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O Romance d'uma cantora

XXI A fuga

Salvador de Medonça translation

Laura perguntou a si mesma se fazia bem abandonando á sua sorte essa louca inconsciente, Jacintha.

Pensou:

—Devo deixar aqui toda a especie d'affeição?

Lembrou-se da dedicação cega que Jacintha tinha por ella, dedicação que a levaria a lançar-se ao mar, quando soubesse que Laura a tinha deixado.

Depois de reflectir, resolveu-se.

Escreveu em meia folha de papel algumas palavras a Jacintha, e foi ao quarto da creada collocar o papel sobre uma mesa.

Recommendava-lhe que de manhã tomasse, o mais{249} occultamente que lhe fosse possivel, o comboio de Paris, que partia ás oito e meia.

Logo que chegasse á capital, procural-a-hia no Grande Hotel, designando-a por madame Linda.

A Marieta, a outra creada, recommendava Laura que lhe enviasse, para o Grande Hotel tambem, os vestidos e de mais roupas do seu uso.

Ao escrever estas recommendações, Laura pensava:

—Por esta fórma saberá Antonino onde encontrar-me.

Isto feito, metteu n'uma pequena mala o dinheiro que possuia, joias, cartas, alguns objectos insignificantes,—pura recordação,—e outros essenciaes.

Depois olhou tristemente, correndo-lhe as lagrimas pelas faces, para aquelle quarto, onde, apesar de tudo, passara horas tão felizes.

Foi appoiar a fronte, que abrasava, ao vidro frio da janella.

Uma claridade, baça ainda, envolvia a cidade e estendia-se sobre as aguas da bahia.

As ondas tomavam reflexos cinzentos.

Os pharoes distantes picavam de pontos avermelhados a meia obscuridade, e desappareciam pouco a pouco na claridade livida, em que as ultimas estrellas se perdiam.

Os pombos voavam dos beiraes para as ruas.{250}

No azul pardacento do ceu destacavam-se as velas dos barcos, que manchavam a côr d'ardosia do mar.

Laura saccudiu bruscamente a cabeça.

Parecia querer, com aquelle movimento, afugentar os pensamentos que a torturavam.

Retirou de sobre a mesa tudo o que n'ella havia, para que a sua carta para Antonino ficasse bem em evidencia.

Poz um chapeu de côr escura, um veu espesso, e embrulhou-se n'uma capa cinzenta.

A escada de serviço, que subia até ao quarto de Jacintha, descia para a rua, do lado da casa opposto ao mar.

A porta estava sempre fechada por um ferrolho interior.

Laura abriu a porta do seu quarto com toda a precaução, caminhando na ponta dos pés, para abafar o ruido dos passos, porque o quarto d'Antonino, separado do d'ella apenas por um corredor, tinha tambem uma porta para aquella escada.

No patamar parou por um minuto.

O coração batia-lhe apressadamente. Escutou.

Antonino não estava deitado.

Laura ouvia o ruido dos passos d'elle.

Passeiava vagarosamente.

A Linda esteve quasi a entrar no quarto do marido, lançando-se-lhe nos braços.{251}

Resistiu á tentação.

Enviou-lhe apenas, com as pontas dos dedos, um beijo silencioso, e principiou a descer lentamente, sem fazer o menor ruido.

Um dos degraus gemeu sob o peso.

Teve medo.

Com um movimento ligeiro saltou os tres ultimos degraus, cahindo sobre o tapete que havia ao fim da escada.

Levantou-se, abriu cautellosamente o ferrolho, descerrou a porta e sahiu para a rua.

O ar frio da madrugada fez-lhe bem.

Dirigiu-se para o caes, atravessando as ruas estreitas e tortuosas da velha cidade.

Um relogio dava cinco horas n'uma torre proxima.

Os carpinteiros, os pintores e os calafates, caminhavam em grupos, dirigindo-se ao trabalho.

As mulheres das hortas proximas, sentadas sobre os burros carregados de legumes e hortaliças, chegavam do campo, em cavalgadas alegres, rindo alto, e dirigindo, umas ás outras, os velhos motejos gaulezes, para attrahirem a attenção dos homens que encontravam.

Laura percebeu que todas aquellas mulheres a olhavam curiosamente, e ouviu, ao passar, os seus commentarios licenciosos.

Quando chegou á gare era dia.{252}

O comboio expresso da manhã partia ás cinco e meia.

Tomou um compartimento completo, e foi sentar-se para a sala d'espera, pensativamente.

Estava como que alheiada do que se passava em volta d'ella, quando o silvo da locomotiva a chamou á realidade.

Faltavam apenas cinco minutos para a partida do comboio. Entrou apressadamente na gare.

De repente estremeceu.

A primeira pessoa que viu foi Lauretto Mina, fumando no seu charuto.

Ao vel-a, o tenor dirigiu-se a Laura e disse-lhe, um pouco admirado:

—Parte para Paris, Linda?

—Parto, respondeu ella, continuando a caminhar para a sua carruagem.

Mas logo em seguida perguntou:

—Remissy não parte agora?

—Não, respondeu o tenor caminhando ao lado da sua interlocutora. Está muito fatigado. Deve seguir no comboio do meio dia. Eu parto, porque necessito fallar esta noite com o director da Opera, sem falta. Quer que lhe falle de si, ou, como não podia dizer em Saint-Malo que a senhora era a Linda, ser-me-ha interdicto dizer em Paris que a Linda é a viscondessa de Bizeux?{253}

—Proceda como entender...

Chegou ao compartimento que tomára.

Ao abrir a portinhola, o tenor disse-lhe:

—Mas diga-me, cara mia...

—Senhor, respondeu Laura com dignidade, já nos cumprimentámos. Como vê, estou só e o senhor é um homem sufficientemente bem educado para não me acompanhar por mais tempo.

E subiu lestamente para a carruagem.

Lauretto cumprimentou-a, mordendo os labios.

Deitou fóra o charuto e tomou logar n'outra carruagem, murmurando por entre dentes:

—Tu me pagarás, vibora!

Quando o comboio estava proximo da estação de Dol, o tenor escreveu algumas palavras a lapis n'uma folha da carteira, rasgou essa folha, e, logo que o comboio parou na estação, apeiou-se, chamou um empregado a quem entregou o papel e uma moeda de cinco francos, dizendo apenas:

—Para o telegrapho.

O telegramma era concebido da seguinte fórma:

Visconde de Bizeux.—Saint-Malo.

Vi no expresso de Paris a Linda e Lauretto Mina.

Um amigo.

Antonino, estendido sobre o divan do quarto, dormia um somno pesado, respirando a custo.{254}

Um pouco antes das nove horas, o criado entrou, apesar do visconde não ter chamado.

Antonino acordou ao ruido feito pela porta ao abrir-se. O criado disse:

—Perdão; o sr. visconde não chamou, mas como este telegramma chegou ha mais de uma hora, pareceu-me conveniente trazer-lh'o.

O marido de Laura esfregou os olhos injectados de sangue, e abriu o telegramma.

Leu e soltou um grito estridente.

Depois, cambaleando como um ebrio, abriu a porta que dava para o corredor de communicação que percorreu, entrando no quarto de sua mulher.

O leito estava intacto.

Sobre a mesa viu a carta que Laura deixára.

Pegou-lhe, quiz abril-a, mas o papel cahiu-lhe das mãos tremulas.

Agitou os braços no espaço, e cahiu como uma massa inerte, fulminado por uma congestão cerebral.

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