← Table of contents
O Romance d'uma cantora

XXV O infame

Salvador de Medonça translation

Se não fosse fatuo e mau como era, Lauretto Mina, ao entrar no quarto de Laura, teria apagado a lampada que o alumiava.

Depois, quando a cantora voltasse, soprando a chamma do candieiro que ella trazia, tel-a-hia tomado{302} por surpreza na sombra, e a Linda podia então considerar-se perdida.

Mas elle quiz saborear o seu triumpho, divertir-se com o temor e mesmo com a colera da cantora.

Portanto mostrou-se, apresentou-se.

—Boa noite, minha querida Linda, disse elle levantando-se logo que Laura entrou. Não te admires nem te assustes por me veres em tua casa a hora tão adiantada da noite. As minhas intenções são tudo o que ha de mais amigaveis, e estou certo que havemos de nos entender.

Laura olhava-o petreficada, sentindo como que fugir-lhe a razão.

O tenor proseguiu:

—Se entrei aqui, empregando meios menos usados e algum tanto violentos, a culpa foi tua. Estou, como muitos outros, loucamente apaixonado por ti. Mas isso não é uma razão para me escarneceres, para me tornares ridiculo para com os nossos collegas, e para mofares de mim com o visconde, teu amante. Tens procedido commigo imprudentemente. Resolvi desforrar-me. Para o conseguir conquistei um coração mais sensivel que o teu, o da Jacintha. Ella introduziu-me na praça—e eis-me aqui!

—Foi bem combinado o assalto, respondeu Laura fazendo um gesto de resignação.

Voltára-lhe a presença d'espirito.{303}

Como se conservasse no limiar da porta, passou resolutamente em frente do tenor e entrou no quarto.

—Estimo que acceites a situação com essa desenvoltura! disse Lauretto sorrindo victoriosamente.

Como ella não respondesse, o tenor continuou:

—Para que me havias de receber com ares tragicos? Tens razão. Jámais se devem desprezar estas palavras: amo-te!

Laura encostára-se a uma secretária Riesener.

O tenor estava na frente d'ella. Elle proseguiu:

—Pois não é verdade que é absurdo fazer barulho por causa d'um beijo?

Caminhou para ella ao acabar de pronunciar aquellas palavras.

Laura abriu rapidamente com a mão esquerda a gaveta da secretaria, pegando, com a direita, n'um objecto que estava dentro.

E repentinamente, como Lauretto se approximasse mais, visou-o com um revolver que acabava de engatilhar.

—Se dá um só passo mais, mato-o! gritou ella.

Lauretto empallideceu horrivelmente.

Mas replicou, tentando sorrir-se:

—Suppunha-te mais sensata. A menos que não estejas brincando...

—Prohibo-o de me tratar por tu, disse Laura ameaçando-o novamente com o revolver.{304}

—Perdão, sr.ª viscondessa, respondeu o miseravel inclinando-se com afectação, para dissimular o estremecimento que lhe percorreu todo o corpo. Não considero de bom gosto ameaçar com um revolver um homem desarmado, entretanto...

E ia dar mais um passo.

Laura, porém, fel-o parar, dizendo com energia:

—Não se mecha, ou disparo! E previno-o de que não repetirei o aviso. Acautelle-se! Tenho na mão uma arma admiravel, de precisão extraordinaria. Comprei-a no Mexico, quando nos internamos na região dos pampas. Ao dar um passo terá quatro balas no corpo.

Ella fallava n'um tom firme e resoluto, tanto mais para admirar, quanto era certo que omittia um pormenor importante.

O revolver estava descarregado.

Suppozera, e com razão, que um homem capaz de proceder como Lauretto Mina, não podia deixar de ser cobarde.

Ao ouvir Laura, o tenor teve uma idéa, que mais o assustou.

Lembrou-se que o tiro podia partir, mesmo sem que a cantora puxasse pelo gatilho.

Entretanto, fazendo-se forte, disse:

—Acautelle-se tambem, porque ao primeiro tiro precipitar-me-hei, e então...{305}

—Socegue, interrompeu a Linda. Sei servir-me bem d'este revolver. Tinha o direito, se quisesse, mesmo sem que o senhor chegasse a vias de facto, de o matar como se mata um cão hydrophobo. Mas a vista do sangue horrorisa-me. Conserve-se quieto, e nada terá a temer.

