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O Romance d'uma cantora

XXIV Jacintha

Salvador de Medonça translation

Jacintha, como já dissemos, tinha por Laura uma dedicação sem limites.

Far-se-ia matar pela cantora, e, se a diva morresse, ella não lhe sobreviveria por muito tempo, com certeza.

O peor era que a creada não possuia apenas a fidelidade canina do irracional.

As admoestações, as severidadese as irritações de Laura faziam-a chorar deveras, porque possuia um bom coração.

Mas arrependia-se e não se emendava.

A Venus antiga divertia-se, ligando-se completamente áquella humilde presa.

Por infelicidade, a belleza picante de Jacintha, os seus grandes olhos pretos e brilhantes, a tez morena{292} e fresca d'andaluza, a cintura delicada e o agradavel conjuncto de toda a sua pessoa, davam-lhe um grande numero de cumplices.

Lauretto Mina, como indicámos, pertencera a esse numero.

O formoso tenor não desdenhára colher aquella flôr modesta.

Colhera-a e passára.

Não era homem para perder muito tempo em negocios de semelhante natureza.

Apesar d'isso Jacintha ficára singularmente lisongeada por contar, na collecção dos seus admiradores, um artista, um verdadeiro artista, de que grande quantidade de damas da primeira sociedade tinham disputado a posse, segundo ella suppunha.

Em Saint-Malo, na numerosa creadagem das casas proximas, Jacintha, sempre picante e attrahente, fôra muito cortejada.

E não tinham sido apenas os creados a darem-se a esse passatempo.

Os proprios patrões deram-se ao incommodo de render homenagens á creada de Laura.

Afinal, na grande sociedade—está provado!—as cosinhas não recebem peor gente que os salões.

Lembrar-se-hão sem duvida que, na manhã em que Laura resolvera abandonar a casa de seu marido, encontrára vasio o quarto de Jacintha.{293}

No dia seguinte, quando a creada se reuniu á cantora em Paris, Laura admoestou-a com toda a severidade, como costumava.

Sem se incommodar com a torrente de lagrimas que corria pelas faces de Jacintha, e com as quaes a creada tratava lavar a falta commettida, Laura demonstrou-lhe quanto era indigno um procedimento d'aquella ordem.

Disse-lhe que a devia abandonar completamente.

Mais uma vez, porém, lhe perdoaria, sob condição de Jacintha lhe dar a sua palavra de que não voltaria a praticar o menor desmando.

E affiançou-lhe que, no primeiro caso dado, a encontraria inflexivel.

Jacintha, desfeita em lagrimas, prestou todos os juramentos possiveis.

Tomou para testemunhas todas as virgens da côrte do ceu, promettendo seguir os seus exemplos.

Antes quereria perder a vida do que ser abandonada por Laura.

A admoestação aproveitar-lhe-ia.

Jámais o demonio se apossaria dos seus sentidos.

Laura fingiu acreditar nas promessas de Jacintha, que, sem serem solidas, eram com certeza sinceras.

Entretanto tomou algumas precauções.

Resolveu não admittir creados moços na sua modesta casa da rua Boudreau.{294}

Escolheu um casal já idoso.

O marido tinha cincoenta annos e a mulher quarenta e cinco.

Durante tres mezes Jacintha foi um verdadeiro modelo de honestidade.

Nunca sahia só, e quando acompanhava Laura ao theatro jámais transpunha a porta do camarim.

Mas no momento da chegada do visconde a Paris, os seus remorsos começavam a cicatrisar.

A installação mysteriosa no rez-do-chão da rua da Arcada produziu-lhe terrivel effeito.

Laura, porém, percebeu sem perda de tempo que Jacintha começava novamente a andar mais ligeira.

Aquella acceleração de movimento no corpo correspondia a movimentos, accelerados tambem, no espirito.

Ao ver a felicidade que disfructava Laura, sentia extraordinaria melancholia.

—Como o sr. visconde ama a senhora! murmurava ella. Ah! a senhora é bem feliz!...

—Se continuares a portar-te bem, dizia-lhe Laura, acharás qualquer dia um bom marido.

