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O Romance d'uma cantora

VI A festa

Salvador de Medonça translation

No dia fixado, um mail-coach, em que tinham tomado logar Antonino, Despujolles e mais uns vinte convidados de Pozzoli, subia, ao trote largo de quatro cavallos pretos, a avenida dos Campos Elyseus.

Era a primeira terça feira de setembro.

Ao longe os sinos de Santa Clotilde zumbiam, como enxame d'abelhas, sob as agudas pontas das settas gothicas.

As mulheres riam estridentemente, empoleiradas no alto da carruagem.

Aquellas gargalhadas quebravam o silencio da avenida, deserta ainda áquella hora.{64}

Os guisos de bronze reteniam ao pescoço dos cavallos n'uma alegria matinal.

E em sorrisos de luz, as folhas altas dos platanos brilhavam, como estrellas movediças, os castanheiros espessos formavam massiços largos, ao fundo de callidimos entrelaçados em ramos monstros sobre a relva dos canteiros.

Os jardineiros municipaes assestavam as mangueiras dos tubos d'irrigação articulados.

Uma chuva branca cahia sobre a relva, cortada quasi cerce, e por entre as bambinellas do fino orvalho um arco iris dansava, radioso.

O mail-coach que conduzia a S. Germano Antonino, Despujolles e os convidados de Pozzoli, chegou ao pavilhão Henrique IV ao mesmo tempo que o coupé de Linda.

Laura vestia uma elegante toilette de seda da India, cinzenta.

O corpo do vestido era enfeitado com fazenda de lã e ornado de laços granade.

A saia, um pouco curta, deixava perceber a curva nascente d'uma perna fina de parisiense ou de hespanhola.

Estava encantadora assim.

Apertou a mão a todos, mas em primeiro logar a Antonino, a quem apresentou a Pozzoli, o amphytryão.{65}

O emprezario do theatro dos Italianos era um homem de mãos largas, dedos massiços, cabello grosso e espetado, barba em leque, olhos redondos, nariz recurvo como o bico d'um abutre, bocca grande, de labios grossos, libidiminosos.

Á primeira vista representava o typo completo da força bruta e dos appetites sensuaes.

Melhor examinado, porém, notavam-se-lhe extraordinarios ridiculos.

Macaqueava com as mulheres, n'uns gestos afectados, como o tenor Lauretto Mina. Fallava sempre com os labios quasi cerrados, e quando pronunciava uma d'essas phrases equivocas, que as mulheres de que habitualmente se rodeava achavam deliciosas, soltava gargalhadas imprevistas casquinhando mechanicamente, para mostrar dentes magnificos... mas postiços.

D'ordinario pintava o cabello e a barba, e nas soirées apparecia sempre com carmim nas faces e as sobrancelhas alongadas e carregadas por uma pincelada negra.

Tal era Pozzoli.

O emprezario desagradou soberanamente a Antonino, que tambem não sympathisou com Lauretto Mina, cujos gestos afeminados e maneiras pretenciosas faziam um absoluto contraste com os modos viris e simples do gentilhomem bretão.{66}

Depois de trocados os cumprimentos e feitas as apresentações, os excursionistas puzeram-se a caminho para a floresta, precedidos d'um carro do pavilhão Henrique IV, que transportava o almoço.

—Não vejo Remissy, disse Laura. Entretanto elle deu-me a sua palavra de que não faltaria.

—Elle virá, replicou o dr., mas provavelmente quando menos se esperar, porque aquelle demonio tem grande tendencia para as surpresas.

Os mails-coachs, os landaus e os coupés embrenharam-se sob as abobadas verdejantes, n'um turbilhão d'alegria ruidosa.

Ao atravessarem as pequeninas clareiras inundadas de luz, os raios das rodas tinham brilhos vivos e vibrações agudas.

Falseamentos rutilavam nas nuvens de pó, com um bulicio de ruidos multiplos: a ferradura d'um cavallo topando n'uma pedra, uma roda gemendo na depressão do terreno, o estridulo das gargalhadas subindo no ar perfumado de verdura humida, o estalo d'um pingalim assustando as aves aterrorisadas, e por vezes, cortando os intervallos de silencio, o relincho satisfeito d'um cavallo.

—Alto! gritou Lauretlo Mina com a sua voz de cigarra.

—Alto! vociferou Pozzoli, como um echo brutal.

As carruagens pararam.{67}

—Chegamos, disse o dr. a Laura, indo abrir a portinhola do coupé.

—Eis a sala de jantar, a senhora está servida! annunciou Lauretto por de traz do medico.

Sem esperar que lhe dessem a mão, Laura saltou com ligeiresa.

Pozzoli offereceu-lhe o braço.

