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O Romance d'uma cantora

XI Ouro, lama e sangue

Salvador de Medonça translation

A casa de Pozzoli era concorridissima no tempo do ultimo imperio.

N'essa epoca, em que apenas se pensava em gozar e em que não se escrupulisavam os meios a empregar para attingir qualquer prazer, as salas do director do Theatro Italiano passavam, com justiça, por ser d'aquellas em que melhor se perdia uma noite.

Os homens que frequentavam a casa de Pozzoli pertenciam á melhor sociedade parisiense.

As mulheres faziam parte de todas as multiplices camadas sociaes.

Encontravam-se alli artistas de primeira ordem,{116} como a Linda, e outras que por artistas queriam passar, mas que, d'ordinario, não tinham direito a esse qualificativo, e que só se tornavam notadas pela belleza ou pelo espirito, mais ou menos original, mais ou menos livre.

O palacio em que Pozzoli habitava, era vasto e perfeitamente bem dividido para recepções e festas de qualquer natureza.

Pozzoli decorára e mobilára a casa com sumptuosidade, a que faltava um certo gosto, mas visando a determinado effeito, que muitas vezes attingia.

A arte de tapeceria moderna resplandecia em todas as salas.

Entrava-se no rez do chão, subindo seis degráus, que terminavam em largo patamar, protegido por elegante cobertura.

O vestibulo era coberto de bocados de marmore, alternadamente branco e vermelho, em losango.

A escadaria, coberta de valioso tapete de Smyrna, era de marmore branco, e de marmore vermelho o corrimão.

Uma palmeira do Senegal envolvia o tronco na quasi perfeita espiral das folhas largas e flexiveis.

As paredes, terminando em velhos Aubussons, eram enfeitadas por placas de prata, de muitos braços, sustentando globos baços, que espalhavam uma claridade discreta.{117}

O grande salão Luiz XVI, branco e ouro, era illuminado por um lustre enorme, e ornado de oito espelhos.

N'esse salão entrava-se por uma porta que se abria á direita do vestibulo.

No fogão de marmore de Carrara, entre dois Renommées ladeando um espelho elliptico, e encimado por um frontão em arco, elevava-se, n'um pedestal simples, o busto de Rossini.

Ao fundo, o piano d'Erard, um magnifico piano de cauda, ornado d'assumptos extrahidos a Watteau, a Lancret e Fragonard.

A sala de jantar ficava em frente do salão, á esquerda do vestibulo.

A sala de jogo, a sala de fumar, a bibliotheca, e a sala d'armas, eram no primeiro andar.

A primeira impressão que se experimentava ao entrar n'aquelles salões de velludo, seda e oiro, era a de falta d'ar.

Parecia que não se poderia respirar á vontade.

Sentia-se que se estava num meio artificial, falso.

Ao reparar-se para as ondas de luz que cahiam dos lustres e dos candieiros, perguntava-se se a luz do dia, a verdadeira luz, poderia penetrar alli.

As tapecerias e os estofos espessos dos reposteiros e dos cortinados, estavam como que impregnados{118} d'um perfume capitoso, que tornava pesada a cabeça, embaciados os olhos, oppresso o peito.

Ás onze horas os salões começaram a encher-se.

Áquella hora ainda não tinham chegado nem Laura nem o visconde.

Pozzoli, encontrando-se com Lauretto Mina, que tambem fazia um pouco de dono de casa, perguntou-lhe em voz baixa:

—Tens a certeza de que a tua casta diva não deixa de vir? Não achas possivel que o nosso bretão a prohiba de comparecer?

—Acho...

—Começo a antypathisar com o tal visconde de Bizeux! Em S. Germano a custo me cumprimentou, e ao receber o convite para a soirée d'esta noite, apenas me mandou o seu cartão, com estas palavras seccas, escriptas a seguir ao nome: acceita o convite do sr. Pozzoli. Desagrada-me deveras o pretencioso fidalgo!

—E eu gosto immenso d'elle, respondeu o tenor, rindo.

—Sim!... Porque?

—Porque cada vez amo mais a Linda, e estou convencido de que será o visconde quem me franqueará o caminho que conduz ao coração de Laura. Cedo-lhe o logar da melhor vontade. Em geral não se gosta{119} do successor, mas não ha razão para odiar o predecessor. Ah! Eil-o que chega!

