CAPITULO CXLIII
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Como D. Duarte foi feito conde de Vianna, e El-Rei quisera outra vez passar em Africa para que se percebeu
No
mez d'Abril do anno seguinte de mil e quatrocentos e sessenta, por prazer e consentimento d'El-Rei leixou D. Duarte por capitão d'Alcacere Affonso Tellez, seu sobrinho, e se veiu a Lisboa onde achou El-Rei, que d'elle e de toda sua côrte foi grandemente e com muita honra recebido, e d'ali se foi El-Rei a Santarem, onde com solemne arenga de seus serviços e merecimentos, e com devida cerimonia o fez conde de Vianna de Caminha.
N'este anno no mez d'Agosto falleceu de febre em Thomar D. Affonso, marquez de Valença, filho maior do duque de Bragança, sem casar, de que ficou um filho natural, D. Affonso, que depois foi bispo d'Evora. E n'este tempo pelas praticas que El-Rei sempre tinha com o conde de Vianna sobre a guerra d'Africa, a que El-Rei sobre todalas cousas do mundo naturalmente era mais inclinado, desejando de a proseguir determinou passar a Ceuta com dois mil cavallos e gente de pé a elles conveniente, para d'alli como capitão, mais que como Rei fazer guerra aos mouros.
E tendo sobr'isso conselho foi de todolos principaes muito em contrairo aconselhado, em especial do Infante D. Fernando seu irmão, e do senhor D. Pedro, que sobre isso lhe enviaram conselhos para o caso mui excellentes, a que El-Rei não quiz dar credito, guiado já de seu apetito, inclinando-se á só opinião do marquez de Villa Viçosa, que sendo em tudo mui prudente, n'isto pareceu que desacordava. E tendo para isso feita muita custa, com fundamento de todavia passar, desistio da ida por causa de uma grande e perigosa doença de febre em que cahiu e esteve á morte.
E n'este anno de mil quatrocentas e sessenta, lastimado o reino todo das grandes e apetitosas despezas que El-Rei fazia, de que sua fazenda e as de seus vassallos sem causa necessaria se destruiam, em umas côrtes que em Lisboa sobr'isso se fizeram, lhe pediram que as temperasse e quizesse ter mão mais firme nas cousas da corôa; com que sostevesse seu estado como seus antecessores faziam, e não as dar com tanta soltura e sem necessidade como dava, que se contentasse arrecadar dos vassalos os antigos e velhos direitos, e não agravar seu povo com novos pedidos e imposições. E para o melhor poder fazer, lhe outorgaram cento e cincoenta mil dobras d'ouro, com que desempenhasse e pagasse as rendas da corôa, que por tenças e por casamentos, ou por outras dividas e obrigações tivesse dadas, com juramento que fez de nunca as mais dar, mas isto nem sómente aquelle anno em que se prometeu se manteve; porque na passagem em Africa que logo fez se desordenou tudo, e com muita mais soltura por mal da corôa real.