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Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III)

CAPITULO CLXIII

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De como El-Rei levou comsigo o Principe seu filho, e como embarcaram, e com que gente e frota

Determinou

El-Rei a requerimento do Principe seu filho, e contra conselho dos mais principaes do reino de o levar n'esta passagem comsigo, e leixou por inteiro governador, e com nome de governador do reino o duque de Bragança, que escusando-se por sua velhice de tal cargo, se convidava para ir com elle á guerra dos mouros, porque seu coração e devoção não enfraquecia; porque a ella foi sampre mui inclinado. E porque El-Rei era sabedor que entre alguns grandes e pessoas principaes de seus reinos, que para sua passagem eram percebidos, havia odios e dissensões, e outros jaziam em publicas excommunhões, El-Rei com a só pena que pôs de os não levar comsigo se não se concordassem e asolvessem, elles por não ficarem se concordaram e satisfezeram e se reconciliaram.

Encommendou El-Rei o cargo da gente d'entre Doiro e Minho, e da frota do Porto ao duque de Guimarães, que se ajuntou com El-Rei em Lisboa no começo do mez d'Agosto do anno do nascimento de nosso Senhor Jesus Christo de mil e quatrocentos setenta e um, em que El-Rei houvera de partir, e por ventos que não terçavam de viagem, suspendeu sua partida até dia da Asumção de Nossa Senhora, que é aos quinze dias do dito mez, em que depois de elle e o Principe entrarem no mar com mui solemne procissão, e com maravilhoso e grande triumpho, sobreveiu vento prospero e desejado, com que partiu de Restello e chegou a Lagos, onde o já esperavam os navios e gente do Algarve. E assi o conde de Valença que viera d'Alcacere, com que sua real frota refez por todas numero de quatrocentas e setenta e sete vellas, e até trinta mil homens. E alli depois de ouvir missa, e para o caso uma devota pregação, e revellar a todos sua ida sobre Arzilla, foram elle e o Principe com uma devota procissão e grande estrondo de trombetas e manistreis altos e baixos, mettidos nos bateis, e de hi aos navios que logo fizeram vella, que com vento bonançoso chegaram d'Avante á dita villa d'Arzilla, onde sua frota ancorou aos XX dias do dito mez, já sobre tarde, os mouros da qual como de dia houveram vista d'ella; porque da passagem d'El-Rei tinham já muitos avisos, adivinhando com receio seu mal, se começaram de prover como para tal necessidade e afronta cumpria.

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