—Com a Linda?

—Não... Vem com o conde de Vireuil.

—Diabos me levem se eu fingir que o vejo durante toda a noite!

—Estás doido! Olha que elle é rico, e provavelmente gosta de jogar.

—Necessito tanto do dinheiro do visconde, como d'elle proprio!

—Mas parece-me mais conveniente detestal-o e ir-lhe embolsando o dinheiro...

—Que vá para o diabo! Recebe-o tu, se quizeres. Decididamente, não estou disposto a incommodar-me com semelhante animal!

—Eu? replicou o tenor. Não caio n'essa! Hoje não quero brincadeiras com elle. Tratarei até de o evitar, com a maxima prudencia e habilidade.

Alguns minutos depois chegava Laura Linda.

Vinha acompanhada pelo dr. Despujolles, que lhe dava o braço.

Trazia um magnifico vestido de velludo preto, muito decotado, que fazia resaltar admiravelmente a brancura mate da sua cutis d'andaluza.

Nos sedosos e abundantes cabellos pretos ostentava um diadema de margaritas em brilhantes.{120}

Das orelhas pendiam-lhe duas margaritas eguaes ás do diadema.

Aos cantos dos laços dos sapatos de setim mais duas margaritas semelhantes, como que chamavam a attenção para a extraordinaria pequenez dos pés.

Esta toilette um pouco triste realçava, comtudo, a incomparavel belleza da cantora.

Sob os feixes de luz que sahiam dos lustres, os esplendores setinosos da cabelleira preta, o vibrante brilho dos olhos aveludados, a faisca viva do sorriso, coruscavam clarões femininos, scintillamentos de parisiense, para quem o verdadeiro sol é a luz das soirées.

Pozzoli, radioso, precipitou-se para Laura, logo que a viu entrar.

—Ah! Até que emfim chegou a nossa querida diva! Estavamos anciosos pela sua chegada...

—Porque?

—Porque o concerto não podia começar sem que estivesse presente...

Offereceu-lhe o braço para a conduzir ao salão, onde todos os convidados, amigos ou admiradores, a foram cumprimentar.

Laura sorriu a Antonino quando o visconde lhe fallou.

Só elle percebeu, ou antes, sentiu, que n'aquelle sorriso havia uma nuvem de tristeza.{121}

O concerto começou pouco depois.

Quando chegou a vez a Laura, pediu para cantar primeiro o dueto da Lucia, que estava indicado no programma como devendo ser o segundo trecho.

Lauretto Mina cantou a toda a voz, á qual deu tudo o que suppunha ou podia ter de sentimento.

Laura cantou com a segurança e a pericia costumadas, mas os que por mais vezes a tinham ouvido executar o dueto declararam que ella, d'esta vez, não lhe dera todo o brilho que os seus vastos recursos vocaes permittiam.

Ainda assim o successo não foi menor.

Remissy, já de volta de Londres, executou as suas celebres variações sobre o Carnaval de Veneza, a que deu o mais extraordinario e admiravel relevo e a mais poetica e sonhadora phantasia.

Depois d'uma aria de baritono, Laura sentou-se ao piano e cantou um trecho da Mancenilheira.

N'essa aria é que os seus admiradores reconheceram a Linda!

Cantou com todo o sentimento, com toda a alma!

Não olhou uma unica vez para Antonino, mas era por elle que Laura se esforçava por cantar com surprehendente habilidade.

O effeito foi extraordinario.

O auditorio, transportado, rompeu em applausos enthusiasticos.{122}

Antonino, reprimindo violentamente os soluços prestes a rebentar, abysmava-se n'um extasi de dôr e de paixão. Chegou a hora da ceia.

Passaram á sala de jantar, vasta mas um pouco fria, mercê das paredes e columnas de marmore.

Os aparadores estavam carregados d'eguarias, e servidas as mezas.

Pozzoli conduziu Laura para uma meza, sentando-se junto da cantora.

Por entre a barafunda dos convidados que procuravam logar, o conde de Vereuil, que seguia Antonino, fel-o parar inesperadamente, dizendo-lhe depois:

—Meu caro, esta dama pede-me que o apresente.

