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Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III)

CAPITULO CXLIX

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De como foi o primeiro cometimento do escalamento de Tangere

E depois d'El-Rei declarar sua tenção de tornar a Tangere, por cuja fim alli viera, se partio para Alcacere d'onde enviou logo doze navios de remo com gente escolhida para irem escalar a cidade, cujo capitão foi Luiz Mendes de Vasconcellos, homem fidalgo, e nas cousas do mar bem entendido, com fundamento de El-Rei com seu poder os socorrer á hora do escalamento por terra, e porém o conde D. Duarte contradisse muito o cometimento por mar, pelas incertidões e perigos que tem, mas não foi crido, e Luiz Mendes todavia partio bem avisado do que á sahida do mar e á entrada da cidade havia de fazer.

El-Rei e o Infante e o senhor D. Pedro seu primo, e o duque e condes e toda a outra gente partiram por terra, e uma hora ante manhã chegaram acerca de Tangere, e os que foram nos navios á hora do desembarcar acharam o mar tão bravo, que não ousaram por aquella vez sahir em terra, e ao recolher dos navios havendo os mouros da cidade vista d'elles pelo aviso que já sobre si tinham, fizeram almenaras na cidade, e mandaram poer fogo ás bombardas que pelo muro tinham. E porque aquelle era o signal que se havia de fazer quando a cidade se entrasse, foi El-Rei e todos os que com elle eram mui alegres, e assi abalaram logo rijamente e não sem devida ordenança, mas não tardou muito que foram em conhecimento da verdade, que todo seu prazer converteu em tristeza, e toda esperança do feito em desesperação, e com tudo El Rei com a cara mui segura como seu real coração era sempre nos perigos, foi com sua gente á vista da cidade, que esteve olhando um pouco, e em se recolhendo disse contra muitos,

não me leixastes crêr ao conde D. Duarte, por ventura se o fizera esta vinda se empregara melhor

, e então se tornou logo a Alcacere, e d'ahi para Ceuta, e com elle o Infante seu irmão.

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