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Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III)

CAPITULO CXLI

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De como se fez em Alcacere a coiraça para defensão e segurança da villa, e como D. Duarte, capitão, se houvera de perder

El-rei

entendeu logo no fazimento da coiraça d'Alcacere, por cuja mingua quando tornou sobr'ella de Ceuta a não pôde soccorrer nem bastecer como quizera; porque era mais afastada do mar, do que cumpria para navios sem empedimento e contradição dos de fóra a poderem prover. E tanta ordem e diligencia se poz n'isso ácerca da pedra cantaria e cal, e madeira, e officiaes, e cousas a ella necessarias, e assi a gente de guarnição que tudo defendesse, que com tudo prestes e enviado a Alcacere, a dita coiraça se começou logo á segunda-feira de Ramos XXII dias de Março do anno de mil e quatrocentos cincoenta e nove. Na qual obra D. Duarte, de noite e de dia, para bom exemplo de todos assi servia e melhor que qualquer outro pobre serviçal que hi andasse.

E em fim por fallecimento de cal; porque a obra se fundou maior e mais forte do que primeiro cuidaram, a dita coiraça não se acabou senão depois do S. João do dito anno, e foi ao tempo que D. Duarte era já bem certificado dos ajuntamentos e apurações e convocações que El Rei de Fez em suas terras e nas alheias fazia para vir outra vez sobr'elle como ficara.

E porque para execução do proposito dos mouros era grande impedimento a coiraça que se fazia de que eram já bem avisados, por deterem e impedirem a obra com dano e mortes dos officiaes que a lavravam, acordaram de enviar para isso secretamente certos alcaides, com mil e quinhentos de cavallo, e outra muita gente de pé, para que dessem n'elles e trabalhassem por desfazer a dita obra.

E com isto, porque D. Duarte com sua gente não leixava d'entrar e fazer grandes cavalgadas e estragos nas terras dos mouros, acertou-se que um dia desavisado do ardil dos alcaides, determinou entrar com a mais gente que nunca entrara. E estando á noite dois veladores praticando sobre o muro, aconteceu que por máo avisamento e pouco resguardo d'elles, com vozes altas um descobriu ao outro a entrada de D. Duarte, declarando logo por onde havia d'entrar, e os lugares a que havia d'ir, e tudo assi apontado como que estivera á determinação do caso. E acertou-se que um mouro almograve, que da lingoa dos christãos tinha bom conhecimento e era mui ousado, vindo-se de noite lançar ao pé da barreira por escuta, ouvio toda a pratica d'estes, com que apressadamente logo partio, e foi logo avisar umas aldeias, de que tomaram um mouro mais despachado, que indo com grande trigança dar aviso a Tanger, topou de recontro com os mesmos alcaides que vinham sobre a coiraça, aos quaes o messageiro contou o caso sobre que ia, havendo que era remedio que lhes Deus a tal tempo enviava, e elles mui alegres com tal nova lhe prometeram grandes honras e acrescentamentos; porque lhes pareceu que leixariam entrar D. Duarte, e sem alguma fadiga o atalhariam e tomariam como quizessem, e assi sem os trabalhos, mortes e despezas que se lhe aparelhavam, não sómente impediriam a coiraça, mas cobrariam a villa em que não podia ficar gente que a defendesse.

E vieram-se os alcaides ao logar d'Anexanuz onde estava um christão captivo, natural da Villa de Lagos, a que chamavam o Talheiro, o qual tinha muita amizade e pratica com um mouro, cujo nome era Azmede, que já fôra em Tavila captivo, e sabendo bem o Talheiro o ardil e determinação dos alcaides, pela qual a perdição de D. Duarte e da villa d'Alcacere com toda a gente se não podia escusar, doendo-se d'isso como bom christão e leal portuguez, tanto aperfiou com Azmede e tantas esperanças lhe pôs na bondade e verdade dos christãos para sua honra e proveito, que o houve de commover que de todo o que era concertado logo aquella noite fosse como foi avisar D. Duarte. O qual estando para partir e vendo tal aviso e sendo certificado por Antão Vaz, alfaqueque, que o mouro era homem de credito e amigo dos christãos, pôs os giolhos em terra, e as mãos alevantadas ao ceo deu muitas graças a Deus, e ao mouro deu logo e prometteu e fez ao diante muito bem.

E ao outro dia mandou desaperceber os fidalgos e toda a gente que para a entrada estavam já todos prestes, que por isso ficaram tristes e muito mais descontentes de D. Duarte, e mostrando não ser menos irados contra o mouro, assacando-lhe que por evitar o dano que a seus parentes estava aparelhado, mais que por fazer bem a D. Duarte, se movera a tal aviso, e uns o ameaçavam com a forca, e outros com o lume para o queimarem, mas o mouro confiado no que certo sabia, tudo soffria rindo, dizendo que cedo lhe dariam o contrario.

E sendo o capitão por elle avisado dos lugares em que as cilladas haviam de jazer, mandou logo pela manhã descubrir a primeira, estando com toda a outra gente a recado e percebido; os mouros como viram os descobridores entenderam a verdade, e que tal descobrimento procedera d'algum aviso que os christãos d'elles houveram, e que por isso não sairam da villa, nem ousaram entrar em sua terra como tinham ordenado, e sairam logo d'elles quatrocentos de cavallo em cavallos armados e arreios, gente especial e mui concertada. Sahiu D. Duarte com até cento e vinte de cavallo a lhes resistir, em especial a recolher os descobridores que tinha enviados que vinham mui perseguidos, e n'isto se travou de uma parte e da outra mui crua peleja, em que D. Duarte tanto apertou com os mouros que os fez fugir, em que morreram alguns d'elles, todos homens entr'elles de boa estima, e ao seguimento d'estes sahiu a outra cillada maior em socorro dos primeiros que maliciosamente mostravam ir fogindo por tirarem os christãos fóra, e fizeram todos uma volta sobre os christãos, que por não poderem resistir a tamanha força lhe deram as costas, e no encalço que foi curto, mataram dois e feriram muitos.

E quiz Deus que na primeira esporada que D. Duarte n'elles deu lhe quebraram as cabeçadas do cavallo, e em lh'as corregerem se deteve e mandou deter a gente sua algum espaço, que deu causa que o encalço da volta que os mouros sobre os christãos fizeram fosse assi curta, que quasi os acharam á sombra dos muros a que com sua segurança se acolheram; porque d'outra maneira segundo os mouros vinham azedos, e com tanta sua avantagem, fôra sem duvida para os christãos grande perigo.

E n'este dia se lançou um moço christão com os mouros, a que descobrio o aviso d'Azmede que deu causa a se elle vir de todo para Alcacere, onde sendo mouro deu aviamento a muita guerra e damno de sua propria terra, e este se chamou depois Mafamede de Alcacere, a que El-Rei D. Affonso e depois El-Rei D. João seu filho por seus serviços fizeram muita mercê.

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