XIX O escandalo
Salvador de Medonça translation
Antonino, ainda que excessivamente fatigado, teve, n'essa noite, um somno febril, cortado de sonhos sinistros.
Laura não poude conciliar o somno, tão profunda sensação lhe tinham causado as scenas d'aquelle dia.
De manhã teve nova emoção.
Ao ler o programma completo do concerto, encontrou inesperadamente, o nome de Remissy.
O que significava aquelle caso?
Porque não a tinham prevenido?
Estaria Remissy em Saint-Malo?
Na vespera não o vira e nada lhe constára!{225}
Uma carta de Lauretto Mina respondeu a todas as perguntas que a viscondessa a si propria fez.
O tenor dizia o seguinte:
Senhora viscondessa
Não tive tempo de a prevenir hontem de que o nosso amigo Remissy tomava parte no concerto d'hoje. Não sei se ficará satisfeita ou contrariada com esta noticia. Se ha falta, confesso-me unicamente culpado d'ella. Fui eu quem, satisfeitissimo por encontral-a, participei o caso a Remissy, contratado em Vichy por uma quinzena, accrescentando se, elle tambem não queria vir commigo a Saint-Malo, tornar a vel-a commigo, e juntar, mais uma vez, n'este concerto de beneficencia, o nome d'elle, como o meu, ao nome da sr.ª viscondessa.
Remissy respondeu-me:
«Ver e ouvir mais uma vez a Linda, poi morir. Sim, sim, irei, mas não espere por mim para partir. Conhece a rapidez dos meus habitos ambulantes. Informei-me na estação do caminho de ferro, e soube que ha um comboio que chega a Saint-Malo ás sete e meia da noite. Ver-me-ha entrar na sala do concerto, de casaca e gravata branca, ás nove horas precisas da noite em que elle se efectua. Á cautella, peço-lhe que faça com que o meu nome feche o programma.{226} A Marselheza está interdiria pela censura imperial, e inquietaria os honrados legitimistas locaes. Executarei, pois, a Marselheza hungara, o hymno de Rakoçki.»
Previno-a d'este caso, sr.ª viscondessa, mas peço-lhe que não se inquiete. Hontem, depois de ter tido a honra de a ver, não pude escrever ou telegraphar a Remissy, nem mesmo sabia para onde dirigir-lhe carta ou telegramma. Esperal-o-hei á chegada e instruil-o-hei de fórma que elle saiba que é compromettedora para a sr.ª viscondessa a mais ligeira indiscrição. Remissy é, como eu, excessivamente dedicado á sr.ª viscondessa, e por isso estou certo que elle annuirá ao meu pedido, e procederá de fórma que não a comprometta.
Tenho a honra de me assignar, sr.ª viscondessa,
Seu humilde criado.
«Lauretto Mina.»
Esta carta fôra escripta pelo tenor calculadamente, para que podesse ser lida pelo visconde.
Laura mostrou-a effectivamente a Antonino.
A leitura da missiva augmentou a inquietação do visconde.
—Um risco mais! disse elle.
E depois de pensar, por instantes, accrescentou:{227}
—Afinal a quantidade pouco importa.
Quem não estava inquieto nem triste era o conde de Bizeux.
Annunciou triumphantemente, ao almoço, que o espectaculo seria magnifico.
A casa fôra completamente passada.
Renderia mais de cincoenta mil francos.
Subtrahidas as despezas ficaria, com certeza, livre, mais do que a quantia necessaria para concluir o hospicio para os marinheiros.
O conde agradeceu effusivamente a Laura o ter consentido em cantar, fazendo-lhe assim a vontade.
Estephania, é claro, não partilhava do enthusiasmo do pae.
—Confesso, opinara ella, que não approvo essas exhibições n'uma senhora nobre e titular, isso só se admitte nas mulheres que fazem vida pelo theatro.
O conde, porém, no cumulo da satisfação, mofava da filha e dos prejuizos gothicos que ella tinha.
Ao meio dia Laura ensaiou-se com a orchestra, rapidamente, como quem está segura do que executa.
Na vespera fizera substituir no programma a aria O Rei dos Alamos por um outro trecho de Schubert, Margarida, que exigia mais sentimento, mas que necessitava de menos voz, e que por isso era mais conveniente que a dama d'alta sociedade o executasse.{228}
Era indispensavel não desprezar a mais insignificante circumstancia para que, nem por um momento, os espectadores se esquecessem que quem cantava era a viscondessa de Bizeux.
