CAPITULO CLXXII
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De como os ossos do Infante D. Fernando foram a estes reinos trazidos de Fez
N'este
anno sendo ainda em Fez os ossos do Infante D. Fernando, que lá falleceu em um santo captiveiro como atrás fica, como quer que a El-Rei D. Affonso por resgate e redenção das mulheres e filho de Mollexeque, que foram captivas em Arzilla lhe fosse prometida uma grande somma d'ouro, elle como Rei bom e piedoso denegou sempre todo outro partido e interesse, salvo que por ellas lhe dessem os ossos do dito Infante, que a este tempo eram em poder de Molley Belfagege.
E leixando muitas embaixadas e recados que sobre este concerto de uma parte e da outra se passaram. Finalmente o dito Molley Belfagege enviou a El-Rei a propria ossada do dito Infante, bem reconhecida por tal por Molley Belfaca seu filho moço, e por Diogo de Bairros Adail Mór, que a elle por este caso fôra algumas vezes embaixador. Os quaes por mar chegaram com ella a Restello, e do navio foi tirada e trazida com grande manificencia á cidade de Lisboa, e entrou pela porta de Santa Catherina, onde com solemne procissão foi recebida, e alli pelo priol de S. Domingos Mestre Affonso se fez um sermão para o caso mui conveniente e devoto, em que houve palavras de tanta piedade e compaixão, que commoveram as gentes a muitas lagrimas como se foram Endoenças.
E d'alli foram os ossos postos no mosteiro do Salvador, e de hi levados ao mosteiro da Batalha, e postos com devidas exequias em sua ordenada sepultura, na capella d'El-Rei D. João seu padre, onde segundo alguma clara evidencia, Deos por merecimentos do dito Infante, e em signal de sua bemaventurança fez alguns milagres. E certamente com a restituição da ossada d'este bemaventurado Infante, por justas causas e mui claras razões recebeu todo o reino prazer e alegria sem conto, e El-Rei dos seus naturaes e estranhos não menos honra, gloria e louvor que das prosperas expunações de Arzila e Tangere.