VII Explicações
Salvador de Medonça translation
A palestra de Laura e de Antonino versou, ao principio, sobre assumptos indiferentes, e quasi banaes.
Fallaram do almoço e dos convidados de Pozzoli.
O visconde não queria dizer o que pensava do emprezario e do tenor.
Fallou de Remissy, cuja familiaridade o incommodára por vezes, mas cujo enthusiasmo exuberante fizera com que sympathisasse com elle.
—Que coração tão bondoso o d'elle! disse Laura. É meu verdadeiro amigo! Meu pae dedicava-lhe grande affeição e profunda estima. Saberá quanto vale em o conhecendo melhor. Em Remissy não ha só{80} a admirar e a applaudir o artista consumado: é tambem um valente e um patriota sincero. Durante a guerra da insurreição da Hungria, elle foi um dos primeiros que se apresentou, e não quiz nem espingarda nem sabre. «Tenho horror de matar ou de ferir, disse Remissy; de resto, como não sei servir-me d'essas armas, era capaz de dar cabo de mim com ellas». Em compensação não largou o violino, e appareceu sempre onde mais accesa era a lucta, ao lado de Kossuth, tocando admiravelmente o Hymno de Rakoçki, por entre as ballas e a metralha, sem nunca falhar uma nota!
Depois d'um curto silencio, a cantora accrescentou:
—N'uma palavra: Remissy é um homem. Tem, superior a todas, a qualidade que eu considero mais essencial ao caracter dos homens, a qualidade que o sr. visconde possue: a lealdade.
—É virtude que as mulheres tambem possuem, replicou Antonino, e quem a conhece, minha senhora, affiança que não lhe falta.
—Desejava possuir essa virtude viril, sem duvida. Entretanto esforço-me o mais que posso para evitar os dois defeitos que a maior parte das vezes perdem as mulheres: a galanteria e a vaidade. É precisamente por essa razão que lhe desejei fallar hoje.
—Porque? perguntou Antonino surprehendido.
—N'este dia, em que o vi quasi pela primeira{81} vez, occupei-me, sem querer, e como por instincto, quasi exclusivamente do senhor, como o senhor se occupou quasi exclusivamente de mim. Ha bocado, de subito, em quanto Remissy tocava, acudiu-me ao espirito que tinha sido um pouco leviana, que o sr. visconde não conhece a minha fórma de proceder, talvez original, e que, por isso, interpretaria mal o que hoje se passou. Portanto, disse commigo: é indespensavel que eu tenha com elle uma explicação cabal, franca, em que lhe falle com o coração nas mãos...
—Não sei se deva regosijar-me por essa sua resolução, disse Antonino com voz tremula. Sinto que estou enfeitiçado e desejava conservar-me assim.
—Mas eu não desejo que entre nós haja a menor sombra, a menor razão que de futuro motive a mais leve surpreza. As mulheres, d'ordinario, esperam a declaração dos homens para as acceitar ou rejeitar. Vae julgar talvez que eu fujo ás conveniencias mais rudimentares, antecedendo-me á sua declaração, mas é necessario, primeiro que tudo, que o sr. não soffra. Sr. de Bizeux, tenho pensado muito no meu amigo desde o dia do incendio. Não dou importancia ao que se diz, ao que se suppõe, ou ao que se inventou, mas senti, de longe, nas suas acções, no seu silencio, na sua fuga, e depois, quando o vi e lhe fallei, nas suas mais insignificantes palavras, no seu{82} aspecto, no seu metal de voz, senti... que o senhor não estava longe de amar-me.
O visconde fez um movimento, e quiz fallar.
Mas Laura não lhe deu tempo, e continuou:
—Peço-lhe que me não declare ser isso um facto consumado... Não, não quero ouvir-lhe dizer: amo-a!
—Comprehendo... sei... replicou Antonino. A senhora não me ama, o que é natural, e—o que é triste,—não quer amar-me!
—Não o amo, nem o quero amar... disse bem, repetiu Laura.
Antonino fez um gesto de desgosto.
Laura ajuntou suavemente:
—Não se zangue commigo, e sobretudo não soffra. Sem duvida lhe disseram o que tinha sido a minha vida até aqui, mas vista e julgada por estranhos. Ouça-me agora.
E seguidamente contou-lhe a educação que recebera, as suas primeiras impressões, e o duplo fluido de que ella era por assim dizer formada: o pae transmittira-lhe o culto pela arte, a mãe guiara-a por forma a ter sempre a consciencia tranquilla, e a vida pura.
Depois a cantora disse, pensativa:
—Portanto não me accuse, como teem feito varios, de frieza, de sequidão. Sinto em mim instinctos de ternura e d'expansão, aos quaes não basta a sincera{83} affeição que tenho aos meus amigos. Creio que só o amor pode encher completamente o coração. Olhe, para se consolar um pouco, vou dar-lhe uma prova de confiança absoluta, dizendo-lhe o que só se diz a um irmão: ha em mim, em gráu bastante elevado, um sentimento que herdei de minha mãe, a mais estremosa das mães: o sentimento maternal. Todas as creanças que vejo, produzem-me uma impressão inexplicavel, tenho por ellas uma adoração completa: adoro-lhes os gestos, os sorrisos, a voz balbuciante, a alma por definir. Ter uma creança que fosse meu filho, é para mim um sonho delicioso; ter um filho do homem que amasse, é outro sonho que considero impossivel de realisar-se!
