CAPITULO CLV
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De como El-Rei em pessoa correu o campo d'Arzilla
Tornou-se
El-Rei a Ceuta, onde foi aconselhado que por quanto a boa fortuna n'esta jornada d'Africa então lhe não terçava á sua vontade, consirada isso mesmo a perda da gente com outros inconvenientes assaz efficazes, que sem mais fazer nem commetter outra cousa se devia de tornar ao reino, e dar a seus vassallos algum pão de paz e descanso. E porém El-Rei sem embargo de todo determinou correr primeiro o campo d'Arzila, e vê-la, com desejo de a tomar, o que logo pôs em obra; porque partiu logo para Alcacere, e de hi com o Infante passou a serra pelo porto d'Alfeixe, e em amanhecendo deram em umas aldeias, que com o aviso e mêdo da ida d'El-Rei eram já despovoradas, e porém correram legoa e meia por outras partes, e n'aquellas principalmente que o Infante D. Fernando barrejou mataram alguns mouros e captivaram muitos, e arrancaram muito gado e outro despojo, com que já de noite passaram o rio de Tagadarte, e junto com elle da banda d'Alcacere se alojaram aquella noite. Na qual sobrevieram tantas chuvas, e tão aspera tempestade com que a ribeira encheu de maneira, que se a não tiveram passada e ficando alem d'ella, se dispunham a mui certo perigo; porque a infinda gente dos mouros que logo cresceu deu d'isso ao diante claro testemunho.
E por esta causa não pôde El-Rei vêr Arzilla, de que recebeu então gram desprazer, e muito mais depois que soube que os mouros da villa indo elle sobre ella tinham determinado dar-lh'a, e virem ao caminho entregar-lhe as chaves, e tornou-se a Ceuta onde os cavallos e a gente por mau trato, e por aspereza dos tempos lhe falleciam. E por isso logo começou de declarar sua vinda e despedir a gente; e porém El-Rei não era satifeito; porque em todo o tempo d'esta passagem se não vira em alguma travada peleja de mouros, como elle desejava.