—Qual! disse a cantora recusando. No campo caminha-se em liberdade, sem cerimonias.

Em um minuto chegaram á verde clareira em que o almoço estava servido, sobre uma elevação arrelvada.

Cada qual tomou logar em volta d'aquella toalha verdejante, manchada de escuro por tres presuntos d'York, quatro travessas de foie gras, doze lagostas, seis gallinhas, montanhas de doces, pecegos de Montreuil, passas de Malaga em caixas.

Em volta da improvisada meza, como collocadas em atiradores, alinhavam-se vinte quatro garrafas de Bordeus, e em torno d'um carvalho secular, entre as anfractuosidades rugosas do tronco, trinta garrafas de moscatel, de Madeira e de Champagne, de gargalos prateados, conservavam-se em reserva, meio occultas pela herva alta.

Massiços de verdura banhados de luz, cruzavam-se, como bayonetas enfeixadas; extremidades de plantas queimadas pela geada balouçavam-se levemente,{68} e tres grillos corajosos entoavam uma marcha triumphante por entre uns fetos proximos.

Laura sentara-se junto d'um freixo gigante, appoiando as costas ao tronco.

Um grupo d'aveleiras servia-lhe de guarda-sol.

Antonino de Bizeux e o dr. Despujolles tomaram logar á direita e á esquerda da cantora.

Em frente d'elles, agrupados, estavam Pozzoli, Lauretto Mina e os restantes convivas.

Eram uns quarenta ao todo.

O almoço foi pouco ruidoso ao principio.

O appetite é sempre silencioso.

Ouvia-se apenas o ranger dos garfos de prata na porcellana dos pratos.

A Linda comia com vontade, e molhava alegremente os labios finos no liquido do copo.

Á sobremesa a conversação rebentou, viva e alegre, acompanhada pelo tenir dos copos e pelo riso das mulheres, e entre a confusão das vozes, misturadas com o pizzicato dos garfos, um melro, pousado n'uma arvore proxima, rythmava as suas cadencias aflautadas.

Lauretto Mina embriagou-se, como costumava.

De repente levantou-se, tendo na mão uma taça de Champagne, e disse com voz entaramelada:

—Bebo á saude da rainha da festa, da divina Laura Linda!{69}

Laura corou um pouco, e Antonino franziu as sobrancelhas.

Mas todos levantaram as taças, repetindo:

—Á saude de Laura Linda!

N'esse momento, na alléa que seguia ao lado d'aquella meza verdejante, apparecia uma duzia de officiaes d'hussards, trotando nos seus cavallos.

Logo que viram os convivas d'aquella pittoresca festa, fizeram diminuir o andamento dos animaes.

Despujolles disse algumas palavras ao ouvido de Pozzoli, e depois caminhou para os officiaes e disse-lhes:

—Meus senhores, somos artistas e homens de sociedade: querem fazer-nos a honra d'acceitar um copo do nosso magnifico vinho francez?

—Da melhor vontade! responderam os officiaes em coro.

E puzeram em linha os cavallos arabes.

Foram as damas que serviram o Champagne.

Beberam pela França e pelos francezes.

Em seguida os officiaes ofereceram charutos aos homens, cumprimentaram as senhoras e partiram a galope.

A brilhante cavalgada desappareceu rapidamente, como uma phantasia, na profundeza do bosque.

Deixaram as carruagens e as louças á guarda dos creados, e partiram a pé para a feira das Loges.{70}

Combinaram que caminhariam sem cerimonia, em debandada.

Mas como o caminho d'esta vez fosse mais longo, formaram-se, naturalmente, grupos e pares.

Antonino estava, como por acaso, ao lado de Laura, que deu um passo em falso, e, como por acaso tambem, tomou o braço do visconde, appoiando-se a elle ligeiramente, com uma graça encantadora.

Caminharam assim por algum tempo, alegres e sonhadores, admirando coisas vulgares que lhes pareciam tão interessantes como se nunca as tivessem visto.

Um ruido confuso annunciou, de longe, a feira das Loges.

Sinetas, pandeiros, tambores, trompas, cornetins, produziam um baralho ensurdecedor.

Aquella parte da floresta estava cheia de gente vestindo fatos domingueiros, pares mais ou menos apaixonados, creanças saltando na alegria da plena liberdade.

Appareceram as primeiras barracas ao fim da estrada.

Augmentava o ruido da symphonia discordante d'instrumentos diversos, de clowns esganiçando-se em falsetes, d'hercules soprando em enormes porta-vozes os seus desafios burlescos aos amadores de luctas.{71}

Antonino e Laura acharam-se, n'um instante, separados dos seus companheiros.

