CAPITULO CLXVII
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De como El-Rei foi certificado que os mouros de Tangere tinham leixado a cidade, e do que sobr'isso logo proveu, e de como se foi a ella, e de hi para o reino
El-rei
em provendo as cousas da villa que cumpriam, com fundamento de se volver para o reino, foi por dois mouros a gram pressa certificado que os moradores da cidade de Tangere esquecidos da grande fortaleza d'ella e de si mesmos, principalmente temendo que a mortindade e estrago de Arzilla, de que por uma velha segundo se disse, foram avisados, não viesse tambem sobre elles, a tinham desamparada de todo. A qual leixaram vazia de suas pessoas e fazendas, e cheia de muito fogo, que as casas e reliquias d'ella sem proveito dos christãos se destruissem e queimassem.
E após a primeira nova d'esta tamanha e não crida gloria, vieram logo outros que sem duvida o confirmaram, pelo qual El-Rei com muita gente de pé, e com os de cavallo que foi possivel, enviou logo á dita cidade D. João, filho do duque, que depois foi marquez de Montemór, aos XXVIII dias d'Agosto, dia de Santo Agostinho, que segundo se affirma foi já bispo d'ella. E ao outro dia o dito D. João sem alguma contradição entrou na cidade, em que achou certas bombardas grossas, e muita outra artilharia e polvora, a que os mouros por desacordo e cegueira, ou por causa de mais seu damno não poseram o fogo, e o punham andando ás palhas e cousas pequenas das casas. Da qual cousa logo avisou El-Rei, que alegre de tão bem aventurado sobcedimento, sem muito trespasso com o Principe, e com a nobre gente de sua côrte, logo se foi á dita cidade, em que entrou já sem o ardente desejo de sua destruição e vingança, em que sempre vivia.
Foi-se logo á Mesquita que já era feita egreja, onde deu muitas graças e louvores a Deos, e envestio de Bispo da cidade o prior de S. Vicente de Fóra de Lisboa, que sendo da regra e Ordem de Santo Agostinho, por promoção e auctoridade apostolica era já d'antes intitulado Bispo d'ella, na qual esteve El-Rei XVII dias não se fartando de a vêr, dentro dos quaes proveo as cousas que para boa governança d'ella cumpriam. E fez e leixou por capitão e governador d'ella a Ruy de Mello seu Guarda Mór, que depois foi conde d'Olivença, pessoa no reino tão principal que o tal carrego, e outro de mais honra e mór perigo e peso, por muitas causas e razões mui bem merecia.
E assi ennovou e accrescentou El-Rei o titulo que tinha, e se intitulou nova e primeiramente por esta maneira: D. Affonso por graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves, d'aquem e d'além mar em Africa. E depois de fazer muitas terras chãs dos mouros suas subjeitas e tributarias, e notificar ao Papa e a todolos Reis e Principes christãos esta sua excellente victoria, partiu-se com o Principe para Portugal aos XVII dias do mez de Setembro, e logo ao outro dia seguinte foi no porto da cidade de Silves. De maneira que El-Rei em XXXIII dias contados do dia que partiu de Lisboa até este, começou e acabou prosperamente estes tamanhos feitos, de que Deus foi muito servido, e seu estado e nome por todo o mundo mui accrescentado e louvado.
E os christãos d'Andaluzia não receberam por isso menos prazer que segurança, de que com festas para o mundo, e devotas procissões para Deos deram claros signaes.
E de Silves se foi logo El-Rei e o Principe por mar á cidade de Lisboa, onde foram com grande triunfo, e muitas festas e alegrias recebidos, o que todo tambem por todo o reino com a notificação e certeza da victoria por muitos dias se continuou.