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O Romance d'uma cantora

XIV A vida no castello

Salvador de Medonça translation

O castello de Bizeux, proximo de Saint-Pol-de-Léon, e a um quarto de legua de Roscoff e do mar, estava edificado n'uma encantadora região, em que o ondeado da copa do arvoredo se perdia ao longe no accidentado das colinas.

Como estava um pouco isolado, porque o castello mais proximo distava cinco kilometros, afóra durante a epoca da caça, a vida ali era muito retirada.

No caso presente esse facto não devia considerar-se um inconveniente.

Laura estaria no castello completamente ao abrigo d'indiscripções e encontros.

Nos primeiros dias percorreu, a cavallo ou a pé,{166} as immediações do castello; mas depois de vistas as casas, as egrejas e as paysagens, recahiu na monotonia da vida ociosa, quebrada apenas pelas fidalgas e ininterruptas attenções do conde, sempre previdentemente delicado com a nora, sempre ancioso por lhe procurar distracções.

A menina de Bizeux desapprovava o procedimento do pae para com a cunhada.

A solteirona dizia por vezes comsigo:

—Mas que fórma de tratar esta desconhecida! O que tem ella que a recommende? apenas a belleza, essa dadiva do demonio.

Para Estephania a fealdade era certamente dadiva de Deus.

O natural instincto de mulher invejosa fazia confusamente adivinhar a Estephania que o passado de sua cunhada devia ter tido uma phase brilhante, que lhe occultavam.

Parecia-lhe que no menor gesto ou na mais insignificante palavra pronunciada por Laura havia sempre dissimulação.

—Mais outro vestido novo! disse-lhe Estephania um dia, vendo-a sentar á mesa com uma toilette que ainda não lhe conhecia. Lembre-se que estamos no campo!

—Por isso o vestido é simples e campestre! replicou Laura rindo.{167}

—Mas nós estamos em nossa casa... não recebemos visitas. A quem deseja agradar? A meu pae?

—E porque não?

—Agradecido! disse o conde sorrindo.

—A seu marido?

—Certamente...

—Um marido não é um amante, minha querida!

—Para mim é.

E estendeu a mão ao visconde, que lh'a beijou com prazer.

Antonino gracejou com a irmã, que conservou o seu habitual aspecto ironico e altivo.

Aquellas picadas d'alfinete não tinham importancia, mas faziam soffrer Laura, que, como todos os espiritos ternos, resentia-se da falta de sympathia que a cunhada constantemente lhe testemunhava.

Estephania tambem julgava Laura com severidade sob o ponto de vista religioso.

Entretanto a viscondessa, educada por uma mãe excessivamente devota, era crente, e por vezes até supersticiosa como uma hespanhola.

Para a menina de Bizeux, porém, havia duas religiões, a que os homens seguiam, e a que era seguida pelas mulheres.

Os homens podiam contentar-se em ir á missa aos domingos, comer de magro ás sextas feiras, e confessar-se uma vez por anno, pela quaresma.{168}

As mulheres deviam, alem d'isso, comer de magro todos os sabbados, dia em que deviam tambem confessar-se, commungar todos os domingos e jejuar nas vesperas dos dias santificados.

Ora Laura limitava-se a seguir a religião dos homens; portanto era uma impia, votada ás chammas eternas!

De fórma que a unica mulher com quem podia ter relações d'amisade fugia da sua convivencia.

Em vez de ser amiga e irmã, Estephania era inimiga.

E se Laura procurasse relações entre as damas que viviam nos castellos mais proximos não encontraria espiritos mais esclarecidos do que o de sua cunhada.

O conde adorava a musica quasi tanto como Antonino, e sentia-se verdadeiramente feliz quando Laura se sentava ao piano e cantava qualquer das arias em que d'antes fôra tão applaudida.

Se o canto fosse religioso ou mesmo popular, Estephania escutava com indulgencia.