E accrescentou:

—O sr. visconde de Bizeux.—Madame Elvira.

A Elvira gorda,—porque era a dona da casa em pessoa que fôra apresentada a Antonino—desfez-se em cumprimentos e phrases amaveis.

Ouvia fallar tanto do sr. de Bizeux, que desejava ardentemente conhecer tão distincto gentilhomem!

Antonino, cortez e galante sempre com qualquer mulher, respondeu ás expressões admirativas da Elvira gorda com as banalidades do estylo.

Ella tomou o braço do visconde, sem ceremonia, e conduziu-o para uma das mezas, bastante distanciada d'aquella a que estava Laura.{123}

A Elvira gorda fôra em tempo bastante formosa, e á luz do gaz parecia-o ainda.

Era branca e loira.

Tinhas as feições regulares, mas sem expressão.

O que ainda a fazia passar por uma bella mulher era o corpo, admiravelmente bem feito, esbelto como poucos, d'espaduas e braços soberbos.

Fallava com vivacidade e um certo espirito a Antonino, que lhe respondia com phrases curtas, d'uma concisão impossivel d'exceder.

Discorrendo sobre Laura, a amante de Pozzoli absteve-se prudentemente de lhe apontar o mais insignificante defeito.

—Formosissima mulher! disse ella, mas sobretudo admiravel artista. Nasceu para cantar, mas se a voz lhe faltasse nem por isso deixaria de brilhar, porque á rara distincção de maneiras junta os mais invejaveis predicados de coração.

E continuou a elogiar a cantora, não perdendo occasião para, disfarçadamente, dirigir tambem elogios ao visconde.

Terminada a ceia, a Elvira gorda tomou o braço d'Antonino, para lhe fazer as honras da casa.

Mostrou-lhe a estufa, a galeria dos quadros, onde, entre algumas telas de mestres, abundavam as copias mediocres, que Pozzoli fazia passar por originaes authenticos.{124}

Fez parar o visconde deante d'uma estatua de Diana, para a qual pousara, tendo apenas á cinta, como se via no marmore, uma simples pelle de panthera.

E tentou córar aos cumprimentos forçados d'Antonino, que declarou admiraveis as formas.

—Quer vir á sala do jogo? Gosta do bacura? perguntou ella.

—Fará bem em ir, meu caro, disse repentinamente o dr. Despujolles surgindo ao lado d'elles. A nossa amiga Laura Linda, pela fórma como está jogando, arrisca-se a ficar arruinada esta noite.

Desde que chegou, Laura seguira sempre o visconde com o olhar, sentindo inexplicavel inquietação.

Tambem não perdia de vista Lauretto Mina.

Mas, percebendo que Antonino diligenciou por vezes approximar-se do tenor, socegou por lhe parecer que Lauretto evitava encontrar-se com o visconde.

O socego foi substituido por um sentimento irritante quando deu pelas attenções que a Elvira gorda prodigalisava ao visconde.

Esse sentimento, desconhecido para ella, fazia-a soffrer immenso.

Era o ciume.

O que quereria aquella mulher a Antonino?{125}

Julgou que o mal estar que sentia era resultante da natural apprehensão que lhe causava o pensamento de que o visconde podia correr perigo.

Pois porque razão soffreria ella pelas attenções que a amante de Pozzoli dispensava ao sr. de Bizeux?

Vi-os sahir da sala de jantar, despeitada.

Não tinha razão para se zangar por um facto tão insignificante, que de mais a mais se passava com um homem a quem declarára não poder amar.

Não devia considerar o visconde completamente livre, para escutar as phrases ternas d'aquella mulher?

E a cantora percebeu que era extraordinaria a sua preoccupação.

Pozzoli, ao levantar-se da mesa, perguntou-lhe se queria jogar.

Laura respondeu machinalmente que sim, mas não comprehendera o que lhe dissera o emprezario.

Chegaram á sala do jogo, conhecida pelos habitués sob a designação da sala verde, porque as paredes, o tecto e o proprio soalho eram forrados de veludo d'aquella côr.

Duas grandes mezas d'ebano, rodeadas por cadeiras, eram os unicos moveis que guarneciam a sala, alumiada por quatro candelabros de sete lumes cada um, collocados nos angulos da casa.{126}

Laura sentou-se, pensativa.

