CAPITULO CLXV
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De como a villa foi entrada, e o Principe foi armado cavalleiro, e morreram o conde de Marialva, e o conde de Monsanto e outros
E aos XXIV dias do dito mez, que era dia de S. Bertolameu, pela manhã, D. Alvaro de Castro, conde de Monsanto, a que a estancia e guarda do castello era encomendada, enviou dizer a El-Rei que estava em sua tenda, que o Alcaide da dita villa lhe queria ir falar sobre concerto, que era tal que o devia aceitar. E ante de El-Rei dar final resposta, tendo vontade de se concordar como aos mouros já escreveram e mandaram requerer, vieram logo vozes emtoados por todos que a villa se entrava. O que a vista propria d'El-Rei que a isso com muita trigança sahiu, fez mui certo e verdadeiro; porque como o rumor correu que a villa era entrada assi concorreu logo a gente do arraial aos muros, a que com muitas escadas e engenhos que para isso eram ordenados, sem alguma certa ordem de combate, logo com muita ardideza subiram e entraram á dita villa por todalas partes.
E os mouros vendo-se entrados e perseguidos dos christãos, pelejando bravamente uns se recolheram á misquita, e outros, os mais honrados ao castello. E com os da misquita ante de ser vencida, houve de uma parte e da outra mui crua e sangoenta peleja. Em que dos christãos entre outros morreu principal e como ardido e valente cavalleiro, D. João Coutinho, conde de Marialva, que com seu braço acompanhou primeiro seu corpo d'outros corpos vazios d'almas imigas, e não sem grande tristeza que El-Rei e o Principe e toda a côrte por sua morte tomaram, e não sem causa; porque era mancebo, e senhor de grande e honrada casa, e em que se vivera pareciam já virtuosos sinaes d'haver n'elle para o reino um singular homem para armas e conselho.
E acabada a peleja da misquita, logo a gente recorreu ao castello, que de todalas partes era mui forte e defensavel, cujo combate por esforço d'El-Rei e do Principe, que eram presentes, foi com tanta força e ardideza cometido, que logo antes de algumas escadas serem postas, os christãos por lanças e páos com muita desenvoltura sobiam ás torres e muros, de que os debaixo com uma louvada inveja de tanta honra, esquecidos de todo perigo cometiam seus corpos com armas pesadas a mui fracas toucas de linho, porque os allavam e subiam acima, onde nos muros e torres que dos christãos se entravam, e depois no patim do castello houve tão mortal peleja, como parecia claro nos muitos mortos e feridos que em todas partes jaziam.
Alli no castello álém d'outros nobres christãos que com ferro morreram, foi morto D. Alvaro de Castro, conde de Monsanto, camareiro-mór d'El-Rei, que sua morte muito sentio; porque certo elle no campo e na côrte, na paz e na guerra era por seu siso, discrissão e esforço, homem mui principal. E em fim assi foram os mouros da villa e do castello cometidos, que todos ficaram mortos e captivos sem alguma excepção, cujo numero segundo comum orçamento seriam dos mortos até dois mil, e dos captivos até cinco mil. E foi achado e tomado na villa mui grande e rico despojo, que foi estimado a oitenta mil dobras d'ouro. Do qual todo El-Rei fez aos tomadores escala franca, sem reservar para si quinto, nem outro direito algum.
Acharam-se dentro cincoenta captivos christãos, a que a santa victoria deu livre redenção. E
El-Rei
e o Principe, assi no entrar da villa, como no soccorrer e prover das muitas pelejas e afronta dos combates, não sómente por seu conselho e exforço usaram de oficios, que pareciam e eram de aprovados capitães; mas ainda por seus braços cometeram e acabaram feitos como ardidos e valentes cavalleiros, sem algum resguardo nem tento do que a suas pessoas e dinidades reaes se deviam, e certamente era grande gloria vêr aquelle dia na mão do Principe em idade de XVI annos sua espada de bravos golpes torcida, e de sangue de infieis em todo banhada, em cuja vista a mór parte da alegria era d'El-Rei seu padre, que n'aquella victoria e perigo o tomou por parceiro, vendo que em ajuda tão necessaria, e perigo tão conhecido não podera no mundo escolher melhor companheiro do que gerara por filho.
E porém como El-Rei sentiu que o feito com desejado vencimento era de todo acabado, foi logo á misquita dos mouros, onde sobre o corpo do conde de Marialva achou já uma cruz, a qual por começo do serviço e sacrificio, que a Deus n'ella ao diante se havia de fazer, logo beijou e adorou, e depois de fazer oração, logo junto com o corpo morto do dito conde, armou per si o Principe seu filho por cavaleiro, com palavras de grandes louvores, e muitas bondades e merecimentos do mesmo conde. E sendo ambos d'armas victoriosas vestidos, El-Rei no cabo de auto tão devoto e tão glorioso, disse ao Principe, e não sem algumas lagrimas:
―«Filho, Deus vos faça tão bom cavaleiro como este que aqui jaz.»
E porque o conde D. João não tinha filhos, e por sua tão honrada casa, por fallecimento de legitima sobcessão não ficar distinta ou minguada, El-Rei em galardão de sua morte, e por sua vida e memoria para sempre viva, fez conde de Marialva D. Francisco Coutinho seu irmão, que este titulo e mercê aos Reis de Portugal e seus reinos sempre bem servio e mereceo. E assi fez conde de Monsanto a D. João de Castro, filho do dito conde D. Alvaro. E edificou a dita misquita em casa de oração da avocação de Nossa Senhora, Santa Maria da Asumção; porque n'aquelle dia partio de Lisboa para tomar a villa, e em tal dia partio El-Rei D. João seu avô, quando tomou a cidade de Ceuta, e em tal venceu a batalha real, e em tal dia falleceu, e em tal dia nasceu.