Se, porém, a palavra amor fosse uma só vez pronunciada, levantava-se cheia d'indignação e sahia altivamente da sala.

Este ultimo caso dava-se com frequencia, porque o amor é um thema musical frequentemente usado pelos compositores.{169}

Pelo menos Laura, agora, tinha mais um ouvinte: o conde.

Isto não a impedia, como já estava em França e lia os jornaes parisienses, de suspirar quando encontrava nos periodicos noticias de theatro e as narrações dos debutes e das primeiras representações.

O que lia era para ella o brilho, o ruido, a vida!

Se não tivesse abandonado o theatro, seria d'ella que os jornaes fallariam!

Esse eterno esquecido que se chama Paris, tinha-se por muito tempo occupado d'ella!

Decerto não sentia a falta da antiga cantora, mas a diva d'outro tempo percebia que Paris lhe faltava.

Estava prestes a ser inaugurada a nova Opera, e Laura não assistiria á inauguração!

Felizmente, por entre as saudades e os desalentos, conservára intacto no coração o amor que tinha por Antonino.

É verdade que o marido adorava-a como no primeiro dia de casados, mas elle não tinha um passado de que lembrar-se, em quanto que ella, ao casar-se, dera metade da sua vida despresando a arte.

O amor dos dois esposos, substituira o ardor da paixão dos primeiros tempos pelo prazer ineffavel do habito tomado.

E ella consolava-se, chegava a encantar-se até, quando, por uma bella manhã de sol, sahiam ambos,{170} e atravessavam bosques e prados, caminhando ou correndo, na alegria doida de dois collegiaes em férias. Passeiavam sobre a relva, ella appoiada ao braço do marido, e levantando um pouco as saias para não as molhar nas plantas humidas, ou conservando-se direita, o tronco bem vertical sobre os quadris airosos, em quanto Antonino, curvado, cortava com as unhas os pés das violetas, de que Laura fazia, ramos deliciosos, cercados de folhas d'um verde pallido.

Muitas vezes o caminho que seguiam afundava-se n'um declive pedregoso, ou descia até á praia.

Divertiam-se então em saltar precipitadamente, como creanças, elle segurando-a por uma das mãos, e ella levantando com a outra as saias, que tremulavam ao vento como um ruido d'azas, n'um vôo d'aves anciosas de liberdade.

Paravam na areia, e sentavam-se para contemplar a baixamar ou a maré que subia.

E ficavam-se por muito tempo a admirar as ondas lambendo com fragor as saliencias dos rochedos, ou traçando na superficie lisa e clara da areia o seu rasto sinuoso, coberto d'espuma.

Uma manhã tiveram uma alegria que terminou em tristeza.

Acharam um ninho de melros.

Os passaritos tinham sahido da casca havia pouco tempo.{171}

Antonino mostrou-os a Laura, quebrando um ramo de madresilva brava que os occultava por entre a espessura d'uma sebe d'espinheiros.

Eram cinco.

No fundo do ninho, apenas se viam bicos amarellos que se abriam com voracidade.

Laura ficou penalisada por não ter que dar aos passarinhos.

—Voltaremos ámanhã com provisões, disse-lhe Antonino.

No dia seguinte voltaram com as algibeiras cheias de bolos.

A mãe estava no ninho.

Logo que sentiu ruido, levantou vôo para uma arvore proxima, saltando depois de ramo em ramo, dando gritos desolados, inquieta por ver os filhos á mercê de seres humanos.

Laura sentiu um prazer quasi maternal, em metter pelos bicos dos passarinhos esfaimados, com a ponta do seu dedo côr de rosa, bocados de bolo, que previamente amolecia entre os labios.

Ao outro dia foram tambem ver o ninho.

Estava vasio.

O pae e a mãe tinham levado os passaritos.

Laura ficou triste, sem saber porque.

