas virgens.

Mas o que acima de tudo os absorvia era as suas proprias pessoas.

Aquella magnifica natureza não era mais do que uma moldura apropriada para servir no quadro do seu amor.

Ao cabo d'um anno, porém, começaram a achar, sem o dizer, nem mesmo dar por isso talvez, que um homem e uma mulher, vivendo sós, vivem em solidão.

O quer que fosse parecido com o aborrecimento começou a avoejar sobre aquelle perpetuo colloquio.

Durante tres mezes soffreram aquella sensação intermitentemente.

Depois confessaram um ao outro que as viagens, a continua e fatigante mudança de logar, os dias passados em carruagem de caminho de ferro ou nos hoteis, tudo isso, por fim, cança o espirito e o corpo.

Passou-se anno e meio, e o mais fagueiro sonho de Laura, ter um filho do homem que adorava, fugia, fugia sempre diante d'ella, como um phantasma.

—Acautella-te! dizia-lhe Antonino. Um filho pode-te fazer perder a voz.{163}

—Ah! se tivesse um filho, respondia Laura, jámais teria saudades!...

E teria ella saudades, effectivamente?

O marido começára por se apaixonar pela voz, e continuava-a amando por isso, sem prejuizo d'outros predicados.

Todos os dias cantava para satisfazer os desejos d'Antonino, que, excellente musico, a acompanhava ao piano, extasiando-se como d'antes, e mais do que d'antes até, ante aquelle delicioso e divino canto.

Mas se continuava a ser a mesma cantora, Laura deixára de ter o mesmo publico.

Foi essa a razão porque, depois de dezoito mezes d'ausencia, elles annuiram em que o paiz natal, o socego do lar, a vida de familia, tinham tambem o seu encanto.

E como estavam d'accordo, regressaram a França.{164}

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