Um pouco mais socegado, o tenor disse, ao cabo d'alguns minutos de silencio, com riso forçado:

—Nada d'isto tem senso commum! Ficaremos aqui toda a noite, a olhar um para o outro, como dois cães de faiança?

Laura não respondeu.

Conservava-se immovel como uma estatua.

—Permitte-me, ao menos, que me sente? perguntou elle.

Ella replicou:

—Pode sentar-se. Tem ahi proximo uma cadeira. Mas previno-o de que, uma vez sentado, o prohibirei de se levantar.

—Percebo, ficaria com uma vantagem a mais. Pois conservar-me-hei de pé.

—Faria melhor sahindo d'esta casa. Deve seguir o conselho, que é bom.

—Devéras?... disse Lauretto indiciso.

Perguntou a si proprio se, realmente, o mais prudente não seria bater em retirada.

Aquelle revolver imprevisto mudára a situação.{306}

O negocio falhára, decididamente.

Mas deveria fugir cobardemente d'uma mulher?

No dia seguinte ella contaria a aventura ao amante, e talvez aos collegas, que com razão o escarneceriam. Fugir, era, pois, impossivel.

Era indispensavel sustentar a situação até ao fim, custasse o que custasse.

Depois d'alguns minutos de reflexão, Lauretto disse com voz um pouco mais firme:

—Não partirei. Tenho ainda pelo meu lado uma probabilidade.

—Qual?

—Ha vinte minutos que nos olhamos fixamente; eu, que não tenho uma arma na mão, sinto-me já fatigado. Pesa-me a cabeça e cerram-se-me as palpebras. O relogio marca quatro horas e trinta e cinco minutos. Só amanhecerá d'aqui a hora e meia. Quando nos tivermos hypnotisado mutuamente, veremos se o seu olhar não se turbará, se os seus joelhos não se dobrarão, se o braço não se baixará por si proprio. Veremos se a gallinha não acabará fatalmente por ser magnetisada, immobilisada... e tomada pela raposa!

—Veremos! respondeu Laura apertando com mais força a coronha do revolver.

Desde esse momento guardaram ambos o mais absoluto silencio.{307}

No quarto ouvia-se apenas o tic-tac monotono da pendula.

O relogio deu os tres quartos para as cinco horas.

Os minutos passavam com uma lentidão mortal.

Laura sentia, com temor crescente, que o miseravel dissera a verdade.

A tensão enorme em que desejava conservar o espirito fazia-lhe diminuir as forças do corpo.

Via como que sombras passarem-lhe pela frente; sentia nos ouvidos um ruido extranho, as pernas dobravam-se-lhe, e a custo conservava o braço meio estendido, empunhando o revolver.

O que mais a angustiava era a arma estar descarregada.

Se assim não fôra, mesmo dada a hypothese do desfallecimento, poderia defender-se contra uma aggressão subita, ferindo ou pelo menos assustando o seu inimigo.

Emfim, haveria lucta, em que o maior numero de probabilidades estaria do seu lado.

Mas se, aproveitando um momento de torpor, Lauretto se precipitasse sobre ella, e a agarrasse, a Linda nada mais tinha na mão do que um bocado d'aço e de madeira, não poderia defender-se.

E como que ouvia o grito de triumpho soltado por Lauretto, e o rir infame d'aquelle miseravel.

O relogio deu cinco horas.{308}

Laura sentiu necessidade de interromper aquelle silencio pesado e d'ouvir uma voz humana, ainda que não fosse senão a propria.

Disse portanto em voz alta:

—Cinco horas!

Lauretto replicou, e ella escutou-o quasi satisfeita:

—Faço-lhe os meus cumprimentos. Possue energia rara em mulher. É triste que não empregue essa energia ao serviço de melhor causa. Admittindo mesmo,—o que é duvidoso,—que consiga sustentar até ao fim esse magnanimo esforço para preservar a sua honra, nem por isso ficará menos deshonrada. Quer saber como?

Laura não respondeu.

