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Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III)

CAPITULO CCIX

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De como se fizeram as entregas do Infante D. Affonso e da Infante D. Isabel nas terçarias de Moura

E feita a dita profissão, o Principe se partiu de Coimbra, e mui aforrado chegou a Beja onde era a Princesa sua mulher e o Infante D. Affonso seu filho, que ainda não era de cinco annos.

E porque no mesmo dia se cumpria o tempo em que o dito Infante havia de ser entregue em Moura em poder da Infante D. Briatiz como era sob grandes penas capitulado, na mesma hora que o Principe chegou, logo por prazer da Princesa o inviara mui honradamente a Moura. E não partiu d'ante elles com menos dôr e saudade que se lhes levara os corações d'ambos, e o arrancaram de sua propria carne, e não era sem causa; porque alem de ser só filho ainda, n'elle havia em tudo tantas e tão angelicas perfeições, que o privar de sua vista e conversação assi o merecia. Mas por cumprirem o que como bons e verdadeiros Principes deviam, posta a natural dôr que o contradizia, despensando com a privação do filho pela piedade do reino, permitiram que o primeiro caminho que seus mui tenros pés fizessem, fossem com risco de sua vida ir tirar a guerra e a morte dos reinos, porque então já esperavam.

E com tanta aflição do corpo e d'alma, não havia quem a estes Principes mais confortasse que a fé e verdade que a Deus e ao mundo sem cautella sempre mantiveram com grande cuidado; porque n'estas que eram suas proprias virtudes, para sua consolação e descanso ora buscavam ante elles rasões e confortos, com que lhe alimpavam as reaes lagrimas, que sua humanidade não podia escusar.

E como o Infante D. Affonso foi assi entregue, logo o Principe e a Infante D. Briatiz, por Rodrigo Affonso e por Ruy de Pina notificaram sua entrega, e a profissão da Senhora D. Joana á Infante D. Isabel e aos Senhores de Castella que a traziam e com ella estavam na villa da Fonte do Mestre, para ella vir e ser tambem entregue na dita terçaria, como era capitulado. E feita a dita notificação, logo D. Affonso de Cardenas, Mestre de Santiago, e D. Diogo Furtado de Mendonça, Bispo de Pallença, e D. Affonso d'Afonseca, Bispo de Avyla, e outros senhores que com ella eram se vieram a Freixinal.

E d'hi se emaderam mais e juntamente por embaixadores d'El-Rei e da Rainha de Castella, aos outros que foram a Coimbra, o Bispo de Coria D. João de Ortiga, e o licenceado d'Ilhescas, os quaes todos quatro sem a Infante se vieram diante a Moura, onde com o Infante D. Affonso e com a Infante D. Briatiz, eram já o duque de Vizeu D. Diogo, e o duque de Bragança D. Fernando, e o conde de Faram D. Affonso, e o senhor D. Alvaro, com outros senhores e fidalgos do reino, e por procuradores d'El-Rei e do Principe D. João de Mello, Bispo de Silves, e D. João da Silveira, barão d'Alvito, para todos concordarem e praticarem as menagens, seguridades e desnaturamentos, e cousas que para entrega e vinda da dita Infante D. Isabel cumpriam. Nas quaes por parte dos dois derradeiros embaixadores de Castella, contra a opinião e voto dos outros primeiros se moveram e apontaram de novo tantas duvidas e condições para dilatarem a entrega da dita Infante, com que foi necessario ir algumas vezes consulta ao Principe, que era em Beja; porque todo este negocio sobre elle pendia, o qual anojado de suas importunações e injustas delongas, finalmente enviou aos ditos embaixadores dois escriptos, com duas palavras feitas de sua mão, e em um dizia

Paz

, e no outro

Guerra

, e mandou que no Conselho onde os de um reino e do outro cada dia se juntavam fossem os ditos escriptos apresentados aos ditos embaixadores, e que logo em nome dos Reis seus Senhores escolhessem um d'elles, qual quizessem, e que se tomassem o da guerra, que mais seria d'ella contente por ser uma guerra, que de paz, que tantas guerras lhe dava. E que se quizessem o da paz, que d'elle tambem lhe prazia sem mais negociações das que já eram concordadas, e que para isso logo trouxessem e entregassem a Infante.

Os quaes dois escriptos do Principe, com sua determinação tão perantoria tiveram no Conselho tanta força, que os embaixadores todos sem mais altercações se conformaram e acordaram a entrega da dita Infante, que foi a onze dias do mez de Janeiro de mil e quatrocentos e oitenta e um, a que a Infante D. Briatiz com toda a frol e gentileza de Portugal que alli foi junta sahio, e a uma legoa de Moura junto com a quintã que dizem da Coroada, e no meio de um ribeiro que alli corre, das mãos dos ditos senhores e embaixadores de Castella recebeu a dita Infante D. Isabel. E entregou a elles o Senhor D. Manuel seu filho, que com a gente que á sua honra e estado cumpria, levaram á côrte dos Reis de Castella em lugar do duque D. Diogo seu irmão, que por contrato das terçarias houvera primeiro de ser entregue, mas por a este tempo o duque ser doente, ficou por então até ser são, mas verdadeiramente assi foi muita razão, e ainda pareceu quere-lo assi Deos, que o Senhor D. Manuel primeiro fosse arrefens e segurança da paz e assessego dos reinos de Portugal, pois elle por graça Divina primeiro os havia de sobceder com a mesma paz e assessego como sobcedeu, e ao diante se dirá.

E porém o duque foi depois a Castella, e o Senhor D. Manuel tornou a Portugal, como em seus tempos e lugares será declarado.

E porque a villa e fortaleza de Moura em que terçarias foram logo ordenadas, e em que o Principe á sua custa para os Infantes mandou fazer honrados aposentamentos, era nos verãos naturalmente muito doentia e perigosa, requereu o Principe a El-Rei e á Rainha de Castella e á Infante D. Briatiz, que para segurança das vidas e pessoas dos ditos Infantes, houvessem por bem as ditas terçarias pelas mesmas condições se mudarem á villa de Beja, que de seu sitio era sã e de bons ares.

E por algum consentimento, que com razão os ditos Senhores Reis e Infantes logo para isso deram, o Principe mandou fazer grandes percebimentos de pedraria e madeiras e officiaes, para no castello de Beja se fazerem outros aposentamentos. E elle e a Princesa se foram de Beja ter a Pascoa da Resurreição a Torres Novas, onde era El-Rei D. Affonso. Mas porque a Infante D. Briatiz por conselhos e induzimentos não verdadeiros, com que pareceu que foi enganada, mudou este proposito, e com todo o grande perigo de Moura quiz ficar no primeiro de se não mudar da dita villa, o Principe começou tomar d'ella alguns descontentamentos, pelos quaes logo desejou desfazer ou mudar as ditas terçarias em outra maneira.

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