CAPITULO CXCI
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De como romperam as batalhas, e as do Principe venceram as d'El-Rei D. Fernando, e a d'El-Rei D. Fernando venceu a d'El-Rei D. Affonso, que se recolheu a Crasto Nunho, e do mais que se seguiu até fim da batalha
E postas e ordenadas com espantosa vista as azes de uma parte e da outra para encontrar, sendo já casi sol posto, El-Rei mandou dizer ao Principe que com sua benção rompesse logo, o qual por lhe obedecer e cumprir o que tanto desejava, depois de em ambas as batalhas se fazer pelas trombetas sinal de batalha, elle e assi seus capitães com singular destreza e maravilhoso esforço, deram assi rijamente nas batalhas contrairas, que nem podendo ellas soffrer nem resistir tanta força, logo uma após outra foram desbaratadas e postas em fugida.
E para aquella hora ante da peleja deu o Principe á sua gente por apellido S. Jorge e S. Christovão, S. Jorge por padroeiro de Portugal, e S. Christovão por devoção de Jorge Corrêa, commendador do Pinheiro, que na mesma hora lh'o lembrou; era alferes do Principe que levava sua bandeira Lourenço de Faria, homem fidalgo, que n'este dia e em todolos outros por sua obediencia e esforço o fez como bom cavalleiro, e o Principe por tal o reconheceu sempre.
E assi como as batalhas do Principe no desbarato fizeram a estas d'El-Rei D. Fernando, assi a batalha grande d'El-Rei D. Fernando fez na d'El-Rei D. Affonso, que sem alguma força nem resistencia a rompeu logo, e destroçou com damno e mortes de muitos, e não foi sem causa ser assi, porque na batalha do Principe era a frol dos fidalgos e nobre gente de Portugal, que falleceram n'esta d'El-Rei D. Affonso, e mais na batalha d'El-Rei D. Fernando vinha muita e mui grossa gente d'armas encubertados, além dos ginetes, e mais lançaram diante de si uma gram soma d'espingardeiros, que ao romper fizeram com seus tiros fronteiros duvidar e enfiar os cavallos e a gente da batalha d'El-Rei D. Affonso. Na qual sendo elle com sua bandeira dos dianteiros, acharam-se com elle ao tempo do encontrar mui poucos, entre os quaes eram D. Gomez de Miranda, Prior de S. Marco em Castella, e Bispo que depois foi de Lamego em Portugal. E por tanto vendo-se em alguma maneira da victoria desesperado, conveio-lhe volver e procurar por sua salvação, parecendo-lhe que pois a sua batalha onde a mais força estava fôra desbaratada, que a do Principe seu filho em que havia menos gente e de que não havia vista nem recado, tambem seria perdida. Pelo qual havendo já suas cousas por chegadas ao derradeiro estremo de desaventura, vendo já diante entre si e a ponte de Touro muita gente contraira, crendo que sem ser morto ou preso se não podia já á dita ponte recolher, foi aconselhado por Pedralvares de Souto-Maior, conde de Caminha, e por João de Porras, e por outros poucos que o sempre acompanharam, que por aquella noite se acolhesse á fortaleza de Crasto Nunho, que estava por elle, e assi o fez.
O Principe aquelle dia e hora não menos avisado que bem afortunado capitão, como se viu com sua gente em segura e perfeita victoria, por se lhe não seguir do longo encalço algum perigoso revés, logo a mais que pôde recolheu para a sua bandeira. E porém alguns seus e pessoas principaes esquentados e favorecidos do prospero vencimento que seguiam, por não terem no seguimento o resguardo que deviam, no cabo do encalço tornaram a ser mortos e presos, porque os castelhanos das batalhas destroçados que fugiam, refizeram-se com uma batalha de El-Rei D. Fernando, que acerca de uma legoa na reçaga estava, com que achando-se muito mais fizeram sobre os portuguezes volta, os quaes sendo já atalhados e cingidos da outra batalha grande, que desbaratara a El-Rei D. Affonso, não se poderam salvar.
E porém o Principe depois do desbarato que fez, alli onde acabou de recolher sua gente, esteve no campo em um corpo çarrado sem nunca mover atrás sua bandeira, a que muitos da batalha vencida d'El-Rei D. Affonso por seu bem e salvação se recolheram, com os quaes, e com outros que fóra do tempo necessario sobrevieram de Touro, refez uma grossa batalha, com que aquella noite ficou pacifico senhor do campo. No qual algum dos Reis, cuja era a querela e esperança de vencer, não aturou nem esteve; porque como disse tambem El-Rei D. Fernando não foi em pessoa propria na sua batalha, que venceu a El-Rei D. Affonso, mas como era pratico guerreiro, por vêr como as cousas de tamanha ventura sobcediam, apartou-se fóra em uma batalha, e quando logo vio vencidas e desbaratadas suas tamanhas e primeiras batalhas, pelas batalhas do Principe que eram menos em gente, crendo que assi o seriam as outras suas pelas d'El-Rei D. Affonso, foi aconselhado que se recolhesse como recolheo, e se foi a Çamora. Pelo qual sua gente achando-se no campo sem Rei, nem certo capitão que a regesse, com temor da batalha do Principe que viam refeita, não sendo bem certificados do destroço d'El-Rei D. Affonso, se refizeram tambem junto com ella em uma outra batalha de que uns e outros não se viam tanto como ouviam; porque a este tempo a noite era já casi çarrada, e todo o mal que de uma parte e da outra se fazia era sómente de gritas e tocar de trombetas e atabales que nunca cessavam.
