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O Romance d'uma cantora

XXVI O desafio

Salvador de Medonça translation

Ao entrar no quarto de sua mulher, Antonino encontrou Jacintha ajoelhada aos pés de Laura, dizendo-lhe arrependida:

—Oh! minha senhora, perdôe-me!

Levantou a creada e contou o que ella fizera, a sua presença d'espirito, a sua coragem.

—Sahiu, metteu-se n'uma carruagem que encontrou no boulevard Malesherbes, e foi chamar-me a casa. Felizmente eu não me deitára ainda, e vim immediatamente. Foi ella que causou todo o mal, mas devemos confessar que foi ella tambem que tudo remediou.{316}

Laura socegou Jacintha, consolou-a.

Pelas suas proprias mãos envolveu em algodão em rama os pulsos queimados da creada de quarto, emquanto não podesse ser feito outro tratamento, acompanhou-a ao quarto, deitou-a, e só a deixou quando a viu adormecida.

Voltou para junto d'Antonino.

Até então podéra conter-se, mas a reacção veiu, por fim.

Cahiu sobre um fauteuil e chorou, murmurando:

—Ah! que noite! que scena!...

—Socega, minha querida Laura, disse-lhe Antonino pegando-lhe nas mãos. Passaste uma hora terrivel, que felizmente não se repetirá. Acabou-se!

—Acabou-se! repetiu Laura abanando a cabeça. Se tudo estivesse terminado não me sentiria eu inquieta. Comprehendo que pelo espantoso perigo que corri tu não podesses suffocar a tua indignação. Insultaste terrivelmente esse miseravel. Conheço-o. Lauretto não possue apenas uma alma vil, possue tambem uma alma má. Vingar-se-ha com certeza.

—Pois suppões?... Estás enganada. Eu puni-o justamente para não ter que o provocar. Verás que, elle tambem, não se atreverá a ser o provocador.

—E se fôr?

—Dão-se explicações d'um insulto e não d'um castigo. Recusarei bater-me com esse homem.{317}

—Promettes, Antonino? juras? Necessito ter a certeza... A duvida incommoda-me sobremaneira; Tinha razão teu pae na ultima carta que te escreveu, e me mostraste. O muito que me amas fez com que quizesses agradar á minha phantasia d'artista, collocando-me n'um meio romanesco e poetico, que tinha muitos encantos, mas que não era isempto de perigos. Seriamos felizes se não houvesse invejosos e maus. Estou convencida que foi a nossa situação equivoca que causou todo o mal.

Calou-se por instantes, como que absorvida por occulto pensamento.

Depois proseguiu:

—Lauretto ter-me-ia respeitado se estivesse certo de que eu era tua mulher. Porque será que, amando-nos tanto, não podemos pôr d'accordo as nossas existencias, como puzemos os nossos corações?

Novas lagrimas rolaram-lhe pelas faces.

Antonino seccou-as com beijos, esforçando-se por tranquillisar a esposa com phrases ternas.

—Escuta, disse ella, tenho o presentimento que atravessamos uma hora terrivel, e quero fallar-te com toda a gravidade. Tenho a annunciar-te uma resolução seria que tomei, e uma noticia agradavel a dar-te. A resolução é que, decididamente, renuncio ao theatro. A noticia...—fallemos baixo!—desejava esperar alguns dias para te fallar nisso... Mas não...{318} não posso esperar... tenho a certeza!... A noticia é que, o meu constante sonho de mezes e annos, vae realisar-se emfim! Antonino, no meu ser havia duas partes distinctas: tinha, por meu pae, o sentimento artistico, e por minha mãe o sentimento maternal. Até hoje pareci-me com meu pae, d'hoje para o futuro parecer-me-hei com minha mãe!

Antonino ajoelhou aos pés de sua mulher, envolvendo-a nos braços, louco d'alegria.

—Um filho!... O nosso filho!... murmurou elle.

E cobriu-lhe de beijos as mãos.

Ella retribuiu-lhe as caricias, e continuou:

—És feliz, não é verdade? Pois bem: procede de fórma a dissipar a nuvem sombria que, n'este momento, escurece a minha felicidade. Tens agora novos deveres. A tua vida não te pertence unicamente, é tambem minha, é nossa. Peço ao pae um juramento sagrado: peço-te, sob tua palavra d'honra, que em caso algum, nem mesmo provocado por Lauretto Mina, exporás a tua vida contra a d'esse miseravel.

Antonino hesitou.

—Sob minha palavra d'honra?... Nem mesmo provocado?... repetiu elle.

—Ah! hesitas!... disse Laura.

Elle percebeu a profunda anciedade de Laura.

Reflectiu n'um instante que uma mulher póde acreditar n'um compromisso tomado por aquella fórma,{319} mas que em taes circunstancias esse compromisso não obriga um homem.

Portanto replicou:

—Não hesito. Dou-te a palavra que me pedes.

—Ah! obrigada!...

Tomou-lhe a cabeça entre as mãos e beijou-o na fronte.

Seguidamente começaram, cheios de confiança e de fé, a traçar o plano da sua nova vida.

Laura desejava deixar Paris immediatamente, mas concordou que a partida, assim precipitada, semelhava a fuga.

Demorarar-se-iam ainda quatro ou cinco dias, para regular os seus negocios.

Como estava escripturada por espectaculo, a Linda não tihha de pagar multa na Opera.

Partiriam, depois, para Italia, onde o conde de Bizeux se lhes juntaria.

