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Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III)

CAPITULO CXLIV

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De como falleceu o Infante D. Anrique, e de seus feitos, bondades, e virtudes

E no mez de Novembro d'este anno falleceu em Sagres o Infante D. Anrique com sinaes e cumprimento de fiel christão, em edade de cincoenta e sete annos, cujo corpo foi logo soterrado na egreja da villa de Lagos.

E de hi no anno que vinha de mil e quatrocentos e sessenta e um, foram seus ossos levados ao mosteiro da Batalha por o Infante D. Fernando, que tinha adotado por filho, que foi por elles e os trouxe com grande honra e muita cerimonia ao dito mosteiro, onde El-Rei acompanhado de toda a nobre gente de Portugal e muitos prelados sahiu aos receber com solemne procissão, e lhe fizeram honradas exequias.

O Infante D. Anrique foi em tudo Principe tão perfeito, que não é razão que alguma de suas muitas e louvadas virtudes se especifiquem; porque seria mingoar nas outras todas, que d'elle como de uma fonte clara e perenal todas nasceram. Porém a que pareceu que em seus dias sobre todas abraçou, foi inteira obediencia e firme lealdade a El-Rei, e em seu coração houve sempre fervente amor e continua devoção para Deus, e uma singular humanidade e nobreza para os homens, e um vivo esforço nunca vencido com que em sua vida como magnanimo Principe e esforçado cavalleiro sempre emprehendeu arduas e mui excellentes empresas, especialmente contra inimigos da fé, por seu marivilhoso engenho e muita prudencia e grandeza de coração, e com innumeraveis gastos de suas rendas e fazenda, não receando infindos trabalhos, mortes, e perigos de seus criados e servidores, que muitas vezes via morrer e padecer, depois da tomada e descercos de Ceuta em que foi, mandou primeiramente navegar e descobrir pelo mar Occeano, onde se acharam logo e povoraram as ricas e fertiles ilhas da Madeira, que foram as primeiras que no mar Occeano estes reinos tiveram, e assi d'hi em diante outras muitas de que elles e a christandade toda muito bem e proveito recebem.

E assi o dito Infante como aconselhado e esforçado, já por divina inspiração movido a isso, com respeitos de magnanimo Principe e mui catolico christão, e como mui leal vassallo dos Reis e da corôa de Portugal, desejoso do acrescentamento, gloria, e louvor d'elles, suspirando pela santa, honrada e proveitosa conquista de Guiné, mandou logo pedir e suplicar ao Papa Martinho quinto, na Egreja de Roma presidente, que em nome de Deus cujo poder tinha, concedesse e fizesse á dita corôa e herdeiros d'ella para sempre, como com acordo e approvação do Sagrado Collegio dos Cardeaes fez e concedeu solemne e perpetua doação, e lhe deu o senhorio proprio de todo o que na costa do dito mar Occeano, nos mares a ella ajacentes dos marcos e cabos de Nam e do Bojador contra o meio dia e oriente por elles e por seus sobcessores, e por suas gentes pelos tempos em diante se achasse e descobrisse até os Indios inclusivamente. A qual doação e concessão do dito Papa Martinho depois o Papa Eugenio, e o Papa Nicoláo, e o Papa Sixto á suplicação d'El-Rei D. Affonso, e d'El-Rei D. João seu filho confirmaram e aprovaram com sua graça e poder, com muitas graças e benções e liberdades aos Reis de Portugal presentes e futuros que a proseguissem, e com grandes excumunhões, graves censuras e maldições a todolos christãos que em qualquer maneira, sem prazer e consentimento dos ditos Reis de Portugal contra ellas fossem, como nas Bulas Apostollicas que se d'isso concederam mais perfeita e cumpridamente se contém, as quaes sendo um divino favor e verdadeiro e ligitimo titulo para se a dita navegação, descobrimento e conquista navegar e proseguir o dito Infante logo primeiramente com o santo e virtuoso principio de tão aventurado fim a emprendeu e proseguiu.

E com espantosos principios e meios de que era prasmado e nunca foi vencido em sua vida, mandou adiante descobrir e tratar até a Serra Liôa com muito proveito do reino. E depois de sua morte em tempo d'El-Rei D. Affonso o quinto seu sobrinho, além do descobrimento do Infante se descobriu a mina do ouro, em que agora é a cidade de S. Jorge, que El-Rei D. João o segundo mandou novamente edificar, e assi se descobriu mais por El-Rei D. Affonso até o Cabo de Santa Caterina, e depois de seu fallecimento, como El-Rei D. João o segundo seu filho o sobcedeu, d'alli mandou por annos descobrir até dobrarem o Cabo de Boa Esperança, e seus descobridores chegaram até o Rio do Infante, e d'alli sendo seu proposito não cessar até descobrir a India, por sua doença e morte, que se logo seguiu, cessou seu descobrimento.

E como depois o sobcedeu e reinou após elle El-Rei D. Manuel o primeiro, nosso Senhor, como Principe que em tudo quiz herdar a benção, reaes costumes e claras façanhas de Reis e Principes tão gloriosos seus antecessores, por seu mandado e com seus capitães, navios e gentes por este caminho se desccobriram, trataram e navegaram, com grandes perigos e muitas difficuldades, e innumeraveis despezas outras novas ilhas e terras, e sobre tudo a Arabia e a Persia, e a India com todalas especiarias, pedrarias, minas, riquezas, e thesouros orientaes que hoje possue e tem com muita segurança e prosperidade, fazendo-se pacifico Senhor de muitos Reis e senhores que sua paz e senhorio compraram com ricos e cotedianos tributos, como em sua chronica fará menção, de que a elle e á real corôa d'estes seus reinos de Portugal e aos herdeiros d'ella, e a seus vassalos e naturaes se acrescentou, e com a graça de Deus cada vez acrescentará mais bem, maior honra, gloria, e louvor, e ricos, honestos e mui grandes proveitos, com os quaes pois seu principal fim e intento é servir a Deus e divulgar e exalçar sua santa Fé sempre, por isso seu grande poder será muito mais poderoso, e não sómente a elles este bem e proveito será reservado, mas ainda de suas mãos e por seu meio a christandade toda será participante, com que a fé de nosso senhor será por isso mais conhecida, louvada, e exalçada, e as seitas, idolatrias e forças dos imigos d'ella de todo minguadas e mui quebrantadas, e esta esperança não está de todo em a esperarmos; porque com prosperos e desejados effeitos tem ácerca d'isto muitas vezes respondido, como em seus proprios tempos e lugares melhor se dirá, que sempre se atribuiram á honra, memoria, louvor e merecimentos d'este virtuoso Principe e Infante D. Anrique, como a causa e primeiro inventor de tanto bem.

Foi mais o Infante nas roupas de seu corpo mui honesto e muito mais nas palavras de sua bocca, e por maior sua perfeição foi em sua vida sempre casto, e segundo o que se creu, virgem o comeu a terra, que dá piedosa esperança de salvação de sua alma.

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