Alli D. Vasco Coutinho, que depois foi conde de Borba, prendeu D. Anrique, conde d'Alva de Liste, que vinha de contra Touro reconhecer a batalha do Principe, não sabendo pela noite cuja era.
E alli um escudeiro que se dizia Gonçallo Pires, criado de Gonçalo Vaz Pinto, trouxe ao Principe a bandeira real d'El-Rei D. Affonso, que por força e como homem de bom coração a tomou a um Souto-Mayor, castelhano, que a levava, e o prendeu sobre sua menagem, a qual não foi aquelle dia tomada das mãos de Duarte d'Almeida, alferes pequeno, até que lh'as primeiro não deceparam com outras infindas feridas, que no rosto e em todo o corpo houve, de que escapou. E a tanto mal se estende o máo sobcedimento das cousas, que este alferes, a que tanta honra e riqueza após isto se devia, viveu depois aleijado e pobre, e não com galardão dino de tal serviço. Nem ao escudeiro da bandeira carregou muito a balança de sua satisfação; porque com a venturosa fidalguia e armas honradas, que por isso lhe deram, houve sómente cinco mil reis de tença, com que lhe foi forçado tomar a fouce e a enxada, por mais seguras e proveitosas armas do sustentamento de sua vida, com que sem mais bem nem favor, e com muita pobreza viveu e acabou.
E estando assi no campo juntas estas batalhas e ambas contrairas, a dos castelhanos por estar sem Rei e duvidosos de sua ventura, e por terem o recolhimento de Çamora mui longe, começaram entre si de ferver e se afiar mostrando claros sinaes de destroço se foram cometidos. E porém tomaram por conselho retraer-se e acolherem-se, sem cometer batalha nem peleja se lh'a não desse, e assi o fizeram, e sem algum recado e com muito desmando se acolheram a Çamora. Pelo qual achando-se o Principe só no campo, e sem receber em sua pessoa nem sua gente rota nem destroço, antes o tinha feito nos contrairos, houve-se por herdeiro e senhor da propria victoria.
E porque os Reis esperavam para mais claro conseguimento, sua determinação foi sobreser no campo, e não se partir d'elle tres dias. Mas o Arcebispo de Toledo que no mesmo campo era com elle, publicamente lhe disse que depois dos imigos partidos bem cumpria por os tres dias estar no campo tres horas continuas, a razão de hora por dia, por comparação que trouxe da Resurreição de nosso Senhor, que foi depois da morte tres dias não todos inteiros, mas porque tomou de tres dias tomando a parte por todo. E com este conselho que o Principe tomou do Arcebispo, como de pessoa tão principal, e no semelhante auto e cerimonias tão pratico e sabedor, depois d'estar no campo as tres horas e mais, sem parecer n'elle gente contraira, elle com repoiso e regrada ordenança abalou contra Touro. E ao entrar da ponte houve muita pressa; porque até sua chegada a entrada se çarrou a todos, e por sua ordenança entraram na cidade todos mui tristes e desconfortados, uns pelos filhos, parentes e amigos que não viam, nem sabiam se na batalha foram mortos ou feridos e presos, e todos pela dorosa privação d'El-Rei D. Affonso, que ali não viam, nem por então saberem d'elle novas.
O Principe pela incertidão de seu padre, crendo pois alli não parecia, que seria morto ou preso, foi sobre todos mais triste e anojado, e posto aquella noite em grande pensamento, e não menos o foi El-Rei onde estava, duvidando da vida e salvação do filho, de que a mór parte da desaventura não falleceu á Rainha que estava no castello, até o outro dia que o pae foi certificado da saude e prospera victoria do filho, e o filho da salvação e saude do pae acolhido em Crasto Nunho. Na qual fortaleza indo El-Rei tão só e desacorrido, o alcaide d'ella Pero de Mendanha, por nação fidalgo castelhano, e no amor e lealdade bom e verdadeiro português, o recolheu e lhe obedeceo com muita lealdade e firmeza, e em caso tão triste e tão averso para El-Rei, elle e sua mulher o agasalharam honradamente e confortaram com muito despejo, dando-lhe em suas fortunas por emxemplos d'outros mui grandes esperanças, até o outro dia, que com muita gente que o Principe mandou de Touro El-Rei tornou a elle seguramente.