CAPITULO CLVI
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De como El-Rei D. Affonso foi correr a serra de Benafocú, e como foi em grande perigo, e como mataram os mouros o conde D. Duarte, e a Diogo da Silveira, escrivão da poridade
Estando
El-Rei com este descontentamento, que de seu animo grande e esforçado procedia, vieram por caso a Ceuta quatro mouros, que o metteram em grande alvoroço de grande cavalgada e boa escaramuça, que lhe dariam na serra de Benacofú, onde havia a mais guerreira gente d'Africa. E El-Rei com um natural desejo que para isso tinha, e com outra sêde já de vingança, fallou com Lourenço de Caceres, adail, que foi vêr, e lhe disse o caminho que para aquelle podia levar.
Era em Ceuta o conde D. Duarte, e como quer que alli viera aforrado sem cavallos, armas, nem gente para sómente despachar com elles seus negocios, El-Rei mandou que fosse com elle, ao que obedeceu, e porém com carregume e tristeza de sua morte, que a alma lhe adivinhava, e logo publicamente o disse, que aquelle dia seria sua fim, especialmente porque um Frei Luiz, D. Abbade do Mosteiro da Cerzeda, homem estrangeiro, e de juizos d'astrologo mui certo lhe disse que havia de morrer sob alheia capitania.
Partiu El-Rei com oitocentos de cavallo, e pouca gente de pé, e foi-se alojar junto com o castello d'Almunhacar, onde repousou o outro dia quasi todo, e o Infante D. Fernando seu irmão era já partido para Portugal, e porém com El-Rei eram capitães e pessoas principaes o duque de Bragança, o conde de Guimarães, e D. Affonso que depois foi conde de Faram, seus filhos, e o conde de Villa Real, D. Affonso de Vasconcellos, que foi depois conde de Penella, e o conde de Monsanto, e o conde de Vianna, e D. Anrique seu filho, e outros muitos fidalgos e cavalleiros e nobres homens com que partiu e entrou de noite na serra, que em todo para os de pé era mui aspera e fragosa, quanto mais para cavallos tão trabalhados, e como foi manhã repartiram-se as gentes em capitanias, e á ventura começaram de correr a terra, e os mouros que por almenaras eram já d'esta entrada avisados, uns embrenhavam suas mulheres e filhos nas mattas e serras que ali ha mui fortes e com grande espessura, e outros com muita braveza e esforço vinham travar escaramuças e pelejas, que por uns e por outros houve em muitas partes mui bem pelejadas, em que dos mouros entre mortos e feridos houve gram numero, e não sem muito dano dos christãos, de que muitos em offender mouros e defender e salvar christãos fizeram feitos mui assignados.
El-Rei andou pelo espigão da serra; porque a encavalgou por um de dois espinhaços que ella faz, e sahiu por outro, e foi ter a uma grande aldeia cabeceira das outras, onde comeu e repousou um pouco. E então mandou a Lopo d'Almeida e ao adail, que com a gente necessaria levassem a cavalgada ao pé da serra onde o esperassem, e d'ali abalou El Rei com mais vagar do que o tempo e a terra requeriam, e de um cabeço em que se pôs, mandou aos espingardeiros e besteiros e gente de pé, que por mór despejo se fossem diante caminho de Tutuam, onde aquella noite havia de repousar, e depois de passado um grande espaço ainda com passos vagarosos seguiu sua viagem, e após elle sem muito alvoroço vinham alguns mouros de cavallo, e sobresendo El-Rei disse: «Parece-me que estes mouros na maneira em que vem mais quererão paz que peleja», com os quaes esteve á falla, querendo d'elles saber se queriam ser seus como os outros, a que os mouros pediram horas d'acordo e consulta com outros seus visinhos, que em grande somma eram postos em um cabeço que El-Rei já leixara; e porque a resposta tardava El-Rei abalou, e com seu estandarte diante sobiu com os de cavallo a um cerro alto e de pedras e barrocas mui fragoso; era na reguarda d'elle o conde de Villa Real e bem detraz, e o conde de Guimarães pediu a El-Rei que por quanto o conde seu cunhado ficava em grande perigo o mandasse com espingardeiros e besteiros soccorrer, para que já se não acharam, e El-Rei lhe mandou dizer que logo sem mais esperar se recolhesse a elle; mas o conde como era esforçado e singular capitão, e nas manhas dos mouros assaz avisado, mandou dizer a El-Rei que lhe despejasse o porto e se fosse embora; porque elle por seu serviço se recolheria com sua honra e com dano dos mouros.
