CAPITULO CLI
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De como o Senhor D. Pedro, filho do Infante D. Pedro, se foi de Ceuta para Barcellona, e se intitulou Rei d'Aragão
E porque n'este tempo e da cidade de Ceuta se foi para Barcellona o Senhor D. Pedro, filho maior do Infante D. Pedro, que na mesma cidade acabou intitulado Rei d'Aragão, o fundamento e causa que para isso houve foi n'esta maneira.
Por morte d'El-Rei D. Affonso, Rei d'Aragão e de Napoles, não ficou filho algum legitimo que o herdasse, e sómente lhe ficou um filho bastardo, D. Fernando, que depois da morte d'El-Rei seu padre, por favores e grandes riquezas que lhe leixou, herdou e teve o reino de Napoles; era irmão d'El-Rei D. Affonso, D. João Rei de Navarra, que herdara este reino por razão da filha d'El-Rei D. Carlos com que casou, de que houve uma filha, que foi casada com El-Rei D. Anrique de Castella, de que não devidamente se quitou, quando casou com a Rainda D. Joanna de Portugal, como atraz fica, e houve tambem um filho que se chamou o Principe D. Carlos, e sendo ainda Rei da Navarra viuvou, e por haver liança para suas contendas, que em Castella e Aragão tinha, casou com uma filha do almirante de Castella, de que tendo já filhos sobcedeu por morte do dito Rei D. Affonso seu irmão os reinos d'Aragão e de Cicilia, e o Principe D. Carlos seu filho, dizem que por mau trato da madrasta, lhe pediu que lhe leixasse o reino de Navarra para o reger, pois a elle
in solidum
por contracto pertencia, e porque o pae não disistia d'elle andavam ambos em grandes desvairos, até que o dito Principe falleceu, a tempo que seu casamento era concordado com a Infante D. Catarina de Portugal, como atraz fica, e de sua morte que foi julgada por artificial, se deu muita culpa e causa á Rainha sua madrasta, poendo-lhe que o mandara sem tempo matar, por tal que os reinos de seu marido livremente ficassem, como ficaram a D. Fernando filho d'ella, que depois foi Rei de Castella e d'Aragão, de que os povos foram mui tristes e anojados; porque D. Carlos era Principe de muitas virtudes, e lhes dava esperança de ser bom Rei, pelo qual a cidade de Barcellona, com todo o principado de Catelonha alevantaram a obdiencia a El-Rei D. João, e a deram a El-Rei de França, que os deffendeu um tempo, até que se concertou com El-Rei D. João, que pelo não guerrear lhe leixou o condado de Roselhão pacifico, em que entrou Perpinhão, e anojados d'isso os de Barcelona tomaram por Senhor El-Rei D. Anrique de Castella, que com perda d'Aragão tambem todos se concertaram.
E El-Rei D. Anrique mandou sair de Barcelona a gente d'armas, que em sua defesa tinha, e sobre esta concordia dos Reis foram as grandes e famosas vistas de Fonte Rabia, a que Lopo d'Almeida e o doutor João Fernandez da Silveira, que depois foi barão d'Alvito, foram em favor d'El-Rei D. Anrique enviados por El-Rei D. Affonso.
E porém os regedores de Barcellona buscando já por caminhos desesperados alguma esperança de sua salvação, trataram secretamente com o dito Senhor D. Pedro, que como só e principal herdeiro que era da casa d'Urgel, e assi a quem pertenciam de direito os reinos d'Aragão quizesse intitular-se d'elles, e assi receber logo em seu senhorio e poder o principado de Catelonha com a cidade de Barcellona com cujo poder e forças, se o coração e saber lhe não fallecesse, cobraria o mais que El Rei D. João tiranamente possuia. Sobre o qual D. Pedro, em segredo se aconselhou logo com seu confessor, que quanto a Deus e ao mundo lhe fallou e aconselhou o que devia. E assi fallou sobre o caso com alguns fidalgos e cavalleiros prudentes de que se fiava, de que foi aconselhado, pospostos muitos pejos que D. Pedro apontou, que não sómente devia desejar e d'aceitar cousa tamanha e tão honrada que assi livremente lh'offereciam, mas ainda que a devia trabalhar e requerer, e com ella antes morrer, que viver nos desfavores e desprezos e mingoas em que vivia. Com as quaes cousas movido o dito D. Pedro, determinou aceitar a dita empresa, e por seus assinados e sellos assi o certificou e segurou á dita cidade.
E este negocio sempre andou secreto até esta ida d'El-Rei a Ceuta, onde sobre concerto vieram armadas duas gallés de Barcellona, com mostrança que vinham a seu trafego d'armada.
D. Pedro fôra com o Infante na dita entrada que disse, e quando tornou a Ceuta achou hi as galés, de cujos patrões e regedores que n'ellas vinham, foi de sua tenção certificado, que era logo o levarem, e depois de D. Pedro pedir a El-Rei, que perante o Infante seu irmão, e o conde de Villa Real, e Paio Rodriguez, Contador Mór de Lisboa o quizesse ouvir, elle com palavras de muita obediencia e autoridade disse a El-Rei todo o movimento passado, e que a este fim eram vindas aquellas galés, pedindo-lhe para isso licença, allegando-lhe muitas razões porque o devia fazer, ao menos por fazer Rei um seu vassallo, que como sua feitura o havia sempre de servir e lhe obedecer.
E leixadas muitas alterações que sobre isso houveram, El-Rei por então não se pôde escusar, e lhe outorgou a dita licença; e porque o conde de Villa Real tinha grande afeição pela muita honra mercê, que o Infante D. Pedro em regendo sempre lhe fizera, offereceu e deu logo ao dito Senhor D. Pedro, prata e bons corregimentos de casa, e depois lhe enviou cavallos e gente d'armas, o que outro algum do reino não fez. E porém começou El-Rei de dilatar a D. Pedro o tempo da dita licença, com fundamento de se querer ainda d'elle servir n'aquella vinda a que viera de gentes e armas mui bem corregido, de que D. Pedro tomava grande paixão, especialmente porque El-Rei aparelhava vêr-se com El-Rei D. Anrique, de que receava que sua ida em Aragão sendo revellada receberia total embargo, e com elle manifesta queda de tamanha honra como parecia que se lhe aparelhava.
E uma noite querendo D. Pedro fallar a El-Rei sobre sua partida, presumindo El-Rei a causa porque seria, se escusou de o ouvir remettendo-o para o outro dia; pelo qual D. Pedro logo aquella noite, porque os patrões já mais não queriam esperar, se metteu nas galés e se foi com elles, e a El-Rei leixou por escripto a causa porque assi se partira, e a leal tenção que levava para sempre o servir. Mas n'esta prosperidade D. Pedro durou pouco; porque em breve acabou com peçonha sua vida dentro em Barcelona, onde na Igreja maior jaz sepultado.