Ao principio não quiz jogar.

Depois, importunada e espicaçada por sentimentos diversos, passou a tomar pelo jogo o mais vivo interesse.

Chegou-lhe a vez de fazer banca.

Pegou no baralho nervosamente, e jogou sem reflexão nem presença d'espirito.

Perdeu todos os baccaras.

A sorte, sempre contraria a Laura, fez-lhes perder mil luizes n'um instante.

Quando Pozzoli fez banca, disse graciosamente para a cantora:

—Vae recuperar todo o dinheiro perdido, verá!

A previsão não se realisou.

Laura, esperando rehaver o perdido, jogou quantias importantes.

O azar continuou.

Foi então que Despujolles, notando a infelicidade da cantora, e a sorte singular de Pozzoli, sahiu da sala em busca d'Antonino, a quem lhe pareceu conveniente avisar. Entraram juntos no salão do jogo.

A gorda Elvira segui-os de longe.

Laura viu o visconde assim que elle entrou.

—Ha vinte mil francos de baccara, dizia Pozzoli.

—Jogo-os! disse Laura lançando para Antonino como que um olhar de desafio.{127}

Pozzoli deu as cartas e ganhou.

—Ha quarenta mil francos... disse elle.

Laura ia abrir a bocca.

Antonino, porém, que se approximara, curvou-se, para ella, e disse-lhe em voz baixa e supplicante:

—Peço-lhe que não jogue mais!

Pozzoli percebeu o que o visconde dissera, e observou, sorrindo:

—Meu caro visconde, deixe-me dar a desforra á nossa amiga.

—Seja caridoso, replicou o visconde friamente. Deixe a desforra para outra vez!

Pozzoli empallideceu.

Laura, sem pronunciar uma só palavra, apontou cento e cincoenta francos.

O emprezario ganhou ainda.

—Já vê que tinha razão, disse Antonino a Laura, sorrindo por sua vez.

—A verdade é, replicou Pozzoli em laia d'explicação, que tenho uma sorte verdadeiramente compremettedora para dono da casa. Passo as cartas.

E levantou-se da mesa.

O banqueiro que se seguia, deu ainda quatro baccaras.

Antonino continuava sorrindo.

O emprezario não o desfitava.

O rosto d'aquelle homem transformára-se de subito.{128}

Brilhava-lhe sinistramente o olhar, rugas fundas vincavam-lhe a fronte, e gotas de suor perlavam-lhe o carmim das faces. Approximou-se de Antonino, a quem disse em voz baixa:

—Não joga, senhor visconde?

—Não...

—Como não se entretem aqui, se quer vamos até á sala d'esgrima...

—Pois sim.

—Muito bem. Para nos interessarmos um pouco mais no assalto, occorre-me uma idéa, que talvez não lhe desagrade tambem.

—Queira dizer.

—A um canto da sala ha dois floretes, cujos botões saltaram ha dias. Poderemos experimentar as nossas forças como elles... como quem não repara.

—Acceito, mas hei de eu escolher um dos floretes.

—Escolherá á sua vontade! respondeu Pozzoli tremente de raiva.

E accrescentou em seguida:

—A Linda está a olhar para nós. Não devemos sahir juntos. Vá o senhor adiante. D'aqui a cinco minutos sahirei eu.

Antonino fingiu seguir com attenção, por alguns segundos, a partida baccara, que já não despertava interesse a Laura, assustada pelo colloquio do visconde com Pozzoli.{129}

Pouco depois Antonino sahiu da sala, sem afectação.

Laura procurou então o emprezario com o olhar.

Pozzoli conversava e ria n'um grupo de convidados, que não jogavam.

Passados dois minutos tomou o braço d'um d'elles, com quem pareceu entabolar uma conversação interessante, e sahiu com elle.

Quando chegou á sala d'esgrima, o visconde já o esperava.

Despujolles e Remissy, que não eram fortes em esgrima, estavam um em frente do outro, de sabre em punho.

—Queira examinar estas explendidas panoplias, sr. visconde, disse Pozzoli.

