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O Romance d'uma cantora

XXIII O amante legitimo

Salvador de Medonça translation

Em Paris, como em todas as grandes cidades, o dinheiro faz milagres.

No dia seguinte pela manhã, Antonino percorreu o bairro da Magdalena em busca d'uma casa onde fizesse o ninho promettido.{282}

Encontrou o que desejava na rua da Arcada, a meio caminho da casa de Laura e d'aquella em que elle vivia.

Era o rez-do-chão d'um predio de dois andares.

Ficava alguns degraus acima do nivel da rua, e tinha, além da entrada principal, á esquerda do vestibulo, para o qual se entrava por largo portão, uma entrada particular que abria para a rua.

A casa era composta d'um salão, d'uma sala de jantar, d'um quarto grande e claro, cosinha e um outro quarto de menores dimensões.

Arrendado o rez-do-chão, Antonino chamou um estofador dos mais conceituados de Paris, e depois de conferenciar com elle durante duas horas, ficou assente que moveis e estofos guarneceriam a casa.

O estofador prometteu ter tudo concluido na tarde do setimo dia, tendo, para isso, que trabalhar no domingo d'aquella semana. E cumpriu.

Era deliciosa a ornamentação, apesar de simples.

Na sala de jantar, forrada de coiro de Cordova, elevava-se, em dois corpos, um aparador da Renascença, guarnecido de baixela de prata antiga e de faianças de Ruen, Nevers e Marselha.

O fogão, de marmore de Nuremberg, era notavel pelo relevo das suas figuras biblicas.

A mesa fôra coberta com um tapete de velludo de Gênes.{283}

O movel principal do salão era um piano Erard, construido no esqueleto d'um cravo do seculo XVIII, todo coberto de pinturas no genero das de Boucher, representando a dansa d'amores e de nymphas, n'uma paisagem celeste.

Ao fundo, as tres graças voavam para o Olympo.

A cór viva da tapeçaria que forrava o salão fazia sobresahir os quadros que Antonino mandára vir da casa de Saint-Malo, duas paysagens de Lancret, uma Venus de Fragonard, e um duplicado do Gilles, de Watteau, assignado pelo mestre.

Um lago, de Julio Dupré, defrontava com um outro, visto á hora crepuscular, de Corot.

O quarto de cama era a maior casa do rez-do-chão.

Dividiram-a, por tanto, fazendo-lhe aos lados, com divisorias, uns gabinetesinhos de toilette.

O leito, do seculo XVIII, cinzento e dourado, de linhas simples, tinha por unico ornamento, na cabeceira, dois amores sustentando um medalhão, em que se viam dois LL entrelaçados e encimados por uma corôa.

Dizia-se que aquelle leito pertencera a Luiz XV; mas os dois LL, para Antonino, queriam dizer Laura Linda.

Nas paredes, côr de perola e cereja, avultavam seis pannos chinezes, bordados, representando paysagens{284} com figuras finamente desenhadas e admiravelmente coloridas.

Viam-se por todos os lados tapetes, da Persia do mais raro bom gosto.

Nem um só objecto que compunha a mobilia do rez do chão era de mediano valor.

Mas, mais do que riqueza, impunha-se a elegancia e o fino gosto de quem presidira á decoração das casas.

O estofador encarregára-se d'enviar da praça da Magdalena tudo o que respeitasse a cosinha.

D'esta fórma apenas d'um creado necessitariam.

Jacintha estava naturalmente indicada para esse serviço.

Laura e Antonino podiam contar com a dedicação e a discrição da creada.

Ella bastaria para servir á meza e para vestir a cantora.

O visconde mandou mobilar para Jacintha o outro quarto da casa.

Como a ornamentação não destoasse da restante, Jacintha, satisfeitissima, declarou que nunca tivera quarto mais bello.

Com um simples toque de campainha, ella estaria em tres segundos junto de Laura, quando os seus serviços fossem necessarios.

A nova casa foi inaugurada á hora prefixa, precisamente{285} oito dias depois da representação dos Huguenottes.

N'essa noite a Linda cantava o Roberto o Diabo.

Antonino levou-a, com Jacintha, logo que o espectaculo terminou, encantado,—tanto como ella, de resto,—da sua nova felicidade conjugal.

Combinaram, como regra geral, mas sem prejuiso de quaesquer outras noites, que elles partiriam para o ninho em seguida a cada representação, quando Laura estivesse ainda vibrante da emoção que lhe causassem os applausos, e duplamente palpitante da vida do papel que desempenhára e da vida propria.

Antonino assignára um fauteuil d'orchestra junto á scena.

Como d'antes, applaudia pouco a Linda, não juntava as suas ás acclamações que a chamavam nos finaes d'acto.

Mas como d'antes, mais do que d'antes talvez, saboreava em silencio o extasi em que o mergulhava a voz da mulher adorada.

Ella, pelo seu lado, não lhe sorria, não o olhava.

Mas sabia que o visconde estava proximo, conhecia a cadeira em que elle se sentava, e como era para Antonino que cantava, jámais cantara melhor.

O visconde nunca mais sentiu ciumes de Lauretto Mina, ou de quem quer que fosse.

Ambos se consideravam felicissimos por aquella{286} encantadora vida, alegre como a phantasia, doce como o habito.

O creado d'Antonino, de cada vez que o visconde não dormia em casa, dizia que elle ficava em casa de Linda.

Os creados da cantora sempre que ella só de manhã voltava para casa, pensavam que Laura tivesse passado a noite em casa do visconde.

Geralmente Antonino voltava para o boulevard Haussmann ao amanhecer.

Laura, porém, só deixava o ninho a hora adiantada da manhã.

Sahiam e entravam sempre pela porta que abria para a rua.