—A senhora achou, respondia Jacintha, mas eu, para o achar, necessitarei procurar.

Uma busca d'este genero é sempre um perigo para uma natureza inflammavel. Se Laura, n'aquella occasião, tivesse reparado, comprehenderia o perigo, verificaria{295} que a virtude começava a ser demasiado pesada para Jacintha.

Uma noite, ao atravessar um corredor do theatro, a creada deu de cara com Lauretto Mina.

O tenor pôz-lhe uma das mãos na fronte, levantou-lhe o queixo com a outra, e disse-lhe:

—Sabes que estás cada vez mais bonita? Declaro-te que nunca te amei tanto como agora.

Não se contentou com palavras.

Passou-lhe um braço em volta da cintura, levou-a para um canto pouco alumiado, inclinou-lhe o corpo para traz e deu-lhe um demorado beijo na bocca.

Jacintha voltou para o camarim muito perturbada.

O seu quarto na rua da Arcada era tão bonito!

Devia haver muitas senhoras que o invejassem!

Esta circumstancia foi mais uma tentação.

Pois só ella é que havia admirar aquella verdadeira belleza?

Era possivel que o tenor, mesmo em casa de duquezas, não tivesse visto um quarto tão encantador como aquelle.

Jacintha por coisa alguma trahiria Laura.

Em tempo, Lauretto Mina tinha tido a prova d'essa verdade.

Não se arriscou, por isso, a fazer-lhe perguntas directas sobre o visconde ou sobre a Linda.

Mas, depois d'uma scena de seducção admiravelmente{296} bem desempenhada pelo tenor, uma noite, durante um entre-acto, Jacintha foi forçada a dar-lhe todas as indicações necessarias, para que elle podesse entrar n'aquelle delicioso quarto, que para ella era um verdadeiro ninho d'amor.

Pela uma hora da manhã, em quanto Antonino e Laura estivessem á mesa, ceiando, ella iria abrir-lhe a porta da rua, e, pelo longo corredor, para o qual abriam todas as portas interiores, introduzil-o-hia no quarto. Depois iria ter com elle, logo que os dois esposos se deitassem.

O tenor sahiria, entre as quatro e as cinco horas da manhã, quando o visconde tivesse partido.

Nada era mais simples, mais facil, mais seguro.

Foi assim que, na noite de que já fallámos, Lauretto Mina estava ás tres horas e meia da madrugada no quarto de Jacintha.

Áquella hora a creada dormia profundamente.

Lauretto levantou-se sem fazer ruido.

Sobre a meza da cabeceira estava acceso um candieiro.

O tenor tirou uma navalha da algibeira, abriu-a, e cortou os cordões d'um reposteiro.

Em seguida voltou ao leito, pegou na mão direita de Jacintha e approximou-a levemente da esquerda.

Ella descerrou vagamente as palpebras e perguntou:{297}

—Já te levantaste?

—Não, não, respondeu o tenor. Ainda é cedo.

Reuniu bruscamente as duas mãos e, n'um segundo, ligou os pulsos de Jacintha com tres ou quatro voltas do cordão, que atou n'um nó rapido. Ella accordou sobresaltada e tentou gritar.

Mas o tenor applicou-lhe sobre a bocca uma mordaça que levava, prendendo-lh'a solidamente atraz do pescoço.

Jacintha deu com os pés na roupa da cama, tentando saltar do leito.

O tenor ligou-lhe os pés com o cordão, como lhe ligara as mãos.

Em seguida verificou se todos os nós estavam bem dados.

Assim presa, Jacintha apenas podia fazer alguns movimentos quasi imperceptiveis, que Lauretto impossibilitou ainda comprimindo-a com a roupa da cama.

Depois, o tenor vestiu-se lentamente.

Entreabriu a porta do quarto, e escutou.

Voltou para junto do leito, e vendo que Jacintha não se movia, destapou-a, inquieto, e tirou-lhe a mordaça.

A infeliz estava desmaiada.

O ar livre que respirou, reanimou-a um pouco.

Antes que a creada recuperasse completamente os{298} sentidos, Lauretto tornou-lhe a pôr a mordaça, mas apertando-lh'a menos, e deixando-lhe as narinas a descoberto.