Pelas oito horas da noite, nas socegadas ruas de Saint-Malo havia um desusado rodar de carruagens.
Apesar da noite ser de luar, o caes fôra illuminado a gaz até á porta do Casino, onde devia realisar-se o espectaculo, logo que anoitecera.
Um pouco antes das nove horas, Laura entrou no salão do Casino pelo braço do conde de Bizeux.
A entrada da viscondessa produziu sensação.
Estava adoravelmente formosa.
Um magnifico colar de saphyras e diamantes fazia-lhe sobresahir a rosada epiderme do collo.
Nos braços, d'uma belleza esculptural, trazia pulseiras semelhantes ao collar.
O louro veneziano dos seus sedosos cabellos sustentava uma borboleta, collocada ao alto, cujo corpo era formado por uma enorme saphira, e cujas azas, salpicadas de diamantes, scintillavam com extraordinario brilho.
Laços de finissima renda, fixos por colchetes de saphyra, alteavam-lhe os microscopicos sapatos de velludo azul.
O visconde de Bizeux seguia o pae e a esposa,{229} dando o braço á irmã, que vestia uma toilette simples, de seda preta, sem enfeites.
Logo que o conde de Bizeux se sentou, foram-lhe entregar um telegramma.
Participavam ao conde que o comboio descarrillára a dois kilometros da estação de La Fresnays.
Não havia desastres pessoaes a lamentar, mas o comboio, forçado a demorar-se por aquella circumstancia, não poderia a chegar a Saint-Malo antes da meia-noite.
Não podiam, pois, contar com Remissy.
A noticia alegrou Antonino e Laura.
O salão do Casino estava repleto, brilhante de toilettes primorosas e caras, e animado pelas meias conversações dos espectadores satisfeitos.
Logo que o concerto começou, fez-se o mais completo silencio.
O espectaculo constava de duas partes.
A primeira abriu pelos córos populares bretões, cantados por homens e mulheres do povo.
Os espectadores, bretões na quasi totalidade, applaudiram com enthusiasmo.
A baroneza de Pontual e Lauretto Mina, obtiveram successo na Ave Maria de Gounod, e n'um outro trecho que cantaram juntos.
Depois do terceiro numero do programma, executado pelo baritono, Laura cantou a aria Fidelio.{230}
O desusado sentimento e a adoravel simplicidade com que ella interpretou o trecho musical, produziu em todos os espectadores um enthusiasmo indiscriptivel.
O concerto foi interrompido pelas palmas, bravos e repetidas chamadas á viscondessa.
A esposa dedicada executára a aria, imprimindo-lhe o cunho superior d'uma alma d'elite.
Por isso os espectadores se sentiram como que chocados por invisivel pilha.
Antonino, que comprehendera quanto amor significava a execução da aria, a custo retinha as lagrimas.
Nobillet terminou a primeira parte do concerto, tocando uma rapsodia sobre motivos da Bretanha e da Vandêa, que foi coroada de palmas.
O penultimo numero da segunda parte, tão interessante como a primeira, era a marcha hungara executada pelo violinista Remissy.
Quando se chegou a essa altura do programma, o conde de Bizeux levantou-se para prevenir os espectadores de que se dera o descarrillamento, e que, por isso, Remissy não estava presente.
O conde começou dizendo:
—Um descarrillamento entre as estações de...
Mas foi interrompido pelo proprio Remissy em pessoa, que, de violino debaixo do braço, avançou lentamente, e disse:{231}
—O comboio descarrillou, mas por felicidade não se voltou a carruagem em que segui desde a estação de La Fresnays, e portanto eis-me aqui, á hora marcada, ao seu dispor, minhas senhoras e meus senhores.
As palavras de Remissy foram recebidas com uma salva de palmas.
Duas ou tres pessoas que chegavam com o violinista, contaram o que se passára.
Em seguida ao descarrillamento, Remissy, com o violino a tiracollo e o sacco de viagem na mão, mettera-se a caminho para La Fresnays, tranquillamente.
Chegado que foi, alugou uma carruagem, e uma hora depois chegava a Saint-Malo, e entrava no salão do concerto, correcto, impeccavel, de casaca e gravata branca, como se não chegasse d'uma viagem de trezentas leguas.
Logo que o silencio se restabeleceu no salão, Remissy começou a tocar o hymno de Rakoçki.
Como sempre, foi extraordinario d'execução.
As primeiras notas foram ligeiras, simples, mas o thema do hymno foi exposto com firmeza e arte.