—Porque?
—Porque? Sob a apparencia d'uma mulher phantastica, eu sou, garanto-lhe, uma mulher seria. Não quereria, não poderia amar um homem que não fosse meu marido.
Houve um silencio.
Antonino cortou-o dizendo com voz grave:
—Escute-me agora, Laura: sou absolutamente livre e senhor das minhas acções, e da minha vida. Por coisa alguma d'este mundo affligiria ou daria o menor desgosto a meu pae; mas o homem que me deu o ser possue alma generosa e elevada como poucos, e tem por mim um amor sem limites. Não me amará{84} ainda, Laura, mas, se diligenciar amar-me, é possivel que o consiga. Pois bem: prometta-me que no dia em que tal succeda, consentirá em ser minha mulher!
—Sua mulher!... disse a cantora admirada.
Depois, com os olhos marejados de lagrimas, accrescentou:
—Ah! como lhe agradeço a grande prova d'estima que acaba de dar-me! Como as suas palavras me commovem! Será por me ter salvo a vida? Não sei, mas o que é certo,—e já ha bocado lh'o disse,—é que fui attrahida para o senhor por um vivo sentimento de sympathia, e se o não amo ainda, parece-me que não necessitaria fazer grande esforço para o conseguir. Levanta-se apenas uma difficuldade, que de novo lhe aponto: não quero amal-o!
—Mas porque?
—Porque o sr. visconde não póde nem deve casar commigo.
—E se os nossos desejos estiverem d'accordo, que obstaculo poderá separar-nos?
—Um obstaculo insupperavel. É impossivel que o sr. visconde Antonino de Bizeux case com uma mulher de theatro, que, mesmo depois de casada, não renunciará á scena.
—É impossivel, disse?
—Disse e repito: é impossivel! Não devemos deixar-nos obcecar por uma excitação de momento.{85} Quando se prende o destino inteiro, deve-se ter em vista não a alegria do instante presente, mas a felicidade de todo o futuro: Com as aspirações honestas que minha mãe me legou, eu tenho as aspirações d'espirito de meu pae. Nasci e morrerei artista. Se fosse pintora, compositora ou escriptora, podia ter um logar na vida da alta sociedade. Mas sou apenas cantora; o meu talento é a minha voz, e para que esse talento se produza é necessario um publico, não o publico indulgente dos salões, mas o grande publico, a multidão que enche um theatro.
—E suppõe que o amor, o lar, as santas alegrias da familia não substituirão vantajosamente o ruido das palmas e a gloriola dos bravos?
—Durante algum tempo... sim... é possivel, é até provavel. Mas estou certa de que depois chegará o aborrecimento, a nostalgia do proscenio. Na ultima epoca que cantei no theatro Scala, ha tres annos, adoeci ao começar o inverno. A doença era ligeira e qualquer outra que não fosse eu estaria completamente curada com um mez de tratamento e de socego. Mas a impaciencia, o desgosto e a febre devoravam-me, por fórma que estive de cama tres mezes. Pereceria longe do theatro, como uma planta a que não chegam os raios do sol. Ah! se o senhor fosse um artista como eu, pobre, desconhecido até! Mas possue um honrado titulo e uma grande fortuna. Seu pae{86} por mais condescente que seja, não acceitaria para nora uma comediante, uma cantora, uma mulher que póde ser pateada e assobiada! Se o senhor quizesse contrariar a vontade de seu pae, desprezando os deveres que lhe impõem o seu nome e a sua posição social, seria eu a primeira—ouve?—que recusaria semelhante sacrificio.
—Sacrificio, se vier a amar-me, será a senhora quem o fará um dia.
—É possivel, e por isso mesmo é que eu não quero amal-o.
—Mas eu que a amo, o que hei de fazer?
—Tornar-se meu amigo. Não diga que não; não supponha que é impossivel d'operar a transformação do amor em amisade. Verá que hei de auxilial-o fraternalmente. É necessario vontade e coragem, bem sei, mas estou certa de que não lhe faltarão essas duas qualidades.
—Está-me fallando como me fallaria meu pae!
—Ah! confessa?... Ainda bem! Attenda-o e attenda-me. A um homem de caracter fraco, eu diria: parta, faça uma longa viagem, e volte d'aqui a alguns mezes, completamente curado. Ao meu amigo digo-lhe: fique em Paris, vá ver-me quantas vezes desejar, e estará curado dentro em poucas semanas.
—Seja! respondeu o visconde. Não partirei, tentarei a prova. Veremos o que resulta d'ella.{87}
Quando o coupé parou na rua de Bolonha, á porta da casa de Laura, Antonino despediu-se da cantora sem commoção apparente. Beijou-lhe a mão e trocaram amigavelmente um:
—Até ámanhã.
O visconde desceu a pé a rua de Glichy e a calçada d'Antin até aos boulevards.
Sentia uma especie de consolação ao ver-se perdido entre a multidão.
Caminhou até que os passeiantes rarearam.
Só depois disso entrou em casa, com o coração cheio d'incerteza e d'angustia.{88} {89}