← Table of contents
O Romance d'uma cantora

X O supplicio do silencio

Salvador de Medonça translation

O tenor fallava com Jacintha, a creada de quarto.

Devemos declarar aqui que Lauretto pertencia ao numero d'aquelles a quem a expansiva Jacintha chamava bonitos.

—Deixa-me, rapariga! dizia, ou antes, gritava o tenor. Um companheiro nunca incommoda!

E entrou de subito na sala onde estavam Laura e Antonino.

A Linda empallideceu.

O visconde levantou-se, cerrando os labios, enraivecido.

Lauretto fingiu não ter visto Antonino ajoelhado.

Foi direito a Laura, e pegou-lhe na mão, que ella não lhe estendera.

—Bom dia, minha querida, disse elle. Senhor visconde, tenho a honra de o cumprimentar... Esta Jacintha{104} a não me querer deixar entrar!... Nós só a estranhos não permittimos a entrada nos nossos camarins, mas, que diabo! nas nossas casas os collegas teem sempre entrada franca!

Laura, interdicta, não achou uma só palavra que responder.

Elle não se incommodou por não obter resposta, e continuou:

—Com que então cantamos ámanhã juntos, na soirée de Pozzoli, o dueto da Lucia! É por essa razão que venho a tua casa. Se queres, vamos ensaiar-nos, minha querida.

Antonino estava irritadissimo.

Aquelle homem atrevia-se a tratar Laura por tu!

Chamava-lhe minha querida, como se estivesse fallando com a creada de quarto!

Deu um passo para Laura, interrogando-a com o olhar ancioso.

Ella de certo ia zangar-se, mandaria pôr fóra o atrevido... ou, pelo menos, com uma só palavra, permittiria que elle, Antonino, interviesse, dando uma lição ao insolente.

Laura, gelada de pavor, percebia tudo o que se passava no espirito do visconde.

Mas deveria ella provocar um conflicto entre aquelles dois homens?

Do conflicto resultaria um duello talvez...{105}

Aquelle miseravel mataria Antonino.

Por isso, com um sorriso forçado, balbuciou apenas:

—Ensaiar o dueto?... Não, é inutil... Agradeço-lhe ter-se incommodado...

—Como queiras, cara mia, replicou o tenor.

E sem ceremonia pegou n'uma cadeira e sentou-se perto de Laura.

Percebia perfeitamente o effeito que estava produzindo, e no intimo alegrava-se com ferocidade.

Via no rosto de Laura pintada a consternação e a angustia, e nas feições do visconde a indignação e o furor.

Lauretto, ao contrario, estava cada vez mais tranquillo.

De resto, que podiam elles fazer ou dizer?

Por mais indignados que estivessem intimamente, estavam condemnados ao silencio.

Se ella se irritasse pelo procedimento indelicado do tenor, se por uma palavra ou por um gesto deixasse perceber que se considerava offendida, o visconde tinha o direito e o dever de intervir.

E o que se seguiria?

Uma altercação, de que resultaria um desafio, com todas as suas perigosas consequencias.

Se Antonino, retrahindo-se Laura, se mostrasse mais susceptivel que ella e levantasse qualquer termo{106} insolente de Lauretto, faltaria ás mais rudimentares praxes da boa educação, comprometteria a cantora, porque se daria ares de mandar mais que a dona da casa.

O tenor, divertindo-se com a situação embaraçosa do visconde e da cantora, continuou fallando a Laura com toda a liberdade.

E, para completa impertinencia, fallou-lhe na sua lingua patria.

Antonino sabia o italiano quasi tão bem como o francez, mas podia desconhecel-o, e n'esse caso era excluido da conversação.

—Não necessitas ensaiar o dueto, cara? Eu, desde que o cante comtigo, estou certo de que hei de cantal-o magnificamente. Não o canto com tanta correcção com qualquer outra. Como sabes, quando se sente o que se canta, a emoção communica-se. Decididamente obteremos um verdadeiro successo! Ah! cara mia, que alegria sinto por cantar de novo a teu lado! O meu pobre talento é como duplicado pelo teu. Pozzoli disse-me que a escriptura já estava assignada. É verdade? Duvido sempre das affirmações d'aquelle demonio.

—É verdade, respondeu Laura em francez.

