CAPITULO CCII
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De como El-Rei D. Affonso desapareceu em França, e o Principe seu filho por seu mandado se alevantou por Rei em Portugal
E volvendo a El-Rei D. Affonso que era em França, despedido elle de Ras como atraz fica, se foi com sua gente a Ruão, onde esperando pelo aviamento que se dava á sua embarcação, repousou muita parte do verão, e d'alli se foi pelo rio abaixo até a Aynafrol, que é porto de mar, onde a frota e cousas da armada para sua vinda se aparelhavam, e alli esteve o mez de Setembro, no qual tempo sentindo elle que a esperança para as cousas de Castella não lhe respondiam conforme a seu proposito, e que não fôra por fallecimento de seu esforço, cuidado e diligencia, pois em Portugal e Castela, e em Roma, em França e Borgonha, tinha procurado todo o que para sua empresa pareceo conveniente e necessario, e todo lhe falecera, vendo já cerrados todolos outros caminhos de que esperasse conseguir desejado effeito, crendo que tantas contrariedades não podiam ser sem vontade de Deus, determinou entresi como desconfiado já de remedio leixar este mundo e seus debates, e sem ser conhecido ir-se a Jerusalem, onde propôs servir a Deus, e para o cometer e fazer sem dos seus ser sentido, custumou por alguns dias ir só em romaria ante manhã junto com Aynafrol, e assi tambem retraido escrevia de sua mão algumas cousas, que logo metia em um cofre de que trazia a chave, dando a entender que por se haver de meter no mar em tempo de inverno fazia ou reformava seu testamento.
E em fim um dia ante manhã, vinte e quatro dias de Setembro de mil e quatrocentos e setenta e sete, El-Rei cavalgou como sohia, e levou comsigo a cavallo Soeiro Vaz e Pedro Pessoa, ambos seus moços da camara, e a elle aceptos, e dois moços d'esporas. E mandou a Estevão Martins seu capellão, que o fosse aguardar á estrada de hi meia jornada, onde logo com elle se ajuntou. E d'hi fez tornar a Aynafrol um dos moços d'esporas a que deu a chave do cofre que leixava, com mandado que o abrissem, como abriram, em que leixava uma carta para El-Rei de França com remoques dissimulados reportados á sua desaventura, em que tambem lhe dava conta do fundamento que tivera para sua partida, que era servir a Deus; porque assi lhe fizera voto de o fazer depois da morte da Rainha sua mulher, sendo o Principe seu filho em idade para reger seus reinos como era, pedindo-lhe amparo, favor, e ajuda para os seus que em seus reinos ficavam. E outra carta para o Principe seu filho, em que lhe dava uma triste conta da sua viagem, encomendando-lhe e mandando-lhe por sua benção que logo se alevantasse e intitulasse por Rei. E outra d'esta sustancia para todolos do reino, que como a proprio e verdadeiro Rei obedecessem ao Principe. E outra para os seus que alli leixara, que estivessem á obediencia e ordenança do conde de Farão, com que todos foram tão tristes, e fizeram tão dorosos prantos como a razão ensina, que em terras tão estranhas e em tanto desamparo, e a Rei tão amado devia ser.
E as cartas escriptas e ordenadas para Portugal, enviou logo ao Principe Antão de Faria, seu camareiro, que a esse tempo hi se acertou, e era lá ido com visitação e outras cousas entre o pae e o filho secretas, e por este apressado aviamento que ás cartas se deu, o Principe solenisou logo seu alevantamento em Santarem no alpendere de S. Francisco, a dez dias de Novembro de mil e quatrocentos e setenta e sete. O que não foi sem muitas lagrimas e grande tristeza sua e de quantos hi eram.
E ante que o moço d'esporas d'El-Rei chegasse com a chave, já os portugueses vendo sua desacostumada tardança eram por ella em desesperado pensamento. Nem o foi menos o monseur de Lebret, que com El-Rei para melhor ser aviado e servido sempre andava, acusando com irosas e graves reprensões a negligencia dos portugueses, por leixarem ir El-Rei assi só e de noite em terras alheias, nem elle se escusava de muita magoa por não dar d'elle melhor conta.
E porém por todolos caminhos e por toda a terra com gente de pé e de cavallo fez e mandou com muita trigança infindos avisos, dando voz que El-Rei de Portugal que lhe fôra encomendado era fugido contra prazer e serviço d'El-Rei de França. Pelo qual todolos franceses ouvida esta fama, leixadas todas suas cousas seguiram ávante pelos caminhos de Roma, em que não podiam errar; porque de uma parte corria o rio de Ruão, que não podia passar, e da outra era o mar. Os quaes troteiros tanto que d'El-Rei acharam nova, logo de uns em outros correram e seguiram com tão apressurada diligencia, que a dois dias foram em continente com elle, que de noite estava já aposentado em uma villagem, e jazia já, onde na pousada e camara entrou com elle um gentil homem francês, e porque os portugueses negaram El-Rei, conveio a elle por ser fóra da duvida acorda-lo e reconhece-lo; porque El-Rei por dissimulação d'aquelle apartamento, por não ser por caminhos em alguma differença conhecido, não comia nem dormia apartado, mas com todos familiarmente, e tanto que El-Rei foi conhecido, o francês com muito acatamento lhe pedio perdão pelo espertar, dando a culpa aos seus pelo encubrirem, e lhe não dizerem a verdade. E leixando-o na cama se sahio, e da parte d'El-Rei de França fez logo ajuntar todo o lugar, por que mui sem rumor em toda a noite foi guardado e velado, d'onde ainda que quizera já não podera sahir. E logo n'aquella noite a gram pressa este gentil homem fez messegeiros, uns a El-Rei de França, que por acertamento não era de hi longe, e outros a Aynafrol aos portugueses e a Monseor de Lebret, detendo El-Rei na mesma casa em que o achára, e fazendo-o mui bem servir.
O conde de Penamacôr com tanta sua magoa, como foi a culpa d'este caso por ser a isso mais obrigado por ser seu camareiro mór, era já em caminho em busca d'El-Rei, com determinação de nunca sem elle tornar a Portugal, e pelo aviso que houve de ser já achado, foi logo com elle, e porque o achou forte para sua tornada, avisou logo e enviou chamar o conde de Farão, e D. Alvaro seu irmão e outros senhores aceptos, que logo não com menos pressa que alegria o foram vêr, e d'elles e de uma carta consolatoria que hi veio d'El-Rei de França, se leixou vencer para tornar e desistir de seu proposito.