Depois, foi-se animando pouco a pouco, levado por subito arrebatamento, como se se sentisse no campo da batalha, ao lado do general Kossuth.
Dir-se-ia que d'elle se apossava um enthusiasmo frenetico, tyrannico.{232}
Em seguida o arco tocava ao de leve nas cordas do violino, e percebia-se o hymno como que tocado ao longe, mysteriosamente.
Era a isso que elle chamava tocar nas estrellas.
Mas, singular condão do genio, as notas, apesar de fracas e quasi indistinctas, tinham a mesma expressão e o mesmo encanto.
Parecia ouvir-se e ver-se, a centenas de leguas de distancia, cargas furiosas de cavallaria, e o embate titanico de dois corpos d'exercito.
Remissy, foi escutado com o mais profundo silencio.
Quando terminou, romperam delirantemente os applausos, e todos os espectadores gritaram:
—Bis!... bis!...
Remissy, depois de agradecer a ovação, disse:
—Desculpem-me, mas não repito nunca os trechos que executo. Tocarei qualquer outra coisa. D'esta vez será alegre a musica.
E começou a executar as celebres variações, que compozera sobre o Carnaval de Veneza.
Foi com endiabrado estro e rara exuberancia de malicia e de jovialidade, que Remissy resuscitou a eterna e pittoresca festa da praça de S. Marcos.
Sentia-se mover e reviver todos esses alegres e encantadores personagens dos companheiros da Commedia dell'arte.{233}
Por vezes, atravez de toda a alegria, resaltando do trecho musical, passava uma nota melancholica e triste como uma saudade ou como um suspiro.
As palmas retiniram novamente.
Laura applaudiu com alegria o grande artista, que fôra amigo de seu pae.
Remissy, habituado a estes triumphos, sorria com bondade e agradecia modestamente.
O ultimo numero do programma, era a Margarida, de Schubert, cantado pela viscondessa de Bizeux.
Laura, ao caminhar para o logar onde devia fazer-se ouvir, encontrou Remissy, que se retirava.
O violinista, ao vel-a, disse-lhe com arrebatamento:
—Ah! encontro-a emfim! não a via...
A viscondessa não o deixou terminar.
Apertou-lhe expressivamente a mão, e continuou andando.
Remissy procurou na sala uma cadeira vazia, d'onde podesse ouvir a Linda.
A baroneza de Pontual, que percebeu, levantou-se e indicou-lhe com a mão a cadeira que Laura acabava de deixar.
O violinista approximou-se.
A baroneza disse-lhe então:
—Quererá o sr. Remissy fazer-me a honra de se sentar a meu lado?{234}
Elle inclinou-se diante d'aquella mulher, e sentou-se sem ceremonia, não se dando mesmo ao trabalho de responder.
Lauretto Mina não estava longe.
Podia facilmente approximar-se de Remissy e avisal-o, como promettera, de que a Linda desejava guardar o incognito.
Não se moveu, porém.
—O acaso é contra a Linda? Tanto peor! pensou o tenor. Nada terão a censurar-me por faltar ao compromisso tomado.
A viscondessa de Bizeux, saudada pelos applausos dos espectadores, cumprimentou graciosamente antes de começar.
Remissy, como fallando comsigo mesmo, disse a meia voz, com grande espanto da baroneza:
—Que felicidade! Não a ouvia ha tanto tempo!
Laura pronunciou as primeiras phrases da aria com admiravel pureza e nitida pronuncia, tão desprezadas actualmente, que é raro perceber-se uma só das palavras ditas pelas cantoras.
—Ah! Tem a voz mais volumosa! murmurou Remissy em extasi. Nunca qualquer outra voz me emocionou como a da Linda!
Laura chegou ao crescendo de melodia, para o qual reservava toda a potencia da sua maravilhosa{235} voz, enchendo, por assim dizer, o salão com a mais bella e profunda sonoridade.
Tres salvas de palmas, successivas, acclamaram a cantora.
Os bravos resoavam.
Remissy, enthusiasmado com o successo de Laura, gritava como possesso!
—Bravo, diva!... bravo, Linda!...
Felizmente, a voz do violinista perdeu-se entre o ruido do salão.
Mas a baroneza ouvira perfeitamente o que dissera Remissy.
Augmentava a sua surpreza.
—Que quererá elle dizer? perguntou ella a si propria. Porque comparará a voz da celebre Linda á voz da viscondessa?
Laura proseguia.
Os impulsos da paixão, e os gritos de dôr do final da aria, exprimiu-os e pronunciou-os ella de uma fórma surprehendente.