Em regra, passariam o inverno nos paizes do sul, Italia, Hespanha, Grecia, Egypto, Algeria, e os estios em Saint-Pol-de-Léon.

Conversaram até ás sete horas da manhã.

A essa hora Antonino deixou Laura, para que ella dormisse um pouco.

Ficou resolvido que elle não voltaria mais áquella casa. O visconde procuraria Laura, de tarde, na rua Boudreau.{320}

Até ao dia da partida, jantariam e dormiriam ali, devendo Antonino voltar á casa do boulevard Haussmann apenas para tratar de pormenores materiaes.

Laura adormeceu em breve, esperançosa e feliz.

Antonino, chegado que foi aos seus aposentos de rapaz, estirou-se sobre um canapé.

Não podia conciliar o nome.

Previa, preoccupado, o que se ia passar.

Desejava lavar, com uma execução summaria, a offensa recebida, principalmente para que o nome de sua mulher não fosse envolvido na questão.

Entretanto, percebia que se descobrira ante Lauretto Mina, e que entre elles o insulto e o conflicto não podia deixar de terminar por duello.

Ás onze horas o creado foi levar-lhe os cartões de Nobillet, o pianista, e de Gressier, o baritono.

Não poude deixar d'estremecer, dando ordem para que fosse introduzidas as visitas.

Laura tinha razão: a vida para elle duplicára de valor, desde a vespera.

Lauretto Mina escolhera aquellas testemunhas, porque tanto Nobillet como Gressier, tinham assistido á scena de Remissy no concerto de Saint-Malo, e conheciam um pouco os incidentes e o visconde.

Foi Nobillet quem fallou.

—Vimos da parte, do sr. Lauretto Mina, sr. visconde, disse elle. O nosso collega assegura que vossa{321} ex.ª o insultou esta noite, gravemente. O nosso primeiro dever era procurar o sr. visconde para vereficarmos se as suas explicações condizem com as do nosso constituinte. Disse-nos o sr. Lauretto Mina que em tempo tivera relações com uma rapariga ao serviço da sr.ª viscondessa de Bizeux; parece que essas relações foram agora reatadas, e que elle passou a noite anterior no quarto d'essa rapariga. Por acaso vossa ex.ª encontrou-o, e sem razão, sem provocação da parte d'elle, agarrou-o pelo casaco como se fôra um gatuno vil, arrastou-o para o vestibulo, indicando o nome d'elle, por entre injurias, ao porteiro do predio, e arremessando-o depois para a rua, com violencia. São verdadeiras estas declarações, sr. visconde?

—Completamente...

—Vossa ex.ª pode naturalmente interpretal-as e explical-as, e nós estamos ás suas ordens para acceitar os esclarecimentos com que quizer honrar-nos.

—Nada tenho que explicar, replicou Antonino. Encontrei o sr. Lauretto Mina sahindo do quarto da creada da minha mulher, na casa que ella habita. Irritei-me e pul-o fóra.

—Vossa ex.ª disse em voz alta que elle tinha violentado a rapariga. O sr. Lauretto Mina affiança que não houve a menor violencia.

—Ignorava e ignoro esse facto.

Nobillet proseguiu:{322}

—Ser encontrado no quarto d'uma mulher, ainda que ella seja creada, não é deshonra para um homem. Para que vossa ex.ª se irritasse até á indignação e á violencia, por um facto que realmente não tem gravidade, de certo houve razões estranhas a esse mesmo facto. Somos homens honrados fallando com um homem honrado, sr. visconde; esperamos, pois, que nos julgue capazes d'apreciar e comprehender essas razões.

Nobillet e Gressier adivinhavam que havia um mysterio em todo aquelle negocio.

Nem um nem outro tinha grande consideração pelo caracter de Lauretto Mina, de quem conheciam os terriveis antecedentes de duellista.

Comtudo não tinham podido recusar-se a servir-lhe de intermediarios na conclusão do conflicto.

Entretanto esperavam que o visconde lhes fornecesse uma razão ou ao menos um pretexto para declinar a sua penosa missão.

Desejavam pois que Antonino pronunciasse uma só palavra n'esse sentido.

O visconde, porém, limitou-se a responder:

—Agradeço-lhes os termos delicados com que expozeram a questão. Sinto a mais alta consideração por vossas ex.as, mas não só posso dar do meu procedimento outras razões além das que já conhecem, porque não existem.{323}

As duas testemunhas olharam-se consternadas.

Depois Gressier disse:

—Observar-lhe-hei, sr. visconde, que se o sr. Lauretto Mina o não offendeu tambem, é elle que deve considerar-se offendido, tendo, portanto, o direito de exigir ou desculpas ou uma reparação pelas armas.

—Não estou disposto a pedir desculpas, disse Antonino com voz firme. De resto supponho que não seriam acceites.

—É claro que, reconhecendo-lhe a qualidade d'offendido, deixa-lhe a escolha das armas... disse Gressier.

—E sei antecipadamente que elle escolherá o sabre, respondeu Antonino, sorrindo.

E levantando-se, accrescentou:

—Mais uma vez lhes agradeço, meus senhores, a sua delicada intervenção, e a fórma correctissima do seu procedimento. Terei a honra de os pôr em relações com dois dos meus amigos, os srs. conde de Bauriac e barão de Chazeuil. Procural-o-hão esta tarde em sua casa, sr. Nobillet.

Os tres cumprimentaram-se com silencio.

O visconde acompanhou-os até á escada.

Cumprimentaram-se novamente, e as duas testemunhas desceram, mais inquietas que o proprio visconde.{324}

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