O porteiro, que tinha o seu cubiculo no vestibulo do predio, nunca vira a Linda.

De dia os dois esposos viam-se officialmente.

Passeavam de dia no Bosque, de carruagem, e á noite partiam juntos para o theatro.

Antonino, uns dias por outros, mandava presentes a Laura: flores ou joias.

De tarde visitava-a, invariavelmente á mesma hora, e jantava com a esposa muitas vezes.

Sempre, porém, que Laura não estava só, elle retirava-se conjuntamente com as outras visitas, d'ordinario o dr. Despujolles, ou raros outros amigos.{287}

Laura recebia menos admiradores na casa da rua Boudreau, do que d'antes na rua de Bolonha.

Reatára apenas relações com tres ou quatro admiradores mais intimos, e que o eram tambem do visconde.

Todos elles tinham estado, n'outro tempo, mais ou menos apaixonados pela Linda.

Mas como eram homens bem educados, e de mais a mais amigos d'Antonino, que consideravam o amante official de Laura, não faziam a côrte á diva.

Apenas não tinham perdido completamente a coragem.

Pensavam que mais cedo ou mais tarde conseguiriam os seus fins, e esperavam com paciencia digna de melhor sorte.

Lauretto Mina, mais indelicado que elles, não guardava a mesma reserva nem possuia identica paciencia.

No mundo dos bastidores sabe-se tudo o que respeita a qualquer artista.

O tenor sabia portanto, a situação em que se encontravam Laura e o visconde, e agourava bem d'essa situação.

Um dia disse á Linda, no foyer dos artistas, motejando:

E então, minha querida, tinha ou não razão quando lhe dizia na ilha de Cézambre,—lembra-se?—que{288} o seu casamento não me parecia dos mais serios? Os habitantes de Saint-Malo, que não primam pela finura, parece que viram o demonio quando tiveram conhecimento de semelhante união. De resto, acho que procedeu sensatamente definindo a sua situação. Vale mais ter um amante certo, de que um marido duvidoso.

—Sinto-me satisfeitissima por merecer a sua approvação! respondeu Laura no mesmo tom.

—Por esta fórma, proseguiu Lauretto, todos terão esperanças. Os que estão apaixonados pela sua pessoa,—e eu creio que pelo menos conhece um,—veem agora augmentar infinitamente o numero das probabilidades favoraveis.

—Suppõe isso? Pois eu supponho que o numero de probabilidades não augmenta nem diminue pelo facto do sr. de Bizeux ser meu marido ou meu amante. O que influirá n'esse numero é que eu ame ou não o sr. de Bizeux.

—Perdão! o caso é diverso! insistiu o tenor.

E accrescentou, dirigindo-se ao baritono, que n'esse momento entrava no foyer:

—Não é verdade, Gressier, que amando eu Laura Linda, tenho mais probabilidades de conseguir os meus fins defrontando-me com um amante de que tendo na frente o marido?

—Está enganado, sr. Lauretto Mina, apressou-se{289} Laura a responder sem dar tempo a que o baritono fallasse. Não é porque eu ame um outro homem que não o amaria ao sr. Posso não amar ninguem, que nem por isso lhe pertencera o meu amor.

E voltando as costas ao tenor, sahiu.

—Ah! ah! decididamente não avanças um passo, meu caro! disse Gressier, rindo.

—Engano! respondeu seccamente Lauretto, que empallidecera extraordinariamente. Estou quasi a attingir o meu fim, e em breve te darei provas irrefutaveis do que avanço.

Laura, passado o primeiro momento, arrependeu-se de provocar a irritação do tenor, respondendo-lhe por fórma a feril-o no seu amor proprio.

Agora mais do que nunca ella temia um possivel conflicto entre Antonino e Lauretto.

Lembrava-se incessantemente das palavras, prefurantes como laminas, que o tenor pronunciára uma noite, sentado tranquillamente junto ao fogão do foyer.

Fallava-se d'um duello realisado n'aquelle dia, que tinha chamado a attenção de toda a gente.

—Ora adeus! dissera Lauretto. As galerias facilmente se commovem pelos duellos d'agora, que quasi sempre terminam por simples arranhaduras! Por mim, estou resolvido a nunca provocar ninguem, e, mesmo quando provocado, a só me bater se o insulto{290} recebido fôr d'ordem a não acceitar desculpas, porque eu, infelizmente, não arranho nem firo, mato.

Era por essa razão que Laura deligenciava não sentir-se offendida pelas impertinencias que o tenor lhe dirigia por vezes.

Fingia não as comprehender, e até não as ouvir.

Ella era tão feliz!...

E aquella felicidade que gosava, prolongou-se por tres mezes, sem uma só nuvem que a escurecel-a.

Antonino, pela sua parte, só tinha um desejo: tornar a ver seu pae.

Mas o conde, a quem o filho não quizera occultar o que elle chamava o seu romance, não queria, por dignidade, ir a Paris emquanto durasse uma tal situação.

—Acautella-te, escrevia elle ao visconde, occultas tua mulher como se occulta uma amante. Acho perigoso esse teu procedimento. Não me parece razoavel tentar o perigo, misturar o que ha de mais serio e de mais sagrado no amor com o disfarce, com a mascara, com a aventura.

Seria isto um presentimento da fina intuição paterna?

Uma noite, pelas quatro horas da madrugada, Laura, envolvida n'um largo manto, foi, segundo o costume, acompanhar e alumiar seu marido até á escada que descia para a rua.{291}

Demorou-se no patamar até que Antonino, sahindo, fechou a porta sobre si.

Ao entrar no quarto, a Linda soltou um grito.

Lauretto Mina estava sentado na cadeira de que pouco antes Antonino se levantara.

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