O tenor, é claro, fingiu não comprehender a indirecta advertencia, e continuou na sua lingua:

—Ah! Pozzoli d'esta vez não mentiu?!.... Bravo!{107} bravissimo! Se elle necessitar de metade dos meus ordenados para augmentar os teus, da melhor vontade os cedo. Vamos ámanhã dar aos parisienses o ante-gosto do nosso successo futuro. Estou satisfeitissimo por teres annuido a ir á soirée do nosso emprezario. Verdade seja que não podias proceder d'outra fórma.

—Effectivamente era difficil recusar.

—Era até impossivel. Entretanto dizia commigo: a casta diva não acceita. Em S. Germano, em pleno campo, o Pozzoli, que nós conhecemos, evaporava-se um pouco; mas em casa d'elle não pode deixar de ser o que na realidade é. Ah! Ah! em Paris augmentou até os conhecidos desregramentos, aquelle maroto! De resto, eu, como sou homem, pouco me importo com isso. Mas digo mal: é justamente por ser homem que mais sinto as loucuras de Pozzoli. Como está todos os dias a mudar de sultanas,—aquelle sultão!—o pobre tenor é forçado a ser, successivamente, agradavel a cada uma das favoritas. Não me falta que fazer. A que reina agora é a Elvira gorda. Conheces?

—Não, respondeu Laura com firmeza.

—Agora me recordo que ella não foi a S. Germano. Não gosta d'apparecer de dia. Mas socega, que elle ámanhã não deixa de apresentar-t'a. Tem uma prenda bôa, a Elvira; não é cantora, e por isso não{108} me incommoda com pedidos para que cante com ella. É bailarina; dirige o corpo de baile do theatro Italiano, composto de doze sylphides que ámanhã dansarão na soirée um bailado a caracter. Não te assustes, casta diva, porque em publico apparecerão pouco apimentadas. Haverá outros divertimentos; jogar-se-ha tambem. Tu continuas sendo jogadora, não é verdade? Na questão do jogo estou convencido, caso extraordinario, que calumniam Pozzoli. Dir-me-has que eu jogo sempre a favor d'elle, mas isso explica-se: Pozzoli tem sorte como poucos. E sabes porque? Fiz esta descoberta, apesar de não lhe faltarem sultanas, como te disse: Pozzoli é infeliz nos amores. Ámanhã não foges á tentação: depois de cantarmos decerto jogarás algumas mãos de baccara.

—Não sei, respondeu Laura impaciente.

Lauretto continuou, mas d'esta vez em francez:

—E o sr. visconde gosta de jogar? Se assim não fôr divertir-se-ha por outra fórma, porque as distracções não faltarão. Em casa de Pozzoli ha uma sala d'armas. Fui eu que a installei, aconselhando-o a que jogasse um pouco o sabre, todos os dias, para não engordar demasiadamente. Não é por ser meu discipulo, mas Pozzoli é já adversario para se temer um pouco. Um dos numeros do programma da festa é um assalto. Sou apaixonadissimo pela esgrima. Tenho um grande horror pelos duellos, porque já matei{109} dois adversarios, mas sinto-me satisfeitissimo quando n'uma sala d'armas empunho um sabre ou um florete. Tambem não admira: foi esse por muito tempo o meu ganha pão; e não me envergonho de o confessar, pelo contrario, orgulho-me. Hoje, para mim, a esgrima é apenas um simples passatempo, em que tanto se distrahem os artistas como os fidalgos, não é verdade, sr. visconde?

Antonino era d'esta vez directamente interpellado por Lauretto Mina.

Brilharam-lhe os olhos, e abriu a bocca para responder. Laura estremeceu.

Socegou, porém, porque no mesmo instante Jacintha abriu a porta da sala, e annunciou:

—O sr. dr. Despujolles.

O medico cumprimentou Laura e o visconde.

Lauretto Mina poucas relações tinha com o dr., e não se arriscou a ser muito familiar com elle.

Disse apenas:

—Tenho a honra de cumprimentar o nosso excellente dr. Despujolles. Infelizmente sou obrigado a partir no proprio momento em que elle chega. Declaro, porém, que não é com medo de que me faça febre, como se diz no Barbeiro. Pozzoli espera-me ás tres horas, por causa dos ultimos preparativos para a soirée. Até ámanhã, minha cara Linda, Sr. visconde... um seu humilde creado...{110}

Rodou sobre os tacões, fez com a mão um gesto amigavel ao dr., e sahiu.