E certamente como quer que o conde de Villa Real por sua bondade d'armas outras vezes mereceu e ganhou grande honra e muito louvor, n'este dia em especial o acrescentou muito mais; porque álém de se recolher como cumpria a um singular capitão, indo como ardido cavalleiro, os imigos nas voltas e esperadas que n'elles muitas vezes fez receberam muitas mortes e damnos.
Estando El-Rei n'aquelle teso, a sua gente cada vez lhe mingoava mais, e a dos mouros crescia contra elle em maior avantagem, e em vozes altas e iradas disseram contra os christãos:
«Dizei a vosso Rei que não queremos com elle paz se não crua guerra, e que saiba por estas barbas e cabeças que tocamos, que hoje é o dia da nossa vingança»
E em se El-Rei decendo da serra carregaram os mouros logo sobr'elle, e das ilhargas feriam mui mal os cavallos, a que El-Rei com quatrocentos de cavallo que com elle seriam, fez com muita destreza tres voltas curtas, em que além d'outros feriu e matou per si um mouro com muito despejo e ardideza, e porque o perigo sobre El-Rei recrecia cada vez maior, alguma gente sua esquecida da lealdade e defendimento que lhe deviam, lembrando-se mais de sua propria salvação começavam de o desamparar, e náo aproveitavam brados nem vozes, por bem que se n'elles altamente afiasse a desleal vergonha com que em tal tempo leixavam seu Rei com sua bandeira.
E vendo-se já El-Rei mui afrontado, sendo estreitamente aconselhado que ao menos das serras se salvasse para o campo, chamou o conde D. Duarte e disse-lhe:
«Conde, ficai com estes mouros, porque lhe conheceis melhor as manhas, e acaudellai esta minha gente.»
E o conde lhe respondeu:
«Senhor, eu não quizera que em tal tempo me dereis este cuidado, especialmente porque não tenho aqui minha gente que me conhece, cá pois estes que são presentes e vossos, não obedecem a vosso mandado, menos cumprirão o meu, porém pois que o assi haveis por vosso serviço, hei por muito bem empregado a mi mesmo em qualquer trabalho e perigo que me acontecer, até morte.»
E o conde não era em suas palavras enganado, por que como El-Rei moveu, assi o fizeram todos após elle, sem o conde poder aproveitar em nada, antes seu cavallo logo lhe foi morto, e elle ferido, sobre que acudiu o conde de Monsanto seu cunhado, trabalhando de o poer em outro cavallo, em que se acertaram os loros tão compridos, que o conde com a perna direita nunca pôde vingar a sella, antes com a espora feriu o cavallo nas ancas, que aos couces o lançou logo no chão.
O conde D. Duarte não vendo já esperança de sua vida, pediu ao conde de Monsanto que salvasse a sua e o leixasse. E porém os mouros carregaram sobre elle e leixaram alli seu corpo sem vida, e não sem primeiro sentirem muita vingança de sua morte, sendo já primeiro junto com elle morto um Nuno Martins de Villa-Lobos seu criado, que como bom recebeu aquella morte por lhe querer soccorrer com seu cavallo de que se deceu.
E El-Rei com assaz afronta se recolheu por uma lomba a fundo, onde seu estandarte nas mãos de Duarte d'Almeida, alferes, foi dos mouros muitas vezes abatido, e fôra tomado se o esforçado acordo do alferes e valentia de Ruy de Sousa o não salvaram.
Foram alli mortos Diogo da Silveira, escrivão da poridade, e Fernão de Sousa, alcaide de Guimarães, e Luis Mendes de Vasconcellos, e Pero Gonçalves, secretairo, e outros que acabaram como bons e leaes cavalleiros.
Deceu El-Rei ao pé do monte ainda dos mouros bem perseguido, e quizera fazer sobr'elles uma volta, para com elles em pelleja esprementar sua fortuna, mas por força de nobres homens que hi eram, vendo a disposição de tamanho perigo, o tiraram e passaram além de um rio, onde chegou a elle o conde de Villa Real que sempre ficara de tras, que seu braço e acordo escusou muito dano a El-Rei, que em publico lhe disse: «Conde a fé ficou hoje toda em vós», e de hi contra vontade de muitos, El-Rei se foi aquella noite alojar a Tutuam, e ao outro dia partiu para Ceuta. E no caminho fez vir ante si D. Anrique de Menezes, filho do conde D. Duarte, e o confortou com louvores da honrada morte de seu pae, e com esperança de grande acrecentamento, que por seus serviços e merecimentos lhe faria como fez, porque alli o fez conde, e lhe deu todalas mercês que seu pae tinha. Verdade é que lhe tirou Vianna de Caminha, e lhe deu depois Vallença com o titulo de conde d'ella, e depois o de Loulé.