Antonino seguiu o emprezario, que, fingindo dar-lhe explicações sobre varias armas antigas, escolheu dois floretes desembolados, que deu ao visconde, sem pronunciar uma só palavra.

Antonino examinou-os, dobrou-os para lhes experimentar a tempera, escolheu um e deu o outro a Pozzoli.

—Está combinado, disse o emprezario, que, succeda o que succeder, não será mais do que o effeito d'um accidente?

—Está.

Todos os convidados presentes na sala d'armas seguiam{130} com curiosidade o assalto entre Despujolles e Remissy, que, em mangas de camisa, esgrimiam enfurecidamente, como dois demonios.

Ninguem reparou para Pozzoli e para o visconde, que fizeram tudo o que deixamos dito sem serem percebidos.

Quando, porém, acabavam de trocar as ultimas palavras, entrou na sala a gorda Elvira, acompanhada de Lauretto Mina.

Dirigiu-se para Pozzoli, dizendo-lhe:

—Vamos para a galeria grande. As pequenas vão executar a dansa das bailadeiras.

O emprezario franziu as sobrancelhas.

Por fim respondeu com voz brusca:

—Logo dansarão.

Elvira tocou com o cotovello em Lauretto, imperceptivelmente.

E sem dizerem nada, mas percebendo-se, foram-se sentar n'um divan, e accenderam umas cigarrilhas.

Despujolles tocava, pela terceira vez, o seu adversario, com applausos, um pouco ironicos, dos assistentes.

O violinista, já cançado, disse:

—Estou satisfeito, meu caro dr. Confesso-me vencido.

E ajuntou, sorrindo:{131}

—De resto, nenhum de nós é forte ao sabre.

N'esse momento Pozzoli dizia ao visconde, em voz baixa:

—Como estou em minha casa, parece-me conveniente que o sr. me convide, para desviar todas as suspeitas... na hypothese d'um accidente desagradavel.

—D'accordo, replicou Antonino no mesmo tom.

E em voz alta disse:

—Sr. Pozzoli, o sr. Lauretto Mina, disse, ha dias, na minha presença, que o meu amigo era de primeira força ao florete. Quer dar-me a honra de ser meu adversario?

—A honra será toda minha, sr. visconde, respondeu o emprezario.

Pegaram, como por acaso, nos dois floretes desembolados, como se fossem os primeiros que encontrassem á mão.

Ao despirem os casacos, Pozzoli disse a Antonino, baixo:

—Venha um pouco para a penumbra, para que não reparem na falta de botões dos floretes.

A sala era illuminada por uma enorme lampada persa, de cobre avermelhado, trabalhada com arte.

Estava suspensa ao centro da casa.

As extremidades da sala, que era rectangular, ficavam um pouco na sombra.{132}

Foi para uma d'essas extremidades que os dois esgrimistas se dirigiram.

Cumprimentaram-se com os floretes, segundo as regras, e cahiram em guarda.

Em volta formou-se rapidamente um circulo de curiosos, que engrossava de momento a momento.

Na sala não se ouvia mais do que o tenir das laminas.

Os dois adversarios começaram sem demora a bater-se com encarniçamento, parando com toda a rapidez e ripostando vigorosamente.

Lauretto Mina, que tinha boa vista, e estava meio prevenido por Elvira, percebeu immediatamente que os floretes estavam desembolados.

Sem deixar de fumar, apontou o facto á amante de Pozzoli. Ao cabo de dois minutos, continuando a observar os dois contendores, disse:

—Sabes, Elvira?...

—O quê?...

—Estás prestes a enviuvar, minha querida.

—Pois suppões?...

—Ou, pelo menos, destinada a enfermeira durante dois ou tres mezes.

—Que estopada? Parece-te então que Pozzoli?...

—Será ferido? Com certeza!... Nem parece meu discipulo! Verdade seja que o visconde é de primeira força. Repara para elle...{133}

Laura, que continuava na sala do jogo, reflexionou com temor que a sahida de Pozzoli, quasi immediata á de Antonino, não era natural.

Poucos minutos passados, não podendo conter-se por mais tempo, chamou o conde de Vereuil, que estava proximo, e disse-lhe:

—Não vejo Pozzoli. Queria fallar-lhe n'um assumpto urgente... Se o sr. conde o procurasse e trouxesse aqui muito me obsequiava.