—Aborrecida creatura! disse Despujolles. Nunca pude supportal-o!

Laura e Antonino não responderam.

Elle olhou-os admirado.

—Mas o que teem? Parece que viram a cabeça de Medusa!

—Meu caro dr., disse Laura, foi essa aborrecida creatura, como lhe chamou, que, na presença do sr. visconde de Bizeux, em minha casa, se atreveu a tratar-me como apenas nos tratamos no theatro. O sr. de Bizeux desconhece, sem duvida, os usos e costumes, originalmente singulares, do nosso mundo theatral. Os artistas tratam-se por tu entre si desde o primeiro dia que se conhecem. O que não procede d'essa fórma é immediatamente considerado mau companheiro. Isto não impede que os homens bem educados,—e no theatro tambem os ha, e muitos,—quando encontram na sociedade uma mulher que é sua collega, se cohibam de lhe fallar como se falla a uma senhora, sobretudo diante d'estranhos. Mas ninguem ignora que Lauretto Mina não é um homem bem educado. Entretanto o sr. visconde, que desconhecia o costume, estranhou a linguagem um pouco licenciosa do insolente que acaba de sahir d'aqui. Emquanto fallou, Laura nem por um instante desfitou{111} Antonino, cujas feições indicavam um profundo desgosto.

Despujolles percebeu que chegára n'um momento de crise aguda, e tratou de intervir como calmante, dizendo:

—O nosso amigo, quasi recemchegado a Paris e desconhecedor, por completo, dos habitos do nosso mundo de bastidores, não pode adivinhar o que eu sei, que vivo ha vinte annos entre artistas. Não admira, pois, que se surprehendesse e desgostasse pelo intimo tratamento de tu, que, comtudo, garanto-o, é universal entre os artistas.

—Esse tratamento admirou-me ao principio, confesso, respondeu Antonino com voz lenta; mas o que mais me surprehendeu não foi a fórma da linguagem foi a propria linguagem.

—Oh! isso é uma especialidade de Lauretto Mina! replicou Laura com vivacidade. E entretanto fiquei tão surprehendida como o meu amigo.

—Então porque não lhe fez comprehender isso mesmo? Eu esperava um olhar, um movimento, um simples signal que chamasse esse insolente á ordem.

Uma mulher nunca pode dizer a um homem que sentiu medo por elle. Portanto Laura limitou-se a responder:

—Não quiz dar importancia ás inconveniencias{112} d'esse homem, para que elle julgasse que nem reparava n'ellas.

—O Lauretto Mina é com effeito bastante conhecido e tem bem inferior cotação para que se dê importancia ao que diz.

Laura continuava olhando para Antonino, que se calou.

—Peço perdão, meu caro dr., disse a cantora, mas o caso d'esta vez tinha uma importancia enorme...

E, voltando-se para o visconde, accrescentou: O que acaba de se passar, confirma, sr. de Bizeux, o que eu estava para lhe dizer: agradeço-lhe muito o generoso pensamento que teve, mas não posso acceitar o que me propoz. Como vê, a sua intenção é completamente irrealisavel.

Despujolles, comprehendendo que estava alli de mais, levantou-se, dizendo a Laura:

—Deixo-a. Subi apenas para lhe dizer: até ámanhã, na soirée de Pozzoli.

Antonino estava n'um d'esses momentos em que se necessita estar só, ou antes, soffrer sem testemunhas.

Fez parar Despujolles com um gesto.

—Sou eu que me retiro, meu caro doutor. Demorei-me aqui mais do que desejava. Tenho de resolver em casa um negocio urgente.{113}

Apertou a mão a Laura, que apenas lhe disse:

—Espero que cumpra a palavra dada. Irá á soirée, a que eu não posso deixar d'assistir, não é verdade? Arrependeu-se de lhe ter recordado a promessa feita, porque Antonino, depois d'um instante de hesitação, e como occorrendo-lhe uma idéa subita, respondeu precipitadamente:

—Sim, irei á soirée de Pozzoli. É indispensavel que eu me embrenhe por completo nos habitos dos artistas!

Despediu-se de Despujolles e saiu, sentindo inexplicavel oppressão no coração.{114} {115}

Explore with AITake your curiosity a little further.

Reading settings