Depois voltou novamente para junto da porta.

Sentiu o visconde sahir, sendo acompanhado por Laura até á escada.

Ouviu as palavras de despedida que ambos trocaram.

Então transpôz o corredor, abriu a porta do quarto de Laura, e entrou.

Jacintha, que recuperara os sentidos, viu e comprehendeu tudo.

O miseravel armara ardilosamente aquelle laço á sua fraqueza, e ella cahira estupidamente, como uma ingenua.

Não era por ella, mas por Laura, que elle ali fôra.

A Linda, é claro, não tornara a sua creada de quarto confidente das impertinencias de Lauretto.

Jacintha, porém, recordava-se agora de certas circumstancias e d'algumas palavras pronunciadas pelo tenor.

Não podia duvidar.

Era Laura quem elle desejava.

A Linda estava n'esse momento á discrição do insolente.

E fôra ella, Jacintha, ella, que teria dado a vida pela cantora, que a entregara áquelle miseravel!{299}

Ao ter este pensamento a infeliz sentiu-se gelada de pavor.

Deixaria ella commetter um tão infame crime?

Apenas podia soltar alguns gemidos inarticulados.

As mãos e os pés ligados paralysavam-lhe todos os movimentos. Como arrancar a mordaça?

Como cortar os cordões que a atavam?

O tempo passava, e ella não achava que responder áquellas perguntas.

As lagrimas corriam-lhe pelas faces.

Olhou para o candieiro acceso.

Lauretto achara desnecessario apagal-o. Para que?

Subitamente accudiu-lhe ao espirito uma idéa.

Nem um instante hesitou.

Encolheu-se, torceu-se, rebolou-se, e, lentamente, firmando-se nos cotovellos e nos joelhos, conseguiu elevar-se pouco a pouco, acima do travesseiro.

Esta operação difficultosa durou dez minutos.

Quando chegou com as mãos ligadas até ao angulo do leito, agarrou-se a elle, e, com um esforço acabou de se elevar.

Então, com um movimento decidido, chegou á luz do candieiro os cordões que lhe prendiam os pulsos, que foram tambem attingidos pela chamma.

A dôr era insupportavel.

Por vezes, sentindo-se prestes a soltar um grito, retirava os pulsos da luz.{300}

Mas em seguida, considerando aquelle facto como uma indesculpavel cobardia, chegava novamente á chamma a carne já queimada.

Uma das voltas do cordão quebrou por fim.

Mas não era a que formava o nó.

Foi indispensavel continuar a tortura, com todas as precauções e cuidados.

E sentia-se feliz por poder dizer de si para comsigo:

—Soffre, leviana, soffre o castigo da tua falta!

O cordão cedeu emfim.

Então, com um movimento rapido, desembaraçou-se dos bocados que ainda a prendiam, e, sem reparar para o misero estado em que tinha os pulsos—porque o tempo urgia—sentou-se na cama, e desligou os pés, ainda que com bastante custo.

Levantou-se, procurou uma tesoura, e cortou os cordões da mordaça.

Estava livre!

Vestiu-se sem perda d'um segundo.

As mãos, tremulas ainda pelo supplicio supportado, difficilmente cumpriam a sua missão.

Sentia-se banhada em suor frio.

Não prestou attenção á fórma pela qual se vestia.

Pensava.

O que deveria fazer? Acordar o porteiro? Esse meio poderia ser bom meia hora antes. N'aquelle momento,{301} como era possivel que o crime estivesse consumado, era necessario não fazer escandalo. N'aquelle negocio não devia intervir qualquer pessoa estranha.

Logo que se apromptou, metteu na algibeira o dinheiro que pozera sobre a meza, e seguiu pelo corredor, abafando o ruido dos passos.

Parou em frente da porta do quarto de Laura e escutou.

Não duviu o menor rumor.

Aquelle silencio seria de bom ou de mau presagio?

Não se atrevia a decidir.

Continuou pelo corredor, desceu a escada, abriu cautellosamente a porta e achou-se na rua, deserta áquella hora.

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