O conde inclinou-se e sahiu.

Demorou-se dez minutos.

Á angustia de Laura parecia que elle partira ha mais de uma hora.

Por fim o conde voltou.

Vinha só.

Laura perguntou-lhe, logo que o viu:

—E então?... Pozzoli?

—Perdôe-me a demora, mas com difficuldade o encontrei. Fui dar com elle na sala d'armas.

—Ah! Fallou-lhe?

—Não. Era impossivel, porque no momento em que cheguei começava elle um assalto ao florete.

—Com quem?... com quem?...

—Com Bizeux.

Laura levantou-se, como que impellida por mola occulta.

Estava pallida como uma morta.{134}

Passados instantes disse ao conde:

—Queira dar-me o seu braço. Vamos até lá. Desejo ver o assalto. Sou tão curiosa!

Tomou o braço do conde, que, surprezo, a sentiu tremer.

Entretanto não se atreveu a perguntar-lhe o que tinha.

Laura apressou o passo.

Quando entraram na sala d'armas, Pozzoli, extremamente pallido—porque tinha percebido, antes de Lauretto Mina, que estava em frente d'um adversasario de primeira ordem,—concentrava toda a sua vontade e todos os seus recursos d'esgrimista em guardar a defensiva.

Comtudo sentia-se perdido.

No momento em que Laura se approximava, Antonino cahiu a fundo. Pozzoli parou, curvando-se.

A cantora, ao primeiro olhar, percebeu que o florete de Pozzoli não tinha botão.

—Acautelle-se!... gritou ella ao visconde.

Antonino olhou para o lado d'onde partira a voz de Laura.

Esta distracção fez com que se conservasse descoberto durante dois segundos.

Pozzoli aproveitou o momento para lhe vibrar uma estocada, de que o visconde não teve tempo de defender-se.{135}

A ponta do florete attingiu-o debaixo do sovaco.

Antonino cambaleou e cahiu nos braços do dr. Despujolles.

Um ruido confuso espalhou-se por entre as testemunhas d'aquella scena tragica.

Transportaram o ferido para um divan.

Laura, fóra de si, d'olhos esgazeados, gritava:

—Fui eu que o matei.

O dr. examinou cuidadosamente o ferimento do visconde.

Passados momentos, disse:

—Ferida quadrangular!... Não sangra!

Alargou com a ponta do dedo a abertura do ferimento, d'onde apenas sahiam umas gotas de sangue, e introduziu a sonda, que sempre trazia comsigo.

O rosto alegrou-se-lhe.

Laura, ajoelhada junto d'elle, perguntou-lhe:

—Então, dr?...

—O ferimento é grave, mas não é mortal. Vou sangral-o.

Durante esse tempo, Pozzoli, tendo nas mãos os dois floretes, dizia para Lauretto Mina com aspecto consternado:

—Ah! Foi aquelle idiota do Antonio que deixou aqui os floretes que nós, a semana passada, tinhamos desembolado. Que miseravel! Nem mais uma noite dormirá em minha casa!{136}

E mostrou o florete do visconde, para provar que não tinha botão, como aquelle de que se servira.

Antonino reabriu um pouco os olhos depois de sangrado. Olhou para Laura, sorriu-lhe, e perdeu os sentidos.

Despujolles parecia ter pressa de o fazer sahir d'aquella casa.

—Pode já ser transportado, disse elle.

—Irá na minha carruagem, observou Laura.

—Não. Uma padiola é mais conveniente.

Foi improvisada a padiola sem detença.

Deitaram n'ella o ferido, e levaram-o.

O visconde continuava sem sentidos.

Ao chegarem ao vestibulo, cheio d'homens e senhoras em toilette de baile, os conductores perguntaram:

—Para onde devemos seguir?

—Boulevard Haussmann.

—Não, disse Laura. Para minha casa, rua de Bolonha. É mais perto.

—Mas... ia a observar Despujolles.

—Em casa d'elle não terá ninguem que o trate. Para minha casa... para minha casa!...

—Veja o que faz... disse-lhe baixo Despujolles, que via trocarem-se entre os espectadores d'aquella scena, olhares e sorrisos significativos. Asseguro-lhe que respondo por elle...{137}

E voltando-se para os homens que conduziam a padiola, ajuntou em voz alta:

—Levem o sr. de Bizeux...