Como Antonino lhe perguntasse a razão d'aquella tristeza, Laura respondeu:{172}

—É lugubre este ninho abandonado, lugubre... como um berço vasio!

Depois d'um momento de silencio, perguntou:

—As aves, quando encasalam, teem sempre filhos, não é verdade?

—Sempre, pela primavera, respondeu Antonino.

—Como as aves são felizes!

Antonino comprehendeu.

Percebia perfeitamente qual era o vacuo que havia na vida de Laura, e esforçava-se sempre por lhe procurar distracções.

Não servira na marinha, como muitos dos seus antepassados, mas todo o bretão é marinheiro.

Adorava o mar, e um dos seus maiores prazeres era andar embarcado.

Poucos dias depois de chegar a Saint-Malo, comprou uma chalupa de recreio.

O barco era estreito na proa, baixo de caverna, branco, com uma larga facha vermelha, e tinha meia coberta.

Os passageiros tomavam logar á pôpa, n'uma especie de camara oval, cercada d'um banco em que cabiam oito pessoas.

Na coberta tinham improvisado um casinhoto em que mettiam as malas e as provisões, e um leito estreito, em que uma pessoa tinha suficiente espaço para dormir ao abrigo do vento.{173}

O apparelho da chalupa compunha-se d'um mastro e d'um gurupés, d'uma vela grande e d'uma bergantina.

Com mau tempo tomavam quatro rizes á vela grande, e como o mastro se inclinava para a proa, a chalupa navegava maravilhosamente com aquelle unico panno.

Graças á largura do barco e ao pouco comprimento relativo do casco, a chalupa virava com facilidade, cedia bem ao vento e obedecia docilmente á canna do leme.

Antonino mandou o barco para Roscoff, ensinando com precisão a Laura toda a manobra das velas.

Era necessario um marinheiro, mas o visconde achava mais encanto a embarcar só com sua mulher, e Laura era um marinheiro agil e encantador.

Muitas vezes embarcavam de manhã.

Um creado levava-lhes, até ao caes, um cesto com provisões.

Antonino embarcava primeiro, e, antes que Laura estivesse a bordo, armava a vela.

Depois ajudava a esposa a saltar para a chalupa, e sentavam-se ambos na camara oval, tendo a resguardal-os do sol um toldo de lona.

Então Antonino gritava ao creado, que ficava no caes:

—Larga!{174}

O cabo cahia na agua como um fustigamento de pingalim.

O visconde amarrava a vela, suspendia a ancora, impellia o barco com o croque, e puchava a canna do leme para bombordo.

A chalupa inclinava-se graciosamente ao vento, balouçava por instantes como indecisa, e por fim vogava.

Cinco minutos depois, fendia a agua com uns movimentos de sereia.

Percorreram assim as costas da Bretanha, d'um lado até Donamaner, e mesmo a Lorient, e do outro até ao Mont-Saint-Michel.

Algumas vezes succedeu estarem ausentes durante dois ou tres dias, com grande inquietação do conde.

O pae d'Antonino sabia que o vento contrario e o mau tempo não os fazia parar.

O menos temerario dos dois, era justamente o visconde.

Laura sentia-se bem a bordo.

O perigo incitava-a porque era uma emoção, e eram as emoções o que faltava a Laura, a quem a vida socegada mais fazia recordar o passado.

A caça divertia-a muito menos.

Por vezes recusava-se até a acompanhar o marido e o sogro, e só ia á tapada do castello, se o almoço fosse servido ao ar livre.{175}

Não acceitára até uma esplendida espingarda de caça, que Antonino lhe offerecera, e que passava por ser uma verdadeira maravilha.

As poucas reuniões que o conde entendeu dever dar no castello, não lhe mereceram maior attenção, nem lhe proporcionaram o menor attractivo.

Entretanto fazia as honras da casa com tão fino tacto e tão affavel dignidade, que a propria Estephania se admirava.

Uma d'essas reuniões, mais solemne que as outras, teve, comtudo, para Laura, verdadeira importancia.

