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O Romance d'uma cantora

VIII Mais perplexidades

Salvador de Medonça translation

Antonino executou com a mais perseverante firmeza a resolução que tomára.

No dia seguinte ao do almoço em S. Germano, e nos dez ou doze que se seguiram, foi a casa da cantora, não a hora certa, e com demora indeterminada, mas sem deixar de apparecer um unico dia.

Umas vezes encontrava Laura só, outras apparecia o dr. Despujolles, sempre alegre, sempre espirituoso.

O visconde era como que uma pessoa da familia da cantora.

Fallavam d'arte, de qualquer assumpto em geral, da novidade do dia.{90}

A Linda, por vezes, quando estavam sós, fallava d'ella propria, com simplicidade, sem a menor affectação, sem se contrafazer, sem se macular.

Contava-lhe o seu passado, fallava-lhe do pae, do que tinha visto, das suas luctas, dos seus successos, das suas dôres.

Antonino absorvia assim, dia a dia, por completo, as mais insignificantes minucias da vida de Laura.

A cantora não dissimulava os seus defeitos ou os seus erros, mas não os exagerava.

No dia em que participou a Antonino que assignára, de manhã, com Pozzoli, uma escriptura d'um anno para cantar no Theatro Italiano, com a multa de cincoenta mil francos para qualquer das partes contractantes, que resolvesse rescindir o contracto, o visconde teve uma contracção nervosa.

Estava escripto que deveria levantar-se entre elles mais aquella barreira.

Antonino não demonstrou descontentamento sobre o contracto propriamente dito, mas ao mesmo tempo indicou uma profunda má vontade contra o Theatro Italiano, contra Pozzoli e o elenco, que considerou muito inferior ao do antigo salão Favart.

Sentiu ver Laura confundida com artistas de valor secundario, n'uma companhia de que Lauretto Mina era primeiro tenor.

Lauretto Mina e Pozzoli!{91}

Um, brigão e libertino; o outro, libertino e rufião!

Um, trapaceando ao jogo; o outro, explorando os duellos!

Na opinião d'Antonino aquelles dois homens representavam a escoria dos italianos.

N'aquelle mesmo dia recebeu o visconde um convite de Pozzoli, para assistir á soirée que o emprezario dava, d'ali a algumas noites, na sua casa da rua Pigolle.

Laura tencionava ir?

Emquanto a elle, estava resolvido a não pôr os pés n'aquelle bordel.

Perguntou á cantora se não sabia o que diziam de Pozzoli.

—Não é um italiano... é um grego!

Laura respondeu com meiguice.

Estava resolvida a ter com Pozzoli as relações indispensaveis que sempre ligam a escripturada ao emprezario, unicamente.

Entretanto não podia deixar d'ir á soirée, que era dada em sua honra, e na qual devia cantar um ou dois trechos de musica.

Ficaria muito reconhecida ao visconde, se elle annuisse a pôr de parte a repugnancia que sentia, e assistisse á soirée tambem.

Necessitava que Antonino estivesse presente, para velar por ella.{92}

—Devo confessar-lhe um dos meus maiores vicios, accrescentou Laura, rindo; sou jogadora. Não sei explicar nem me desculpo d'esta falta. O jogo produz-me emoções tão extraordinarias, que as procuro e as adoro. Não deixe d'ir, para que me contenha e afaste até, se eu, como costumo, me deixar influenciar demais.

—A acreditar no que se diz, respondeu Antonino, não é para a minha amiga que a minha attenção deve voltar-se, se jogar com Pozzoli.

—Bem sei. Diz-se que é muito feliz ao jogo, que principalmente os seus escripturados não devem jogar contra elle, porque muitas vezes lhes tem ganho um anno d'ordenados. Pela minha parte garanto-lhe que nunca vi coisa alguma justificativa d'essa triste reputação de Pozzoli. Apenas uma vez joguei contra elle, e levantei-me ganhando cento e cincoenta luizes. Mas não importa; se é verdade o que se diz, isso é mais uma razão para não deixar d'ir á soirée. Vae?