Pararam deante das barracas, admirando, embasbacados como creanças, os objectos n'ellas expostos.

Laura achou immensa graça á atabalhoada arenga berrada á porta d'uma barraca de saltimbancos por uma especie de cigano, de cara serampintada, cabellos crespos, com voz enrouquecida, que ainda assim não perdera o tom accentuadamente marselhez.

O homem convidava o respeitavel publico a visitar a Mulher-Electrica.

—É entrar, meus senhores, é entrar, dizia elle. Por dois sous podem admirar a mais formosa e a mais gentil mulher do mundo. Só homens podem entrar, porque se as senhoras viessem a esta barraca, sahiriam loucas de inveja! Não quero dizer com isto que as senhoras presentes não sejam novas e formosas, não! Mas, acreditem, nenhuma das que vejo, e das ausentes, poderia dar a seu marido uma sensação semelhante á que esta produz em todos os homens que lhe tocam!... É entrar, meus senhores, é entrar! Não encontrarão outra occasião, como esta, para admirar uma belleza sem rival! Tem pernas de Diana, braços de Venus... Parece a esposa de Jupiter! Não ha uma só princeza que a não inveje!... É um ovo por um real, contemplar uma{72} maravilha d'esta ordem apenas por dez centimos!... É entrar, meus senhores, é entrar!...

Proximo, um colosso, de braços musculosos e nús, abronzeados, ao lado d'uma preta robusta, provocava á lucta os amadores mais valentes.

Um realejo moia a Valsa das Rosas, e ao lado, n'uma barraca de balouços, um outro realejo gemia uma polka, emquanto que, por entre gargalhadinhas de medo, mulheres cortavam o ar nos balouços, olhando para os amantes, que as contemplavam satisfeitos.

Um pouco mais longe via-se um carrousel de cavallos de pau, enfeitado d'uma franja vermelha e azul em que scintillavam lantejoulas.

Creanças, sentadas n'aquelles animaes inoffensivos, sentiam-se felizes por fazer concorrencia aos saltimbancos, chamando sobre si a attenção embasbacada dos passeiantes.

De toda aquella multidão desprendia-se rumor confuso, onomatopeas sem sentido, cortadas pelo som d'um pandeiro ou pelas notas estridentes d'um cornetim.

No ar passavam odores acres de frituras rançosas, salchichas que ferviam em gorduras velhas no fundo de largas frigideiras, vinho azedo que bebiam pelo cangirão, café intoleravel feito do cosimento das borras e de tintura de chicoria.{73}

As tabernas regorgitavam de freguezes vorazes.

Muitos, como não tinham onde sentar-se, comiam de pé, ao sol, com o mais invejavel appetite.

A alegria franceza resaltava de toda aquella multidão franca, ruidosa, divertida.

Sentiam-se felizes por aquella excitação ardente, pelos movimentos desordenados, pelos raios do sol que lhes alumiava as faces vermelhas, pelas nuvens de pó amarellento, que se elevava até ao cimo das arvores frondosas, em virtude do caminhar continuo d'aquelle formigueiro humano.

Pelas cinco horas da tarde, um homem que desempenhava as funcções de pregoeiro, attrahiu a attenção de todos com o toque preliminar do seu tambor.

Quando viu em volta um circulo espesso d'ouvintes, dos quaes faziam parte grande numero de convivas de Pozzoli, desenrolou um largo papel e leu esta especie de proclamação:

«O violinista hungaro Remissy, aqui presente, faz saber que offerece um punch aos seus amigos e amigas no proprio local em que foi servido o almoço d'esta manhã, ao qual circumstancias imprevistas fizeram com que não tivesse o prazer d'assistir. Que todos o saibam!»

Acabada a leitura, o pregoeiro affixou o papel no{74} tronco d'uma arvore e depôz tranquillamente no chão o tambor, onde um palhaço o foi buscar.

Depois, abrindo caminho com os cotovellos, desappareceu entre a multidão.

O sol baixava, as sombras dos carvalhos alongavam-se d'instante a instante.

Os donos d'algumas barracas accenderam os lampeões.

A Linda e Antonino, que por vontade se tinham conservado perdidos dos seus companheiros, voltaram sós para o local onde estavam as carruagens, na meia luz crepuscular, sob a solemnidade grave das arvores.

O silencio augmentava á medida que avançavam.

Perdiam-se ao longe os clamores da feira e o ruido discordante da multidão.

A floresta parecia indemnisar-se da desordem que n'ella causavam, pelo contraste de socego altivo, apenas quebrado pelo ultimo chilrear das aves.

A brisa fresca, impregnada de perfumes sadios, balanceava mollemente as folhas humidas das arvores.