O tenor proseguiu:

—O meu amor é muito sincero e ardente. Se não fosse para a possuir não poria em pratica esta tentativa arrojada, ou criminosa, segundo o modo de ver de cada um de nós. Mas o meu amor proprio está agora comprometido n'esta empreza tambem. A sr.ª, ha muito tempo, tem-me despresado, motejado, ridicularisado; eu, declarei, jurei publicamente, que mereceria todo o seu desprezo se não conseguisse tel-a um dia nos meus braços. Por emquanto ainda não perdi a esperança, e espero, até, conseguir em breve o fim desejado. Em todo o caso, mesmo na peor das hypotheses, deve concordar que as apparencias são{309} por mim. Por agora pouco importa que eu seja ou não seu amante. O essencial é que, para os espectadores, o pareça. Ora parecel-o-hei, evidentemente...

Laura sorriu com desdem.

Elle continuou:

—Deixe-me acabar e ria depois. Medite,—porque ainda é tempo,—e verá que o que mais lhe convém é baixar o revolver e entregar-se á minha generosidade. Procederei como um perfeito cavalheiro, desde já o declaro. Mas reservar-me-hei o direito de fallar, e previno-a de que fallarei. Será essa a minha compensação e a minha desforra.

O tenor fez uma pausa.

A Linda deu aos hombros despresadoramente.

—Imagina que não me acreditarão? Ouça: limitar-me-hei a affirmar que a tive esta noite nos meus braços. Estamos sós: quem poderá contradizer-me? É de suppor que o visconde de Bizeux me peça explicações; espero mesmo que isso succeda. Recusar-me-hei a dar-lh'as. Elle esbofetear-me-ha e eu matal-o-hei, porque desgraçadamente succede-me esse precalço sempre que me bato. Não será em virtude d'esse duello em perspectiva e da morte do visconde que as minhas palavras deixarão de ser acreditadas, ao contrario. Mas haverá mais do que as minhas palavras, haverá provas e testemunhas. A prova eil-a: ao entrar vi sobre aquella mesa o seu retrato em miniatura,{310} ao lado do retrato do visconde. Dei-me pressa em guardal-o—para possuir uma recordação sua. Eis o testemunho: pela manhã sahirei, não pela porta que deita para a rua, mas pela que abre para o vestibulo. O porteiro, ao ver-me, perguntar-me-ha sem duvida quem eu sou e d'onde venho a hora tão matinal, e eu responder-lhe-hei que me chamo Lauretto Mina, que sou tenor da Opera, e que saio de casa da sr.ª Laura Linda, amante do sr. visconde de Bizeux...

—É engenhoso, mas um pouco cobarde! disse uma voz por detraz de Lauretto.

A cantora soltou um grito d'alegria.

—Antonino! disse ella.

O tenor voltou-se admirado, e viu na sua frente Antonino de Bizeux, de braços cruzados sobre o peito, dominando-o, com a alta estatura do seu corpo herculeo.

Na sombra do corredor, Lauretto viu Jacintha, pela porta entreaberta. Lançou em volta um olhar assustado, como que procurando por onde fugir.

Antonino bateu-lhe pesadamente com a mão no hombro.

Laura, deitando fóra o revolver inutil, correu para o marido.

O visconde disse, dirigindo-se ao tenor:

—É triste que eu venha desmanchar as suas combinações{311} infames. Graças á coragem e á dedicação d'aquella pobre rapariga que me foi chamar, eil-o preso no proprio laço que armou. Ao que parece é forte em violentar e insultar mulheres, mas defronte d'um homem não faz tão boa figura.

Lauretto respirava a custo sob o peso da mão de Antonino.

Apenas teve força para balbuciar:

—Senhor... estarei ás suas ordens... quando quizer...

—Na realidade? Consente em dar-me razão? Pois não sabe, miseravel, que quando se apanha um patife da sua especie em flagrante delicto d'attentado nocturno e de roubo... (com a mão que tinha livre procurou na algibeira de Lauretto e tirou d'ella a miniatura de Laura, que lançou sobre a mesa) só ha a escolher entre entregar o mariola á policia ou de lhe pegar pelas orelhas e lançal-o pela porta fóra a ponta-pés? Não sabe? Pois fique sabendo que n'um caso d'esta ordem o infame nunca offende. Teria graça considerar-me eu offendido e bater-me com o gatuno que me roubasse a bolsa!