A sua voz foi simultaneamente tão penetrante e suave, o som tão sentido, a emoção que experimentava manifestava-se-lhe no rosto formoso com tão adoravel expressão, que o auditorio estava como que galvanisado.
Os homens tinham-se levantado das cadeiras como impellidos por mola occulta.{236}
As damas choravam.
Logo que Laura terminou, houve uma verdadeira explosão d'applausos, de bravos, de gritos d'admiração unanime.
Remissy estava fóra de si.
Levantava-se, sentava-se, gritava, chorava.
A baroneza a custo lhe percebia algumas palavras.
—Que artista!... dizia elle. Não tem egual!... É extraordinarissima!...
Quando o ruido dos applausos diminuiu um pouco, Remissy estava como doido.
Dir-se-ia que elle proprio não fôra alvo, pouco antes, de manifestação quasi semelhante.
É que os applausos dispensados ao seu idolo produziam n'elle centuplicado effeito.
Com o rosto innundado de lagrimas, dirigiu-se ao estrado sobre o qual Laura cantára.
A viscondessa retirava-se, agradecendo com venias a ovação que lhe era feita.
Remissy approximou-se d'ella, tomou-lhe as mãos e disse bem alto:
—Ah! minha cara diva, tu és sublime!... Não posso conter-me, minha querida Linda!... Se não te beijar, rebento!
E envolvendo-a nos braços, beijou-a com sofreguidão nas duas faces.{237}
Laura, deixando-se beijar, sorriu com tristeza, e disse baixo ao violinista:
—Não póde calcular o mal que acaba de me fazer, meu caro Remissy!
—Hein! o quê!... Fiz-te mal, eu?... murmurou o violinista estupefacto.
E lançou em volta um olhar admirado.
Era curiosa a mudança operada no auditorio.
Os bravos interrompidos foram substituidos por murmurios hostis.
Evidentemente, os dois grandes artistas, que pouco antes tinham com o seu superior talento emocionado todos os espectadores, incommodavam-os agora.
Aquella scena final, completamente imprevista, chocava o nobre auditorio.
E com gestos largos, todos, mais ou menos, pronunciavam phrases indignadas.
—O que quer isto dizer? O que significa esta extraordinaria familiaridade entre o violinista e a viscondessa?... Elle tratou-a por tu!.. Beijou-a em publico!... Shocking!... É escandaloso!... É ridiculo!...
Por entre o ruido ouviu-se repentinamente a voz da baroneza de Pontual, que gritava, com irreprimivel satisfação:
—A Linda! É a Linda! Tudo se explica! A viscondessa de Bizeux é a Linda!{238}
Ao ouvir aquellas palavras o arcebispo de Rennes sahiu precipitadamente do salão, pelo braço do vigario geral, murmurando a meia voz:
—Vade retro, Satanaz!
Estephania, inclinando-se para o conde, disse-lhe ironicamente:
—O que pensa agora dos meus prejuizos gothicos, meu pae?
Entretanto alguns jornalistas e poucos espectadores applaudiam ainda Laura.
O violinista, comprehendendo, vendo tudo, como ao brilho d'um relampago, indignou-se por sua vez, e gritou, para ser ouvido por todos:
—Mas o que significa este espanto? Os nobres, n'esta cidade, serão por acaso burguezes?... Trato-a por tu, é verdade... Mas o que admira, se a Linda é o meu idolo!... Beijo-a?... D'accordo, mas é a Margarida que beijo, selvagens!... Por ventura ignorarão os srs. barões, condes e marquezes presentes que a verdadeira divisa da nobreza é Honny soit qui mal y pense?
Antonino approximára-se de sua mulher.
Deitou-lhe sobre os hombros a capa de baile, e dando-lhe o braço disse-lhe:
—Anda, Laura, vem.
Atravessou altivamente o salão, com a mulher pelo braço.{239}
Empallidecera um pouco, mas conservava levantada a cabeça, e frio e sereno o olhar.
Os espectadores abriram alas.
Á medida que avançavam, deixavam de se ouvir as phrases hostis.
Quasi á sahida do salão os applausos resoaram de novo, tão entusiasticos como no fim da aria.
Remissy foi ter com Lauretto Mina, a quem disse:
—Não me preveniu!... Dando a saber que a viscondessa era a nossa querida Linda, pratiquei uma grande tolice!
Mas depois d'um momento de silencio ajuntou:
—Comtudo parece-me que depois reparei a asneira feita.
O tenor respondeu apenas, sarcasticamente:
—Parece-lhe?