—Para minha casa, interrompeu Laura. Já lhe disse, doutor... quero que o levem para minha casa!

Ainda não eram tres horas da madrugada, e o baile devia prolongar-se até pela manhã.

Aquella scena inesperada, porém, desgostára todos os convidados de Pozzoli.

Em menos de meia hora as salas ficaram desertas.

Os convidados retiravam-se commentando, de mil formas diversas, o assalto, ou o duello, de Pozzoli e do visconde.

Remissy dizia ao baritono Lunier, com quem descia o boulevard:

—Ninguem sabia ao certo, até agora, o que era a casa de Pozzoli. Passava por ser um bordel. Desde hoje é tambem um covil. Completou-se.

Em quanto os creados apagavam as ultimas velas, Pozzoli, ficando só com Lauretto e a Elvira gorda, disse-lhes:

—Vamos para o salão reservado.

Contiguo ao quarto de cama de Pozzoli, no salão reservado não entravam senão os intimos do emprezario.

Era uma sala octogona, sem janellas, alumiada apenas por lampadas arabes mettidas em vidros de{138} côres, que espalhavam uma luz mysteriosa e sensual.

Espessos tapetes persas cobriam o sobrado e amontoavam-se para formar um largo divan baixo, que circundava toda a casa.

Tamboretes de madrepérola e marfim, espalhados ao acaso, completavam a mobilia da casa, cujas paredes eram forradas d'espelhos caros.

A pintura do tecto representava a dansa de sete odaliscas nuas, deante do senhor, acocorado e fumando, com os olhos semi-cerrados e os labios, entre-abertos.

—Uff! Não posso mais! disse Pozzoli ao entrar na sala, atirando-se para o divan. Não bebi quasi nada durante a noite, para estar senhor de mim. Vou desforrar-me!

Carregou n'um botão.

Um dos espelhos moveu-se, deixando uma abertura, a que appareceu um creado.

—Antonio, chypre para mim, e champagne para a senhora e para o sr. Lauretto Mina.

—Temos de beber á tua dupla victoria, disse o tenor. Ah! meu caro, palavra! cheguei a suppôr-te um homem morto!

—Tambem eu cheguei a considerar-me n'esse lindo estado! replicou Pozzoli, tirando das algibeiras, á{139} mistura, notas de banco e moedas d'oiro, que ia pondo sobre um tamborete proximo.

Depois d'alguns instantes de silencio continuou:

—Se não fosse a intervenção da nossa querida Laura, tinha-me levado o diabo! Esteve toda a noite a meu favor, a Linda! Só lhe apanhei cinco mil francos, mas ficou-me a dever quatorze, o que prefaz um total de desanove. E aquelle grito de prevenção, que soltou, salvou-me a vida. Ah! é tão bom viver!

—O pobre visconde, chasqueou Lauretto, é que não pode dizer o mesmo por muito tempo. Entretanto é de esperar que viva ainda bastante. Reparaste? A Linda mandou-o conduzir para casa d'ella. Aposto em como o vae amar loucamente. A noite foi boa, Pozzoli. Trataste satisfatoriamente dos teus negocios e adeantaste os meus. Obrigado!

—Não te calarás? gritou a Elvira gorda acotovellando o tenor com rudeza.

Lauretto riu-se.

—Deixa-o fallar, Elvira, disse Pozzoli. Lauretto tem razão. Vou por elle. Has de ser amante de Laura!

E rindo-se, pegou em quatro notas de mil francos cada uma.

Dobrou-as e atirou com duas a Elvira, dizendo-lhe:

—São para ti.{140}

—Obrigado, Eurico!

E accrescentou dando as outras duas ao tenor:

—E estas para ti, Lauretto.

O tenor metteu as notas na algibeira, sem pronunciar palavra.

—Pois nem me agradeces?

—Para que? Dás sempre qualquer coisa com uns modos que provocam explicações.

—Então restitue-me o dinheiro!...

—Estás doido!... Olha, eis o vinho que chega. Bebamos. Para isso é que tu és um homem! Esvasias muito melhor os copos do que as algibeiras.