Pouco depois de partirem da feira, todos os convivas se achavam na clareira onde os esperavam as carruagens.

Ao centro do terreno arrelvado onde fôra servido{75} o almoço, elevava-se uma enorme taça de prata cinzelada, em que chammejava um punch magistral!

Os reflexos do punch lançavam, n'um largo raio, vibrações de luz azulada.

Remissy não apparecia.

—É necessario esperar, disse Laura, visto ter-nos convidado. Mas onde estará elle?

No mesmo instante partiu d'uma matta proxima, como resposta melodiosa, uma phrase de violino, serena e lenta, n'um rythmo phantastico e velado.

O violino de Remissy respondia á voz de Laura.

E por entre a penumbra sentiu-se como que um formigamento d'insectos, uma dança extravagante de grillos em hervas seccas, e no meio d'esse acompanhamento de pizzicato em surdina, a phrase triste repetia-se como um queixume atravez a noite!

Foi extraordinario, simples, idealmente puro!

Quando a ultima vibração melodiosa cessou, um bravo formidavel retumbou na clareira.

Remissy appareceu por entre o clarão do punch, cabeça ao vento, ostentando a sua fronte alta que prematura calvice tornava enorme, com o seu magnifico stradivarius debaixo do braço esquerdo.

—Hein! o que dizes a isto, Linda? que te parece a minha Queen Mab? disse elle dirigindo-se á cantora. Tenho dedos, não é verdade?

—Bravo! bravissimo! respondeu Laura enthusiasmada.{76} Mas isso não impede que seja um homem sem palavra. Prometteu vir almoçar comnosco e não appareceu.

—Não me falles em coisas tristes, minha filha!

Foi o maldito director do Palacio de Crystal de Londres que veiu novamente importunar-me! Imagina que parto para a capital da Inglaterra hoje mesmo, no expresso da noite. Antes de partir, porém, quiz que ouvisses a minha melodiasita.

Creados de casaca serviam o punch em copos de crystal.

Foram feitas saudes mais ou menos estravagantes.

Beberam um ultimo golo e dispozeram-se a subir para as carruagens.

Remissy despediu-se da diva, beijando-a, e subiu para o carro de posta que o trouxera.

Quando viu todos prestes a partir, Pozzoli elevou a grossa voz e disse:

—Minhas senhoras e meus senhores, tenho a dizer-lhes o seguinte: depois do campo, a cidade; o almoço campestre d'hoje teve por fim celebrar a promessa d'escriptura, no theatro dos Italianos, da diva Laura Linda; quero dar uma soirée em honra da realisação d'essa escriptura. Peço, pois, a todas e a todos os presentes que queiram ir, d'hoje a quinze dias, passar a noite em minha casa, na rua Pigolle.{77} Cantar-se-ha, dansar-se-ha, jogar-se-ha, beber-se-ha e rir-se-ha!

Uma triple acclamação victoriou o discurso do amphitryão.

Em seguida subiram para as carruagens, de volta a Paris.

—Onde está o sr. de Bizeux? perguntou Laura a Despujolles. Tenho que fallar-lhe. Quero que me acompanhe a Paris no meu coupé.

—Não faça tal, minha querida, disse-lhe em voz baixa o doutor. Durante a festa não se fallou senão na especie de monopolio que o visconde tinha feito da diva.

—Se eu era a rainha de festa, quer-me parecer que elle era o heroe d'ella.

—Sem duvida, mas siga o conselho d'um amigo. Vou subir comsigo e com o visconde para o coupé. Deixal-os-hei, se quizerem, em Verinet, d'onde seguirei para Paris no comboio. Repito-lhe: não parta só com o visconde. Lembre-se do que poderão dizer.

Laura levantou a cabeça com altivez e replicou:

—O que poderão dizer?... Que me importa?... O meu caro doutor conhece a minha divisa: ser e não parecer. Repito-lhe que tenho de conversar seriamente com o sr. de Bizeux, e não sei se, com a timidez de que elle é dotado, acharei occasião tão{78} propicia como esta. Supporá o dr. que ha na minha intenção qualquer pensamento menos digno?

—Eu? não, seguramente, mas.

—Basta-me isso. Ah! Eis o sr. de Bizeux! ajuntou ella elevando a voz. Senhor visconde, tenho que fallar-lhe. Quer subir para a minha carruagem e acompanhar-me até Paris?

—Oh! minha senhora!... respondeu Antonino meio compromettido, meio alegre.

—Então venha. Subiram para o coupé diante de todos.

—Bravo! disse Lauretto Mina a meia voz, mas por fórma que foi ouvido por todos os que o rodeavam. Vejo com prazer esboçar-se o numero um... porque eu quero ser o numero dois!{79}

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