Foi a festa da inauguração da capella restaurada do castello.

Havia já tres annos que Estephania, que possuia fortuna pessoal, emprehendera, com o concurso, felizmente habil, d'um architecto de Rennes, a restauração da referida capella, uma verdadeira joia do seculo XV, no gosto de Folgoet.

A obra terminara emfim.

Faltava baptisar o sino e consagrar a capella.

O arcebispo de Rennes fôra convidado para esse fim, respondendo que iria proceder á dupla ceremonia no primeiro domingo do mez d'agosto.

Esta noticia, como era de suppôr, causou grande sensação em todos os castellos e parochias dos arredores, e todos foram unanimes em declarar que só{176} ao conde de Bizeux se poderia dever semelhante honra.

Afinal o arcebispo accedera com tanta mais vontade ao convite que o conde lhe dirigira, quanto era certo que, da sua visita ao castello, esperava ganhar a annuencia e o concurso do velho fidalgo para uma obra tão excellente de certo, e muito mais util, que a inauguração da capella.

Tratava-se de terminar um hospicio para marinheiros, edificado por subscripção em Saint-Servan, sob a direcção d'uma commissão, de que o arcebispo era presidente.

Tinham angariado já umas centenas de mil francos, com que o edificio principiára a ser construido, mas faltava ainda mais uma centena para material e mobiliario, e as bolsas estavam exhaustas.

Entretanto era indispensavel arranjar aquella quantia, e por isso o arcebispo desejava fallar com o conde.

Estephania fez no castello uma verdadeira revolução, para que a recepção de monsenhor fosse em tudo digna do alto cargo ecclesiastico que elle desempenhava.

Enfeitou a capella com arbustos e flores, e mandou vir organistas e coristas da cathedral de Rennes.

A missa, por musica vocal e instrumental, estava distinada a produzir sensação, como effectivamente{177} produziu, mas devido talvez a uma circumstancia com que a menina de Bizeux não contava.

Eram tantos os cuidados e attenções que a pessoa do monsenhor lhe merecia, que Estephania não deu pela falta da cunhada no banco da familia.

Repentinamente, a seguir a uma nota grave soltada pelo orgão, elevou-se uma voz, melodiosa e pura, e cantou, com perfeição e expressão d'adoravel suavidade, um trecho de Handel, que conservou em extasi o auditorio maravilhado.

A mesma voz cantou depois o offertorio do mesmo compositor, com tal arte e vigor que a todos causou espanto.

O arcebispo de Rennes, que era profundo conhecedor de musica religiosa, balanceava a cabeça e movia as mãos com beatitude.

Trocaram-se phrases d'admiração, e se não fosse o respeito á santidade do logar, com certeza todos os ouvintes teriam applaudido com delirio.

Terminada a ceremonia, a primeira pergunta do arcebispo, ao entrar na sachristia, foi:

—Mas quem é a admiravel virtuose que a todos nos encantou?

O conde, que entrava acompanhado de Laura, respondeu triumphantemente:

—Foi minha nora, a sr.ª viscondessa de Bizeux, que tenho a honra de apresentar-lhe, monsenhor.{178}

—Na realidade a sr.ª viscondessa é uma artista de primeira ordem! disse o arcebispo.

E depois accrescentou:

—Isto fez com que eu tivesse uma ideia, que não me parece de todo má... Logo lhe communicarei um certo projecto em que penso, meu caro conde.

Em seguida desfez-se em agradecimentos e cumprimentos, aos quaes dava um certo sabor particular a mistura que havia do padre e do dilettante.

Não foi só Laura que recebeu esses agradecimentos e cumprimentos; Estephania tambem compartilhou d'elles, e tão interdicta ficou, que não sabia se devia estar satisfeita ou vexada.

Laura commoveu-se e sorriu-se com melancholia.

Era o seu primeiro successo em dois annos!{179}

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