Pozzoli deu aos hombros despresadoramente.

Desrolhadas as garrafas, o creado sahiu.

Os tres começaram a beber em silencio.

Pozzoli, sobretudo, bebia com uma especie de bestialidade avida e feroz.

De repente interrompeu as libações para dizer:

—Então, não dizem nada?... Estão esta noite muito monos!...

—Espera, respondeu Elvira. Vou chamar as pequenas.

Carregou no botão d'uma campainha electrica.

Quasi immediatamente appareceram quatro bailarinas, jovens e formosas.

Elvira disse-lhes:

—Executem a dansa das bailadeiras, sem córtes.{141}

Lauretto Mina pegou n'uma guitarra, e cantou, acompanhando-se com o instrumento, uma canção arabe, primeiro lenta e terna, mas accelerando gradualmente o movimento, até tornar-se ardente e rapida.

As bailarinas seguiram-o, executando uma d'essas dansas egypciacas, brandas e lascivas, que terminou n'uma especie de furia de bacchantes.

Pozzoli soltava gargalhadas estridentes, batia as mãos, rebolava-se pelo divan.

Quando o bailado acabou, elle berrou:

—Mais! mais!...

—Mais não! replicou Lauretto. Eu e ellas é que sabemos se foi bastante.

—Então bebamos!

—Olha, cá está o teu copo grande, disse o tenor.

E apresentou-lhe um copo enorme, que podia conter todo o liquido d'uma garrafa.

Pozzoli encheu-o de vinho de chypre.

Depois de beber a grandes golos, disse:

—Ah! isto consola!

E bebeu o resto.

—Basta, disse-lhe Lauretto. Já estás bebedo.

—Deixa-o beber, meu querido Lauretto! observou a Elvira gorda sem se dar ao incommodo de baixar a voz. Mais depressa ficaremos livres e sós.{142}

Lauretto apenas respondeu com um movimento de hombros approvativo, e accendeu um cachimbo.

—Não fumes esse veneno, meu idolatrado! aconselhou Elvira. Repara, eu já não bebo...

Mas elle continuou a fumar em silencio.

Pozzoli rolára do divan para o tapete, balbuciando:

—Deem-me de beber!... Quero chypre!... Estão na mesa quinhentos luizes... Aposta, visconde?...

As quatro bailarinas descançavam, sentadas no divan, de pernas cruzadas, olhando com curiosidade para os patrões.

Elvira fez-lhe signal de que podiam retirar-se.

Ellas desappareceram immediatamente.

Entretanto Lauretto bebia e fumava.

—Meu querido Lauretto, peço-te que não bebas mais! supplicava a Elvira gorda.

E passava os braços em volta do pescoço do tenor, tentando tirar-lhe o cachimbo da bocca.

Elle deu-lhe um murro.

—Deixa-me, ursa!... Safa-te! Ou és tu como Laura? Se és, vem!... Mas, não... ella é mais formosa... Não te pareces com a Linda, nem ao longe... Ah! Laura!...

As palpebras cerraram-se-lhe.

No rosto desenhou-se-lhe uma expressão d'extasi voluptuoso.{143}

—Laura! vem!... Leva-me comtigo para o infinito, onde as estrellas executam uma dansa luminosa!... Meu Deus! como os teus cabellos cresceram desde a ultima vez que os acariciei, Laura!... Vejo-os fluctuar ao longe, atraz de nós, cauda d'um cometa d'ouro, entre a harmonia dos astros... A brisa eterna fal-os soltar notas maviosas... Vibram como cordas d'harpas eolias... Ouço por toda a parte a sympathonia do amor, em que canta um beijo que dura um seculo!...

Calou-se.

Elvira passou apenas a ouvir os roucos estribulos de Pozzoli, curtindo socegadamente a bebedeira.

Lauretto foi em breve fazer companhia ao emprezario, sobre o tapete.

Elvira olhou primeiro para Pozzoli, que parecia dormir o somno da innocencia, e depois para Lauretto, que conservava a bocca e os olhos entreabertos, n'uma expressão mystica de Christo em extasi.

Por fim levantou-se; arredou-os com o pé para passar, dizendo despresadoramente:

—Que dois brutos!

E entrou, só, no quarto da cama.{144}

{145}

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