—Ouça-me, senhor, replicou Lauretto tremendo-lhe a voz de medo, de vergonha e de colera. Ouça-me: n'este momento estou á sua discrição, é verdade, mas aconselho-o a que não abuse da sua vantagem.

Deixe-me sahir d'aqui sem ruido nem escandalo. Asseguro-lhe{312} que isso será mais conveniente não só para mim, como tambem para o senhor e para esta senhora.

—Concede-lhe o que elle pede, meu amigo, disse Laura intervindo. Que parta, com a raiva de ver abortado o seu crime, e que não ouçamos mais fallar d'elle.

—Sim, sr. visconde, deixe-o partir! repetiu Jacintha do corredor, com voz timida.

—Pois quê! Este homem fez-te passar, Laura, por angustias mortaes, fez soffrer a essa rapariga a mais horrivel tortura moral e physica, e ha de sahir d'aqui socegadamente para acabar na cama a noite que tão mal começou? Ah! eu considerar-me-ia tão cobarde como elle, se lhe concedesse a impunidade que pedem. Dizes, Laura: que parta, e que não ouçamos mais fallar d'elle? Mas não ouves as ameaças que o biltre acaba de pronunciar? Elle irá ámanhã dizer por toda a parte que passou a noite aqui, que eu cheguei muito tarde! Sinto ferver-me o sangue, pensando em tal. Se não estivesses presente, tosal-o-hia por fórma que jámais se esqueceria d'esta noite!

E ao mesmo tempo que fallava, sacudia violentamente Lauretto, que tremia.

—Não estarei eu em frente d'um homem bem educado?... atreveu-se elle a dizer.

—Está em frente d'um justiceiro!{313}

—Como?... O que vae fazer?...

—O que o senhor proprio projectava.

Antonino largou o hombro de tenor, e agarrou-o pelo casaco.

—Vamos... venha!...

—Não quero!... deixe-me!... murmurou Lauretto debatendo-se em vão. Protesto contra as suas indignas violencias!

O visconde apenas respondeu sorrindo desdenhosamente.

—Não lhe faças mal! aconselhou Laura em voz baixa.

Mas Antonino nada escutava.

Estava possuido da mais profunda colera, colera fria, que é a mais terrivel.

Repetiu

—Vamos!... venha!...

E accrescentou, dirigindo-se á creada:

—Jacintha, alumia-nos. Sahimos pela porta do vestibulo.

Arrastou pelo corredor fóra o tenor, que empregava inoffensiva resistencia, e chegou assim á porta que dava para o vestibulo do predio.

Jacintha seguia-o, tendo um candieiro na mão tremula.

Laura, anciosa, caminhava alguns passos mais atraz.{314}

Desceram ao vestibulo.

Em frente do cubiculo do porteiro, o visconde gritou com voz forte:

—Sr. Durandeau! peço-lhe que se levante e abra-nos a porta.

Segurava Lauretto apenas com uma das mãos.

O tenor, de labios trementes, pronunciava ameaças e palavras indistinctas.

O porteiro appareceu pouco depois á porta do cubiculo, em mangas de camisa e de chinellas.

—O que suceedeu? perguntou elle vendo Lauretto. É um ladrão?

—Peor do que isso, respondeu Antonino. Este biltre introduziu-se em minha casa com intenção de violentar a creada de quarto!

—Oh! que patife! disse o porteiro!

Depois, reparando para o rosto apavorado de Lauretto, submettido ao pulso nervoso d'Antonino, ajuntou:

—Que cara de velhaco! Sabe quem elle é, sr. visconde?

—Sei. Chama-se Lauretto Mina, e é cantor da Opera.

O porteiro abriu a porta.

Antonino, pegando no tenor pelas espaduas, arremeçou-o para a rua.

Em seguida lançou para o passeio o chapéu e o sobretudo{315} do tenor, objectos que Jacintha trouxera na mão, cuidadosamente.

A porta foi fechada quasi immediatamente depois.

Lauretto, pallido pela colera, rangendo os dentes, voltou-se, e estendendo o punho cerrado para a porta, murmurou enraivecido:

—Chegar-me-ha a vez!

E distanciou-se com passo rapido.

Explore with AITake your curiosity a little further.

Reading settings