—Irei.

A cantora ficou satisfeita por fazer com que o visconde desempenhasse o papel de seu protector e conselheiro.

Sentia immenso prazer pedindo-lhe que a guiasse e reprehendesse, confessando-lhe as suas faltas e a sua ignorancia.

Interrogava-o sobre as viagens e estudos que elle{93} tinha feito, pedia-lhe a opinião sobre as coisas e sobre os homens, escutando-o sempre com approvação e deferencia, como um irmão mais novo escuta o irmão mais velho.

Nas palestras que tinham, cada vez mais intimas, nunca Laura deixou entrever a menor parcella de galanteio ou de vaidade.

A mulher occultava-se, chegava mesmo a desapparecer, para só ficar a amiga.

Laura percebia que com a sua encantadora simplicidade e graciosa modestia, ia contra o fim que tinha em vista, porque um homem com o caracter d'Antonino, em vez de se affastar, approxima-se cada vez mais da mulher que faz d'elle confidente da sua alma ingenua e sincera.

E effectivamente o visconde estava cada vez mais apaixonado.

Nem já conhecia o grau a que se tinha elevado a sua paixão.

Ao principio calculava o amor que sentira pela cantora, pelo ciume que experimentava.

Inquietava-se por ver com Laura os amigos intimos, como que os inseparaveis da Linda. De resto, o numero d'esses amigos era limitadissimo.

Tres ou quatro, contando com Despujolles, e Antonino conhecia-os a todos antes de ter relações fraternaes com a cantora.{94}

Quando os encontrou pela primeira vez em casa de Laura, tranquillisou-se. A Linda fallou-lhe d'elles com um socego e uma serenidade que não deixou no espirito do visconde a menor sombra de suspeita.

Socegado pelos que via, Antonino sobresaltou-se por um que não via: o tenor Lauretto Mina.

Ouvira dizer que o tenor fizera em tempo a côrte a Laura, e nem uma só vez a Linda pronunciára o nome de Lauretto.

Porque?

A verdade era que Laura temia o tenor, não por ella, mas por Antonino.

Temia-o por causa das suas continuas fanfarrices, das suas impertinencias, dos seus modos d'homem mal educado, e, emfim, pelas varias narrações que lhe tinham feito da pericia com que Lauretto jogava o sabre.

Como já dissemos, o tenor fôra ajudante d'um professor d'esgrima em Milão.

Dizia-se que conhecia dois botes ignorados, que consideravam incorrectos.

Na Italia matára um homem, e ferira gravemente um outro.

Além d'isso batera-se varias vezes, pondo sempre os adversarios fóra do combate.

E vangloriava-se do facto, dizendo que estava precavido contra qualquer acontecimento grave.{95}

Uma especie d'instincto advertira Laura de que esse acontecimento podia surgir da fatuidade do esgrimista emerito e da altivez do gentilhomem bretão.

Era essa a razão que a levava a não fallar do tenor ao visconde.

Comtudo um dia Antonino interrogou-a.

—Esse tal Lauretto Mina, com quem vae cantar no Theatro Italiano, não lhe fez a côrte em tempo?

A cantora respondeu, sorrindo e sem se perturbar, que Lauretto fazia a côrte a todas as mulheres, mas que, a primeira vez que lhe dirigira galanteios, ella respondera-lhe de fórma que elle não se atrevera a continuar.

Era a verdade, e Laura disse-a de maneira que convenceu Antonino.

De resto, fallou d'aquelle homem sem escrupulos sem vergonha, tão desdenhosamente, que o visconde arrependeu-se de ter, por um instante, suspeitado que Laura poderia ter sympathia por um patife de tal especie.

Portanto deixou de ter ciumes.

Mas em compensação o amor augmentou.{96} {97}

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